Fernando Pessoa, usando o heterônimo de Bernardo Soares, no “Livro
do Desassossego" declarou que a “minha pátria é a língua portuguesa”. Nos
versos da música “Língua11”, Caetano Veloso faz uma releitura do verso de
Pessoa dizendo que “Minha pátria é a minha língua”. Sob o ponto de vista lingüístico-social, identidade e língua podem ser consideradas dois lados da mesma moeda.
Do ponto de vista individual, compete à língua a identificação do indivíduo falante em sua comunidade de fala, com isso, pode-se afirmar que a língua tem o papel de inserir o falante em um grupo étnico. Dentre as funções da língua atribuídas pelos estudos sociolingüísticos, a atribuição de identidade étnica e social é considerada de suma importância.
Pode-se pensar em uma língua, até certo ponto, no sentido de Saussure, como algo que vai além do individual, como um fato social. Para a sociolingüística, este fato social não pode ser dissociado da sua comunidade lingüística, uma vez que esta comunidade é articulada pela sua língua. A ela cabe o papel de fazer a mediação entre o povo falante desta língua e o território em que habita este povo. É sabido que na Guiné, a(s) língua(s) está(o) intimamente ligada(s) à identidade étnica de cada um, uma vez que etnia e língua têm o mesmo nome. Do ponto de vista do guineense, língua e etnia é a mesma coisa. Na Guiné-Bissau ser balanta significa ser falante de língua balanta ou ser mandinga é ter o mandinga como primeira língua e assim por diante. A marca étnica do guineense está assinalada em sua língua e em sua fala, ou seja, no social e no individual, e um individual que é posterior ao social (conforme o pensamento saussuriano) e que só tem existência a partir do coletivo.
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Mas até que ponto pode-se pensar em Comunidade de Fala e em integração étnica em uma sociedade multilíngüe? Ou melhor, como é possível uma língua refletir uma sociedade multiétnica e multilíngüe? Calvet (2002, p.119) argumenta que “o único modo de se desvencilhar desses paradoxos é sair da língua e partir da realidade social”. De acordo com o pensamento de Calvet, um indivíduo pode ser participante de mais de uma realidade social, assim, pode ser falante de uma língua de união nacional, no caso, o crioulo e a sua língua étnica. Ele acrescenta ainda que única maneira de ir até o fim da concepção da língua como fato social está em dizer que “o objeto de estudo da lingüística não é apenas a língua ou as línguas, mas a comunidade social em seu aspecto lingüístico”.
Aplicando as palavras de Calvet à situação de multiligüismo da Guiné e, ao mesmo tempo, considerando que nas sociedades onde há a coexistência de mais de uma língua, há a ocorrência de diglossia, entramos então no campo das atitudes lingüísticas. Considera-se a situação de uma família guineense composta de pai balanta e mãe mancanha. Para uma análise simplista e desconsiderando as condições impostas pelo lugar onde acontece essa interação, normalmente uma criança nascida dessa união, terá como L1 (língua materna) a língua da mãe e a usará na fala “caseira”. Porém, no contato com outras crianças, como na escola, por exemplo, a língua veicular utilizada nos corredores, no pátio e mesmo nas interações com a professora será o crioulo. Ocorre também de núcleos familiares com pais e mães de etnias diferentes usarem o crioulo como língua caseira. Nas ruas, nas brincadeiras infantis etc, também a língua é o crioulo. Porém, dentro das salas de aula, são alfabetizados em uma outra língua diferente da sua língua materna e de sua língua de união comunitária. Esta língua é o português. Mas em casa, seu código é sua língua étnica, nas ruas é o crioulo e, por imposição das forças políticas, tenta-se (sem sucesso) impor também uma sociedade de língua portuguesa.
Essa realidade lingüística da Guiné é o que Ferguson12 chamou de
“diglossia”. Nas situações diglóssicas, há a presença de mais de uma língua (também pode-se falar em variantes lingüísticas) em relação de sobreposição hierárquica dentro de uma única comunidade lingüística. Esta hierarquização
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de uma sobre a outra não é aleatória, mas obedece a valorização atribuída pelos falantes, ou seja,
“as pessoas que f alam qualquer das línguas def inidoras consideram H (high) superior a L (low) inferior em m uitos aspectos. Algum as vezes este sentim ento é tão forte que som ente H é considerada com o real e L consta com o ‘não existente’. Desta hierarquização e das situações particulares de uso, é feita a escolha da língua a ser utilizada. ” (Ferguson, 1974, p.104) Esta autoridade, ou melhor, este prestígio atribuído à língua H é mantido, segundo Ferguson, mesmo por aqueles que não dominam plenamente a língua H, mas a consideram “mais certa” ou “mais bonita” e “mais capacitada à expressão” que a(s) língua(s) L. Ferguson enumera mais oito fatores lingüístico-sociais que favorecem o fenômeno da diglossia. Para esta discussão, o prestígio é bastante significativo na situação lingüística da Guiné, pelo fato de ser o português considerado a língua de prestígio entre os falantes do crioulo e das línguas étnicas. Mesmo com a função de ser a língua veicular entre indivíduos de etnias diversas, os quais se reconhecem como guineenses, o crioulo não é a língua de prestígio na Guiné. Por ser a língua oficial, a língua do ensino e a língua do dominador, os falantes atribuem julgamento positivo ao português e ao mesmo tempo, promovem a sua supervalorização ante as demais línguas, entre elas, o próprio crioulo. Não se pode dissociar tal prática das relações de poder e prestígio, uma vez que reflete o conjunto de opiniões que foram consagradas pelo senso comum, independentemente de ser bom ou ruim para o grupo.
Por outro lado, sabemos que há o reconhecimento, entre os indivíduos das diversas etnias, de uma “comunidade guineense” - do ponto de vista político-social - tanto que é possível falar em Comunidade de Fala na Guiné (cf. Couto, 1994) e no crioulo como sua língua. Sapir , em “A linguagem” afirma que
“Toda língua tem uma sede. O povo que a fala, pertence a um a raça (ou a certo núm ero de raças), isto é, a um grupo de hom ens que se destaca de outros grupos por caracteres físicos. Por outro lado, a língua não existe isolada de um a cultura, isto é,
47 de um conjunto socialm ente herdado de práticas e crenças que determ inam a tram a das nossas vidas” (Sapir, 1972, p.205)
Essa trama tem sua existência em uma dada comunidade. A noção de comunidade engloba um povo (P) vivendo em território comum (T) e que tem sua interação mediada por meio de uma língua (L). Fato que Couto vem chamando de Ecologia Fundamental de Língua. Nessa perspectiva, o equilíbio do modelo da Comunidade (C) é mantido pela existência de cada uma das partes integrantes deste modelo, que são: língua (L), povo (P) e território (T) (cf. 2.1.2).
Portanto, na distinção da comunidade guineense, em relação à comunidade caboverdeana, à comunidade senegalesa etc, tem-se um território (a Guiné-Bissau), um povo (o guineense) e uma língua (o crioulo).
Na constituição desta identidade sócio-política, ou melhor, desta convergência étnica, o movimento de independência na Guiné teve papel importante, pois
“conseguiu um a conjugação interétnica notável. Durante a luta arm ada as dif erentes etnias partilharam a causa com um . Desenvolveram a interacção... Descobriram cum plicidades colectivas” (Lopes, 1987, p. 61)
O crioulo é hoje a “língua materna ou língua segunda da maioria dos habitantes da capital e das ‘praças’” (Scantamburlo, 1999, p.15). Foi também durante os anos da luta pela libertação que o crioulo chegou às populações do campo, que até então só tinham contato com línguas étnicas. Os revolucionários tinham como comandantes homens da cidade “conhecedores até da língua portuguesa, mas que tinham como principal meio de comunicação o crioulo” (Couto, 1994, p. 59). Diante das etnias locais, o crioulo passou a ser a “Língua da Libertação” e um elemento de unificação. O guineense, por não ser a língua de nenhuma etnia e também por pertencer a uma nação que tem a crioulização como reflexo da trajetória de sua formação, é a língua dos guineenses. A este respeito, Signorini afirma que:
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“A unidade da com unidade vai se articular prim ordialm ente em torno de um a língua nacional e, no caso de nações m ultiétnicas e plurilíngües, a língua nacional pode ou não corresponder à ‘língua m aterna’ de um a etnia integrante da com unidade nacional”
(Signorini, 2002, p.99) Por outro lado, sabe-se que quando há o surgimento de uma língua crioula, há um envolvimento histórico maior que envolve a crioulização de toda uma sociedade, o que implica valores sociais, étnicos e culturais e, conseqüentemente, lingüísticos. W ilson Trajano registra que
“juntam ente com as m udanças lingüísticas que resultam num a língua crioula, a crioulização tam bém im plica invariavelm ente um processo de m udança cultural resultante de um intricado f luxo de valores, práticas, saberes, crenças e sím bolos que dá luz a um a entidade social terceira: um a unidade internam ente heterogênea que em erge do com prom isso social e lingüístico alcançado pelas sociedades que participaram do encontro original”. (Trajano Filho, 2004)
O que remete, mais uma vez, à afirmação de que os fatos da linguagem estão em integração com outros campos das ciências sociais e que, identidade lingüística e prestígio de língua traduzem um campo que vai muito além do puramente lingüístico. Soma-se ainda, a complexidade multiplicada nas relações lingüístico-sociais em uma sociedade crioula.
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