3 Personer med utenlandsk landbakgrunn i det norske forskningssystemet
3.2 Utenlandske forskere i Norge per 2001
Durante minhas vivências de aprendizado no Sesi, foi-me proporcionado também a participação em festivais de música. Destaco os festivais na cidade de Teresópolis, no Rio de Janeiro, nos anos de 1978 e 1979, como também o Festival de Campos do Jordão, em São Paulo, em 1980.
Em 1978, em Teresópolis, tive o prazer de conhecer o responsável pelas aulas de violino, o violinista Santino Parpinelli, um senhor simpático e que conhecia com profundidade a técnica do violino. Ele sempre nos incentivava ao estudo desse instrumento com belas palavras sobre o violino, apresentando a técnica violinística e tocando para nós.
No ano seguinte, em 1979, retornamos para participar de outra edição do festival de Teresópolis e reencontramos o professor Parpinelli. Em uma das aulas, cheguei cedo e, conversando um pouco com ele, perguntei se ele não teria um violino para me presentear. Ele disse que ia pensar e depois responderia. No dia seguinte, meus amigos me informaram que o professor Parpinelli havia perguntado por mim. Fui ao seu encontro e lá estava ele com o violino para me presentear. Era um violino francês de marca Jeronime Thibouville. Ao receber a notícia, meu coração disparou. Indescritível foi a sensação vivida naquele momento.
Junto com o violino estava uma carta8 para meus pais, aconselhando-os a me incentivarem a continuidade do estudo desse instrumento, afirmando que eu possuía talento. Quando retornei a Fortaleza, mostrei o violino e a carta para minha mãe. Ela ficou muito emocionada e chorou.
Considero importante ressaltar esse acontecimento relacionado ao violino, porque o Sesi não permitia que os alunos do Projeto Jaffé levassem os instrumentos para casa. Além das aulas, a prática individual com o instrumento musical era realizada no prédio da instituição. Com a aquisição do violino, foi possível praticá-lo por mais tempo, e posso descrever também que a responsabilidade/o estímulo em prosseguir no aprendizado da técnica do violino aumentou em grande medida.
Destaco, ainda, que o professor Parpinelli me fez o convite para estudar com ele no Rio de Janeiro; entretanto, minha mãe não permitiu. Na época, eu ainda não havia alcançado a maioridade, devendo seguir ainda as decisões orientadas por ela. Sua justificativa para não permitir minha ida para estudar violino na capital fluminense foi a distância entre as duas cidades (cerca de 2.500 quilômetros), o que, consequentemente, me deixaria muito tempo afastado dela.
Parpinelli, esse distinto senhor, na época do festival era um renomado professor de violino da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Esse destaque é lembrado pela universidade, quando, recentemente, fez uma homenagem póstuma a ele, como mostra a Figura 9.
Figura 9 – Cartaz de evento em homenagem a Santino Parpinelli
Fonte: <www.aexpemufrj.com.br>.
Esses professores, ao fazerem parte de nossa trajetória, nos deixam profundo legado em relação à música. No meu caso, sou agradecido por sua contribuição na minha inserção no meio musical profissional e acadêmico.
O ano de 1980 foi importante na minha vida. Chegava, então, o ano em que eu deveria tomar uma decisão acerca da profissão que eu deveria seguir – provavelmente, por toda a minha vida. Estava no 3º ano científico, correspondendo, nos dias de hoje, ao 3º ano do ensino médio. Durante a elaboração desta tese, voltei a perguntar a minha mãe sobre os encaminhamentos e questionamentos que me envolviam naqueles difíceis dias de tomada de decisão. Ela me relatou que continuava a me incentivar no caminho da música; entretanto, lembra-se de que meu pai aconselhava que eu procurasse me envolver no concurso para funcionário do Banco do Brasil ou tentar o curso de Direito e me transformar em um futuro advogado.
No mês de julho desse mesmo ano, fui contemplado com uma bolsa de estudo para o Festival de Música de Campos do Jordão. Durante esse evento, tive a oportunidade de participar de uma orquestra de alunos sob a regência do famoso Eleazar de Carvalho. Foi um período enriquecedor do ponto de vista de um músico instrumentista que olhava para um futuro exercendo um papel de músico de orquestra, pois a prática em uma orquestra, naquele momento, orientava minhas escolhas.
Durante o festival, as apresentações musicais que aconteciam no início da noite influenciaram-me bastante como aspecto norteador nesse momento de minha vida. Tive a oportunidade de assistir ao vivo e bem próximo de onde eu estava sentado o violinista do alto escalão da performance, Salvatore Accardo9. Assistir a esse ilustre violinista deixou profundas marcas em meu aprendizado por contemplar sua fabulosa técnica de arco, interpretando o concerto para violino e orquestra em Ré Maior de Ludwig van Beethoven com a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp). A orquestra ainda tocou a abertura da opera “O Guarani”, do compositor brasileiro Carlos Gomes, que acelerou meus batimentos cardíacos pelo harmonioso diálogo entre os naipes dos metais e das cordas friccionadas, proporcionando uma bela e rara estética musical.
Assim, ao internalizar um habitus violinístico inicial, mediante aquisição do capital cultural (partituras, aspectos técnicos do violino), gradativamente, fui me habilitando a
compreender a linguagem desse campo musical. Desse modo, foi possível apreciar as aulas de violino, as apresentações musicais, e aplicar esse conhecimento em minha elaboração musical. Nesse sentido, posso garantir que a experiência no Projeto Jaffé e a participação em festivais de música foram importantes para minha inserção no campo da música. De tal maneira, ao discutir essas questões do diálogo entre um agente e um campo, Martins (2004, p. 2) esclarece que:
Quanto ao ganho cognitivo que tal teoria oferece, ele pode ser visto como uma tentativa de evidenciar que ali onde pensávamos que havia um sujeito livre, agindo de acordo com sua vontade mais imediata, na verdade o que existe é um espaço de forças estruturado que molda a capacidade de ação e de decisão de quem dele participa.
As emoções vivenciadas nas diversas apresentações musicais, que influenciaram minha decisão de seguir esse caminho como profissão, não aconteceram de súbito, foi um decurso gradativo. Com esse entendimento, a citação ajuda-me a compreender o diálogo que travei com os espaços sociais onde experimentei o aprendizado em música. O curso de violino no Sesi, como também os festivais de música depositaram em meu interior um saber musical que orientou minhas práticas. Em outras palavras, “a sociedade torna-se depositada nas pessoas sob a forma de disposições duráveis e propensões estruturadas para pensar, agir, que então as guiam em suas respostas criativas aos constrangimentos e solicitações de seu meio social existente” (COSTA, 2013, p. 13).
Em uma época em que meu interior encontrava-se tempestuoso acerca do caminho a seguir após o término do ano escolar, a teoria do campo e do habitus de Bourdieu esclarece o processo de como fui (agente) me inserindo no campo musical.
Ao descrever essa realidade de aprendizado musical por intermédio dos festivais, considero pertinente dialogar também com a tese do professor Pedro Rogerio (2011, p. 30, grifos do autor), da UFC, que discute o deslocamento físico realizado pelo músico por meio das viagens. Ele afirma que
A questão social que se move se dá em termos de socialização, ou seja, no desafio de conviver com um habitus diferente daquele que lhe é familiar (e isso gera aprendizagens). Nessa perspectiva a imbricação com a mobilidade espacial é inevitável. É possível identificar a questão da “mobilidade social” como espaço de trocas.
Ao conviver com professores e alunos de outras regiões do país, pude perceber que o conhecimento técnico violinístico que praticávamos estava aquém do exercitado pelos violinistas (professores e alunos) com os quais convivíamos nos festivais. Apesar do meu distanciamento técnico instrumentista em relação ao cenário apresentado pelos artistas nesses festivais, minha presença nesses eventos me motivava a procurar alcançar um nível mais alto na performance do instrumento.
Esse espaço de convivência e de trocas despertou também em mim a necessidade de realizar escolhas, tomar decisões. O contato com o aprendizado do violino, da prática de orquestra no Projeto Jaffé, da prática de orquestra nos festivais de música e a presença frequente em concertos durante os festivais desenvolviam em meu interior um habitus violinístico. Ao comentar acerca dos conceitos de campos, habitus e capitais, Rogerio (2011, p. 42) esclarece:
O Habitus – na qualidade de uma lente de leitura do mundo organiza e orienta as
escolhas, as práticas dos agentes – é um sistema de disposições que se fomenta em
um espaço social estruturado; também é possível verificar que são essas práticas estruturadas que estruturam o espaço social em campos de atuação diferenciados, que se distinguem conforme a estrutura (volume e distribuição de capitais). Dependendo do campo social em que o agente desenvolve sua trajetória, suas
práticas serão mais ou menos valorizadas. Logo, podemos afirmar que habitus,
campo e capitais são homologamente estruturas estruturadas e que as práticas
advindas desse habitus são, também, estruturas estruturantes do campo e dos
capitais.
Ao refletir sobre a citação, lembro-me de que as experiências vivenciadas em festivais me faziam perceber que em Fortaleza tínhamos a impressão de que o capital cultural acumulado era volumoso, aprofundado acerca da prática no instrumento; entretanto, ao observar outros instrumentistas, pude verificar que tínhamos pouco capital cultural. Assim, ao ser inserido em um campo musical proporcionado pelos festivais, foi possível notar que, para alcançar um nível técnico violinístico e tocar em uma orquestra profissional, era necessário migrar para outras regiões mais desenvolvidas no mundo da música.
Até esse ponto de minha trajetória, eu havia adquirido um determinado capital cultural, distribuído em dois dos três estados. O capital cultural incorporado mediante um trabalho de inculcação e de assimilação através das aulas de violino, dos ensaios e das apresentações musicais na orquestra, como também de minha prática individual. Adquiri, também, um capital cultural objetivado quando ganhei do professor Parpinelli um instrumento musical e obtive partituras fornecidas pelo Sesi e pelos festivais dos quais participei. Embora
não houvesse adquirido o capital cultural institucionalizado (diplomas e/ou certificados na área de Música), esse investimento habilitou-me a prosseguir estudos na área de Música, prestando vestibular para o curso de bacharelado em Música da UFPB. Ressalto, ainda, que o bacharelado exige o teste de aptidão e, sem os conhecimentos prévios adquiridos, eu não estaria habilitado a participar do processo de seleção.