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Socorro Evangelista

Sugestões: utilizar o papel machê como processo criativo no ensino de arte a que nos propunhamos., fundamentar o fazer artístico na linguagem da cultura popular, reaproveitando os papéis para confecção de máscaras e bonecos.

O exercício criativo utilizando papel machê ocorre com o reaproveitamento de papéis fragmentados, amassados, destruídos, que passam a ser moldados para formar uma massa plástica a ser utilizada como matéria-prima na confecção de bonecos e máscaras, personagens folclóricos, permitindo, desse modo, uma leitura tridimensional do processo artístico. Esta prática contribui para suprir a falta de material artístico na escola e oferecer condições ao aluno, principalmente, aqueles de poder aquisitivo desfavorável, para desenvolver sua criatividade satisfatoriamente.

Oficinas de papel reciclado: no aprendizado da reciclagem são importantes a troca de experiências e o próprio conhecimento de materiais, alcançando o processo de construção dos bonecos. (GIBSON M. ALVES. – aluno de Arte, da UFRN).

Tecendo descobertas: Fomos percebendo que era preciso encontrar alternativas ao ensino de arte, não somente no meio escolar, bem como, proceder a um intercâmbio entre os alunos quando no processo de criação da matéria-prima e dos objetos e, também, procurar alcançar outras comunidades e pessoas com dificuldades de sobrevivência, mas dispostas e com rica experiência de vida.

Naquela oportunidade, começamos a observar, também, os problemas que interferem no desenvolvimento das atividades criativas em sala de aula no ensino de 1º, 2º graus e superior. “Problemas que vão da falta de recursos financeiros até ao descaso de dirigentes escolares pelo

ensino das artes” (EVANGELISTA, 1995, p. 12), num quadro que caracteriza especialmente toda a rede pública, haja vista que a disciplina não tendo caráter reprovatório, favorece o desinteresse de alguns alunos, professores e diretores e outros que desconhecem o valor da arte.

Assim, a partir de atividades artísticas desenvolvidas com alunos de Arte no Laboratório de Artes Plásticas do DEART, na UFRN, tecemos, em conjunto, o papel machê e a educação escolar, objetivando contribuir com este ensino, uma vez que muitos professores, sem habilitações na área, estão ocupando o espaço do professor de artes.

Alunos universitários de Artes – Oficina de Plástica criando e construindo com papel machê e material alternativo

Os alunos da Prática de Ensino inseriram-se no fazer artístico, religando ensinamentos práticos ao seu contexto histórico; a linguagem de tradição histórica do cotidiano local, conduzindo- se e capacitando-se uma leitura visual perceptiva. Nossa idéia era a de trocar conhecimentos com professores de escolas localizadas em comunidades pobres, utilizando, naquele momento, o papel

machê e a arte do mamulengo numa leitura reflexiva capaz de religar a tradição folclórica ao contexto sócio-cultural-regional.

Este seria o instrumento utilizado para propiciar o desenvolvimento do potencial artístico dos envolvidos, especialmente através da modelagem com a qual pode-se ir além de seus limites, fabricando brinquedos, fazendo novos objetos, modelando personagens do folclore e do cotidiano, enfim, um universo de criações capaz de promover uma integração do sujeito ao seu meio pela via do conhecimento da cultura. Importante, também, era a integração entre alunos universitários, estagiários de arte, crianças e jovens de escolas públicas.

Para realizar o ensino itinerante fora da sala de aula procuramos novos contatos: O Museu Câmara Cascudo – instituição complementar de ensino – pesquisa – extensão, da UFRN, após contato, nesse mesmo semestre, convidou jovens e crianças das escolas da periferia de Natal para visitarem e participarem de oficinas de papel machê. Fez-se, nesse trabalho, uma leitura baseada na história e nas criações do mamulengueiro Chico Daniel15.

Essa viagem de ensino itinerante teve início no Museu Câmara Cascudo onde encontramos um grupo heterogêneo de crianças de escolas públicas que, anteriormente, já havia manifestado interesse em participar de oficinas de arte. Visitamos o Museu e, em particular, a sala de Exposição de Cultura Popular. Os alunos, crianças e adultos, ficavam atentos aos ensinamentos teóricos sobre a arte do mamulengo.

Vivenciando essa integração sala-de-aula/comunidade propiciada aos alunos de artes, constatava-se que as crianças, sempre atentas, executavam seus exercícios práticos, em grupo, sem interromper as conversas sobre os mamulengos, termo que, ali entre nós, era aplicado aos próprios

fantoches. Ficava evidenciado o valor que elas davam àquela atividade, pois, enquanto pertencente ao folclore, está muito ligada à sua gente.

15

Francisco Ângelo da Costa, o Chico Daniel, é, no Rio Grande do Norte, um dos mais tradicionais brincantes na arte do mamulengo.

Oficinas de Ensino de Arte reaproveitando material alternativo. Museu Câmara Cascudo - UFRN

O ensino acadêmico integrado à comunidade externa é significativo, pois muitas vezes envolve o interesse, a participação de familiares e amigos, colaborando com crianças e adultos na elaboração dos seus personagens, lembrando que parentes mais antigos, em suas cidades do interior, gostavam tanto de fazer os bonecos quanto de participar das suas apresentações.

No processo didático, prático, de preparação da massa para confecção dos fantoches, houve a participação dinâmica dos alunos universitários e das crianças da comunidade, concretizando-se uma contribuição pelo intercâmbio de saberes, ampliando-se, desse modo, a visão da história, a relação sócio-cultural. A partir de leituras do cotidiano, levam-se ensinantes e aprendentes a refletirem sobre seus mundos e sobre as possibilidades de melhoria nas condições de vida.

A prática do papel machê serviu de porta de entrada para o projeto de papel reciclado, de modo que começamos a nos interessar por suas possibilidades de reaproveitamento para a arte e para a escola. A princípio, as experiências foram desenvolvidas apenas no DEART, da UFRN; mas, pouco a pouco, professores de outros departamentos, pesquisadores do papel e suas utilidades foram se incorporando, dada à sua relação inter-multi-transdisciplinar com as áreas da história, botânica, química, têxtil, entre outros.

Troca de experiências interdisciplinares no laboratório de artes plásticas – UFRN

Para ampliar o conhecimento acadêmico sócio-cultural, fora dos bancos escolares e universitários, participamos de um Congresso de Arte Educação (1985), em Salvador, Bahia. Por ocasião do congresso, participamos, também, da Oficina de Papel Reciclado, ministrada pela professora e papeleira Zuleika Medeiros, quando tivemos oportunidade de conhecer suas pesquisas sobre materiais artísticos, pigmentos naturais e papel artesanal. Essa viagem serviu de luz inicial para nosso interesse de explorar essas práticas na escola e nas comunidades externas.

A realização da prática de extensão universitária se deu, de início, pela paixão em explorar o exercício do fazer papel reciclado no laboratório de artes plásticas. Esses trabalhos tornaram-se uma alternativa no estudo das várias sobras de papel, alcançando, posteriormente, o trabalho com as fibras vegetais, em especial as da carnaúba.

1986 – Realiza-se a primeira exposição de Papel Reciclado no Saguão Superior do DEART/UFRN. Desde então, anualmente, são realizadas exposições desse tipo.

Meu principal questionamento centra-se em como desenvolver uma prática inovadora com os alunos do Curso de Educação Artística da UFRN na disciplina de Formas de Expressão e Comunicação Artística (oficina de artes plásticas).

Na busca dessa prática, descobrimos (juntos) como o “fazer papel” pode tornar-se realizador e gratificante, bem como passamos a ver no papel suas potencialidades para a pesquisa que iam, desde a escolha da matéria prima, à história do papel no Brasil e no mundo, efetuando-se uma contextualização sócio-cultural, desenvolvendo um processo criativo e artístico, estudando pigmentos naturais, descobertas de tonalidades cromáticas especiais, técnicas de observação, até a avaliação da qualidade final do produto.

1987: conheci parte do trabalho da artista plástica Marlene Almeida, de Campina Grande, na Paraíba, com residência na Alemanha. Fiquei encantada com os pigmentos e as fibras naturais.

O diálogo de várias visões contribuiu para o crescimento científico, intelectual, perceptivo, artístico e educativo, fazendo relembrar Morin (2002, p. 49): “as idéias de inter e de transdisciplinaridade são as únicas importantes”, de modo que não se pode deixar de “levar em conta tudo o que lhe é contextual, aí compreendidas as condições culturais e sociais”.

1987-1990: foram desenvolvidas várias oficinas de artes plásticas e de papel reciclado em instituições educativas do Estado e do Município de Natal (RN), entre outras instituições destacamos a Fundação Estadual do Bem-Estar do Menor, antiga FEBEM, hoje FUNDAC., Tributo à Criança, da Zona Oeste, e Ação Trabalho de Valorização Social (ATIVA), do município.

Entusiasmados, cada vez mais, exploramos novas possibilidades com o papel reciclado, desenvolvemos alguns projetos de extensão e pesquisa sobre papel artesanal com fibras vegetais, nos quais trabalhamos junto com outros públicos que não aquele exclusivamente escolar.

Confecção de máscaras com papel machê e material alternativo

Reciclar … é rejuntar … é selecionar … é transformar. Papéis velhos, folhas secas adquirem novas formas, novas texturas, novas cores.

Modo, também, de refazer a vida…

Início de 1991: tivemos a satisfação de receber o professor Belidson Júnior, da Universidade de Brasília (UNB), e conjuntamente, ministramos um curso de papel artesanal, aberto à comunidade, mas especialmente dirigido para alunos universitários com os quais estava trabalhando na UFRN. Esse grupo era composto tanto de alunos universitários como de jovens da comunidade periférica de Natal.

Novas possibilidades: exploramos fibras diversas, como: folhas de bananeira, grama, bagaço de cana-de-açúcar, flores variadas, folhas de abacaxi, juta, entre outras. Os resultados foram surpreendentes. O lúdico fez parte do processo de nossas descobertas. As texturas apresentavam

características especiais a cadamatéria-prima experimentada. Sentimos a necessidade de acrescentar à pesquisa do papel outros elementos que se mostravam necessários a sua incorporação e ao processo de sua fabricação. Daí a pesquisa sobre pigmentos naturais que foi realizada no DEART e no Departamento de Engenharia Têxtil da UFRN para coloração ou tingimento do papel e da busca proposital de novos efeitos de texturas. Paralelamente a cada experimento, fazíamos observação constante e testes com o papel resultante, bem como a aplicação de técnicas de pintura e de escultura.

Abril de 1991: participação em Congresso de Arte Educação, em Brasília. Oportunidade ímpar de conhecer o trabalho de pesquisa da professora Thérèze Hofmann Gatte, papeleira e professora, Mestre da Universidade de Brasília (UnB), incansável na defesa da natureza, a partir da reciclagem de papel. Reforço e aprendizagem sobre a produção de papéis e materiais artísticos, pincéis, pastel, aquarela, tintas e pigmentos. Fico fascinada com as oficinas de papel artesanal produzido com fibras vegetais e seus pigmentos, uma verdadeira alquimia das alternativas naturais.