6 Konklusjon
6.2 Forslag til videre forskning
Segundo Murad (2006, p. 21), “os textos no Novo Testamento sobre Maria foram escritos com os olhos centrados em Jesus”. Portanto, só podemos encontrá- la, nos Evangelhos, no contexto cristocêntrico. Marcos, o primeiro evangelista, fala de Maria colocando-a no meio dos familiares de Jesus (Mc 3,31-35/6,1-6). Já Mateus, apresenta-a como a mãe virginal do Senhor (Mt 1,18-23;2,11.13-14.20),
profundamente unida a seu Filho. Em Lucas, Maria é apresentada como perfeita discípula de Jesus, uma vez que ela ouve, com fé, a Palavra de Deus, guarda-a no coração e a põe em prática (Lc 1,26-38;2,19.51). No quarto evangelho, João apresenta Maria como uma figura especial. No casamento em Caná da Galiléia, ela aparece como a mãe atenta às necessidades dos filhos, pronta a buscar a solução naquele que pode oferecê-la (Jo 4) e, no Calvário, ela é apresentada como a mulher forte e corajosa que assiste de pé o martírio do filho (Jo 19).
De acordo ainda com o autor citado, os textos bíblicos norteiam a descoberta dos traços básicos de Maria. Auxiliam a manter a centralidade cristológica da experiência de Deus, pois Jesus é o autor e realizador de nossa fé (...). A reflexão sobre ela, no entanto, vai além dos dados bíblicos, ao incorporar a memória coletiva e seletiva da Tradição. (Murad, 2006, p. 91.92).
No dizer do mesmo autor, para a maioria dos exegetas é legítimo aceitar interpretações que extrapolem os dados bíblicos, uma vez que o sentido originário do texto não esgota o seu processo de interpretação e a produção de sentido continua com a história. É preciso, porém, que tais interpretações sejam analisadas com senso crítico.
Portanto, com base no texto bíblico, o povo realiza processos de interpretação da Palavra de Deus. Dentro dessa perspectiva, é que a figura de Maria vem sendo ampliada na comunidade eclesial. Os católicos a respeitam como rainha, amam-na como mãe e nela confiam. Expressam esse amor, por exemplo, pela oração do terço, a coroação de suas imagens no mês de maio, a romaria aos santuários a ela dedicados.
A mãe de Jesus tornou-se tão importante para os católicos que muitos a chamam de “Nossa Senhora”.
Quanto às aparições, no dizer de Murad (p. 151), não constituem uma nova revelação, mas são uma experiência mística vivida pelo vidente, na qual é recordada a única revelação de Deus em Jesus Cristo.
A Igreja Católica, porém, na sua sabedoria, apresenta critérios rígidos e objetivos que ajudam no discernimento das revelações particulares ou aparições, que serão mostradas no próximo capítulo.
Nestes dois primeiros capítulos, no intuito de desvendar as marcas constitutivas da linguagem construída na “interlocução” entre os chamados videntes e a Virgem Maria (não-reversibilidade, denegação, intertextualidade, emprego do imperativo e do vocativo, argumentatividade, estratégias de persuasão e heterogeneidade subjetiva), procuramos apresentar os postulados e conceitos propugnados pela Teoria da Enunciação e pela Análise do Discurso, linhas de abordagem adotadas neste trabalho.
Nesta trilha teórica, foi mencionada a proposta de Benveniste (1988, 1989) que advoga a incorporação do estudo da enunciação como parte fundamental dos estudos lingüísticos. Os trabalhos desse autor, embora amplamente questionados por sua centralização no eu, continuam importantes para as atuais pesquisas sobre a linguagem.
Foram também apresentados os pilares teóricos relativos à rede polifônica na constituição das instâncias enunciativas engendradoras da ação dialógica realizada na “vidência”, seguindo as esteiras principalmente de teóricos como Ducrot (1987), Brandão (1995, 1998) e Orlandi (1983, 1986, 1988 e 1996). Partilhando, em linhas gerais, do pensamento da última autora sobre o discurso religioso, especialmente o católico, objeto específico desse seu estudo, mostramos os princípios por ela abordados, princípios esses que, para a análise aqui proposta, representam um significante embasamento.
Por fim, já que o foco desta tese é a “interação” entre um ser temporal e a Mãe de Jesus, consideramos conveniente fechar essa abordagem teórica mostrando os traços da personagem celeste consignados nos Evangelhos e na Tradição da Igreja. Nesse aparato teórico, ressaltamos que é na Tradição que se inserem os estudos da vidência, no âmbito da Teologia Católica, especialmente aquelas constitutivas da tipologia selecionada para a composição de nosso “corpus”, ou seja, as relativas à Virgem Maria.
C A P Í T U L O 3
RELATO DAS PRINCIPAIS “APARIÇÕES” DA
VIRGEM MARIA E ANÁLISE DA POLIFONIA DO
3.1. Aparições da Virgem Maria: mito ou realidade?
De acordo com a Sagrada Escritura e a doutrina da Igreja, no Senhor Jesus, existem duas naturezas: a divina e a humana, mas uma única Pessoa – a do Verbo Encarnado, conforme esclarece a Carta aos Colossenses:
Ele é a imagem de Deus invisível, o primogênito de toda a criação. Nele foram criadas todas as coisas nos céus e na terra, as criaturas visíveis e as invisíveis(...). Pois nele habita corporalmente toda a plenitude da divindade (Cl 1, 15-16ª; 2, 9 – Bíblia Sagrada, p. 1508. 1509).
Essa unidade, chamada união hipostática, tem implicação na maternidade de Maria, pois sendo Mãe de uma Pessoa que é verdadeiro Deus e verdadeiro Homem, ela é, conseqüentemente, mãe do homem e também Mãe de Deus.
A maternidade divina é o mais alto privilégio concedido à Virgem Maria. Por ser constituída Mãe de Deus, ela ultrapassa em dignidade todas as outras criaturas, inclusive os próprios anjos, conforme declara a Lumen Gentium (2003, p. 118).
A Virgem Maria, que na anunciação do anjo recebeu o Verbo de Deus no seu coração e no seu corpo (...) é reconhecida Mãe de Deus e do Redentor (...). Com este dom de graça sem igual, ultrapassa de longe todas as criaturas celestes e terrestres.
Para investi-la de tal dignidade, segundo a doutrina da Igreja, Deus ornou a sua eleita de prerrogativas excepcionais. A primeira delas é a isenção de toda culpa, até mesmo do pecado original, como ressalta o dogma da Imaculada Conceição, proclamado no ano de 1854, pelo Papa Pio IX:
A Beatíssima Virgem Maria, no primeiro instante de sua Conceição, por singular graça e privilégio de Deus Onipotente, em vista dos méritos de Jesus Cristo, Salvador do gênero humano, foi preservada imune de toda mancha de pecado. (Catecismo da Igreja Católica, 1993, p. 122;491).
Outro dom concedido a Maria, segundo os Padres da Igreja, é a sua perpétua virgindade. Para eles, a Mãe de Jesus que era virgem antes do parto, conservou essa integridade biológica durante e após o parto. Nesta linha, afirma o mesmo Catecismo (p. 124; 499) o aprofundamento de sua fé na maternidade virginal levou a
Igreja a confessar a virgindade real e perpétua de Maria, mesmo no parto do Filho de Deus feito homem.
Por ser Mãe de Jesus Cristo, Cabeça da Igreja, esta mesma Igreja ensina que Maria é mãe também de todos os seres humanos. Por isso, no Corpo Místico, ela ocupa o lugar mais alto depois de Cristo e o mais perto de nós (cf. Lumen Gentium, 2003, p. 119).
Na condição de Mãe de Jesus, o Salvador, e mãe dos membros de seu Corpo, Maria, afirma a Igreja, também participa da obra salvífica do Filho de Deus. Essa visão está patente no Catecismo da Igreja Católica (idem p. 233):
De modo inteiramente singular, pela obediência, fé, esperança e ardente caridade, ela (Maria) cooperou na obra do Salvador para a restauração da vida sobrenatural das almas. Por este motivo, ela se tornou para nós, Mãe na ordem da graça.
É em virtude dessa missão de “colaboradora na obra do Salvador”, que podem ser entendidas as suas constantes “intervenções”. Crendo que a Virgem Maria se encontra no céu em corpo e alma e que como Mãe, procura sempre o bem dos filhos, os católicos aceitam, com muita tranqüilidade, as suas “aparições”, como esclarece Roman (2003, p. 5):
Se Nossa Senhora apareceu certamente não foi para brincar. Ela veio porque nós tínhamos necessidade de seu auxílio. Nossa Senhora é Mãe. Sempre acompanha seus filhos. Por isso, temos aparições, desde o início da era cristã.
As “aparições” de Nossa Senhora e outras (Jesus, Santos, Anjos), a Igreja
denomina-as de Revelações Particulares. Nessas revelações não há
obrigatoriedade de aceitação, pois toda a verdade necessária à salvação está
centrada na Bíblia Sagrada, nas chamadas Revelações Normativas, que se
encerraram com a morte do apóstolo São João, autor do quarto Evangelho. As primeiras têm como finalidade recordar aos crentes o que já foi revelado em Jesus Cristo e por Jesus Cristo, a Palavra Encarnada, conforme asseveram os Membros da Comissão Episcopal de Doutrina da CNBB (1990, p. 17).
Jesus Cristo, plenitude da Revelação, é o único mediador. As muitas mediações adquirem sentido a partir dele e nele. Revelações e aparições particulares nada acrescentam à revelação pessoal e insuperável do Pai, em Cristo, pelo poder do Espírito.
O Concílio Vaticano II, na Constituição Dei Verbum (sobre a revelação divina), declara:
Quis Deus na sua bondade e sabedoria revelar-se a si mesmo e manifestar o mistério de sua vontade (cf. Ef 1,9): os homens têm acesso ao Pai e se tornam participantes da natureza divina por Cristo, Verbo encarnado, no Espírito Santo (Concílio Vaticano II: Dei Verbum, 1998, p. 345)
É nessa perspectiva que se fundamenta a possibilidade de aparições, do milagre.
A tradição judaico-cristã está repleta de relatos que dizem respeito à experiência do homem com o mistério de Deus.
A história do Cristianismo registra, desde os seus primórdios, especiais e particulares teofanias. Por exemplo: antes de entrar em Damasco, conforme já aludido, Paulo tem “um encontro com Jesus Ressuscitado” que o transforma radicalmente: de ferrenho perseguidor dos cristãos, passa a ardoroso pregador e defensor da doutrina que tanto combateu (cf. At 9, 3-9). Ao ser apedrejado, Estevão, o primeiro mártir do Cristianismo, tem a “visão” da glória de Deus e do Senhor Jesus à direita do Pai. (cf. At. 7,55).
Essas manifestações extraordinárias, porém, não aconteceram apenas com a primeira geração de cristãos. Nesses vinte e um séculos da Igreja, elas têm “ocorrido” até com uma certa freqüência. Como exemplo, podemos citar: Francisco de Assis, Santa Brígida, Santa Catarina de Sena, Santa Margarida Maria Alacoque e, mais recentemente, Santa Faustina e São Pio. Todos esses afirmaram ter recebido mensagens diretas de Jesus e de sua Mãe. (cf CED – CNBB, 1990, p. 21).
Mas como o nosso propósito, neste trabalho, é o estudo da linguagem contida nas mensagens que alguns usuários de língua portuguesa dizem ter recebido da Mãe de Jesus, não nos deteremos em outras “revelações”.
Para a avaliação da autenticidade das revelações particulares, a Comissão Episcopal de Doutrina da CNBB apresenta uma síntese dos critérios estabelecidos pelo Papa Bento XIV, no século XVIII. (p. 52-54):
a) O primeiro deles diz respeito à pessoa do vidente. É necessário que seja examinada a sua saúde psicofísica por profissionais competentes, a fim de que não se confunda “visão” com alucinação. Sua conduta também é altamente importante. Embora compreenda o Papa que Deus pode se revelar a pecadores, considera improvável a persistência no erro, após as
“aparições”. Bento XIV julga ainda fundamental para o discernimento, em tais questões, a obediência à Igreja e afirma que se o fato for verídico, o vidente será, ao mesmo tempo, obediente, humilde e firme.
b) As mensagens não podem contradizer nem a razão humana, nem a revelação bíblica e nem a doutrina da Igreja.
c) Um outro critério apontado é a forma da “aparição”. Já que Deus é perfeição, jamais se manifestará com uma imagem deformada, imperfeita. d) A finalidade da revelação é também, de acordo com Bento XIV, outro
critério de discernimento: a vivência do Evangelho, conversões, amor à Igreja são elementos que não podem faltar na autêntica “aparição”.
e) O critério decisivo, no dizer do mesmo Papa, são os milagres. Esses, quando comprovados pela Igreja, asseguram a autenticidade das revelações particulares.
A CED-CNBB (p. 220) esclarece que “o fenômeno das revelações particulares parece fazer-se notar, no quadro de uma religião popular, como forma de um profetismo possível no mundo cristão”. E acrescenta que algumas dessas revelações obtiveram o reconhecimento das autoridades eclesiásticas, como no caso de Guadalupe, Lourdes, Fátima e outras.
Roman (2001, p. 5) postula que as aparições da Virgem Maria constituem
novos comandos para chamar os homens à conversão, à prática do Evangelho.
Gambarini (s.d. p. 61) diz que a primeira “aparição” de Nossa Senhora de que temos conhecimento, ocorreu em Saragoça (Espanha), na noite do dia 2 de janeiro do ano de 40 d.C. quando a Mãe do Senhor teria aparecido a São Tiago Maior, irmão de João Evangelista. Tanto o apóstolo como seus discípulos teriam ouvido vozes de anjos que cantavam Ave-Maria gratia plena e, ao mesmo tempo, viram a Virgem de pé, sobre um pilar de mármore. Ela pedira a Tiago que lhe construísse uma igreja naquele local, o que foi imediatamente realizado pelo apóstolo e seus discípulos. Em virtude de a Virgem Santíssima ter-se manifestado aí sobre um pilar, ficou sendo chamada Nossa Senhora do Pilar.
trabalho não é propriamente a análise das aparições, e sim da linguagem das “mensagens” proferidas em língua portuguesa. Assim sendo, nesta introdução, faremos uma breve abordagem das “revelações” da Santíssima Virgem de maior repercussão no mundo, como Guadalupe, Medalha Milagrosa, Lourdes e Medjugorje. As “aparições” de Fátima serão incluídas no corpus do trabalho, já que constituem objeto de estudo desta tese.