4 Case‐beskrivelser
4.1 Egenskaper som påvirker logistikken av matspesialiteter
Na opinião de Orlandi (1983, p. 121), o discurso é “o modo de existência social da linguagem: lugar particular entre língua (geral) e fala (individual)”. O discurso é, portanto, o espaço onde se encontram língua e fala, ou seja, o geral e o individual. Nesse espaço se articulam saber e poder, uma vez que o indivíduo que se apropria da linguagem não age isoladamente, mas fala de um lugar que lhe foi concedido pela instituição que representa: Escola, Estado, Igreja, etc. Assim sendo, todo discurso configura-se como ponto de articulação entre o ideológico e o lingüístico, visto que, ao se inscreverem no espaço discursivo, os interlocutores operam de acordo com a sua formação ideológica. Por conseguinte, todo discurso gera poder. Por essa razão, para muitos estudiosos do discurso, esse discurso nada mais é do que uma prática social que materializa uma ideologia. Ele é o espaço onde toda ideologia é, ao mesmo tempo, formada e difundida.
Já que, segundo essa teoria, o sujeito não se apropria da linguagem individualmente, mas o faz realizando um movimento social, ao produzir essa linguagem, ele também está nela reproduzido. Isso quer dizer que, embora o sujeito tenha a impressão de ser a fonte de seu discurso, na realidade, ele está retomando discursos preexistentes. Esse fenômeno da linguagem, Orlandi (1988, p. 19) chama- o de a “ilusão discursiva do sujeito”. No processo de interlocução, segundo essa lingüista, o indivíduo é constituído eu pela língua, mas interpelado como sujeito pela ideologia.
De acordo com essa concepção, todo sentido é determinado pelas posições ideológicas dos interlocutores, ou, como afirma a autora (1988: p. 58): “as palavras recebem seu sentido da formação discursiva na qual são produzidas”. Os sentidos, portanto, são partes de um processo e se realizam dentro de um contexto sócio- histórico.
Com base no fato de que é a ideologia que determina o discurso, Orlandi (1986: p. 115) considera a linguagem como “ação transformadora, como mediação entre o homem e sua realidade natural e social. Para ela, a palavra é um ato social e todo discurso é um continuum. Assim sendo, não pode haver unicidade discursiva. Todo discurso tem sua gênese em outro, chamado discurso “fundador” e se projeta
para um futuro, numa rede de inter-relações contínuas. Na língua, tem-se, pois, a intertextualidade e jamais a unicidade textual.
Transportando essas idéias para o discurso da “vidência”, podemos considerar os textos bíblicos como seu discurso fundador, o que denota ser o discurso em apreço produto do entrelaçamento daqueles textos (os bíblicos) com a atividade discursiva processada na interação entre o mundo espiritual e o temporal, prática essa que implica uma ruptura dos limites de tempo e espaço, uma vez que o passado presentifica-se no presente.
A ideologia não surge do vazio: ela é constituída pela realidade e, ao mesmo tempo, é constituinte da realidade que envolve os grupos sociais. Essa ideologia, porém, só pode ser identificada, através da “formação discursiva”, que, segundo Orlandi e Guimarães (1988, p.58), pode ser definida como “aquilo que a partir de uma certa posição em uma conjuntura sócio-histórica dada, determina o que pode e deve ser dito”.
As “formações discursivas”, no dizer dos mesmos autores, são constituídas por duas forças opostas: a paráfrase e a polissemia , De acordo com Brandão (1995, p.39), na paráfrase “os enunciados são retomados e reformulados, num esforço constante de fechamento de suas fronteiras”, enquanto que a polissemia, “opondo- se a esse fechamento, rompe com a mesmice” e desloca-se da unicidade para a pluralidade de sentido, gerando o movimento de tensão entre o mesmo e o novo; entre o institucionalizado e o não-garantido; entre a estabilidade e a instabilidade, ou como no dizer de Orlandi (1999, p. 36). (...) é nesse jogo entre paráfrase e
polissemia, entre o mesmo e o diferente, entre o já-dito e o a se dizer que os sujeitos e os sentidos se movimentam, fazem seus percursos, (se) significam.
No tocante ao discurso da “vidência” podemos inseri-lo na “formação discursiva católica” que, por sua vez, consubtancia uma “ideologia católica”, mas ao mesmo tempo, ele representa o novo, o não-institucionalizado, visto tal discurso partir sempre do povo e não da Instituição.
1.2.1. Tipologia discursiva
Considerando a heterogeneidade discursiva, Maingueneau (1984) apresenta um quadro que contém diferentes tipos de “matrizes” discursivas, a saber: universo
discursivo, campo discursivo e espaço discursivo. O primeiro é formado pelo
conjunto das formações discursivas que, numa conjuntura dada, estão em interação (p.27). Esse universo discursivo serve apenas como um marco, a partir do qual são construídas esferas que podem ser analisadas. Tais esferas constituem os campos discursivos (p.28) que são organizados por um conjunto de formações discursivas. Essas formações discursivas fixam limites dentro de um determinado espaço do
universo discursivo e se encontram em concorrência, como é o caso dos discursos
político, religioso, filosófico, etc.
Como um campo discursivo, em geral, não pode ser analisado em sua
totalidade, ele é recortado em subcampos, os quais constituem os espaços
discursivos, nos termos de Maingueneau (1984, p.117):
O espaço discursivo delimita um subconjunto do campo discursivo, ligando, pelo menos, duas formações discursivas que mantêm (supõe-se) relações privilegiadas, cruciais para a compreensão dos discursos considerados, sendo definido a partir de uma decisão do analista, em função de seus objetivos de pesquisa.
De acordo com esse autor, tanto o “campo discursivo” como o “espaço discursivo” não resultam de uma divisão espontânea, mas são delimitados pelo analista, a partir de hipóteses explicitadas segundo as metas visadas em sua análise.
Trabalhando com o “espaço discursivo, o lingüista compreende que tem diante de si não uma “formação discursiva”, mas uma interação entre “formações discursivas”. Já que a linguagem é uma realidade heterogênea, o analista lida não
com um discurso, mas com a interdiscursividade. Eis por que, no dizer de
Maingueneau (1989, p. 119), “a identidade discursiva está construída na relação com o outro”.
Tendo em vista o modo de relação entre os atores da cena discursiva e o jogo entre polifonia e paráfrase, Orlandi (1983, p.32) identifica três tipos básicos de discurso: o lúdico, o polêmico e o autoritário. É o grau de reversibilidade (troca de papéis entre os interlocutores) que determina a caracterização desses tipos.
Caso a reversibilidade tenda a anular-se, há o predomínio da paráfrase, tendo-se um discurso mais monossêmico. Se, porém, a reversibilidade ocorrer em grau maior, o predomínio é da polissemia, em virtude de em tal discurso haver a possibilidade de múltiplos sentidos. Mas se, no discurso, os interactantes exercem o controle da reversibilidade, ter-se-á o jogo entre paráfrase e polissemia e tal discurso será, ao mesmo tempo, monossêmico e polissêmico.
Eis como a respeito desse assunto se expressa Orlandi (1988, p.24): Essa tipologia que elaborei (...) tem como critérios a interação (a reversibilidade, a troca de papéis ou de estatuto entre os
interlocutores) e a relação entre polissemia e paráfrase (a possibilidade, ou não, de múltiplos sentidos).
Para Orlandi, portanto, no discurso autoritário, ocorre a polarização da paráfrase; no lúdico, a da polissemia, mas, no discurso polêmico, existe uma alternância entre o mesmo e o diferente, ou seja, o jogo entre paráfrase e polissemia.
Segundo a mesma autora (op. cit), o discurso dominante em nossa sociedade é o autoritário, uma vez que se trata de um discurso oficializado. Já o polêmico é apenas tolerado e o lúdico só no escamoteamento da linguagem pode encontrar espaço.
No tocante ao discurso da “vidência”, sendo ele um discurso religioso, dentro dessa taxonomia, é possível considerá-lo com tendência ao autoritário, já que sua voz é a voz de Deus, seu verdadeiro Sujeito, o qual se manifesta ora como LOCUTOR, ora como ALOCUTÁRIO e ora como DELOCUTÁRIO, conforme será mostrado na análise dos dados.
1.3 A questão da polifonia
No dizer de Maingueneau (1976, p. 39), “um discurso não vem ao mundo numa inocente solitude, mas constrói-se através de um já – dito em relação ao qual toma posição”. Para ele, portanto, o intertexto é uma condição definitiva para que haja produção.
De acordo com esse autor (1997, p. 78), “a problemática da polifonia põe em causa a unicidade do sujeito falante, inscrevendo-se, pois, na problemática mais geral da heterogeneidade discursiva”.
Nesta mesma linha de pensamento, Bakhtin (1929/1986) compreende a atividade verbal quer oral, quer escrita, como essencialmente dialógica, divergindo, portanto, de Benveniste para quem a ação do locutor é determinante no processo enunciativo. Para Bakhtin (1986, p. 126):
A verdadeira substância da língua não é constituída por um sistema abstrato de formas lingüísticas, nem pela enunciação monológica isolada, nem pelo ato psicofisiológico de sua produção, mas pelo fenômeno social da interação verbal realizada através da enunciação ou das enunciações. A interação verbal constitui assim a realidade da língua.
Constatamos, pois, que, para o autor, é na ação dialógica que acontece a linguagem.
Essa concepção interativa da linguagem aparece de modo mais contundente, no enunciado seguinte:
Qualquer desempenho verbal inevitavelmente se orienta por outros desempenhos anteriores na mesma esfera, tanto do mesmo autor como de outros autores originando um diálogo social e funcionando como parte dele. (Bakhtin, 1986, p.123).
Autores, por exemplo, como Authier – Revuz (1982), Ducrot (1987), Foucault (1971/1979), Maingueneau (1984) e Orlandi (1983/1986/1988), trilhando esse mesmo caminho, sustentam a idéia de que a polifonia é a marca fundamental do discurso. Maingueneau (1989, p.120), esclarecendo que nem sempre a manifestação polifônica é marcada explicitamente, assevera:
Mesmo na ausência de qualquer marca de heterogeneidade mostrada, toda unidade de sentido, qualquer que seja seu tipo, pode estar inscrita em uma relação essencial com outra, aquela do ou dos discursos em relação aos quais o discurso de que ela deriva define sua identidade.
Nos lingüistas contemporâneos está muito presente esta noção de heterogeneidade da linguagem. Barthes (1974), por exemplo, assegura que:
(...) o texto redistribui a língua. Uma das vias dessa reconstrução é a de permutar textos, fragmentos de textos que existiram ou existem ao redor do texto considerado, e, por fim, dentro dele mesmo; Todo
texto é um intertexto; outros textos estão presentes nele, em níveis variáveis, sob formas mais ou menos reconhecíveis.
Para esse autor, portanto, todo texto está relacionado com outros textos com os quais dialoga aludindo, confirmando, ironizando ou simplesmente retomando-o.
Dentro deste raciocínio, Pêcheux (1969) afirma:
Deste modo, dado discurso envia a outro, frente ao qual é uma resposta direta ou indireta, ou do qual ele “orquestra” os termos principais, ou cujos argumentos destrói. Assim é que o processo discursivo não tem, de direito, um inicio: o discurso se estabelece sempre sobre um discurso prévio.
E Kristeva (1974, p. 60) é mais incisiva ao afirmar que “qualquer texto se constrói como um mosaico de citações e é a absorção e transformação de um outro texto”.
Todas estas considerações apontam para o naipe vocal ou polifonia.
O conceito de polifonia foi introduzido na lingüística por Bakhtin (1929) para caracterizar o romance de Dostoievski. No dizer desse autor,
(...) a palavra é o produto da relação recíproca entre falante e ouvinte, emissor e receptor. Cada palavra expressa o um em relação com o outro. Eu me dou forma verbal a partir do ponto de vista da comunidade a que pertenço. EU se constrói constituindo o EU do outro e por ele é constituído.
Para ele, pois, a linguagem é constituída pelo dialogismo. Explorado, principalmente por Ducrot (1980) e retomado por Koch (1984), o termo polifonia designa a incorporação ao próprio discurso das vozes de outros enunciadores: os interlocutores, terceiros, a opinião pública em geral ou o senso comum, ou seja, o coro de vozes que se manifesta, normalmente, em cada ação discursiva. Já que o pensamento do emissor é constituído do pensamento do receptor e vice-versa, a produção do sentido é absolutamente condicionada à alteridade.
Nas palavras de Koch (1992, p.58), polifonia é o “fenômeno pelo qual, num mesmo texto, se fazem ouvir ‘vozes’ que falam de perspectivas ou pontos de vista diferentes com os quais o locutor se identifica ou não”. E para essa autora, todo caso de intertextualidade o é de polifonia, conforme expressão seguinte:
a meu ver, o conceito de polifonia recobre o de intertextualidade, isto é, todo caso de intertextualidade é um caso de polifonia, não sendo, porém, verdadeira a recíproca: há casos de polifonia que não podem ser vistos como manifestações de intertextualidade (Koch: 1998, p.57).
Compartilhando o pensamento dessa autora , consideramos como polifônicas as vozes que, provindas de outros textos incorporam-se ao discurso construído no Encontro de Oração da Renovação Carismática Católica (cf. Martins, 1999, p.50) e, por conseguinte, também o discurso da vidência.
Entendemos, pois, polifonia como interação verbal efetuada pelos sujeitos discursivos: o do discurso relatado, o da multiplicação de sujeitos e o da interdiscursividade.
Numa concepção oposta à de Benveniste (1988) e em conjunção com as idéias de Bakhtin (1929, 1981 e 1986), Ducrot (1987, p. 142-188) já mencionado nesta exposição, identifica a presença de várias vozes, na enunciação, vozes essas executadas pelos seus protagonistas aos quais ele designa locutor e alocutário. O
primeiro é o ser que se identifica como eu e o segundo, o que é por este
reconhecido como tu.
Na emissão, esse lingüista apresenta o locutor desdobrado em: locutor – P, pessoa do mundo empírico e locutor – L, ser interno ao discurso e um outro sujeito que exprime as atitudes do locutor, enunciador (E).
Orlandi, Guimarães e Tarallo (1989, p. 46-47) apresentam uma taxonomia complementar, identificando entre os sujeitos do discurso, três níveis de processamento das interlocuções:
• O primeiro nível considera-os em sua dimensão física, na cadeia falante-
ouvinte;
• o segundo pondera-os na relação entre as entidades do discurso: locutor (L) e alocutário (AL). O locutor, na enunciação, assume o paradigma do
eu e se representa como o ser responsável por ela. Já o segundo, o
alocutário, instaurado no discurso pelo locutor, exprime o tu e se apresenta em correlação com esse mesmo locutor. Esses autores, seguindo a trilha de Ducrot (1987), desdobram o locutor em locutor – L,
“que se representa como fonte do dizer” (p.46) e locutor – P, que se faz representar como “o locutor-enquanto-pessoa-socialmente constituída” (p.46). No plano da recepção, correlatamente ao locutor – L, há o alocutário AL, e ao locutor-enquanto-pessoa-socialmente constituída, corresponde o alocutário AL P (p.47);
• o terceiro nível representa a perspectiva do recorte enunciativo, considerando os sujeitos discursivos na dimensão enunciador(E) e
destinatário (D), o seu correlato (p.47).
Esses autores (1988, p. 48-49) estendem a sua análise em torno da heterogeneidade vocal, apontando as seguintes possibilidades de expressão do enunciador.
a) enunciador individual: que pode coincidir com o locutor (L ou LP);
b) enunciador genérico: é a representação da voz do senso comum e traz para o texto as crenças historicamente constituídas;
c) enunciador universal: esse é a voz que se apresenta como se os fatos falassem por si, podendo, portanto, serem enunciados por todos e pelo indivíduo. É o enunciador representado, por exemplo, no discurso científico e filosófico;
d) enunciador coletivo: representa a voz de uma comunidade específica, como por exemplo, o discurso da “vidência”, objeto deste estudo.
Já Brandão (1988, p. 50-52), na análise da propaganda da Petrobrás, apresenta o locutor num tríplice desdobramento:
a) L1 – responsável pela totalidade do discurso, voz delegada, isto é, porta- voz da instituição (Petrobrás);
b) L2 – voz mencionada por L1, numa perspectiva genérica (E2 geo);
c) L0 – ser referido pelo discurso (= ela), mas que se identifica com o autor empírico do enunciado (Petrobrás).
Quanto ao alocutário, ela o aponta, como um ser assujeitado pelo locutor, que, ao trazê-lo para a sua esfera, produz representações nas quais o sujeito da
recepção se vê refletido. Assim, entre o locutor e alocutário demarca-se um espaço comum onde as crenças são compartilhadas.
Nesse seu trabalho, Brandão faz alusão ao sujeito da referência ou
delocutário, que não foi contemplado pelos autores citados, enunciando-o como
desdobramento de L1: “quem fala e quem é falado constituem uma só identidade” (p. 52-53). Temos aí, então, uma enunciação sui-referencial, pois a voz do locutor se dobra sobre si mesma, ou seja, a Petrobrás fala de si mesma não como eu explícito, mas como referente (= ela), criando assim uma ilusão de objetividade: L1 = L0 = D (Delocutário).
Essa forma de funcionamento do delocutário, segundo a autora, contraria a posição de Benveniste para quem o ele é não-pessoa. Diz ela (p. 53), textualmente: “No nosso caso, o ele é pessoa e, mais do que isso, exerce o papel de locutor, podendo nomear-se eu”.
Nessa linha de pensamento, Bittencourt (1950), em sua análise do discurso do anúncio de videntes, identifica um delocutário que se assenhora do lugar de locutor, confirmando, portanto, a posição de Brandão.
No discurso da “vidência”, tema deste trabalho, constatamos também casos de su-referenciamento (como será mostrado na análise do “corpus”), visto que o sujeito da esfera celeste, em algumas alocuções, fala de si mesmo como se fosse outra pessoa, conforme podemos comprovar no exemplo abaixo:
Quero que venham aqui no dia 13 do mês que vem, que continuem a rezar o terço em honra de Nossa Senhora do Rosário para obter a paz do mundo e o fim da guerra, porque só ela lhes poderá valer (grifo nosso). (Terceira Aparição de Fátima – 13 de julho de 1917) Nessa ação discursiva, tem-se, pois, um delocutário – D (Nossa Senhora do Rosário) que é o mesmo locutor – L.
EU (L) = ELA (D)
Neste discurso, comprovamos, pois, o princípio de que é possível ao “ele” estatuir-se pessoa uma vez que pode exercer a função de sujeito.
Conforme mostrado nesta seção, a linguagem é essencialmente heterogênea, pois, além da plurivocalidade instaurada pelos protagonistas da cena interlocutória,
qualquer ação discursiva admite a incorporação de vozes provindas de outras instâncias enunciativas – intertextualidade.
A esse caráter heterogêneo da linguagem Pires (1997, p. 156) faz a seguinte alusão:
Cada discurso se revela heterogêneo, na medida em que, além da voz de seus enunciadores, incide vozes de outros enunciadores, de forma mais ou menos explícita. (...) Vale lembrar que todo discurso,por natureza plurivocal, pressupõe, no mínimo, um destinatário, que reconstitui as suas vozes heterogeneamente (...). Já, de acordo com Orlandi (1999, p.31-33), o discurso tem duas dimensões: “horizontalidade” e “verticalidade”. Para ela, a interdiscursividade se configura como vertical por representar o pré-construído, o já-dito. Nele estão todos “os dizeres já ditos — e esquecidos — em uma estratificação de enunciados que, em seu conjunto, representa o dizível, enquanto.´no eixo horizontal, está o intradiscurso que é o eixo da formulação”, ou seja, o que se diz naquele momento (p.33).
Segundo a autora, todo dizer parte desses dois eixos: o da memória (constituição) e o da atualidade (formulação).
A verticalidade comprova que não existe unicidade discursiva, mas que todo discurso tem sua gênese em outro (discurso fundador) e se projeta para um discurso futuro. Isso significa que os sentidos de um texto não estão, necessariamente, na superfície de seus enunciados, mas podem advir da alteridade nele manifestada.
É na intertextualidade que se estabelece a unidade textual. Nesse sentido, a relação do sujeito com o texto (o produto) e com o discurso (a manifestação verbal) é o responsável pelo alcance da completude do enunciado.
C A P Í T U L O 2
Neste segundo capítulo, procuramos votar-nos à questão do discurso religioso, tecendo preliminarmente, porém, uma abordagem a respeito da influência da religião na vida das pessoas e das sociedades. Uma vez que este trabalho tem sua centralização na esfera religiosa, julgamos oportuno mostrar como o sagrado para os humanos parece ser algo vital.
Segundo o Catecismo da Igreja Católica, o ser humano é naturalmente impelido para Deus, em virtude de ter sido criado por ele e para ele. (cf. Catecismo
da Igreja Católica, 1993: p.23). Essa mesma concepção tinha Santo Agostinho,
como testificam as palavras seguintes:
És grande, Senhor, e infinitamente digno de ser louvado; grande é teu poder e incomensurável tua sabedoria. E o homem, pequena parte de tua criação, quer louvar-te (...). Tu mesmo o incitas ao deleite no teu louvor, porque nos fizeste para ti, e nosso coração está inquieto enquanto não encontrar em ti descanso. (Confissões de Santo Agostinho, 2002, p. 29).
Para Israel, o povo da Antiga Aliança, não havia diferença entre história e religião, pois, em cada fato histórico, ele via a ação de Deus protegendo-o ou punindo-o por sua infidelidade.
Após a vinda de Jesus Cristo, o Deus que entrou na História pela Encarnação, a força do Cristianismo tem movido indivíduos e sociedades. Basta lançarmos um olhar para Francisco e Clara de Assis; Inácio de Loyola e Tereza D´Ávila, dentre tantos outros homens e mulheres que renunciaram à riqueza e ao conforto, a fim de se consagrarem inteiramente a Deus, para constatarmos essa realidade. Ordens, instituições e comunidades religiosas têm surgido, nestes vinte e um séculos de Cristianismo, com o objetivo de acolher, amparar e confortar os excluídos, como por exemplo, os Vicentinos, as Irmãs de Caridade, os Salesianos, a Congregação de Madre Tereza de Calcutá, a Pastoral da Criança, a Toca de Assis, as Obras de Irmã Dulce, dentre outras.
Até mesmo nossa educação (no caso do Brasil) tem sido fortemente marcada pelo caráter religioso. E essa inegável onipresença do Cristianismo na cultura ocidental é assinalada por Orlandi (1987, p. 9):
Esse atravessamento da religião – eu ousaria dizer sob a forma paradigmática do cristianismo – atua em todas as nossas formas culturais. Não é por acaso que a primeira obra impressa foi a Bíblia.