Busquei, também, dentro da mesma perspectiva, levantar questionamentos transdisciplinares sobre a temática educativa, no ensino da arte tais como: preservação da natureza ecológica e da vida, da cultura, da arte, do ensino da arte na escola e fora dela, bem como, sobre o papel artesanal e sua relação com as questões sociais, criativas, educativas e artísticas, objetivando compreender a importância de uma Universidade aberta, participativa.
Num universo de leituras e experiências realizadas, desde 1985 e até 1990, para a confecção de papéis especiais, chegou, em 1991, em visita ao Laboratório de Artes, a professora Terezinha de Queiroz Aranha, coordenadora do NUT-Seca - UFRN, pesquisadora, estudiosa e defensora do assunto “carnaúba”.
(…) o Núcleo de Pesquisa sobre a Problemática da Seca no RN se punha a exercitar uma metodologia denominada de ' troca de saberes'. (…) Tratava-se de fazer dialogar, contrapor e buscar a complementaridade entre diversas formas de compreensão da seca: as interpretações da ciência, o discurso da política e os saberes sistematizados pelas populações rurais (ALMEIDA, 2003, p. 23).
Dentro desse enfoque dialógico, ela indagou se já existiam estudos para fazer papel artesanal da carnaúba, no RN, despertando, desse modo, o interesse de experimentar suas folhas para a produção artística do papel artesanal. Aceitei a provocação desse desafio. O NUT-Seca, de imediato, providenciou a matéria prima para os experimentos empíricos.
Diante das palmas da Carnaúba. Palmas verdes… Outras secas… Selecionei as folhas, rasgando nos seus veios. Cortei algumas, Separei-as. Repousei o meu olhar de observador, minuciosamente, como que acariciando as texturas na longitude. Analisei-as sensivelmente.
Optei por dar continuidade ao processo didático já incorporado com as demais fibras que vinha sendo levantado e utilizado, na UFRN. Vários e vários testes foram feitos.
Separei alguns recipientes de plástico para colocar as folhas que seriam testadas simultaneamente. Observei os resultados na metamorfose de cada bloco da matéria prima impregnado pela condução da sensibilidade.
Papel artesanal com folhas de carnaúba, experiência pioneira no RN, realizado pela autora no Laboratório de Artes Plásticas do Departamento de Artes da UFRN
A partir daí a carnaúba passou a fazer parte da lista de plantas a serem utilizadas no fabrico de papel artesanal. Naquele ano, 1991, portanto, foram realizadas e concluídas as primeiras experiências com as fibras vegetais de Carnaúba.
1992: com os resultados obtidos, nos experimentos realizados, ainda, na UFRN, o NUT- Seca - UFRN enviou, através do Professor Maurício de Oliveira16, as primeiras folhas de papel de carnaúba, produzidas por mim no Laboratório de Artes Plásticas da UFRN, para participar de uma exposição na segunda Conferência Mundial para o Meio Ambiente e Desenvolvimento, no Rio de Janeiro, conhecida como ECO-92, tendo obtido grande sucesso, chamando a atenção de papeleiros, visitantes e outros participantes do evento17.
Esse acontecimento, em particular, veio determinar, posteriormente, os trabalhos com papel artesanal de carnaúba que foram realizados em Pendências - RN. Isto porque, A Profª Tereza Aranha propõe, então, que eu ministrasse um curso de papel artesanal de carnaúba, para um primeiro grupo de papeleiros, a ser formado em Pendências. Aceitei de imediato, elaborando um projeto que atendesse aos interesses do NUT-Seca - UFRN.
Em 1993: V Encontro Nordestino de Arte-Educadores, no Centro de Convenções de Natal-Rio Grande do Norte (RN), promovido pela Associação Nordestina de Arte-Educadores – ANARTE e pelo Departamento de Artes da UFRN. Nessa ocasião Aranha propôs na oportunidade
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Maurício de Oliveira é colaborador do Programa “a Problemática da Seca no RN”, como representante da Escola Superior de Agricultura de Mossoró (ESAM).
ministrar uma Oficina de Papel Artesanal, como treinamento para professores e estudantes de artes. Resultados satisfatórios: os participantes se mostraram interessados e, brincando com as texturas, aprenderam significativamente durante as aulas.
Com o amadurecimento das experiências, o papel artesanal, logo tornou-se alvo do interesse de algumas pessoas que sempre buscavam novos treinamentos. Realizamos inúmeras oficinas de papel reciclado no DEART/UFRN e em comunidades externas, através do Projeto de Extensão do Papel Reciclado. Resolvemos fazer um trabalho mais elaborado no Laboratório de Artes Plásticas do Departamento, aproveitando o interesse de jovens e adultos do Bairro de Mãe Luíza e de outras comunidades, de Natal, reunindo, periodicamente, grupos interessados em aprender a fazer papel. Alguns se deslocavam de bairros periféricos como Cidade Nova e Nova Natal, entre eles, filhos de funcionários da UFRN, dos quais coletamos depoimentos gratificantes:
O papel reciclado foi uma salvação para minha vida. Contribuiu para o meu ganha-pão. É um trabalho digno que só traz alegria. Hoje sou respeitado no bairro onde moro e as pessoas das escolas e, mesmo outras, vivem me procurando para comprar papel reciclado. (Paulo José da Silva, morador de Cidade Nova).
Produziram-se os primeiros convites para festas de aniversário e casamento, cartões de natal e para presentes, cadernos e suporte para pintura. Esta etapa do trabalho foi produtiva e
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É necessário mencionar aqui a importância do trabalho do Nut-Seca - UFRN na questão da preservação ecológica da Carnaúba, no Vale do Açu. A luta para descobrir meios alternativos para a valorização da Carnaúba, criando, através de sua fundadora e coordenadora, Tereza Aranham, sugestões para explorar a matéria prima de forma ecologicamente correta, objetivando o aproveitamento e reaproveitamento das palhas da carnaubeira, em procedimentos que possam gerar ocupação auto-sustentável e, ao mesmo tempo, manter a sobrevivência do carnaubal. O Nut-Seca - UFRN procura, então, alertar a população do Vale do Açu e, em especial, as autoridades competentes “do perigo que todos correm com a devastação dessa floresta que além de proteger o rio –como mata ciliar – era longamente utilizado na construção de casas e de equipamentos para a vida produtiva da população”.
estimulante, concluída com uma exposição dos trabalhos finais. Importante é registrar quanto foi significativa esta experiência, principalmente pela integração da Universidade, professores e alunos junto às comunidades dos bairros periféricos de Natal.
Buscando maior experiência e enriquecimento do trabalho: aceito o desafio de desenvolver oficinas de papel artesanal com outro público, a saber, jovens com necessidades especiais, portadores de Síndrome de Down, alunos de uma escola modelo de Natal. Além de apresentar senso de responsabilidade, os jovens primavam pela qualidade do seu papel mostrando certa aptidão, zelo, organização além do respeito pelo trabalho do outro. O clima durante as atividades nesta oficina foi de solidariedade e alegria.
Novos trabalhos com crianças: a facilidade de produção do papel artesanal e suas inúmeras possibilidades de uso permitem a realização de uma nova oficina para produzir arte aproveitando material tido como “lixo”, agora com pessoas do município de Parnamirim. Esta oportunidade surgiu do convite que recebemos de uma Associação Espírita que promovia um encontro naquele Município.
A oficina: integração entre crianças e adultos as quais tiveram uma excelente participação. O interesse desse grupo centra-se em continuar a atividade com papel reciclado, no sentido de que pudessem produzir cartões de Natal e outros para festas e eventos.
“1993: mantivemos contato com artistas plásticos de reconhecida projeção, em Natal e internacionalmente, como Dorian Gray, Márcia Tresse, Vicente Vitoriano, Regina Guedes” (EVANGELISTA, 1995, p. 12), para, juntos comigo, aplicarem sobre nosso papel, o reciclado e o artesanal, materiais artísticos: óleo, acrílico, argila, aquarelas e pigmentos naturais objetivando explorar o papel como suporte para arte e dar respostas categóricas sobre os resultados.
Os resultados desse diálogo e dos projetos de extensão, no caso particular do papel reciclado, na UFRN, comprovaram a qualidade e a resistência do papel artesanal produzido, além de suas possibilidades de aplicação em arte, exigindo novas técnicas e crescimento de nossas habilidades, buscando atitudes e metas mais audaciosas.
Em 1994. Paralelamente a este trabalho com crianças pobres, desenvolvemos outros cursos de extensão com grupos de terceira idade (pessoas acima de 60 anos), no bairro de Neópolis e na Associação da Idade Maior, do América Futebol Clube.
Para este grupo, os interesses estavam mais dirigidos para a elaboração de objetos de decoração. Entretanto, o interesse pelo uso de papel artesanal e do papel machê foi evidente. O importante, para todos nós, era a vivência e a integração social, o sentido de auto-realização, e o compartilhar de novas descobertas e valores artísticos. A integração entre artistas, professores e alunos, em qualquer idade, é sempre algo construtivo e gratificante em termos culturais, criativos e humanos.
No decorrer dessa viagem de ensino e extensão universitária, além das inúmeras oficinas desenvolvidas com papel reciclado e artesanal, destaco a participação em congressos nacional e regional, cursos, oficinas, e, ainda, palestras por ocasião das Semanas de Humanidades do CCHLA (Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes) e das CIENTECs (Semana de Ciência, Tecnologia e Cultura) da Pró-Reitoria de Extensão da UFRN.
Exposição de papel reciclado artesanal – CIENTEC-UFRN
O trabalho, realizado no Laboratório de Artes Plásticas do Departamento de Artes da UFRN, nesse período, foi gratificante, principalmente pela valorização da questão ambiental, pois em todos esses momentos de criação, recriação e renovação, o diálogo sobre essa temática esteve sempre vivo, conforme depoimentos relatados por alunos que participaram dessas vivências.
Nas oficinas de papel reciclado (…) a questão ambiental, bem debatida (…) conscientiza os alunos para formar aprendizes e multiplicadores do pioneirismo. [Ao mesmo tempo] proporciona uma fonte de renda para a comunidade (…) (Luís de Siqueira M. Filho, aluno de Arte, da UFRN).
Sobre esse tema, merece destaque o depoimento da artesã, Rosário, do bairro de Potilândia, que executa trabalho com papel reciclado há quatro anos: ela revela que prefere o papel reciclado porque entende que está “contribuindo com a limpeza do solo que habitamos. E que devemos preservar o nosso planeta com amor”. Seu interesse em fazer papel reciclado foi despertado pela sua necessidade de fazer e vender seu papel. Utiliza restos como: revistas, jornais, documentos, embalagens de cartão, papelão e flores, papel seda, carbono, folhas, caule da bananeira e os tinge com pigmentos artificiais, além de chás naturais.
1995: atendend, a proposta do Reitor da UFRN Geraldo dos Santos Queiroz, por ocasião da inauguração das instalações do Núcleo de Tecnologia Educacional, fabricamos um suporte nas dimensões de 1,90m X 2,0m para abrigar um trabalho de pintura efetuado sobre papel reciclado artesanal. Esta obra de arte, cujo título é “Vibração” faz parte do acervo da UFRN e está exibido no hall daquele Núcleo. Outras obras nesses padrões foram produzidas, adquiridas por apreciadores de arte.
Tal trabalho, como projeto universitário, torna-se uma atividade pioneira no Rio Grande do Norte. Significativa realização pessoal.
1996: Novas oficinas de extensão no DEART desenvolvidas pela UFRN, nas escolas, nas comunidades periféricas de Natal. Momentos de felicidade vendo esse crescimento que conta com a minha orientação.
Sonhos e ousadia: o crescimento tanto na teoria e na prática quanto nas descobertas do valor humano que o papel exercia, já permitem um processo embrionário de produção em larga escala de papel artesanal.
1997: novas oficinas no DEART e UFRN crianças, adultos artesãos, artistas e arte educadores demonstraram interesse à proposta de miniprodução artesanal. Essa experiência se desenvolveu enfatizando a possibilidade de se preparar a mão-de-obra artesanal, mas envolveu, também, outros objetivos de educação e formação através da arte. Havia também a continuada pretensão de sensibilizar órgãos responsáveis pelo apoio à arte e à cultura, pois, por menores que sejam os custos, eles são necessários para a aquisição de algum equipamento específico notadamente naquela fase de trabalho que estávamos vivenciando.
Lemos Stephen Nachmanovitch (1998), para concluir que a beleza de trabalhar o papel junto com outras pessoas possibilita encontrar a unidade. “O fazer artístico compartilhado é, em e por si mesmo, a expressão, o veículo e a força motriz dos relacionamentos humanos”, porque o fazer artístico, em conjunto, permite que as pessoas construam um relacionamento direto com o outro, ao mesmo tempo, em que ressignificam suas vidas e a própria sociedade.
Foram desenvolvidas oficinas de artes e reciclados e oferecidas para comunidades estudantis do interior de Macau, Acari, João Câmara, entre outros municípios do Estado.
Particularmente acho muito importante que a sala de aula seja estendida à comunidade, principalmente, para alunos e professores do interior, como forma de oportunizar, melhorar e desenvolver o ensino de arte. (EUCLIDES T. NETO, aluno de Arte, da UFRN)
Procuramos nos voltar, a partir daí, para novas realizações de experiências com papel artesanal, ampliando os resultados, de modo a poder oferecer mais opções artísticas.
Um universo de tramas e cores a ser explorado. Continuamos com os experimentos, acrescentando fibras vegetais à polpa de papel. Além das folhas de bananeira, experimentamos:
capim elefante, algas, raspas de madeira, cascas de alho e cebola e flores. Observamos novos resultados quanto à textura, coloração, espessura, analisando a resistência de cada papel; aplicamos sobre estes papéis, técnicas de serigrafia, pintura, cera. Os papéis foram, também, utilizados na produção de esculturas, máscaras, embalagens e dobraduras.
Organizamos exposições no DEART/UFRN: apresentamos o material, demonstrando as texturas, técnicas de fabricação do papel e suas aplicações. Interessou-nos, além de experimentar o material, transformando-o em obra de arte, mostrar ao público todas as suas possibilidades criativas e, com isto, despertar mais interesse nas pessoas e a sua curiosidade sobre esta prática.
Recebemos várias encomendas do papel feito com cascas de cebola e folhas de bananeira misturadas à pasta de reciclado de aparas de papel. O produto seria aplicado em cartões para apresentação e para convites de casamento e de aniversários. Outras aplicações sugestivas são: revestimento de móveis e paredes.
1998. Sonhos e ousadia: a próxima etapa do trabalho com a reciclagem poderá ser um projeto que ofereça condições de continuidade exploratória, produção de papel para o mercado de consumo. Isso é possível, haja vista que, no Rio Grande do Norte, não registramos, até o momento, nenhum grupo de fabricação de papel artesanal em alta escala, a não ser alguns artesãos isolados: tudo vem de fora. Nossa proposta: utilizar material reciclável, aparas de papel e poda de vegetais, com ênfase no aproveitamento das fibras dos produtos agrícolas de maior destaque no Rio Grande do Norte, além de aproveitar parte da poda das jardinagens, entre outras tantas possibilidades.
Novas perspectivas: no sentido de dar continuidade ao ensino de arte através das oficinas de Extensão, buscar papeleiros, integrando alunos de Artes, artesãos e outras pessoas da comunidade externa que tenham interesse nesse ofício que, ao mesmo tempo, está presente no universo artístico cultural.
Ensino de Arte na Extensão Universitária buscando papeleiros
Quando estas idéias se tornarem prática, concretude, será possível atender sistematicamente ao público interessado em aprender o ofício. Considero este caminho como uma maneira de contribuir com o ensino de arte, para a educação ambiental e para o desenvolvimento cultural e sócio-econômico do Rio Grande do Norte.
Todo esse trabalho realizado –através dos projetos de extensão da UFRN– remete à afirmação de Morin e Kern (2001) de que o destino planetário e a condição humana são realidades chaves ignoradas pela educação tradicional e conservadora. É preciso, como indicam esses autores, nesta época de complexa crise planetária, ensinar que todos os seres humanos partilham de um destino comum, tornando-se todos igualmente responsáveis pelo futuro do planeta.