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5.6 Protégé

6.2.1 SPARQL-spørringer

Segundo Barcelos (2001), a metodologia de investigação em crenças pode ser esquematizada em torno de três abordagens de pesquisa: a normativa, a metacognitiva e a contextual. Essa divisão em três abordagens foi feita tomando por base a relação intrínseca entre crenças e ações, conforme mencionado no capítulo anterior.

A abordagem normativa prevê que a relação entre crenças e ações não seja investigada de maneira profunda, mas somente sugerida em termos mais gerais (Barcelos, op. cit., p. 77). Dessa forma, os estudos que se orientam por essa abordagem, inferem as crenças por meio de questionários fechados – do tipo

likert-scale – os quais oferecem um conjunto pré-determinado de afirmações

sobre determinado aspecto da aprendizagem de línguas e os aprendizes devem simplesmente completá-lo (ABRAHÃO, 2010, p. 219).

Uma das pesquisas mais notáveis orientada por essa abordagem é a pesquisa de Elaine Horwitz (1985), a qual desenvolveu o questionário intitulado

Beliefs about Language Learning Inventory – BALLI – que mediante o uso de um

questionário de 34 itens, investigou as crenças de professores e aprendizes sobre uma variedade de questões ligadas ao processo de ensino-aprendizagem em sala de aula (BARCELOS, 2001; BERNAT; GVOZDENKO, 2005). Tal investigação concluiu que as crenças dos participantes estavam atreladas a aspectos recorrentes, como a subestimação da dificuldade de aprender línguas, ideias equívocas sobre como as línguas são ensinadas e o valor que se atribuía à pronuncia correta, por exemplo (BERNAT; GVOZDENKO, 2005, p. 4).

Conforme demonstra Barcelos (2001), alguns estudos dessa abordagem também incluem o uso de entrevistas, porém o uso desse instrumento é feito somente para validar a atuação dos questionários no levantamento das crenças (op. cit., p. 77). A autora (op. cit.) segue afirmando que, nessa abordagem, “as crenças são vistas como obstáculos para ações que os aprendizes deveriam adotar” (idem, ibidem).

Diferentemente da abordagem normativa, a metacognitiva é concebida sobre os pilares do conhecimento metacognitivo como uma teoria de ação, que ajuda os aprendizes a refletirem sobre ações e tomada de decisões sobre sua

aprendizagem (ABRAHÃO, 2010; BARCELOS, 2001). Nessa perspectiva, a relação entre crenças e ações não recebe tanta atenção, tendo em vista que entende-se que as crenças são algo estável (ABRAHÃO, 2010, p. 220). Assim, a relação entre crenças e ações é sugerida e discutida em termos de investigação de estratégias de aprendizagem (BARCELOS, 2001, p. 80).

Além disso, essa abordagem difere da normativa quanto ao uso dos instrumentos de coleta de dados, uma vez que utiliza entrevistas semiestruturadas, autorrelatos, além de questionários semiestruturados (BARCELOS, op. cit., p. 79). Abrahão (2010) nos informa que as diferenças existentes entre as duas abordagens supracitadas residem no fato de que a abordagem normativa enquadra-se no paradigma positivista do fazer científico, ao passo que a metacognitiva e a contextual se filiam ao paradigma interpretativista nas pesquisas em ciências humanas.

Barcelos (2001) reconhece com ressalvas a importância da abordagem metacognitiva na investigação das crenças de aprendizes de LE, como o uso de entrevistas e a assunção de que as crenças podem ser vistas como conhecimento e, por isso, são parte do processo de raciocínio dos aprendizes (op. cit., p. 80). Por outro lado, a autora (op. cit.) também considera a limitação dessa abordagem ao não inferir as crenças por meio das ações, mas tão “somente através de intenções e declarações verbais” (idem, ibidem).

Mediante tal constatação, pode-se afirmar que aquilo que a abordagem metacognitiva não reconhece como princípio norteador para investigação – a inferência das crenças por meio das ações – é o norte referencial da abordagem contextual. Abrahão (2010, p. 220) defende que “[n]a abordagem contextual, as crenças são inferidas de ações contextualizadas, ou seja, as crenças são inferidas dentro do contexto de atuação do participante investigado”. Sobre isso, Barcelos (2001), grande expoente dessa abordagem de investigação em crenças, afirma que os estudos sob a égide da abordagem contextual “não têm objetivo [de] generalizar sobre as crenças, mas compreender as crenças de alunos (ou professores) em contextos específicos” (op. cit., p. 81).

Bernat e Gvozdenko (2005) ponderam que pesquisas nessa abordagem são de natureza qualitativa e pertencem ao paradigma interpretativista. Por isso, além de utilizarem variado aporte teórico na condução de suas investigações, utilizam também uma variedade de métodos – estudo de caso ou etnografia, por

exemplo – e instrumentos – observações, entrevistas, diários – para investigar as crenças no contexto de sala de aula. Reiterando essa visão, Abrahão (2010) salienta que nenhum instrumento por si só é suficiente para condução de uma investigação em crenças. Nesse sentido, deve haver a combinação de vários instrumentos de coleta de dados para que o pesquisador consiga triangular satisfatoriamente os dados e obter considerações consistentes sobre sua investigação.

Barcelos (2001) observa ainda que na abordagem contextual, as crenças são descritas como amplamente dependentes do contexto. Para tanto, as investigações devem envolver o uso de entrevistas e, especialmente, a observação de sala de aula, fator que difere essa abordagem das demais. À vista disso, a interface crenças/ações não é somente sugerida ou inferida em termos gerais, mas investigada a fundo dentro do contexto dos participantes da pesquisa.

É nesse viés de investigação que a presente pesquisa se estrutura. Desejamos nesta dissertação analisar as crenças dos aprendizes e professores de um curso de língua japonesa observando e descrevendo o contexto específico desses participantes, bem como a relação que suas crenças guardam com suas ações relacionadas à escolha e o uso do material didático para o ensino de língua japonesa como LE. Barcelos (op. cit., p.84) lembra que a escolha metodológica frequentemente emana dos tipos de perguntas que se empreende no início de uma investigação, bem como do tipo de pesquisa.

Cientes dessa definição, determinamos as perguntas de pesquisa, presentes no início deste trabalho, e direcionamos o tipo de pesquisa mediante análise do objeto de investigação. Disso, resultou esta dissertação que, dentro do paradigma interpretativista, adere aos pressupostos teórico-metodológicos da pesquisa qualitativa, que guiados pela abordagem contextual na investigação em crenças, se materializa por meio do estudo de caso que se apoia nos instrumentos de coleta de dados da entrevista semiestruturada, de observação de aulas e notas de campo, dos questionários mistos e das narrativas escritas – os quais serão explicitados nas seções seguintes.

Cumpre-nos ressaltar também que a filiação à abordagem contextual está diretamente relacionada à definição de crenças adotada na presente pesquisa, uma vez que, conforme mencionado no capítulo anterior, entendemos as crenças “como uma forma de pensamento, como construções da realidade, maneiras de

ver e perceber o mundo e seus fenômenos; (co)construídas em nossas experiências e resultantes de um processo interativo de interpretação e (re) significação. Como tal, crenças são sociais (mas também individuais), dinâmicas, contextuais e paradoxais” (BARCELOS, 2006, p. 18).

A seguir, detalharemos o contexto de pesquisa, bem como seus participantes a fim de elucidar detalhes concernentes à investigação em crenças de professores e aprendizes proposta na presente pesquisa.