O
Vale do Açu é marcado pela exuberância dos frondosos carnaubais, matéria-prima sugestiva para produção criativa, foco principal deste trabalho19. São terras de poetas do sal, dos rios, lagos e lagoas, terras decomplexidade, de contrastes naturais em suas paisagens. Terra de homens ilustres das letras e das sensibilidades: Willington Germano,Manoel Rodrigues de Melo, João Lins Caldas, Maria do Perpétuo do Socorro, Wanderley de Castro, Aldenita de Sá Leitão, Sinhazinha Wanderley, Gilberto Freire de Melo, Celso da Silveira, Renato Caldas, entre tantos, sempre presentes na nossa memória e no nosso reconhecimento cultural. Tantos nomes notáveis são frutos daquelas terras. Uma dessas terras, Pendências, cidade de caráter eminentemente rural, localizada a 212 km. de Natal/RN. Ali habitavam, no início do século XVIII, os índios janduís e cariris que viviam em luta constante. Com a chegada do sargento-mór José de Morais Navarro, escolhido por Portugal, para colonizar a região, se estabeleceram as lutas entre colonizadores e índios: essa pendência entre eles deu nome à cidade.
O hino da cidade a denomina de “flor do Vale” que tem “a beleza dos carnaubais, solo fecundo de esperança”20. O Padre José Luiz21, sobre ela chegou a
metaforizar: “Pendências de pensamentos parisienses”, devido à abertura, alegria e
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Denomina-se de Baixo-Açu, a parte do vale do Açu que se estende desde a cidade de Açu até as a cidade de Pendências, está localizado na região central do Rio Grande do Norte, entre os paralelos de 5° a 8° de latitude sul e os meridianos de 36° a 39° de longitude oeste. Essa área envolve terras dos municípios de Açu, Carnaubais, Ipanguaçu, Alto do Rodrigues e Pendências.
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Hino de Pendências, letra de José Gonçalo Barbosa Silva; música de Manoel Pedro Bernardo Dantas.
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descontração de seus moradores, ultrapassando o simples limite de uma região salineira do RN para ser, com seus habitantes, “um estado de alma” (JORNAL PENDÊNCIAS, 1976). Tal espírito faz de Pendências uma comunidade participativa, o que autoriza a relação cultural povo-carnaúba, encontrando-se comunidades trabalhando com a matéria-prima, seja na produção da cera, seja na preparação das palhas, seja na utilização dos troncos para edificação de casas ou móveis, seja na aplicação do artesanato, seja, por fim, na produção de papel.
Após a exposição das primeiras folhas de papel artesanal de carnaúba, na Eco-92, o NUT-Seca - UFRN levou a sugestão de fabricação deste papel para Pendências, através de propostas de implementação de cursos, mantendo-se dentro daquele seu propósito de integrar a sociedade sertaneja e a comunidade acadêmica, para promover uma discussão e troca de saberes sobre a problemática da seca, no RN, oferecendo sugestões para o desenvolvimento sustentável no semi-árido. A direção da Fundação Felix Rodrigues, juntamente com o NUT-Seca – UFRN, então, consolidou a proposta de indagar entre os trabalhadores rurais de Pendências e Alto dos Rodrigues se havia interesse em aprender a fazer o papel da folhas da carnaubeira. A partir desse levantamento, foram realizados diversos cursos de arte- artesanato para profissionalizar pessoas e aperfeiçoar o trabalho artístico naquele município22.
Esses órgãos que possuem um conhecimento profundo sobre a região do Vale do Açu, escolheram a cidade de Pendências para implantação do primeiro
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A Fundação Félix Rodrigues incluiu no seu Estatuto, entre os objetivos de sua política, o seguinte: “Art. 2º, VI: promover cursos, seminários e outras atividades de qualificação profissional, com vistas ao desenvolvimento sustentável da região salineira e Vale do Açu”, (ESTATUTO, 2000).1
grupo de papeleiros na produção de papel de carnaúba. Essa Fundação vem atuando nessa cidade, na luta pela preservação da cultura e promoção do desenvolvimento artístico sócio-cultural, de modo que o trabalho do papel artesanal de carnaúba foi realizado, em Pendências, logo em 2000, a partir do apoio da diretoria dessa Fundação, através do convite da Professora Terezinha de Queiroz Aranha, na qualidade de Coordenadora do Projeto NUT–Seca - UFRN.
A política dessas instituições, segundo seus Estatutos, é a de incentivar a preservação do patrimônio cultural, econômico e sentimental. O Projeto “Tecendo o Futuro”, de autoria daquela Fundação23, até hoje, procura desenvolver uma política
regional de integração, entre os órgãos interessados na área cultural, na qual se incluem as artes, assim como, o patrimônio físico e material da sociedade.
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“Tecendo o futuro” é um projeto de educação profissional executado pela Fundação Felix Rodrigues, no âmbito do Plano Nacional de Qualidade do Trabalhador PLANTOR/PEQ-RN. Sua área de abrangência alcança municípios do Vale do Açu e região salineira de Macau, no rio Grande do Norte. Financiado com recursos do fundo de Amparo ao Trabalhador, esse projeto objetiva qualificar para o trabalho nas áreas de arte, cultura, meio ambiente e artesanato e re- qualificar profissionais da área de educação.
Artesanato de palha e talos de carnaúba em Açu-RN
A proposta da Fundação reanimou nossa meta – de fazer papel com fibras de carnaúba, integrando-a à idéia de contribuir para a preservação da reserva ecológica que faz parte daquele cenário. Esse projeto chamou a atenção das pessoas da cidade, principalmente, os interessados em ofícios artesanais. Importante, para eles, era saber de uma nova perspectiva de trabalho que poderia aproveitar grande variedade de fibras vegetais, mas particularmente, de carnaúba, possibilitando conseguir uma qualidade profissional e técnica capaz de representar o diferencial de trabalho.
Essa prática, acreditamos, pode, ainda, contribuir para a motivação e união social desses agricultores, os quais, precisavam de uma postura social reconhecida, com identidade própria na troca de conhecimento. As pessoas ficaram entusiasmadas com a nova técnica idéia de reaproveitamento da folha de carnaúba
para produção artística do papel e curiosos principalmente porque a planta faz parte do patrimônio cultural e sentimental daquela localidade. Em Açu, a exemplo do que acontece em outros estados do Nordeste, já existem artesãos de palhas, processo da tradição regional, utilizando as várias partes da carnaúba para diversas produções artesanais, tais como esteiras, chapéus, móveis, coberturas de palha etc.
Boaventura de Souza Santos (2004, p. 77) trata do diálogo possível entre os diferentes tipos de conhecimento: “A ecologia de saberes são conjuntos de práticas que promovem uma nova convivência ativa de saberes no pressuposto que todos eles, incluindo o saber científico, se podem enriquecer nesse diálogo”, significando uma reorientação solidária da relação universidade e comunidade.
O ensino de arte, no tocante à extensão, pretende levar a prática do fazer artístico do papel artesanal tanto à comunidade universitária quanto à externa, procurando valorizar o patrimônio ecológico/ambiental porque “o mundo precisa de uma visão, de um projeto que possa levar em conta todos, especialmente os mais pobres e os mais deserdados. São eles, de fato, que detêm a chave do futuro” (QUÉAU, 2002, 479).
O primeiro grupo de formação de papeleiros de Pendências-RN constituiu-se de pessoas interessadas em desenvolver seu potencial artístico e em saber da técnica de transformar folhas em papel, como também, construir um novo trabalho nessa arte, atendendo aos objetivos das instituições envolvidas e a seus próprios interesses, pelos quais se dava continuidade à produção coletiva com folhas de carnaúba.
O conhecimento teórico e técnico, prático-educativo, pode contribuir, através do ensino de artes, para a troca de vivências criativas e artísticas. Dentro dessa
reflexão, é que se procurou relacionar práticas do saber popular com as práticas científicas de manipulação da produção do papel, entre o laboratório de artes plásticas da UFRN e outros departamentos que pudessem ampliar essas práticas, buscando-se, ao mesmo tempo, refletir esse conhecimento numa perspectiva transdisciplinar. Atendia-se, portanto, ao objetivo centrado na troca dos saberes culturais, refletindo que “a religação constitui, de agora em diante, uma tarefa vital porque se funda na possibilidade de regenerar a cultura pela religação de duas culturas separadas, a da ciência e a das humanidades” (MORIN, 2002, p. 68).
Fundamentado nessa filosofia, em 2000, foi implantado, no espaço da Fundação, em Pendências, um trabalho pioneiro, de exploração das fibras para o fabrico de papel de carnaúba, com um grupo de trinta pessoas.
Processo de produção das folhas de carnaúba – Papeleiros de Pendências
Reunidas essas pessoas, passou-se, então, para a primeira fase: desenvolver, através da Fundação Félix Rodrigues, um projeto para fazer papel de carnaúba com trabalhadores de Pendências e Alto dos Rodrigues, com a intenção de formar um grupo produtor de papel artesanal.
O processo básico de fazer papel artesanal é um processo milenar: são conhecimentos práticos que vêm passando de geração em geração, de cultura para cultura e, conseqüentemente, sofre alterações de papeleiro para papeleiro. No entanto, cada tipo de fibra, cada tipo de papel tem a sua especificidade, sua beleza quanto às suas transparências e demais singularidades.
Os momentos de exercícios práticos nessas primeiras oficinas foram de grande riqueza, à proporção que se fez necessária paciência e total colaboração para vencer condições adversas, notadamente falta de materiais e instalações adequadas. Tudo era improvisado. Mas, os participantes demonstravam seu
interesse e desprendimento próprio, trazendo acessórios auxiliares de suas residências para complementação do material básico – eram baldes, sacos, peneiras, indispensáveis para desenvolver o processo técnico. Contribuí com liquidificadores, bastidores, peneiras e CMC (Carbox Metil Celulose), espécie de goma ou aglutinante para encolagem do papel. A matéria prima “folhas de carnaúba”, foi fornecida pelo NUT – Seca, tanto para as primeiras experiências quanto para a realização dos cursos em Pendências, sendo que a instituição, também, contribuiu com outros materiais24.
Na implantação prática do papel de carnaúba, optou-se por dar continuidade ao processo incorporado nas primeiras experiências na UFRN. As aplicações desses experimentos em Pendências foram multiplicadas, agora, devido a uma proposta de produção mais significativa.
Na UFRN, realizei os primeiros experimentos empíricos para obtenção do papel artesanal de carnaúba.
Separei as folhas: as verdes, as secas, as maduras.
Lavei-as e, por vinte dias, deixei-as em repouso, em baldes separados, imersas numa solução de água, cinzas, vinagre e cal.
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Entre estes a doação de um pilão, para facilitar a maceração das folhas. Também contribuiu para a realização dos experimentos sobre a tecnologia de produção do papel de carnaúba que foram realizadas nos Laboratórios de Artes e de Química, da UFRN.
Papeleiros de Pendências
Observei que ainda continuaram ásperas.
Resolvi coar a água que apresentou uma coloração vermelho intenso, o que despertou-se, para mais tarde, procurar o departamento de engenharia têxtil, para pesquisarmos sobre a obtenção de pigmentos naturais da carnaúba.
Troquei a água. Acrescentei a cada recipiente quatro colheres de soda cáustica, mantendo as folhas nessa solução, por mais dez dias, para quebrar a resistência das fibras.
Levei-as, separadamente, ao fogo para um cozimento de três dias. Nesse cozimento, acrescentei mais duas colheres de soda caustica.
O resultado foi satisfatório, entretanto, as fibras adquiriram um odor muito forte, o que demandou novas lavagens. Depois da lavagem macerei cada porção separadamente e passei-as no liquidificador.
Transportei a pasta obtida para o tanque, adicionei cola e colhi as primeiras folhas de papel25
. Fiquei encantada! Curioso: descobri que cada tipo de folha, nos experimentos, apresentou resultado diferente, no que se refere às tonalidades. Folhas secas, tom terra escuro. Folhas verdes, tom cinza. Folhas maduras, tom bege claro; fibras dos talos, tons terra.
Não parei. Cada resultado representou um momento único. Colhi folha a folha, admirando sua beleza estética, suas texturas, suas cores. Fiz folhas de gramaturas diversas, até as transparentes, e de peso variado.
No trabalho, em Pendências, com o grupo de artesãos, também foram obtidos papéis mistos, coloridos com tintas naturais, não só para enriquecer a variedade já obtida, mas também, com o objetivo de integrar outros papéis flocados com fibras fragmentadas e com outros materiais oriundos da carnaúba, significando mais uma alternativa para a reciclagem manual.
O papel de carnaúba pode, também, ser misturado a sobras de papéis variados, além de se poder adicionar trapos e outros materiais sugestivos, capazes de contribuir para o desenvolvimento criativo de beleza estética, quanto a textura, cores e estampas. Cada descoberta colaborou para a auto-realização e integração social do grupo, confiante numa continuidade do amadurecimento da experiência. Esse tipo de papel é feito com a mistura de aparas de papéis diversos, adicionados às folhas e fibras da carnaúba e se presta ao uso escolar e artístico: desenhos, xilogravuras, uso de computação, dobraduras, embalagens decorativas e cartonagem.
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Quadro produzido pela autora com colagem de papel de carnaúba – mostra a variedade de seus tons naturais
A variedade de suas cores naturais, deve-se a vários motivos que influenciam diretamente em sua tonalidade, podendo-se atribuir essas influências ao próprio solo do seu plantio, aos cozimentos, às secagens, à coleta de matéria prima –folhas secas, amareladas, desidratadas e estragadas quase em decomposição, ou ainda, ao processo empregado na produção da polpa.
Papeleiros do fabrico de papel de carnaúba, Núcleo de Papel Artesanal - NPA
Trata-se de um produto ímpar, entre os papéis produzidos artesanalmente no Rio Grande do Norte e sua originalidade o torna um produto sofisticado com várias possibilidades de apresentação prática.
O papel de carnaúba me impressiona pela originalidade, leveza e qualidade. Um produto fino com amplas possibilidades de sucesso dos ambientes mais sofisticados aos mais simples. Este produto novo que nasce do que secularmente a natureza vem ofertando a esta região, pode ser um dos preciosos fios com que os jovens dessa terra vão tecendo seu futuro, com alegria e entusiasmo, a partir das douradas palhas da carnaúba, delicadas e resistentes como o coração dessa gente daqui (SOUZA, 2001, p. 2).
Toda essa gama de novas perspectivas atraiu os olhares curiosos e admiradores. E, acima de tudo, a expectativa, pois não havia, ainda, experiência necessária para desenvolver uma produção em alta escala, mas precisava-se atender àquelas 30 pessoas e, em seguida, realizar uma exposição. Essa era
aguardada pela própria sociedade, pelos alunos, professora, dirigentes da fundação, pois se vivenciava uma experiência pioneira no Estado.
Germano (2003, p. 20) lembra que “educação e trabalho são dois termos que caminham paralelamente no sentido literal da palavra”, de modo que, ao final dessa primeira oficina, realizou-se, em 2000, a primeira Exposição de Papel Artesanal, no espaço da Fundação, em Pendências, inaugurando o projeto, do qual estiveram presentes autoridades civis, militares e a sociedade da região. Esta solenidade foi um momento muito importante, pois significava a mostra de um trabalho exaustivo, determinado e belo que foi tecido, primeiramente na UFRN, e, depois com a comunidade regional. Sua importância centrava-se no aproveitamento e transformação de folhas, vistas por alguns como “lixo” e que, agora, eram apresentadas como produtos artesanais, podendo ter uma importância significativa, em especial, para a cultura do Vale do Açu/RN.
O grupo de artesãos do papel foi instruído para dar continuidade à produção do papel e nessa nova fase foram confeccionados papéis com outros formatos (padrões de 60 x 75 cm). Sua própria vivência permite que o processo continue trazendo novos conhecimentos. A Fundação ofereceu outros cursos de arte e artesanato, ministrados por outros professores, utilizando além do papel de carnaúba, o papel machê, e, ainda, empregando a pasta de carnaúba para a produção de peças decorativas26
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A pasta produzida para o papel também é aproveitada para a feitura de papel machê, possibilitando o surgimento de outros cursos e a obtenção de novos e maravilhosos objetos artesanais, de design inovador. Alem disso, a produção do papel permitiu, pela Fundação Felix Rodrigues, a realização do curso “Desenho de objetos com papel de carnaúba”. A obtenção desse pigmento permitiu a realização do curso de “Tingimento com pigmentos naturais”.
Esse foi, também, o momento em que se trabalhou para melhorar a qualidade do papel, o que demandou a busca da cooperação de profissionais de várias áreas para obter melhores resultados finais produtivos.
O Projeto de Papel Reciclado, do DEART/UFRN, até hoje, por sua própria natureza, viabiliza essa integração, numa troca entre os conhecimentos naturais com a visão técnica sistematizada da academia. Em 2001, contou-se, então, com a colaboração da professora Dra. Tereza Neuma de Castro Dantas, do Departamento de Química da UFRN, objetivando incorporar estudos químicos à pesquisa com o papel de carnaúba.
Uma nova perspectiva para a utilização da carnaúba está surgindo no Rio Grande do Norte. Uma experiência nunca antes testada está sendo colocada em prática pelo Departamento de Química da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). A partir da fibra da planta, que geralmente é desperdiçada, os químicos produzem papel artesanal. (…) A pesquisa foi inspirada na iniciativa da professora do Departamento de Artes da UFRN, Socorro Evangelista (…) O Departamento de Química foi convidado a participar do projeto em 2001 para otimizar e padronizar a qualidade do papel (HOLANDA, 2002, p. 7).
A aluna de mestrado em química, Mônica Rodrigues de Oliveira, aproveitou o tema como pesquisa para sua dissertação de mestrado, realizando, ao mesmo tempo, oficinas de papel na Região, para acompanhar a experiência que se estava experimentando.
Durante minha pesquisa de pós-graduação, orientada pela professora Tereza Neuma, do Departamento de Química, da UFRN, centrada no reaproveitamento da palha da carnaubeira, houve a necessidade de conhecer a técnica de reciclagem do papel. Nesse momento, tivemos o prazer de trabalhar com a professora Socorro Evangelista, do Departamento de Artes da UFRN, que passou com satisfação sua técnica. Era a primeira pessoa a produzir o papel de carnaúba. Em um primeiro momento houve essa troca de conhecimento, uma integração entre duas disciplinas que rendeu ótimos resultados (OLIVEIRA, 2005).
Tem-se, então que foi de alta significação esse acompanhamento integrado entre o papeleiro e o químico, isto é, entre o saber artístico e procedimentos científicos, configurando a extensão universitária no sentido assinalado por Boaventura de Souza Santos (1995, 2004), viabilizando e incentivando a passagem do
(…) conhecimento disciplinar para conhecimento transdisciplinar, de circuitos fechados de produção para circuitos abertos, de homogeneidade dos lugares e atores para a heterogeneidade, da descontextualização social para a contextualização; da aplicação técnica à disjunção entre aplicação comercial e aplicação edificante e solidária (SANTOS, 2004, p. 98).
Em abril de 2005, realizou-se uma viagem para observar o trabalho do grupo e coletar depoimentos dos papeleiros, possibilitando, ao mesmo tempo, examinar a paisagem ambiental, procurando situar a carnaubeira em relação ao contexto social do homem. Para isso, foi formada uma equipe, da qual participaram O sociólogo, escritor e poeta do Vale do Açu Gilberto Freire de Melo, o fotógrafo Jonas Canindé Ribeiro da Cunha Barros, a professora Nísia Floresta, do Departamento de Educação, e a aluna Judite Pereira de Medeiros Cavalcanti, do Curso de Artes da
UFRN. Realizou-se, para esse grupo, uma demonstração prática de como fazer papel, coletando-se, posteriormente, os depoimentos dos papeleiros que permanecem com a atividade.
Eu durante a visita a Pendências, nessa ocasião obtive o depoimento de que alguns artesãos que freqüentavam tanto cursos profissionalizantes, de bordados, fuxico, papel machê e pigmentos naturais , entre outros, como o de papel de carnaúba que muito contribuiu para um melhor desempenho desta prática artesanal. Eles informaram que o trabalho artesanal aumentou sua auto-estima, facilitando a integração social e cultural e está contribuindo para melhorar sua renda familiar.
Adoro fazer essas coisas: bordado, cestaria, brincos, ‘fuxico’, mas quando ouvi falar em fazer papel de carnaúba, pensei... fazer papel de carnaúba? Taí o povo botando dinheiro no mato. Gosto muito de ficar aqui na Fundação fazendo papel; a mente da gente fica funcionando, isto é, fica ocupada com coisas que a gente gosta de fazer, aprendendo e se educando. O tempo passa logo e é gostoso porque dá gosto a gente trabalhar. A gente se sente feliz um com o