O protagonismo idoso na Europa é, sem dúvida, um movimento mais forte e mais antigo do que, de maneira geral, vemos na América Latina e no Brasil. De fato, seguindo os passos dos Estados Unidos, onde os movimentos e associações de aposentados já têm uma longa e intensa história de lutas e conquistas, na Europa Ocidental o envelhecimento demográfico, que acontece a muito mais tempo do que na América Latina, por exemplo, aumentou significativamente o número de idosos e estes, por sua vez, aumentaram seu peso político e entraram num processo de empoderamento nesses países.
O amadurecimento das massas, como viemos defendendo, não diz respeito somente ao aumento do número de idosos. Na verdade, as mudanças sociais, culturais e políticas, são difíceis de serem previstas posto que é a primeira vez na história da humanidade que teremos tantos adultos maduros. Além disso, é também inédito o fato desse coletivo vir mudando tanto o seu perfil e conquistando ganhos claros nos quesitos educação e renda, por exemplo. Como conseqüência, os idosos, historicamente sujeitos sem voz, passam a se fortalecer e aumentar seus mecanismos de representação. Esse fenômeno na Europa é conhecido como o “poder gris”, o que numa tradução literal para o português seria “poder cinza”:
O poder gris se percebe, essencialmente, como força política nas fases mais visíveis dos lugares de encontros democráticos que são as eleições ou os debates sobre as reformas da política social. A atenção se concentra, então, no poder eleitoral dos aposentados e na sua instrumentalização para a manutenção dos direitos adquiridos e uma melhor integração das necessidades vinculadas à idade nas políticas públicas (Trad. livre) (DURANDAL, 2002, p. 16).
Nesse contexto, Durandal (2002) argumenta que as associações de aposentados se tornaram a parte mais forte do movimento associativista idoso na Europa. As tensões em torno do sistema de seguridade e previdência social transformaram, conforme o autor, esses movimentos em grupos de pressão que ganharam peso político e social, além de, grande espaço nos meios de comunicação de massa. Esses grupos de idosos se organizaram no continente Europeu, especialmente a partir da década de 80, e adotaram formas comunitárias diversas, como: partidos políticos, associações e movimentos sociais.
Para Gil Calvo (2003), o poder gris é a maneira dos idosos mostrarem que não se resignam mais e nem se calam no epicentro da espiral do silêncio. Deixam sua
inferioridade numérica do passado e ganham em volume quantitativo e qualitativo na disputa pelos espaços de poder.
Mas a ação dos grupos de pessoas idosas para atuar no seu entorno não se limita às atividades de pressão sobre o poder político. Uma parte das respostas também pode ser elaborada diretamente por esses próprios grupos. Mais além da auto-organização e administração dos dispositivos de ajuda e da ajuda mútua, também podem transformar suas queixas em pretensões políticas (Trad. livre) (DURANDAL, 2002, p. 19).
Ou seja, os grupos de idosos entraram para cena política e social como protagonistas lutando por uma causa complexa, a qual nem de longe se resume à luta contra o poder político, já que na pauta deles, inclusive dos movimentos dos aposentados, está igualmente a luta pelos direitos culturais desse grupo etário.
Segundo Durandal (2002), na Europa esses grupos de pessoas idosas levam suas organizações para além do âmbito estatal, as tramas dessa rede social reconfiguram a engenharia social da Europa na medida em que os grupos de idosos se organizam também ao nível da União Européia - UE. Além disso, esse autor reforça que algumas dessas organizações de idosos chegam também ao âmbito internacional mais complexo se envolvendo em projetos com a Organização das Nações Unidas.
No que concerne a Espanha, praticamente não existem trabalhos de investigação que se detenha sobre o exercício do protagonismo idoso nesse país. Em geral, os trabalhos tratam desse protagonismo ao nível da União Européia. Contudo, a Espanha, assim como os outros países da Europa Ocidental, também testemunha a emergência do poder gris.
Como evidência desse fato, podemos citar as inúmeras associações de aposentados e de idosos. Uma especial, conhecida como Unión Democratica de Pensionistas – UDP, a qual tem mais de 1.700 associações e mais de um milhão de pessoas associadas em toda a Espanha. A UDP deixa claro em seu estatuto que é uma: “(...) Associação de idosos ativos criada em 1977 por e para idosos, com vocação de ajudar a este coletivo a resolver seus problemas e lutar por seus interesses (UDP, 2008).
A aprovação da Ley de Dependencia foi, como colocamos anteriormente, em grande parte esforço dos grupos de idosos espanhóis e outros que apóiam a causa deles na defesa dos interesses desse coletivo. Como colocamos, a dependência passou a entrar na pauta dessas organizações e do Governo Espanhol como um dos temas principais, posto que ela
aumenta à medida que cresce o número de idosos e as políticas de proteção às pessoas com dependência beneficiam diretamente ao grupo das pessoas com 65 anos ou mais de idade.
A despeito do movimento dos idosos ter ganhado força na Europa, a situação na Espanha não é a mesma. Sem dúvida, o que colocamos até aqui revela que a luta pelos direitos da terceira idade tem surtido efeito, contudo o movimento ainda é incipiente. Como uma evidência desse fato, apontamos a falta de bibliografia na área. Na verdade, apesar de escassas, há publicações espanholas importantes sobre o poder gris, porém se debate o conceito, mas não se reflete sobre o associativismo idoso no país. Feito que realizamos, ainda que sob condições limitadas, sobre o Brasil, no capítulo anterior.
Como prova, há duas publicações importantes chamadas de ¿El poder gris? (tomo I e II), editada pelo IMSERSO, que discutem e apresentam casos da força política dos idosos em diversos países da Europa e das Américas. Apesar das obras serem européias, e terem sido traduzidas para o espanhol, não há estudos de caso sobre a Espanha.
Outra pista fundamental que encontramos foi um estudo dos pesquisadores Sousa, Marinho e Rodríguez Ávila (2008) sobre o periódico El País – atualmente o jornal impresso como maior tiragem na Espanha. Essa pesquisa analisou três anos – 2005, 2006 e 2007 – de todo o material jornalístico do periódico, especificamente os meses de janeiro e julho, que tratasse de idosos e terceira idade. O objetivo do trabalho era tentar identificar quais eram os interlocutores privilegiados desse jornal quando o tema é terceira idade. Ou seja, quem os jornalistas reconheciam como fonte importante quando se referiam a esse assunto.
As conclusões da pesquisa nos trazem informações importantes. Das mais de 200 matérias analisadas, menos de 10% traziam entrevistas com idosos, a qual não nos deixa dúvida de que para o jornal, mesmo que o tema seja idoso, ele não é um interlocutor privilegiado. Em segundo lugar, menos de 5% desse material trazia entrevistas ou faziam menção às associações de idosos e/ou aposentados (seja programas de terceira idade e/ou movimento de aposentados), o qual revela que, ou essas instituições não pautavam o jornal ou, em caso extremo, eram boicotadas por ele.
Em todo caso, o que queremos afirmar é que esse protagonismo idoso e essas representações da terceira idade na Espanha acontecem de maneira muito diferente do Brasil. Muito mais tímida, talvez até menos organizada. O associativismo idoso na Espanha demonstra que o rápido envelhecimento demográfico do país não foi
acompanhado com a mesma rapidez pelas instituições de defesa dos direitos da pessoa idosa.
Encerramos esse capítulo acreditando que construímos um panorama geral do envelhecimento demográfico espanhol, do perfil dos idosos nesse país e da possibilidade do exercício do protagonismo que esse grupo etário pode lançar mão.
Assim colocado, cremos que completamos o nosso percurso teórico e contextual sobre o amadurecimento das massas. Portanto, cabe agora nos debruçar sobre a nossa segunda palavra-chave: a Internet.