2.8 Dynamic nudge design
2.8.3 Dynamic design
Socorro Evangelista
P
artindo do entendimento de que o ensino da arte extrapola os limites acadêmicos, buscando a multiplicação do conhecimento no contexto histórico global e local e, ainda, elaborando uma reflexão sobre o cotidiano é que setrilham alguns caminhos construtivos no ensino de arte. Percebeu-se, na inquietação do refazer e transformar velhos papéis em novos, a possibilidade de ampliar a relação do conhecimento artístico-acadêmico com o conhecimento popular, através de projetos de extensão universitária.
Entre os vários projetos de Extensão desenvolvidos pelo Departamento de Artes/UFRN, inserem-se os trabalhos sob a responsabilidade do Grupo Universitário de Aquarela e Pastel e, sobretudo, o Projeto de Extensão de Papel Reciclado, o qual vem desempenhando a função basilar de buscar para seus participantes a integração social, artística e cultural, enfatizando, nesse processo, a proposta de valorização do lixo como um elemento básico de preservação do meio ambiente, na busca do equilíbrio da natureza.
Está em sintonia com o Plano Nacional de Extensão Universitária e as propostas da Pró-Reitoria de Extensão da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (PROEX), como processo educativo, cultural e científico que articula o Ensino e a Pesquisa, de forma indissociável, para viabilizar a relação entre a Universidade e a sociedade. Reafirma que uma das funções da extensão é objetivar o processo educativo, viabilizando uma relação transformadora entre a Universidade e a sociedade integrada ao ensino, à pesquisa e à extensão.
Trabalhando com a criatividade de um público de todas as idades, é que a reciclagem busca despertar uma consciência ambiental, a partir da preservação da natureza utilizando, no presente caso, como instrumento, o papel artesanal reciclado.
É evidente que o desejado equilíbrio entre a utilização do homem dos recursos naturais, essenciais à vida, e a subseqüente reposição dos mesmos, para a garantia de sobrevivência futura que, para muitos, significa o denominado desenvolvimento sustentado, só será alcançado quando a consciência ambiental estiver plenamente consolidada em todas as sociedades e em todas as camadas populares (PINHEIRO, 2003, p. 60).
O projeto em apreço vem desenvolvendo experimentos de materiais alternativos e fibras de vegetais, como folhas, caules e cascas de árvores para o fazer papel e objetos artísticos. Inclui-se, ainda, nessa agenda a promoção de cursos, oficinas e palestras, seminários sobre a importância do papel reciclado e artesanal, como proposta construtiva de socialização e de educação ambiental.
Dando atenção à função da Universidade, tem-se em Edgar Morin:
A Universidade conserva, memoriza, integra, ritualiza uma herança cultural de saberes, idéias e valores, porque ela se incumbe de reexamina-la, atualiza-la e transmiti-la, o que acaba por ter um efeito regenerador. A Universidade gera saberes, idéias e valores que, posteriormente, farão parte dessa mesma herança. Por isso, ela é simultaneamente conservadora, regeneradora e geradora (MORIN, 2002b, p. 13).
Entende-se, também, com Morin (2002), que o desenvolvimento científico ocorreu, caracterizado pela fratura e especialização, com fragmentação de saberes, significando uma separação entre ciência e cultura humanística – artes, filosofia, humanidades, bem como, da tradição. Nessa separação e fragmentação, com a disjunção sujeito humano / natureza / cultura, ocorreu, também, a cisão entre dois pensamentos-chave complementares: “o pensamento racional, técnico e o pensamento simbólico, mítico, religioso” (GERMANO, 2003, p. 301-304). Esse
esquema mental disjuntivo, de grandes contribuições à ciência, causou inestimáveis prejuízos à humanidade, sobretudo, às camadas populares, mediante a desvalorização dos conhecimentos trans-seculares da tradição, relegados a um plano inferior.
Por esse enfoque, os programas de extensão universitária se revestem de elevada significação no que diz respeito à possibilidade de desenvolver uma prática acadêmica não-disjuntiva, ao articular os valores oriundos da vida acadêmica com os conhecimentos advindos da experiência popular. São experiências que vem passando de geração em geração. Essa troca de saberes acontece na maioria através do diálogo, além dos vários outros meios de comunicação.
Assim, o Projeto de Extensão universitária de papel reciclado possibilita a construção de espaços de intercâmbio entre o saber acadêmico e o saber popular, permitindo aquela religação proposta por Edgar Morin.
Canclini (1984, p. 37) ensina que “a arte nunca é tão fascinante, criativa e libertadora como quanto atua de forma solidária com a capacidade produtiva e cognoscitiva do povo”, significando que as experiências de transformação que ocorrem na prática artística não podem separar o chamado conhecimento acadêmico do conhecimento popular.
É necessário, no entanto, deixar transparente o que “ensino” e ”arte” significam.
Parte-se do entendimento de que o conhecimento não se transmite, mas se “constrói”, porquê o ensino é entendido, aqui, como formação e autoformação, re- introduzindo o sujeito no conhecimento, pois a relação saber, aprender, saber e ser é complexa e aprofunda a análise das concepções sobre as estruturas sociais,
culturais e educativas da sociedade. Ou seja, ensinar/aprender são indissociáveis, e, o processo de ensinar é, também, um processo de aprender, significando que o educador tem a possibilidade de interiorizar novas experiências e aprendizados. A função do ensinante passa a ser de um facilitador do diálogo com os saberes, respeitando, profundamente, a diversidade e a peculiaridade de cada participante no complexo processo educativo.
A teoria da complexidade de Morin ajuda a tentar juntar as partes deste mosaico de saberes, pois, sem dúvida, é no campo da educação, do ensino, que o pensamento complexo vem causando maior impacto. Nessa caminhada, reflete-se com Morin (2002a, p. 30) “que um saber só é pertinente se é capaz de se situar num contexto. Mesmo o conhecimento mais sofisticado, se tiver totalmente isolado deixa de ser pertinente”. Desse modo, o saber pertinente é aquele que se realiza tendo por cenário o contexto maior do qual é parte e, nesse sentido, constitui aquele conhecimento que é tecido junto, que envolve formação e auto-formação. É aquele que não despreza a tessitura formada pela interação e interdependência de seus elementos, das diversas dimensões presentes nos processos humanos.
O trabalho artístico tem se propagado pela sua tradição, como apoio a projetos que viabilizam a valorização da cultura, dos saberes popular e científico. Este é o caso de projetos desenvolvidos no âmbito da extensão universitária, que procuram fazer dialogar saberes e práticas diferenciados.
Assim, ensinar a transformar “papel velho” ou fibras já descartadas, em papel artesanal, constitui também no seu processo quer direta ou indiretamente uma relação professor/aluno desempenhando uma função social, integrada no que se refere a valorização da natureza/cultura/vida.
Acredita-se que “arte não é apenas uma conseqüência de modificações culturais, mas o instrumento provocador de tais modificações e, portanto, baseia-se principalmente em pensamento divergente (…)” (BARBOSA, 1995, p. 11), “tão inesquecível e insubstituível como a linguagem” (CALABRESE, 1985, p. 62).
É um corpo organizado de conhecimentos que exige o mesmo rigor intelectual esperado nas ciências exatas e humanísticas.
Com relação à arte, existem teorias que podem contribuir para o desenvolvimento estético e crítico dos alunos, principalmente no que se refere aos seus processos de produção e apreciação artísticas (…) O próprio conceito da arte tem sido objeto de diferentes interpretações: arte como técnica, materiais artísticos, lazer, processo intuitivo, liberação de impulsos reprimidos, expressão, linguagem, comunicação…
Para nós, a concepção de arte que pode auxiliar na fundamentação de uma proposta de ensino e aprendizagem artísticos, estéticos e atende a essa mobilidade conceitual, é a que aponta para uma articulação do fazer, do representar e do exprimir (FUSARI; FERRAZ, 1993, p. 18)
Arte é busca de significados de vida, de modo que arte e artesanato são utilizados como sinônimos porque, em ambos, é possível encontrar “criatividade formal, geração de significados originais e autonomia com respeito às funções” (CANCLINI, 2003, p. 245).
Ostrower (1983, p. 20) lembra que em nossa sociedade, ainda, o pensamento sobre o que é arte é, pelo menos, ambivalente, à medida que, embora se reconheça a obra de arte como sendo um produto do fazer artístico valioso, “por outro, o fazer artístico em si é considerado inútil, mera diversão ou lazer, terapia talvez, mas nunca trabalho”.
Por outro lado, arte e artesanato são, em alguns momentos, dissociados, como se somente a “arte” comportasse o fazer artístico, o verdadeiro trabalho criativo.
Bosi (1995, p. 14) trata da historicidade ideológica dessa separação entre arte e artesanato, pois, segundo ele, inicialmente, eram denominadas de arte todas as “operações estruturantes”, de modo que comportava tanto “as atividades que visavam comover a alma”, quanto outras ligadas aos ofícios. A partir do Império Romano, rompeu-se essa unidade, de modo que a arte passou a ser apenas aquela realizada pelos homens livres, ficando os ofícios com os servos, de condição mais humilde.
Na mesma linha de pensamento, Canclini (2003, p. 242), aborda essa dissociação a partir do entendimento de que “as oposições entre o culto e o popular, entre o moderno e o tradicional, condensam-se na distinção estabelecida pela estética moderna entre arte e artesanato”, estabelecendo que esta dicotomia permite que se conceba arte como produção de obras únicas e artesanato como produção de um conjunto de obras idênticas:
Ao conceber-se a arte como movimento simbólico desinteressado, um conjunto de bens “espirituais” no quais a forma predomina sobre a função e o belo, sobre o útil, o artesanato aparece como o outro, o reino dos objetos que nunca poderiam dissociar-se de seu sentido prático (CANCLINI, 2003, p. 242).
Através da arte é possível que o homem, em especial, o artista possa olhar a natureza, o mundo em prismas diferentes, recriando-o em outra dimensão, de tal sorte que, ao fazê-lo, a realidade não está aquém e nem na obra, mas é o próprio
construído. O artista não copia o que é, antes cria o que poderia ser e, com isso, abre as portas da imaginação. A pintura, a escultura, o teatro, a música, a arquitetura – ou seja, quaisquer das formas pela qual a arte se apresente – elaboram uma transfiguração do existente numa outra realidade, que o faz renascer sob uma nova forma, num processo vivo e vivificante.
Assim, também, com as atividades de renovação do papel que como instrumento se prestam à troca de conhecimentos técnicos, práticos, educativos, tendo como viés o ensino de arte, se propondo dinamizar o público envolvido, conduzindo-o a um olhar criativo, para o objeto existente, já percebendo nele, tudo o que ele pode vir a se tornar, velhos papéis em novos papéis.
Cumpre destacar o que, na maioria, observamos igualmente o aspecto de renovação dos participantes dos cursos ofertados, pelo projeto: seres mais integrados com eles próprios, com a família e com a sociedade, isto porque entendemos que a arte, em sua complexidade, pode envolver integral e definitivamente a pessoa e pode auxiliar, de modo eficaz, no combate à violência e à miséria. Nessa perspectiva, entende-se a extensão universitária como um instrumento dinâmico, multiplicador do processo educativo, gerador da articulação Universidade/comunidade. Deve esclarecer sobre a importância de preservar esses saberes.
O papel faz parte da arte de transformar o pensamento através das leituras e nele, entende-se, estar impregnada a poesia da vida, na preservação da natureza, na sabedoria do universo cultural, pois o ser humano compreende que, “a universalidade do homem aparece na atividade prática universal pela qual ele transforma a totalidade da natureza no seu corpo inorgânico” (MARX, Apud. ALVES,
1983, p 33). Nessa viagem de procura, de descobertas, de grandes desafios, de incertezas, de emaranhado de pensamentos e de fibras dispersas, o homem convive com a contradição, buscando novos caminhos, novas indicações para um pensamento transformador, acessando formas de viver com qualidade, num desejo de transformação pessoal e social. Assim, ele pode contribuir para a história cultural da humanidade, a partir do momento em que se insere em seu espaço e o compreende como parte do universo.
A história, nos ensina Morin (2003, p. 23), desempenha um papel-chave nesse aspecto, permitindo que o indivíduo incorpore a história de sua localidade, de seu país, de seu continente, inserindo-o na história mesma da humanidade, compreendendo e assimilando “um tipo de conhecimento que se tornou demasiado complexo para abarcar todos os aspectos da realidade humana”.
Conforme o pensador francês, como educadores,
(…) temos finalidades (…). Elas consistem em dar aos alunos, aos adolescentes que vão enfrentar o mundo do terceiro milênio uma cultura, que lhes permitirá articular, religar, contextualizar, situar-se num contexto e, se possível, globalizar, reunir os conhecimentos que adquiriram (MORIN, 2002b, p. 29).
Nessa perspectiva, a relação do papel – em suas diversas formas – com o ensino de arte, com a pesquisa e com a extensão universitária, enquadra-se nessa dimensão e é possível proporcionar uma maior integração social e de inter-relacionar os saberes diversos, preservando aquele diálogo necessário entre cultura, ensino de arte e ciência, entre o saber acadêmico e o saber da tradição. Nesse âmbito, a reciclagem se propõe a dialogar com os programas de defesa ecológica, de
educação, de preservação ambiental na intenção de multiplicar a prática artística do ensino de arte e de reutilização do “lixo” – que “não é lixo” – para produção artística.
Do lado popular, é necessário preocupar-se menos com o que se extingue do que com o que se transforma. Nunca houve tantos artesãos (…) porque seus produtos mantêm funções tradicionais (…) e desenvolvem outras modernas: atraem turistas e consumidores urbanos que encontram nos bens folclóricos signos de distinção, referências personalizadas que os bens industriais não oferecem (CANCLINI, 2003, p. 22).
Com a prática do papel reciclado artesanal, seus produtores podem sugerir abrir novas direções para a produção criativa capazes de conduzir pessoas a caminhos construtivos, no processo artístico. A “teia” das partículas que formam as tramas do papel, em sua complexidade de texturas e cores, pode permitir um repensar na sua aplicação, não apenas quanto ao produto, em si, mas da própria experiência pessoal. Esse exercício criativo pode contribuir para desenvolver concomitantemente o processo intelectual, perceptivo do aluno.
O pensamento contextual busca sempre a relação de inseparabilidade e as inter-retroações entre qualquer fenômeno e seu contexto, e deste com o contexto planetário. O complexo requer um pensamento que capte relações, inter-relações, implicações mútuas, fenômenos multidimensionais, realidades que são simultaneamente solidárias e conflitivas (…), que respeite a diversidade, ao mesmo tempo que a unidade, um pensamento organizador que conceba a relação recíproca entre todas as partes (MORIN, 2003, p. 19-20).
O certo é que a realidade é complexa. A arte é complexa e não pode estar apartada da vida: “tirou-se a arte do pedestal acadêmico, afirmando sua origem na
vida cotidiana e desenvolvendo o senso crítico do estudante em relação aos valores sociais” (BARBOSA, 1995, p. 21). Refletindo sobre si e sobre o contexto social local esta complexidade, é relevante para a educação, pois “reflete-se na visão pedagógica e nos métodos didáticos a serem adotados, revelando também a motivação intima do educador, mola-mestra do ensino”. Fayga Ostrower (1983, p. 22).
Evidencia, ainda, sua preocupação de que num curso de arte o educador deve:
(…) dar uma idéia da arte em sua complexidade – de riqueza espiritual que representa para a humanidade e da multiplicidade de níveis de significado sempre renováveis. A noção de complexidade deve ser bem entendida: não se trata de um estado de complicação maior, mero acúmulo de dados, e sim da complexidade como uma qualificação estrutural e significativa (id., ib.).
O ensino de arte faz parte deste processo educativo contribuindo para a realização de mudanças sociais e intelectuais. Nesse sentido rejuntar o novo e o velho, a história antiga e a contemporânea, o saber popular e o saber científico, torna-se relevante. Tal ocorre porque sua construção é cultural, com aquele significado de cultura das humanidades como pensa Morin (2002, p. 57), na medida em que favorece “a capacidade de refletir, de meditar sobre o saber e, eventualmente, integrá-lo em sua própria vida para melhor esclarecer sua conduta e o conhecimento de si”. Muitos professores têm ocupado a vaga do professor de arte, o que tem contribuído para a distorção do pensamento com relação à arte. Sabendo-se que “trata-se de um trabalho que deve ser empreendido pelo universo docente, o que comporta evidentemente a formação de formadores e a auto-
educação dos educadores” (MORIN, 2002, p. 35), na acepção de que é preciso reformular-se o trabalho cotidiano do educador, conduzindo tal qual uma missão, imbuída de “fé na cultura, fé no espírito humano”. Nesse sentido é que se entende a afirmação de Morin de que é preciso despertar esse “eros” para com a matéria que se ensina, para com as pessoas a quem se ensina. Do mesmo modo, ensinar arte resolve-se como realizar uma missão capaz de introduzir esse princípio de “fé” para uma nova educação (MORIN, 2002, p. 36-7).
FUSARI e FERRAZ (1993, p. 69) defendem que “para desenvolver um trabalho de arte, o professor precisa descobrir quais são os interesses, vivências, linguagens, modos de conhecimento de arte e práticas de vida de seus alunos”. Contudo, a técnica instrumental, também, deve ser dominada para que a arte se desenvolva.
A partir desse entendimento, se pode afirmar que o ensino de artes pode favorecer o aprendizado teórico – prático do aluno que, durante a confecção, também experimenta um clima de regozijo, por entender que com a arte se pode vivenciar o aprender na escola como um ato de alegria, porque como diz Martins (1979, p. 17): “a vida e a Arte nasceram de um mesmo amor, de uma mesma paixão… a arte segue seus caminhos contando a história, vivendo a vida, projetando o futuro”.
Na escola, no meio acadêmico ou na comunidade externa, percebe-se a necessidade do fazer criativo (re)pensar o cotidiano, o meio social, de modo a recriá- lo.
Ao produzir trabalho de arte, a criança reflete também sobre suas relações com o mundo. Não pensamos que apenas a valorização do processo seja importante, mas acreditamos na importância do produto final como realização prazerosa de um objetivo cumprido. O lúdico, o incentivo à imaginação criadora e o desenvolvimento de habilidades neste processo de ensino respeitam profundamente o trabalho do aluno.(BUORO, 2001, p.150).
O aproveitamento do papel constitui-se, então, um veiculo didático para explorar o ensino de arte, estimulando a curiosidade constante das pessoas envolvidas, de crianças a adultos, fazendo crescer nelas o interesse pelo maravilhoso, pelo lúdico, pois se trata de um processo que propicia novas conquistas individuais e coletivas.
Dentro dessa perspectiva, o papel pode ser utilizado, nas mais variadas formas criativas. Em nossas oficinas, por exemplo, procuramos construir fantoches, bonecos do cotidiano da população nordestina, em geral, encontrados em praças, mercados e escolas. Bonecos que falam, dialogam, cantam, retransmitindo nessas ações aspectos da realidade social. Não são objetos quaisquer, mas objetos simbólicos, que carregam em seu itinerário, histórias de vida, podendo desencadear processos conscientes e inconscientes de atuação.
Parece que é da natureza humana proceder de forma que possa se comunicar com os aspectos subjetivos da natureza. O homem, através dos tempos, começa a se relacionar com o outro, através de objetos inanimados que se animam, ganham vida e se institucionalizam. Esse procedimento ou consiste numa tentativa de apaziguar a realidade que lhe é imposta, procurando dar valor e sentido a vida, manifestando assim a força comunicativa do ser humano ou existe porque representar é forma humana encontrada para amenizar sua busca diante da Divindade, por isso, o ato de sagrar objetos e dar-lhes significados (CANELLA, 2004, p. 42).
Oficina de Reciclados – Criando Fantoches (Bonecos), participação na CIENTEC e Semana de Humanidades - UFRN
Na atualidade, o ato de fazer bonecos, utilizando material popular, notadamente o papel machê, pode vir a ter um sentido mais amplo no que diz respeito à necessidade de reaproveitamento do descartado, das sobras de papel, da
transformação desse material para produção artística, permitindo a religação desse processo criativo à história dos mamulengueiros e à questão de preservação da memória cultural, enfatizando, enfim, a relação da história com a memória (SANTOS, 2002). Com isto, é possível que a prática contribua para a valorização do patrimônio cultural, para a preservação do folclore regional, levando os alunos13
a uma reflexão sobre o contexto político e educativo da atualidade.
A arte do mamulengo é uma tradição praticada desde as antigas civilizações, até os dias atuais. Lembramos, aqui, que Câmara Cascudo considerava a cultura popular numa perspectiva universalista, ou como lembra Ledo Ivo (apud GICO, 1998, p. 17): “um complexo representando a totalidade das atividades normais do povo, do artesanato ao mito, da alimentação ao gesto”.
O ato de reutilizar o papel pressupõe, ainda, uma postura educativa que encaminha o aprendente e o profissional para saber reaproveitar matéria prima reciclável. Para Morin (2002b, p. 127) “a reciclagem é indispensável para manter a quantidade desses materiais disponível”, pois “todo produto, todo material reciclável é um produto que contém uma matéria prima renovável, que não é produzida, mas sim explorada”. Tal se dá, também, com o papel artesanal, cuja matéria prima, a fibra, não é produzida pelo homem, mas extraída de diversos vegetais encontrados na natureza.
Esse preservar traz, por sua dimensão ética, um compromisso do indivíduo