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O que segue é uma lista parcial dos patrões do Médio Purus, do período de 1960 até o presente. É importante frisar que não se trata, de modo algum, de uma lista completa, ou total dos patrões. Ela tende a refletir em grande parte a minha trajetória em campo, com uma proporção elevada dos patrões que atuavam ao redor de Lábrea, principalmente no Rio Ituxi, e no Rio Cuniuá, entre Canutama e Tapauá. Assim ela não deve ser entendida como englobando a totalidade dos patrões.

o Ex-patrão de seringal dentro do rio Ciriquiqui, Rio Ituxi o Representante de Importadora, dono de fábrica de gelo o Juiz substituto

o Foi embora para Manaus

o Mandante dos massacres dos Juma e dos isolados do Rio Ituxi o “Esse gostava de matar índio”

o Filhos, ex-patrões do Rio Punicici, foram embora para Porto Velho • P16, falecido,

o Ex-patrão no Rio Ituxi o Família vendeu o barco • P17

o Ex-patrão no Rio Ituxi

o Filhos donos de supermercado • P18

o Ex-patrão no Rio Ituxi

o Dono de supermercado, dono de balsa de gasolina • P19

o Patrão dentro do Rio Querequetê, Rio Ituxi o Castanha

o Dono de caminhões de frete • P20

o Patrão no Rio Puniçiçi, Rio Ituxi o Castanha, farinha

o Reside no Rio Puniçiçi, boca do igarapé São João • P21, falecido

o Ex-patrão da boca do igarapé Socó, Rio Ituxi

o Sobrinho P32 continua patrão da região envolvido com castanha o Filhos continuam na cidade

• P22

o Patrão (regatão) no Rio Purus o Peixe, farinha, feijão, castanha o Dono de barco

• P23, falecido

o Ex-patrão do Tumiã e dono da fábrica de borracha Latex junto com P36 o Mandante do massacre dos Apurinã do Tumiã

o Filho P24- Patrão da comunidade Luzitânia e castanhal do Tumiã • P25, falecido

o Ex-patrão do seringal Arudá

o Filho P26, patrão de castanhal Castanheira dentro do Tumiã • P27

o Ex-patrão dos seringais Prainha e Abunini, beira do Purus o Dono de balsa e postos de gasolina

• P28

o Patrão do Nova Vista, beira do Purus o Castanha

o Filho de P29, Ex-patrão do seringal Bom Jesus

o Irmãos donos de uma carreira de empurrar barcos e uma marcenaria. • P30, falecido

o Ex-patrão do seringal Conceição (hoje terra indígena) o Primo dono de posto de gasolina

o Filha dona de supermercado o Filha dona de supermercado o Esposa dona de uma fazenda • P31

o Ex-patrão no Rio Querequetê, Rio Ituxi o Vendeu o barco

o Dono de boate, sedia festas de forró • P33, falecido

o Ex-patrão do Rio Sepatini o Filho dono de bar

o Filho dono de uma sapataria o Filho dono dos moto-taxi • P3

o Patrão que regateia na beira do Purus o Castanha, farinha, seringa, peixe seco, solva o Dono do supermercado Almeida

o Fazenda no quilometro 12 • P34, falecido

o Ex-patrão no Rio Ituxi

o Dono do recreio Santa Terezinha (vendido pelos filhos) o Ex-prefeito de Lábrea

o Família mudou-se para Manaus • P35, falecido

o Patrão que regateava no Rio Ituxi o Dono de uma sorveteria

o Filho dono do supermercado Simão Pedro

o Filho dono de um rebocador que conduz uma balsa com frigorífico

• P36

o Ex-patrão/regatão no Rio Pauini “era ele que comandava aquela área toda”

o Ex-prefeito de Lábrea o “Tio” de P24

o Dono de prédios alugados na cidade

o Afirma ser dono da comunidade ribeirinha Tauaruhã, próxima de Lábrea o “Um dos maiores latifundiários do estado do Amazonas”

o Citado por nome na CPI da Grilagem como segundo maior grileiro do Brasil. Teve seus títulos inválidos por decreto no Diário Oficial mas de acordo com a CPT, os imóveis continuam registrados em cartório.

• P37

o Ex-patrão do seringal Jurucuá

o Filho continua afirmando ser patrão da região dos Jarawara, Jamamadi e ribeirinhos ao redor. Candidatou-se a prefeito

• P38, falecido

o Patrão que regateava na beira do Purus o Filho dono das drogarias Lúcia

• P39

o Ex-patrão do Rio Puniciçi

o Atual presidente da comunidade ribeirinha Teruã • P40 e P41, falecido

o Ex-patrões do seringal Mahaã, igarapé Joari (hoje TI Hi-Merimã) e Seringal São Clemente, perto do Rio Mamoriá

o Esposa de P40 é vereadora

o P41 ex-vice prefeito, dono da farmácia Agapê, hoje com seu filho • P42, falecido

o Ex-patrão do Seringal Cecuriã o Filhos se mudaram para Manaus • P43, falecido

o Patrão que regateava no Rio Ituxi, Rio Purus o Ex-prefeito

o Assassinado “Dizem que mataram porque era o melhor prefeito” o Queria pavimentar a estrada Humaitá-Lábrea, possível causa da morte o Dono do Hotel Sampaio

o Filhas moram em Manaus • P44, falecido

o Patrão que regateava no Rio Ituxi

o Filha dona de supermercado Denis Bazar

• P45

o Ex-patrão do seringal São Jorge no Rio Puciari, Rio Ituxi o Abandonou pós-demarcação

• P46

o Ex-patrão do seringal Bom Futuro, beira do Purus o Dono de bar

o Ex-patrão beira do Purus, seringal Bom Futuro o “Deu uma facada em P43 por freguês”

o Família foi para Manaus • P48

o Ex-patrão do Seringal Tocantins, perto do Tauruã o Ex-madereiro

o Dono da fazenda Tocantins o Filha é vereadora

• P49, falecido

o Patrão do seringal Seriã, perto do Mucuim o Ex vice-prefeito, ex-vereador

o Filho P11

▪ Dono de supermercado • P50

o Ex-patrão do Igarapé Pretão, afluente do Cuniuá o Ainda tem barco, mora no Tarumã

o Saiu com demarcação • P51 e P52, falecidos

o Irmãos, grandes patrões do Rio Cuniuá

o Começaram com a sorva, depois tornaram-se madeireiros o Acusados de tentar matar o prefeito de Tapauá

o Donos de rede comercial/extrativista que incluía o Rio Purus, Humaitá, Santarém, Manaus

o P51 foi morto

o Maioria dos patrões do Cuniuá eram fregueses deles • P53, falecido

o Ex-patrão do Cuniuá, criou o Marekão para atrair os Madihadeni o Peruano, voltou para o Peru

• P54

o Ex-patrão do Seringal Madeira, perto do Sepatini, Purus o Mudou para Manaus

• P55

o Patrão do Seringal Amparo, perto do Sepatini, Purus o Dono de Castanhal

• P56, falecido

o Ex-patrão no Marekão Antigo

o “Bravo, atirava nos indígenas que se recusavam a trabalhar ou que não pagavam dívida”

o Filho mora em Canutama • P57

o Patrão do Rio Jacaré, Tapauá

A partir dessa lista pode-se observar três trajetórias distintas (porém não mutuamente excludentes): de trinta e oito ‘linhagens’ identificadas, sete migraram da região (principalmente para Manaus e Porto Velho), doze permanecem no âmbito da cadeia de produção do aviamento, como classicamente definida (donos de comunidades trabalhando com castanha, farinha, peixe, copaíba etc.) e a maioria, vinte, reinvestiram seus capitais acumulados em outros negócios, principalmente comércios e supermercados. Diga-se de passagem, essa é vista como a trajetória ‘prototípica’ dos patrões pelos moradores da região: “Em Lábrea, a maioria deles [os donos de comércio] é ex-patrão, ou filho de ex-patrão. Quando a seringa parou de dar dinheiro, comprou comércio na cidade” (Senhor Apurinã, 2014).

Mas é importante estabelecer que existe mudança na continuidade e continuidade na mudança. Como Sautchuk escreve em seu artigo “Comer a Farinha, Desmanchar o Sal”:

Os pescadores não-industriais do Baixo Amazonas, do litoral do Pará e do Amapá também se organizam em torno de uma modalidade de crédito e débito denominada aviamento, conforme os traços básicos descritos acima. Entretanto, em vários aspectos o sistema atualmente utilizado na pesca difere daquele que se tornou famoso na extração da borracha, configurando-se “menos rígido” (Sautchuk 2008, p. 7).

Em sua análise do primeiro boom da borracha, Weinstein (1983) já assinala que o aviamento nunca foi homogêneo. O aviamento praticado no Pará, além de ser diferenciado entre si, apresentava grandes divergências face àquele praticado no estado do Amazonas, em que a relação de poder entre aviado e aviador era muito mais assimétrica. A minha proposta é que o fio condutor, que providencia uma continuidade no interior da diversificação do aviamento, é a lógica/dinâmica de pertencimento/dependência entre freguês e patrão.

Entretanto, ela pergunta por que “os pescadores, mesmo depois que pagam suas dívidas, continuam fiéis aos patrões?” (Sousa 2000: 130). Questão tanto mais pertinente quanto o aviamento é concebido idealmente como um vínculo duradouro. No Sucuriju, se diz que um pescador é freguês de, compra de, pesca para, trabalha para ou passa o peixe para um determinado patrão, indicando compromisso, mesmo que entre eles não exista débito. Os pescadores dizem com orgulho que trabalharam às vezes mais de uma década com um determinado patrão e que ‘hoje ninguém

deve nada pra ninguém’. A esta espécie de obrigação de continuidade por parte do pescador, sem que exista “dívida real”, Sousa dá o nome de “dívida imaginária” (: 123; termo um tanto desajeitado, que ela empresta de Geffray [1995], mas sem o sentido de engodo, manipulação, que este autor enfatiza ao analisar a situação do seringal) (Sautchuk 2008, p. 9-10).

A pergunta recorrente, “porque o freguês continua trabalhando para o patrão”, que pode ser vista em quase toda a literatura acadêmica sobre o aviamento, aos meus olhos se torna mais plausível de ser respondida se enxergarmos e interpretarmos a dívida como uma estratégia. De acordo com Henri Lefevbre:

A estratégia envolvida pode ter sucesso ou falhar; em qualquer caso ela vai durar por um período finito de tempo, longo ou curto, antes de dissolver ou rachar. Assim, não importa por quanto tempo ela possa continuar a governar operações táticas nos campos de conhecimento ou ação, ela deve permanecer essencialmente temporária – e portanto sujeita a revisão (Lefevbre 1974, p. 60).

Voltando à análise de motivações dentro do sistema de aviamento, o patrão busca usufruir da força de trabalho do freguês. A dívida permite isso ao imobilizar o freguês e colocá-lo em dependência do patrão, criando um compromisso. Assim, a dívida é uma estratégia (e com certeza a estratégia mais comum e mais bem sucedida historicamente) com a finalidade de criar um vínculo de dependência. Mas – por ser uma estratégia – ela não é inerente ou central. Assim, tendo a discordar da afirmação: “O sistema de aviamento tem no controle do crédito a própria chave de dominação dos povos indígenas e não indígenas que eram imobilizados na relação de trabalho nos seringais da Amazônia” (Leal 2011, p. 26). O crédito sem dúvida foi, e provavelmente ainda é, a estratégia predominante do aviamento. Mas se existe um tema consistente na análise do aviamento contemporâneo é que, mesmo quando a dívida acaba, a relação continua.

De outro lado, pode-se entender por crédito não a dívida ‘real’ ou ‘atual’, contabilizada, mas a futura oferta de mercadorias que serão adiantadas ao freguês. Assim, mesmo que o freguês nada deva no presente, seu acesso futuro a mercadorias depende da manutenção de seu status como freguês de um determinado patrão – uma perpétua ‘dívida imaginária’. Considero essa visão um pouco problemática, visto que

ela tende a pressupor um arranjo espacial que remete ao seringal, no qual o barracão ou regatão eram a única forma de contato com a produção industrial. O problema é que, mesmo em situações nas quais existe uma multiplicidade de ofertas, o pertencimento ao patrão pode existir. Poucos são os fregueses, atualmente, que devido a sua situação geográfica só têm acesso a um comprador/vendedor. Por sua vez, muitos são aqueles que, como assinala Sautchuk, trabalham exclusivamente para um patrão por mais de uma década, ainda que possuam outras opções.

Em outras palavras, o freguês que possui uma dívida contrabilizada com seu patrão trabalha “formalmente” com o objetivo de pagá-la. O freguês que vivia no seringal trabalha “formalmente” porque é seu único meio possível de acesso às mercadorias. Mas o que se observa atualmente é que mesmo quando não há uma dívida contabilizada, e há uma diversidade de opções, o freguês continua trabalhando, com frequência, para o patrão. A pergunta de certa forma inescapável é “por que?”, a minha resposta é que essa é a relação produtiva engendrada nesse modelo de sociedade: o patrão detém o direito sobre o esforço produtivo do freguês por virtude de ser patrão, é algo constitutivo.