Esta questão leva em conta, não somente as características estruturais ou gramaticais, mas o conjunto histórico que impulsionou o aparecimento deste pidgin/crioulo. Começando pelo pidgin. O conteúdo histórico-social é tão importante quanto o conteúdo lingüístico. Para os estudos da sociolingüística, a relação língua e sociedade é a regra geral. Considerando que a crioulística e a pidginística estão subordinadas ao escopo maior dos estudos da língua em relação à sociedade, ou seja, da Sociolingüística, fica assim justificada a importância do conteúdo sócio-histórico apresentado no capítulo primeiro. Partindo da relação entre língua/sociedade e crioulística, apresentamos a definição de pidgin como
“um a língua de em ergência, que surge quando povos falantes de línguas m utuam ente ininteligíveis entre si entram em contato estreito. Por definição, ela não é língua m aterna de ninguém , um a vez que só é usada na situação de contato” Couto (2002, p.7)
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Na acepção acima, o autor evidencia a condição sociolingüística do contato marcada pela não inteligibilidade dos falantes envolvidos neste contato.
Existem características sociolingüísticas que emergem em razão dessa situação inusitada do contato lingüístico, algumas delas são mais favoráveis à emergência de um pidgin/crioulo. Uma dessas características tem a ver com a falta de identificação sociocultural dos povos que utilizam este pidgin. Vale lembrar que ele (o pidgin) não é a língua materna de nenhum dos usuários, portanto, não há relação de identidade cultural ou mesmo de lealdade por parte dos falantes em relação ao pidgin. Esse fato faz com que o destino dessa língua emergencial seja variável, e vai depender de fatores extralingüísticos.
Primeiramente, esse pidgin pode desaparecer sem deixar marcas sociais ou lingüísticas juntamente com a própria situação de contato que criou condições para a sua emergência.
Em segundo lugar, esse pidgin pode passar a uma língua crioula, desde que a situação comunicativa continue ativa. A permanência do pidgin depende, principalmente, do grau de utilização e importância do mesmo na comunidade em que é utilizado, ou seja, sua sobrevivência está atada às condições de necessidade comunicativa do contato. Caso essa situação de contato, geralmente comercial, deixe de existir, o pidgin é “descartado”, pois, não sendo a língua nativa de nenhum dos lados comerciais, não há atribuição afetiva ou cultural que a mantenha em uso após o término do contato entre os povos.
Essa efemeridade dos pidgins é explicada pelo fato de eles serem soluções mais sociais que propriamente individuais. As soluções
comunicativas são caracterizadas por normas de aceitabilidade
estabelecidas entre os povos envolvidos no contato. Muitas vezes a inteligibilidade do pidgin só acontece na situação do contato, e fora de contexto discursivo ele é ininteligível. Isso não quer dizer que um pidgin não possa permanecer em uso por muitas gerações.
Geralmente, um pidgin não apresenta uma gramática própria, quando há uma gramática, esta é proveniente do substrato ou mesmo da pessoa que
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está tentando se comunicar no momento do discurso. Peter Mühlhäusler defende a idéia de que o pidgin pode se estabilizar. Isto acontece quando ocorre uma cristalização do pidgin antes da crioulização propriamente dita. Pode também ocorrer de esse pidgin se expandir antes mesmo de ser nativizado, como foi o caso do tok pisin, falado na Nova Guiné.
Quanto às características estruturais, há distinção entre os chamados pidgins instáveis e pidgins estáveis. Estes últimos apresentam uma forma lingüística um tanto definida, diferentemente dos pidgins instáveis que podem ser mudados de acordo com os sujeitos envolvidos na situação de contato. Por sua condição instável, estes pidgins ainda não têm gramáticas. Porém há características que são gerais nos pidgins (instáveis e estáveis), como as simplificações e reduções resultantes do processo de pidnização, tanto da(s) língua(s) de substrato (LS) quanto da língua lexificadora (LL). Essas características são:
i. Núm ero reduzido de fonem as;
ii. Redução de processos derivacionais; iii. Ausência de processos flexionais;
iv. Redução do léxico ao m ínim o necessário à situação de contato; v. Preferência pela sílaba ótim a (CV);
vi. Funções sintáticas indicadas pela ordem sintagm ática.
Outra questão que divide as opiniões dos crioulistas diz respeito ao fato de ser ou não o pidgin uma língua. Mesmo para aqueles que reconhecem o pidgin como uma língua, reconhecem também que se trata de uma língua emergente com poucos recursos gramaticais. Um exemplo é o inglês pidginizado da Nigéria.
Segundo a opinião mais geral, quando ocorre a nativização, ou seja, quando o pidgin passa a ser a língua nativa de alguma criança, este pidgin
muda o seu
status
de pidgin a língua crioula. Pode-se então apresentar umprimeiro conceito de crioulo como “um pidgin nativizado”, ou melhor, como um pidgin que se tornou a língua materna de uma criança. A nativização implica a oposição entre a aquisição de L1 e L2. Bickerton (1977, p. 49)
registra que “pidginização é o aprendizado de segunda língua com
inpu t
restrito, ao passo que a crioulização é a aquisição de primeira língua com
input
restrito”. Na definição de Bickerton, a noção de aquisição de L1 em60
oposição à aquisição de L2 é crucial no processo que vai determinar o crioulo em relação ao pidgin. Tanto L1 como L2 são adquiridos mediante a exposição de dados restritos, em decorrência da situação de contato.
Robert Hall, em 1962 propôs o chamado ciclo vital dos pidigins/crioulos. A figura abaixo mostra o esquema idealizado por Hall.
Nem todos os crioulistas concordam que o processo de nativização seja determinante na distinção de pidgin e crioulo, tampouco há um consenso quanto ao número mínimo de crianças a adquirir um pidgin como L1 para este pidgin passar a um crioulo nativizado. Esse desacordo em relação à nativização não a enfraquece como argumento. Mufwene (2001, p.7) argumenta que
“se os crioulos foram desenvolvidos por crianças, eles seriam línguas que perm aneceram na fase de desenvolvim ento. A alternativa é que eles (os crioulos) teriam adquirido estrutura adulta quando as crianças se tornaram adultos, o que cria a pergunta: por que seus pais teriam sido incapazes de desenvolver tais estruturas durante a f ase de pidgin.”
Há outra concepção na crioulística segundo a qual a nativização está em segundo plano na caracterização de um pidgin como uma língua crioula. Os adeptos dessa opinião valem-se da idéia de que a língua é o principal meio de comunicação de uma comunidade, sendo assim, quando esta língua passa a ser a língua de uma comunidade, ou melhor, quando acontece a comunitarização do pidgin, este passa a ser considerado um crioulo.
• No vértice do triângulo ocorre o encontro dos povos com línguas ininteligíveis entre si. Neste
momento, a comunicação acontece de modo pragmático ou seja, há a emergência de um
pidgin instável;
• Com a continuidade do contato, há a consolidação e estabilização do pidgin, no chamado pidgin
estável, é o processo de pidiginização;
• Quando ocorre a nativização, ou seja, o pidgin é adquirido como L1, passa a ser um crioulo.
• Com o tempo, há a reaproximação do crioulo com a LL, é a chamada “descrioulização”.
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Portanto, nessa concepção os aspectos sociais são priorizados no processo de crioulização, constituindo um percurso teórico mais sócio-histórico, em oposição à ótica puramente lingüística e gramatical. Nessa perspectiva, pode-se então apresentar uma segunda definição de crioulo como “o pidgin que se comunitariza”.