Em minha dissertação de mestrado, foi possível compreender como se deu esse processo de aprendizagem do violino, como também ocorreu o desenvolvimento da percepção do diálogo entre os sons produzidos pelos instrumentos da família das cordas friccionadas. Antes de continuar a descrição, é importante ressaltar que, nessa época, já se aproximava o período em que eu necessitaria escolher uma profissão. Desse modo, simultaneamente, eu aprendia um instrumento e refletia sobre meu futuro. Quando iniciei meus estudos musicais com o violino, não pensava em profissão; entretanto, minha inserção no campo musical incitou-me a visualizar um panorama e influenciou, em grande medida, as minhas futuras escolhas. Nessa perspectiva, procuro descrever o processo de incorporação de um habitus inicial violinístico, considerando também a constituição de um gosto profissional.
Na primeira aula de violino, observei que era proporcionado ao aluno o conhecimento das partes integrantes de cada instrumento. Jaffé dava atenção a cada detalhe, começando pelas cordas, com seus nomes e sons, e sendo numeradas das agudas para as graves. Tendo como exemplo o violino: a mais aguda seria a corda Mi; a segunda, a Lá; a terceira, a Ré, e a quarta corda é a Sol, como mostra a Figura 1.
Figura 1 – Cordas do violino
De igual modo, na viola e no violoncelo, a mais aguda é a corda Lá, a segunda corda é a Ré, a terceira é a Sol e a quarta é a corda Dó. No contrabaixo, a primeira é a Sol, a segunda é a Ré, a terceira é a Lá e a mais grave, que é a quarta corda, é a Mi. Jaffé, criteriosamente, apresentava as partes que compõem cada instrumento, como demonstradas nas Figuras 2, 3 e 4, a seguir.
Figura 2 – Violino e viola
Fonte: Silva (2008).
Figura 3 – Violoncelo
Figura 4 – Contrabaixo
Fonte: Silva (2008).
Essa ideia de mostrar as partes que constituem cada instrumento produzia no aluno uma atração para os contatos iniciais com ele. Isso acontecia porque o aprendiz começava a compreender cada parte do instrumento, bem como suas funções e manuseio. Esse conhecimento era responsável pela maior familiarização do aluno com o instrumento escolhido.
Em seguida, era mostrada a maneira de posicionar o instrumento junto ao corpo, de modo que fosse proporcionado melhor ajustamento, buscando, assim, tornar seu desempenho mais confortável. Jaffé ensinava que o violino deveria ser colocado sobre o ombro e a mandíbula encaixada, acomodada na queixeira, e os alunos deveriam encontrar uma posição adequada segundo sua estrutura corpórea. E assim, para cada instrumento, o aluno recebia a devida instrução a fim de proporcionar boa e agradável execução.
Essa perspectiva, tão valorizada por Jaffé, de fazer com que o aluno ficasse relaxado no momento em que executava o instrumento, é compartilhada por Cruzeiro (2005), que observa, no contexto da execução de instrumentos musicais, o envolvimento de fatores emocionais, cognitivos e motores. Assinala também que toda rigidez e qualquer imobilidade de qualquer parte do corpo impedem movimentos naturais e causam desconforto.
As primeiras aulas eram voltadas para desenvolver uma familiaridade com o instrumento. Inicialmente, formavam-se grupos de oito até dez alunos para aprender a segurar
o instrumento. Se um determinado aluno não conseguia e o outro tinha sucesso, isso servia de estímulo para o que tinha dificuldade perceber que também poderia fazê-lo.
Jaffé utilizava, como princípio, as semelhanças dos instrumentos. Conseguiu unir essas semelhanças para poder ensinar distintos instrumentos em um mesmo momento. Ou seja, todos tinham corda Lá, portanto todos poderiam iniciar o treinamento de um mesmo ponto de partida. Aplicando a mesma digitação, tocavam a mesma melodia. Tendo em vista que se tratava de um método de iniciação para instrumentos de cordas, entende-se que essas semelhanças constituem um modo de unir todos os quatro instrumentos em uma mesma sala de aula.
A primeira melodia introduzida no Método Jaffé é composta de duas notas, como sugere o próprio título: “Lá-Si-Lá”. Embora sejam apenas duas notas, elas estão combinadas de maneira a sugerir ao executante que perceba a melodia como uma música e não apenas como um exercício. Primeiro, o professor ensinava a melodia com uma letra para que fosse cantada pelos alunos: “Lá – Si – Lá, Lá – Si – Lá, ouça o som do Lá – Si – Lá”.
Essa técnica desenvolvia no aluno duas habilidades simultâneas. Primeiro, ele memorizava a melodia e, em um segundo momento, relacionava a letra da música com as notas tocadas no instrumento4. O exemplo a seguir mostra a partitura dessa melodia, que é tocada utilizando-se apenas a corda Lá.
Exemplo 1: “Lá-Si-Lá”.
Seguindo-se a convenção de notação musical, a nota Lá está representada por um zero, pois não há digitação; enquanto a nota Si é representada pelo número 1, visto que tem a digitação do primeiro dedo. Ao ser indagado sobre a composição desse exercício, o professor Jaffé relata:“[...] Lá – Si – Lá foi a forma que encontrei para colocar um dedo na corda. Não acredito que possa me considerar autor”.
De acordo com a proposta de Jaffé, inicialmente a música é exercitada em forma de pizzicato5. Tal escolha decorre da complexidade de movimentos requeridos para produzir som com o arco. Para o iniciante, é mais fácil tocar em pizzicato. Tal complexidade é em parte consequência da coordenação exigida no movimento da mão esquerda, dedilhando as notas sobre as cordas, e da mão direita, executando o movimento de arco. Ao realizar o pizzicato,no entanto, o aluno preocupa-se apenas com um desses movimentos para aprender a dominá-lo. Depois que ele aprendia a tocar em pizzicato, o próximo passo era aprender a utilizar o arco, sendo, assim, ensinado: com o dedo polegar na curva entre a almofada e o talão; o dedo indicador acomodado na almofada do arco, na região da falange;o dedo médio, na lateral do talão, assim como o anelar; e a ponta do dedo mínimo relaxada sobre a vareta do arco, como mostra a Figura 5.
Figura 5 – Segurando o arco
Fonte: Silva (2008).
Após os alunos dominarem essa técnica de segurar o arco, este é posto sobre a corda. Nesse momento, o objetivo principal dos alunos é conseguir sincronizar o movimento dos dedos da mão esquerda com o movimento do arco. A melodia executada é a mesma que fora praticada na forma de pizzicato, no caso, na corda Lá. Cumprida essa etapa, o aluno é então levado a tocar a música “Lá-Si-Lá”, buscando extrair dos instrumentos seus primeiros sons com o arco. Jaffé entende que, quando o aluno vence cada etapa, ele se sente estimulado a retornar para a próxima aula. Desde o momento em que os alunos dominam essa prática no primeiro exercício, Jaffé aplica o mesmo exercício em outras cordas. Nessa ocasião, os alunos utilizam a digitação do primeiro dedo e a corda solta, para que comecem a se familiarizar com o instrumento. Observa-se que os alunos até esse ponto da aprendizagem ainda não decifram os símbolos musicais e tocam pelo processo de ouvir, ver e repetir. O aluno torna-se autoconfiante aos poucos, ao perceber que é capaz de tocar um instrumento.
Nas aulas seguintes, eram relembradas as anteriores, confirmando no aluno os conhecimentos aplicados sobre postura, digitação e a técnica de segurar o arco. Essas habilidades não são desenvolvidas rapidamente, pois requerem tempo e prática. Nesse caso específico, o processo tornava-se ainda mais lento, porque os alunos não possuíam instrumento próprio. Para compensar essa deficiência, Jaffé ministrava de três a quatro aulas por semana.
Os dois próximos exercícios receberam de Jaffé os títulos de “Maria Chinesa” e “Maria Japonesa”. A escolha dessas melodias é assim justificada pelo professor: “Maria Chinesa e Maria Japonesa são partes de melodias muito conhecidas, usadas para desenhos animados, o que me animou para incentivar os alunos com melodias familiares para eles”. Completa ainda: “Não há nenhuma razão especial para a escolha desses nomes. Foi o primeiro nome que me surgiu. Uma era para ensinar o Dó natural e a outra, o Dó sustenido. Achei que as melodias tinham um toque oriental”6.
Exemplo 2: “Maria Chinesa”.
Nessa melodia, o aprendiz acrescenta o segundo dedo, articulando o mais próximo possível do primeiro dedo. Ainda na corda Lá – a nota Si digitada pelo primeiro dedo e a nota Dó digitada pelo segundo dedo –, demonstrava-se o intervalo de semitom. Essas duas notas devem ser digitadas com os dedos juntos. A falta de flexibilidade dos dedos e a rigidez da mão esquerda geravam dificuldade em posicionar o segundo dedo junto do primeiro e nem sempre se conseguia colocar os dedos tão juntos. Essa dificuldade é observada apenas no violino e na viola. Provavelmente esse é um dos motivos que levam vários professores a iniciar o aprendizado da digitação com o segundo dedo no Dó sustenido, promovendo assim uma situação mais confortável para o aluno.
Quando Jaffé observava alguma dificuldade dos alunos em juntar os dedos para a execução da música,usava de seu bom humor para incentivá-los. Ele costumava dizer: “tem que deixar os dedos vizinhos, colados”7.
Superada essa dificuldade de flexibilidade dos dedos e, por conseguinte, a execução desse segundo exercício, partia-se para a próxima música, “Maria Japonesa”.
Exemplo 3: “Maria Japonesa”.
Nessa melodia, diferente da anterior, no violino e na viola, o segundo dedo é digitado afastado do primeiro, pois o intervalo entre as duas notas é de um tom. Já no violoncelo e no contrabaixo, esse intervalo é representado entre o primeiro e o terceiro dedo.
O exercício que se seguia era “Barquinha ligeirinha”. Segundo Jaffé, o objetivo dessas pequenas melodias era colocar cada um dos dedos na corda. Nessa música, exercitava- se o acréscimo do terceiro dedo no violino e na viola e do quarto dedo no violoncelo e no contrabaixo.
A aplicação dos exercícios era feita em duas etapas. Na primeira, Jaffé ensinava as músicas por naipes, ou seja, cada instrumento separadamente; em seguida, reunia toda a família das cordas e praticavam juntos. Até então os alunos estudavam ouvindo o bloco sonoro de seu naipe de instrumento. A seguir, com a reunião de todos os instrumentos de uma orquestra de cordas tocando ao mesmo tempo, eles ouviam a sonoridade característica, constituída de sons graves e agudos.
A grande vantagem desse procedimento é que, no lugar de ouvir o som precário que os principiantes geralmente produzem individualmente, os alunos ouviam na massa sonora um som mais agradável. Jaffé acreditava que essa percepção servia como uma espécie de estímulo para que não desanimassem. Assim, os alunos progrediam juntos até o ponto de dominar a técnica do instrumento o melhor possível dentro de suas capacidades.
É importante ressaltar a noção de que o método é aplicado para alunos iniciantes, portanto eles estão em um decurso de aprendizado e ainda não estão aptos a identificar desafinações com precisão. Essa habilidade deve ser desenvolvida no ensino individual, quando poderão melhorar a própria afinação e a sonoridade.
A próxima música era uma canção infantil francesa, também utilizada no método Suzuki, com o título de “Ah ! vous dirai-je maman” (“Twinkle, twinkle, little star”; “Brilha, brilha, estrelinha”).
Nessa melodia, o aluno emprega também a digitação dos três primeiros dedos. Diferentemente das músicas anteriores, nessa peça, porém, o aluno trabalha em duas cordas e todos tocam em uníssono. Na próxima etapa desse processo, o tema trabalhado no exercício anterior é orquestrado em várias vozes. A figura rítmica continuava sendo a mesma, porém as notas eram diferentes.
Exemplo 6: “Ah ! vous dirai-je maman”, polifônico.
Nesse momento, os aprendizes não tocavam mais em uníssono, mas com uma diversidade de sons com a qual não estavam acostumados. Com efeito, cada naipe tocava em uma parte diferente. Se, no princípio, todos tocavam as mesmas notas, nesse momento, e pela primeira vez, Jaffé iniciava a diversificação de vozes. Não havia mais uma única voz e sim uma grande massa sonora, harmoniosa, formada por várias vozes. Embora Jaffé aplicasse os
exercícios anteriores em outras cordas além da corda Lá, que era comum aos instrumentos, nesse tema, os alunos tocavam em outras cordas pela própria necessidade da música.
O exemplo a seguir, “A carruagem”, é uma melodia tradicional americana que tem como objetivo praticar a articulação e também a mudança de corda.
Percebia-se a dificuldade que tinham os estudantes de praticar esse exercício, visto que pela primeira vez os aprendizes utilizavam a prática de mudança de corda, a qual exigia um pouco mais de habilidade. Embora houvesse dificuldade, o ânimo de tocar o instrumento estava nesse momento muito aguçado e havia um esforço muito grande por parte dos alunos em superar tais dificuldades. Considerando que o movimento de braço para a execução da mudança de corda necessitava de treino, o professor Jaffé intensificava essa prática. Quando seus alunos compreendiam e dominavam o movimento de mudança de corda, outros exercícios eram aplicados para desenvolvê-los no domínio do instrumento. O exemplo a seguir foi criado pelo professor Jaffé para desenvolver arcadas.
O exercício demonstra como Jaffé abordava a técnica de arco. Durante as aulas, ele fazia variações na arcada, alternando notas ligadas com notas soltas para desenvolver a técnica de arco. A prática era assim trabalhada:
1) praticava-se com todas as notas soltas; 2) com duas notas ligadas e duas soltas; 3) com duas notas soltas e duas ligadas;
4) com uma nota solta, duas ligadas e uma solta; 5) de quatro em quatro ligadas.
A fase seguinte do método trabalhava melodias tradicionais de alguns países e também músicas do repertório erudito. São arranjos para orquestra de cordas com um maior grau de dificuldade do que até então havíamos vivenciado. Cito, por exemplo, o tema da sinfonia “Novo mundo”, do compositor Antonín Dvořák; “A caça”, de Nicolo Paganini; do tema da “Barcarolle”, de Offenbach; da “Marcha nupcial”, de Mendelssohn, entre outros. Na imagem seguinte, exemplifico essa prática por meio da música “A caça” (“The hunt”), versão facilitada da melodia de uma música para violino solo do compositor Niccolo Paganini.
Figura 6 – “A caça”
Fonte: Jaffé Strings Program.
Na sequência, a versão original dessa mesma peça, que traz elevado grau de dificuldade técnica. A peça exige um domínio da técnica de cordas duplas, técnica de arco
sofisticada, executada apenas por instrumentistas de alta performance. Portanto, é exigido do violinista uma performance experiente e qualificada para a execução dessa melodia, como mostra a imagem da Figura 7.
Figura 7 – “A caça”
Fonte: Arquivo pessoal.
Na Figura 8, apresento outro exemplo de música com uma versão facilitada do repertório da música erudita.
Figura 8 – Tema da sinfonia “Novo mundo”
Nessa versão, o aluno iniciante poderá tocar a melodia sem grandes dificuldades. É o tema de uma sinfonia muito conhecida no mundo da música erudita. Reproduzir no violino essas melodias que fazem parte do repertório da música de concerto tinha um significado especial, ou seja, o de se apropriar de algo que até então só era visto na televisão.
Com efeito, minha experiência musical ia me aproximando de uma vivência mais sofisticada da prática de orquestra. É perceptível que o professor Jaffé escolhia um repertório baseado na música de concerto. Desse modo, o olhar dos estudantes do Projeto Jaffé direcionava-se para um gosto musical proporcionado pela música erudita. Cada etapa desse aprendizado me direcionava para uma futura escolha na área da música em especial, uma carreira violinística. Apesar de todo esse aprendizado, até esse momento de minha vida ainda não era claro que uso seria feito de todo esse conhecimento musical.
Outro aspecto importante nesse processo de formação é a minha participação em festivais de música, que destaco a seguir.