Na ocupação das terras descobertas, os portugueses tinham como prática capturar nativos da terra ao longo da costa, conforme iam se aportando rumo ao sul da costa africana. Estes nativos capturados serviriam, mais tarde, de intérpretes, chamados “turgimãos”. Juntamente com a prática da captura de cativos, houve também a técnica inversa, ou seja, o “lançamento” de portugueses que se aventuravam na nova terra e se assimilavam aos povos locais com o intuito de conhecer e explorar o continente. Couto (1994, p.17) ressalta o mérito histórico dos lançados, grumetes e tangomas para a formação do povo da terra e sua identidade lingüística, pois “isto significou o início de um contato intercultural cujos resultados durariam até nossos dias”.
O primeiro lançado que se tem notícia foi João Fernandes, lançado em 1445. Os lançados têm uma representatividade bastante grande para a formação do crioulo guineense (assim como em outros crioulos africanos). Quando assentados à nova terra, arranjavam mulheres africanas e constituíam famílias, suas esposas eram conhecidas como “tangomas” e, os filhos nascidos da união eram os “filhos da terra”. Essa interação geraria uma troca cultural simultânea no ambiente doméstico.
Como era de se esperar, na prática da exploração e interação com os povos africanos, os lançados arregimentavam auxiliares que serviam de intérpretes e guias. Estes auxiliares eram chamados de “grumetes”. A palavra grumete vem da linguagem náutica, significando homem de posição inferior, marinheiro auxiliar. A datação consta do séc. XIII como gurmete,
no séc. XIV como grumete e no séc. XV gromete6. Os grumetes serviam aos
comerciantes europeus. Alguns eram batizados, mas nem por isso perdiam sua identidade étnica e a liberdade, conforme registra as palavras de Nolasco:
“Os ‘grum etes’, dada a sua convivência com os europeus, foram facilm ente cristianizados pelos m issionários, m as, com o a m aior parte da população,
perm aneceram apegados às suas crenças anim istas, fortem ente enraizadas exceptuando-se apenas alguns régulos islam izados.”
(Nolasco da Silva, 1970, p. 514) Suas “moranças” se localizavam próximas dos núcleos europeus, que, por sua vez, ficavam distantes das aldeias e eram chamados de “praças”.
Segundo Couto (1994), no núcleo familiar dos lançados se encontrava o ambiente propício ao aparecimento de uma língua crioula. Os lançados usavam um português muito simplificado para se comunicar com suas tangomas e seus grumetes. Estes registros simplificados vão na direção da
simplificação conhecidas nos registros especiais como o baby talk7 e o
foreigner talk8 . Por outro lado, as tangomas e os grumetes recebiam essas formas simplificadas como dados (inputs). A nativização teria ocorrido logo na primeira geração dos “filhos da terra”. Este assunto será desenvolvido mais acuradamente nos capítulos seguintes. Por enquanto,
“Pode-se conjecturar com certa m argem de segurança que da m édia de ‘produktive’ e da ‘rezeptive Pidginisierung’ surgiu um pidgin português que deve ter sido o ‘input’ lingüístico para a prim eira geração de filhos da terra. Se isso for verdade, tem os aí o crioulo form ado. Por outras palavras, os filhos da terra foram os prim eiros falantes de crioulo, pois com eles o pidgin português acim a ref erido se nativizou”.
(Couto, 1994, p.19) Jean-Louis Rougé, em um artigo “Sobre a Formação dos Crioulos do Cabo Verde e de Guiné” (s.d.) afirma que “do mesmo modo que africanos falavam o português, ... ‘lançados’ fixados no continente falavam línguas africanas”.
Os estudos mais recentes têm explicado a origem da “simplificação” da morfologia flexional nos crioulos a partir da origem do aprendizado de L2
7 Linguagem utlizada por adultos para se comunicar com crianças 8 linguagem utilizada para se comunicar com estrangeiros
(segunda língua) por adultos9, ocorrendo, nesse processo a redução da morfologia flexional no ambiente de contato. Rougé levanta a questão a partir da idéia de um “português aproximativo”. Para ele “talvez se deva também imaginar a existência de um mandinga, de um pepel e de um manjaku aproximativo”. Por outro lado, é bem provável que na fala empregada entre os negros, ou mesmo entre eles, os grumetes e os lançados, havia muitas formas reduzidas. Este português aproximativo foi, por sua vez, transmitido a outros africanos.
Além do núcleo dos lançados, existiam outros ambientes férteis ao surgimento de um pidgin. Um desses núcleos estava localizado na zona de comércio no litoral e nas demais zonas de contato entre portugueses e africanos, conforme registra o antropólogo Trajano Filho, em um artigo sobre o processo de crioulização na Guiné:
“As prim eiras em barcações portuguesas que chegaram à Costa da África ocidental em m eados do século X V encontraram povos com línguas e costum es diferentes entre si. Um a das principais tarefas que os recém - chegados atribuíram a si, além da procura pelo ouro e tráf ico dos prim eiros escravos, foi de conhecer a região e os povos que a habitavam .”
(Trajano Filho, 2004, p.6) Portanto, as condições favoráveis à crioulização iam além dos núcleos populacionais que se formavam, mas também em lugares onde existiam situações de contato entre os povos e suas línguas que interagiam na Costa da África. Esse intercâmbio lingüístico-cultural ia também adentrando o continente. Neste percurso, os recém-chegados necessitavam de uma língua de emergência para a comunicação com os povos da terra, uma vez que eram aloglotas inseridos em uma terra multilíngue. Essa língua de comunicação seria de grande importância, não somente ao comércio, uma vez que as negociatas e o palavrório são partes integrantes das negociações, mas também para a interação e reconhecimento das pessoas, dos lugares e dos produtos interessantes para a exploração européia.
9 Holm (2005) apresenta a hipótese de que a perda flexional deve-se a tipologia das línguas de substrato e