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Nesta seção, apresentaremos os fundamentos do estudo de caso, cujo referencial metodológico norteou a presente pesquisa. Ressaltamos o paradigma interpretativista do estudo de caso como direcionador do olhar do pesquisador para o objeto de estudo desta dissertação.

Comecemos pela definição de caso. Para esta pesquisa, adotamos o conceito de Gillham (2000), o qual define caso como uma unidade da atividade humana situada no mundo real, a qual só pode ser estudada e entendida a partir de seu contexto de origem. O autor (op. cit.) ainda afirma que um caso existe em um dado momento da história e emerge de um contexto original, cujas fronteiras de início e fim são dificilmente determináveis em termos gerais (GILLHAM, 2000, p. 1).

À vista disso, o caso da presente pesquisa se configura em torno de dois grupos de participantes; o primeiro de aprendizes do curso de língua japonesa como língua estrangeira de uma universidade pública do Distrito Federal e o segundo grupo é composto de professores de língua japonesa do mencionado curso. Com este caso, desejamos investigar as crenças que os participantes de ambos os grupos têm em relação ao papel do material didático na formação dos aprendizes em língua japonesa como língua estrangeira (LE).

Pensando pelo lado dos aprendizes, entrevê-se que as crenças possam revelar suas visões enquanto público-alvo principal do material didático e também sobre o entendimento do material didático como uma importante fonte de insumo de língua japonesa e desenvolvimento de competências ligadas ao domínio efetivo da língua. Já pela visão dos professores, estima-se que as crenças estejam atreladas ao papel do material didático como principal ferramenta de viabilização de ensino-aprendizagem de LE no contexto da sala de aula de línguas estrangeiras.

Cumpre-nos ressaltar a validade de se estudar em profundidade um caso específico, como o mencionado acima, pois conforme descreve Stake (1994), relatos detalhados de casos e descrições ricas de fenômenos possibilitam aos leitores que se apropriem de conhecimentos por meio da generalização naturalística (STAKE, op. cit., p. 240), a qual define um tipo de aprendizagem vicária, por meio da qual as pessoas se apropriam de experiências de outrem se

identificando aos processos e fenômenos relatados, agregando esse conjunto de novos conhecimentos às suas experiências pessoais já vivenciadas (LÜDKE; ANDRÉ, 1986; MOURA FILHO, 2005; STAKE, 1994).

Dessa forma, a partir do detalhamento e da investigação deste caso, outras pesquisas na área de crenças no ensino de línguas, materiais didáticos no ensino de LE, ensino de língua japonesa no contexto brasileiro, entre outras temáticas podem surgir e possibilitar outras generalizações naturalísticas (STAKE, 1994) e disseminação de conhecimento aos leitores.

Para tanto, o estudo de caso se mostra consideravelmente importante para condução de investigações dessa natureza, uma vez que, conforme afirma Merriam (2001, p. 38-39 apud MOURA FILHO, 2005, p.106) o estudo de caso é caracterizado por conter “descrições ricas e densas que são utilizadas para desenvolver categorias conceituais ou ilustrar, apoiar, ou desafiar suposições teóricas existentes anteriormente à coleta de dados”.

Além disso, o estudo de caso possibilita uma descrição detalhada das instâncias de fenômenos ocorrendo em seus contextos naturais a partir da perspectiva dos participantes envolvidos no fenômeno (GALL, 2003). Ou seja, além de um estudo detalhado e aprofundado sobre determinado aspecto da realidade social, o estudo de caso se utiliza das visões de mundo dos participantes para procurar entender as interpretações destes sobre a realidade que os rodeia.

Gillham (2000) afirma que o estudo de caso procura investigar atividades humanas situadas em seus contextos de origem com vistas a buscar respostas às perguntas como? e por quê?. Além disso, o estudo de caso procura pautar suas investigações em diferentes tipos de evidências, tanto aquelas identificáveis no contexto do caso estudado, quanto evidências abstratas que são coletadas junto aos participantes de uma dada pesquisa. Sobre isso, Yin (2003) ressalta que investigações que se utilizam desse método, em geral, fazem parte de eventos que não são controlados pelo pesquisador, e que no processo de investigação, o pesquisador busca argumentos com base nas interpretações dos participantes para responder perguntas iniciais que geraram o estudo de caso.

Mais que isso, Yin (op. cit.) afirma que o estudo de caso permite ao pesquisador identificar características holísticas e significativas de eventos do cotidiano dos participantes (YIN, 2003, p. 2). Em diálogo com esta definição, Dörnyei (2007) define o estudo de caso como método que oferece ricas e

aprofundadas intravisões que nenhum outro método de pesquisa é capaz de produzir, permitindo que o pesquisador examine a natureza intrínseca que ajuda a modificar o mundo social ao redor (DÖRNYEI, op. cit., p. 135, tradução nossa). Do exposto, o estudo de caso empreendido na presente pesquisa é centrado na definição proposta por Merriam (1998, p. 16), a qual entende o estudo de caso qualitativo como:

[...] uma descrição intensiva, holística e analítica de uma entidade, fenômeno ou unidade social. Os estudos de caso são particularistas, descritivistas, heurísticos e se apoiam fortemente em um raciocínio indutivo ao lidar com as múltiplas fontes de dados.

A assunção desse método de investigação para a presente pesquisa não parte de uma preferência do pesquisador, mas sim da natureza do objeto investigado, conforme declara Stake (1994). Nesse sentido, desenvolvemos o presente estudo de caso sobre as crenças e ações de professores e aprendizes sobre o papel do material didático no ensino de língua japonesa como LE no contexto de uma universidade brasileira pública com o objetivo de traçar uma descrição holística, fundamentada e pautada nos instrumentos de coleta de dados dos participantes, como os questionários mistos, narrativas escritas, entrevistas semiestruturadas e notas de campo, os quais serão melhor descritos na seção 3.5 deste capítulo.

Nesse sentido, o conhecimento do contexto, dos fenômenos que ocorrem em sala de aula de língua japonesa como LE, bem como a investigação dos significados que os participantes atribuem a esse conjunto de elementos são fundamentais e demandam o aporte metodológico do estudo de caso, por todos os motivos expostos anteriormente. Além disso, Stake (op. cit.) ainda afirma que é preciso entender a que tipo de estudo de caso determinada pesquisa se classifica. O autor (op. cit.) propõe três modalidades de estudo de caso:

1) Intrínseco: é o estudo empreendido a fim de entender a natureza intrigante de um caso particular, ou seja, é relevante não porque representa características de outros casos, mas sim, porque o caso por si só é valioso e interessante;

2) Instrumental: é um tipo de estudo de caso que lança um olhar para questões mais amplas, as quais facilitam o entendimento de questões ainda maiores e mais complexas; e

3) Múltiplo ou coletivo: esse tipo de pesquisa não tem interesse em um caso particular, mas sim em um número de casos que são estudados paralelamente a fim de investigar um fenômeno ou uma condição geral.

Nesse sentido, entende-se que o presente estudo de caso se classifica na tipologia múltipla, uma vez que investiga as crenças sobre o papel do material didático de ensino de língua japonesa de professores e de aprendizes, desejando identificar as características típicas do contexto de sala de aula de LE. Além disso, busca-se descrever as interpretações e visões de mundo que os participantes guardam sobre o processo de ensino-aprendizagem de língua japonesa ancorado no material didático escolhido para conduzir esse processo. Essa investigação pretende suscitar o entendimento de como essas crenças contribuem com as ações relativas à escolha e uso do material didático em sala de aula.

Por se tratar de um tópico de alta complexidade e dinamicidade, como é a investigação em crenças no ensino de línguas, lançamos mão de metodologia específica de investigação, a qual será abordada com maiores detalhes na próxima subseção. Ressaltamos que essa metodologia de investigação em crenças dialoga plenamente com os pressupostos de pesquisa qualitativa expostos anteriormente, bem como com a condução da pesquisa presente apoiada no aporte metodológico do estudo de caso, descrito logo acima.

3.3. METODOLOGIA DE INVESTIGAÇÃO EM CRENÇAS SOBRE O ENSINO-