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"Quando eu cheguei aqui no Tumiã, eu tava na boca né? Ai passou uns tempos e eu vi ele [P23], ai ele veio conversar. E ele puxou assunto dizendo que a mulher dele era índia. Mas antes dele vir morar aqui, o índio já morava aqui no Tumiã. Na boca. Porque morreu um velho, um cacique velho, e enterraram ele lá, e subiram o Rio. Naquele tempo tinha muito índio. O barco chegando, espantando índio, e morava lá, onde morava índio: o tempo da seringa né, o índio correndo.

"Ai ele [P23] disse que era o seringal dele, que era coisa dele. Ai colocou freguês ali. Ai começou um outro patrão lá - o Bonfim. Era rico, muita mercadoria. Muito freguês, muita gente.

"Ai índio começou a morrer. Muita doença. O branco matando os outros: os índios... no canto onde morava. Ai morava um na beira do rio, Mojar[?], que era capanga deles. Ai foi índio, os índios acabando, e mandava os capanga dele matar índio. E quando acabava mandava os cachorro para caçar índio. Índio correndo no mato e cachorro correndo atrás. Matando de um em um. Mataram tudo, sobraram dois. Hoje em dia ainda tem índio porque aqueles dois sobreviveram. Naquele tempo índio não brigava, não tinha como. Nossa arma era arco, e as flechinhas. Não tinha como" (Cacique Aposentado Apurinã, 2014).

30 Encontrei uma única referência a este evento, no livro Cuxiuara de Gunther Kroemer: “Por volta de 1960, aconteceu também outro massacre, desta vez contra os índios Jamamadi, no Rio Pauini, comandado por Antônio e João Celestino. Depois de embebedarem os índios, os adultos foram liquidados a tiro e as crianças foram trucidadas a terçado” (Kroemer 1985, p. 99). Importante notar que tanto Kroemer quanto o narrador descrito acima atribuem a autoria à mesma pessoa. Por outro lado, Kroemer não providencia nada além dessa passagem para descrever o evento, e considero sua curta descrição suspeita dado que nenhuma das pessoas que entrevistei mencionou álcool.

Imagem de elaboração própria. As letras ao final dos nomes indicam seu local de origem (T= Tumiã, S = Seruini, C = Ceará)

Existem hoje no Tumiã quatro comunidades Apurinã: A comunidade do Abel, a comunidade Pataky, a comunidade Canacuri e a comunidade Akidabã. No que pode ser chamado de Alto Tumiã estão localizadas as comunidades Canacuri, criada por seu Alfredo Apurinã e Dona Laura Apurinã, que vieram do Seruini, composta por seus filhos/filhas e respectivas esposas/esposos, mais a comunidade do Abel e a comunidade Pataky. Estas traçam sua descendência a Casemiro (que era casado com Alzira Apurinã, do Mapuã) e Jeremias Apurinã, que era casado com Joracir (Mapuã), Iracir (Seruini) e Amélia que nasceu no Tumiã mas morava no Seruini quando ocorreram os massacres. Dona Laura Apurinã explica:

"Papai [Raimundo Cobra] tinha três mulheres: Mamãe, tia Emília e tia Amélia. Essa Amélia, quando ela inventou de cortar madeira e chamou ele para ir, ai na boca da estrada, ele foi para um lado e ela foi por um outro. Ai o Papai foi cortando, quando voltou, ela não tava lá. Só achou o balde e o pandeiro. Ela se foi embora no varadouro." (Dona Laura Apurinã, 2014)

Amélia deixou seu marido no Seruini e voltou para o Tumiã, casando-se com Jeremias. Já no ‘Baixo Tumiã’ se tem a comunidade do Akidabã, mais perto da entrada da foz do Rio que as outras. A descendência do Akidabã se traça a três casais: Ramira (Ceará) e Zé (Seruini), Raimundo Nonato (Ceará) e Maria (Seruini), Suzana (não se sabe ao certo, mas acreditam que é oriunda do Ceará) e Zé Rodrigo (Ceará). Os pais de Dona Maria e Zé eram João (Ceará) e Maria Rosa (Seruini).

Imagem de elaboração própria. As letras ao final dos nomes indicam seu local de origem (T= Tumiã, S = Seruini, C = Ceará)

Dessa forma, pode-se ver que as linhagens de parentesco aparentam confirmar o que conta o cacique aposentado: A população indígena do Tumiã foi violentamente reduzida a dois sobreviventes, Casemiro e Jeremias (três se incluirmos Amélia) graças às ações promovidas por P23 e os irmãos Bonfim. Siqueira Apurinã, morador da comunidade Pataky, filho de Casemiro, narra assim a época:

"Vai né? No mato que a gente corre, né? Rapaz eles não acharam ai a trazer, a trazer por... cachorro né? ... Acharam a gente: mata, ai mataram, ai mata, ai acharam e matam e mata à espingarda e mata terçado, a gente, mata mesmo, se a gente no brabo, a gente ser caça mermo... ai no mata não, se mata se a gente correram a gente, mata mesmo, a trazer ir lá o cachorro, e ta a trazer ai pá ai atrás e mata, mata de cachorro, terçado, corta... costela, corta tudo, sabe? Terçado ai, pá, ai mata mesmo. É. Quando casamento, no copeiro, ai tal casamento, mata não, ai só que se passa mesmo, é [praticamente?]. Muito tempo assim, gente né? Su[bindo]- tudo ia subindo aqui pra cá né? Finado pai, contando assim, ai depois né? Ficamos melhor né? É agora, não tem nada agora" (Siqueira Apurinã, 2014).

Como Casemiro e Jeremias conseguiram escapar foi explicado por Francisco "Cleiton" Apurinã: "Foi isso mesmo que aconteceu. Foram o Jeremias e o Casemiro, que se esconderam na casa do Zé Torres quando eram rapazes. Quando perguntaram se tinha índio por lá, disseram que não tinha nenhum por lá" (Francisco Apurinã, 2014). Foi Francisco o primeiro a identificar Jeremias e Casemiro como os sobreviventes,

quando tentava explicar o porquê de eu estar fazendo um levantamento de parentesco31. É importante notar, porém, que em sua tese de doutorado Schiel (2004, p. 381) faz uma genealogia que difere muito das providenciados acima. Por exemplo, ela coloca Dona Laura como sendo filha de Jacinto e Joana (o que contradiz diretamente tanto a citação acima de Dona Laura sobre seu pai quanto as informações que ela me forneceu quando fiz o levantamento). O que é relevante para esta dissertação é que ela coloca Jeremias e Casemiro como filhos de Cassiano. Isso não contradiz que eles foram os sobreviventes das ações de P23, mas indicaria que toda a população atual do Tumiã traça sua descendência (dentro de três gerações) a um outro local. Isso, por sua vez, poderia ser usado para questionar a existência de uma população Apurinã no Tumiã antes do período de cerca de 1950. Mas, para tanto, é necessário lembrar os relatórios da SPI trazidos por Schiel (1999) em sua dissertação de mestrado referentes ao ano de 1913 e o conflito que fundaria o Posto Marienê. A moblização dos Apurinã, contando entre setecentos e mil, de acordo com a SPI, atraiu Apurinã oriundos do Sepatini e Tumiã até o Seruini. Em outras palavras, mesmo se Jeremias e Casemiro fossem oriundos do Seruini, havia uma população Apurinã pré-existente no Tumiã, e ela desapareceu.