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Segundo Couto (1994, p. 45), na “Guiné podemos falar em Comunidade de Fala” (CF), em oposição à Comunidade de Língua (CL). O autor ainda expõe, em poucas palavras, uma forma bastante abrangente e clara da noção de CF como o “desejo, seguido de uma decisão política, de

construir uma identidade nacional”. Pensar em comunidade de fala pode ser

equiparado à noção social/individual da dicotomia saussuriana de língua/fala. Nem sempre povos que comungam da mesma língua são povos com a mesma identidade cultural. Brasil e Portugal podem ser (e são) uma CL, mas integram CFs diferentes. Lidar com fatos da linguagem é lidar com várias ciências e a noção de CF abarca questões mais sociais e culturais do que apenas lingüísticas. Estas questões estão baseadas no sentimento de identidade e nacionalidade de cada povo em seu território. Por enquanto, o interesse maior para a discussão está no fato de que tanto o multilingüismo quanto a multietnicidade, somados ao fato de o guineense não ter o português como língua materna, não interferem na implementação de uma Comunidade de Fala.

“... a CF pode ser m ultilíngüe. A Guiné-Bissau, por exem plo, a despeito do fato de que em seu interior sejam faladas quase 20 línguas é um a CF. E o que é m ais, é um a CF independente da CF senegalesa, em bora na região sul do Senegal (Casam ansa) se fale a m esm a língua, ou seja, o crioulo português. O que acontece é que Guiné-Bissau e Casam ansa constituem um a única CL, m as não um a CF. Os casam ansenses interagem m uito m ais com os restantes senegaleses do que com os guineenses.”

(Couto, 2005) Esta integridade e sentimento de nacionalidade são mediados pela língua, no caso, o crioulo guineense. Importante ressaltar que a comunicação verbal é sempre bem sucedida na Guiné. Não obstante a situação multiétnica e multilíngue, um guineense não encontra dificuldades em se comunicar com outro guineense. Portanto, não é uma barreira à

função comunicativa o fato de serem os falantes oriundos de etnias diferentes e mesmo línguas diferentes.

“(...) não se conhece nenhum caso de algum guineense que não tenha conseguido se com unicar com qualquer outro guineense por falta de um a língua com um . Além disso, tem os o crioulo , cujo dom ínio aum enta dia a dia”. (Couto, 1994, p. 46) É certo que o crioulo tem hoje, depois da independência, uma autoridade lingüística diferente do que apresentava durante o período colonial. O sentimento nacionalista de integridade social como “o povo guineense”, encontra no crioulo (ou no guineense) a sua língua de união nacional.

Além do cenário multilíngue, há ainda quatro variedades

intermediárias, apontadas por Couto (1994) entre o superstrato (português) e o substrato (línguas nativas), representado na figura abaixo:

1 P 3 C 5 C 2 P 4 C 6 L

> ? ! 9

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> @ 5 &

> 9A 5 @ B + <<=+ CD 1 P 3 C 5 C 2 P 4 C 6 L 1 PL 3 CA 5 CN 2 PA 4 CT 6 LN

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Sendo o guineense um crioulo em estágio de descrioulização, as variedades estão em uma distribuição de continuidade que vão na direção da língua lexificadora. Nota-se, pelo esquema do autor, que não há uma delimitação fronteiriça precisa entre os letos, o que leva à interpenetração das variedades. Considera-se ainda a coexistência das línguas nativas, muitas vezes como primeira língua dos falantes de crioulo, e do português

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ostentando seu prestígio de língua oficial. Tudo isso presente em uma sociedade multiétnica.

O crioulo nativizado, segundo palavras de um guineense falante do crioulo aportuguesado, “é muito difícil de entender”. Pode-se então perceber que há uma distância razoável entre o crioulo nativizado e o crioulo aportuguesado a ponto de dificultar a comunicação entre falantes dessas letos.

Neste cenário de variedades, pode-se pensar no cruzamento entre os conceitos teóricos, pois as variedades mais aproximadas do português lusitano, que são o português acrioulado e o crioulo aportuguesado, podem ser estudadas do ponto de vista da sincronia, pois envolve as condições dos ambientes lingüístico, histórico e social no momento atual da Guiné-Bissau. Por outro lado, há também os efeitos da escola formal, cuja língua de ensino

é o português e as próprias condições de descrioulização do guineense10.

Por sua vez, o crioulo nativizado constitui uma variedade diastrática e, tomando como base de análise o continuum das variedades desde o português até as línguas nativas, é possível empreender também uma análise somente do ponto de vista diastrático, pois sabemos que as questões referentes a variedades lingüísticas não são aleatórias, mas obedecem a uma lógica social. Vê-se, portanto, que além da complexidade normal em relação a variedades lingüísticas, há ainda o agravante do contexto sócio-histórico intrincado na Guiné-Bissau, o que geraria uma profundidade científica que estaria além dos objetivos deste trabalho, cujo foco de investigação é a morfologia do guineense. Por ora, é importante salientar que, neste trabalho, não há um recorte entre esta ou aquela variedade, pois os dados de análise abarcam todas as variedades do guineense, com exceção da português acrioulado, em razão de sua maior proximidade com o português.

J e a n- L o u is Ro ug é ( c om u n ic aç ã o pe s s o a l) n ã o a cr ed it a e m d e s cr io u liza ç ã o n o g u ine e n s e. Ro ug é se b a s e ia n a d ive rs id a d e n os n íve is d o t em p o, d a s o c ied a d e , d a d ist r ibu içã o e s p aç ia l e tc ., co m o ag r a va nt e d e e s ta rm os lid a n do c o m u ma s o c ie dad e m u lt iling ü e e m ult ié t n ica . T a nt o q ue Co ut o , a n te s de c o me ç ar o e sb o ço g r am at ic a l d e se u livr o “ O cr io u lo p o rt ug u ês da G u in é - B is sa u ”, le mb r a a co mp le xid a d e q ue o q u a dr o

10 É importante lembrar que considera-se aqui o conceito clássico de descrioulização, aquele cujo ciclo vital de uma língua crioula é o processo de aproximação com a língua lexificadora deste crioulo

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a p r es e nt a p ar a um a d e s cr iç ão . Af in a l, “q u e cr io u lo d e s cr eve r ?” , d ia nt e d a e m ar a n ha d a s it u açã o d a s va r ia nt e s no g u in e e ns e e “ Na G u in é- B is s au a s

c o is a s s e c om p lic am a in d a ma is p or qu e ‘a b a ix o ’ d o b a s ile t o te mo s as lí n g u as na t iva s af r ic a n a s, em v e z d e um p id g in ” ( Co ut o, 19 9 4 , p. 5 3)

Quanto à variação diatópica, ou seja, a variação espacial, Couto acrescenta que, uma vez que é pouco estudada, “é difícil entrar em detalhes

sobre suas variedades diatópicas” (p.51). Rougé (1988) aponta essas

diferenças dialetais em seus verbetes, mostrando os níveis de uso, isto é, a faixa lingüística de uso da palavra, ou uso regional de Bissau (Bis) e Zinguichor. (Zin):

Pinto Bull (1989, p. 82) afirma que “há no crioulo dessa região (Casamansa) muitas interferências lingüísticas do francês” citando exemplos como: timbar, timbre, em vez de selu ou selo ou ainda poste para correio.