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1. General introduction

1.7 How can user participation be defined?

Escolhemos os grupos focais como método de coleta de dados porque sua forma dinâmica permite a interação entre as participantes. Diferentemente, das entrevistas individuais, que são baseadas na relação entre o pesquisador e o entrevistado, nos grupos focais há trocas de idéias, argumentos e experiências entre os próprios participantes a partir de questões levantadas pelo pesquisador/moderador. De acordo com Morgan:

grupos focais são basicamente entrevistas em grupo, porém, não no sentido da alternância entre uma pergunta do pesquisador e a resposta de um participante. Ao invés disso, a dependência é na interação entre o grupo, baseada nos tópicos levantados pelo pesquisador, que tipicamente assume o papel de moderador (MORGAN, 1997, p. 2, tradução nossa).

Além disso, os grupos focais reproduzem de uma maneira artificial, mas válida, formas de interação cotidianas. Como afirmam Marques e Rocha, devemos ressaltar essa capacidade dos grupos focais de “recriarem situações de conversação cotidiana”, no entanto, sem nos preocuparmos com a não-naturalidade desse momento e, sim, usá-lo para estimular as pessoas a “expressarem verbalmente suas visões de mundo e descortinarem estruturas cognitivas que antes se encontravam desarticuladas” (MARQUES; ROCHA, 2006b, p.42). Portanto, somente por meio de grupos focais e de sua dinâmica interativa nos seria possível acessar de maneira mais próxima esse universo privado e cotidiano de mães e patroas e a forma como elas se colocam discursivamente a respeito do TID.

Nesse sentido, Lunt e Livingstone (1996) apontam que “o grupo focal não é um agregado conveniente de opiniões individuais, mas uma simulação desses contextos comunicativos rotineiros, mas relativamente inacessíveis que nos ajudam a descobrir os processos através dos quais o sentido é socialmente construído por meio da fala cotidiana” (LUNT; LIVINGSTONE apud MARQUES; ROCHA, 2006b, p. 42). Assim, não nos propormos a retirar falas descontextualizadas para análise, mas, sim, momentos interativos de discussão/troca comunicativa em cada grupo.

Elaboramos um roteiro geral que serviu para discussão com as patroas (ver Apêndice B). Para construção desse guia, baseamo-nos na metodologia do funil. Segundo Morgan, “em uma entrevista baseada na perspectiva do funil, cada grupo começa com uma abordagem menos estruturada, que enfatiza a discussão livre, e, então, se move para uma discussão mais estruturada sobre questões específicas” (MORGAN, 1997, p. 41, tradução nossa). Como nosso objetivo era saber os discursos delas sobre o TID, não poderíamos começar o grupo indo direto a este ponto porque poderia desestimular o engajamento delas na discussão. Para resolver esse problema, optamos por começar o grupo abordando livremente o trabalho doméstico e a divisão de trabalho entre homens e mulheres. Essa proposta está de acordo com a sugestão de Morgan (1997) que afirma que uma boa forma de começar um grupo é discutindo questões sobre as quais todos possam facilmente falar a respeito delas. Ora, sabemos que a discussão sobre a divisão de papéis e de gênero nos afazeres doméstico é um assunto sobre o qual todos podem conversar, principalmente as mulheres, que usualmente têm reclamações da não-cooperação do parceiro nas tarefas da casa. Após esse momento mais geral, fomos introduzindo perguntas mais direcionadas na discussão até chegar ao ponto do TID.

Nosso roteiro se dividiu em três momentos distintos52: (1) discussão sobre TID a partir de perguntas semi-estruturadas feitas pelo pesquisador; (2) discussão sobre os cartazes de publicidade do Petid; e (3) discussão de trechos de matérias publicadas nos jornais impressos. No primeiro momento, procuramos conhecer a opinião das participantes a respeito do TID. Depois, no segundo momento, apresentamos um de cada vez, os cartazes das duas fases da campanha de publicidade do Petid e pedimos para elas se manifestarem em relação a cada um

52

Para construção desse roteiro, contamos com a proposição feita por Ângela Marques em sua pesquisa de doutorado na UFMG e apresentada no artigo escrito por ela e Simone Rocha em 2006. Elas propõem a organização dos grupos focais em duas partes: a primeira com questões semi-estrturadas e a segunda com a disponibilização de textos da mídia (vídeo e impresso) para que os participantes do grupo manifestem suas opiniões sobre o que foi dito e lido (MARQUES; ROCHA, 2006a, p. 10).

deles. Por fim, na última parte, apresentamos na forma de cartazes (para que as participantes pudessem ler em conjunto e visualizar facilmente) trechos escolhidos da mídia impressa. Em razão da duração dos grupos ser de cerca de 2 horas, optamos por trechos ao invés das matérias inteiras de jornal. O critério que norteou essa seleção foi garantir apresentação nos grupos de discussão de textos que se referissem ao trabalho infantil doméstico de formas relativamente distintas para que pudessem gerar discussão entre as participantes.

Já que o tema do trabalho infantil doméstico é complexo, delicado e envolve entendimentos diversos, fizemos um esforço para moderar os grupos focais de forma a não nos posicionarmos frente a essa problemática. Nosso propósito com essa postura era não intimidar ou desestimular o envolvimento dos participantes com a discussão. Sobre o papel do moderador, Marques e Rocha afirmam que cabe a ele “propor temas do debate, mas com a consciência de que são os participantes que o conduzem, posicionando-se em relação aos tópicos propostos pelo pesquisador (MARQUES; ROCHA, 2006a, p. 8). Desse modo, procuramos respeitar e estimular a participação nos grupos, fazendo interrupções somente quando o foco das discussões se distanciava do tema proposto. Importante ressaltar que nossa intenção não era realizar um estudo de recepção, mas sim analisar a forma como as participantes dialogavam com os discursos expressos pelo próprio Petid e pelos jornais estudados.

Nossa intenção inicial era realizar três grupos focais com empregadoras de bairros com diferentes níveis sociais. No entanto, em grupos de bairros mais pobres nos deparamos com uma formação mista, nos quais encontramos tanto mãe, quanto empregadoras, que por sua vez foram trabalhadoras domésticas quando crianças. Dessa forma, com objetivo de abarcar também esses grupos de constituição variada, escolhemos realizar mais dois grupos do que o previsto inicialmente. Ao final, fizemos cinco grupos focais: três com empregadoras, em bairros de perfil econômico diferente; e, dois grupos mistos, com empregadoras que já foram domésticas quando meninas – em um desses grupos houve a participação de uma mãe cuja filha trabalhava como doméstica desde a adolescência.

Contamos com a colaboração de moradoras de cada bairro onde os grupos foram realizados para identificação e mobilização das participantes. De maneira geral, consideramos que qualquer adulto em potencial poderia ser empregador de meninas para o trabalho doméstico. O resultado da constituição dos grupos nos mostra que essa foi uma boa estratégia, já que encontramos não só casos de patroas com trabalhadoras domésticas infantis em suas casas na época dos grupos, mas também diversas pessoas que já empregaram meninas para os

serviços domésticos. Em um dos grupos, inclusive, participou uma senhora que declarou intermediar a contratação de meninas do Maranhão para a realização de serviços domésticos em Belém. Em relação à forma de convocação das participantes, avisamos que seria uma entrevista em grupo a respeito do “trabalho doméstico”. Essa abordagem está de acordo com a metodologia de funil, na qual se baseou nossa pesquisa.

Uma preocupação nossa foi realizar os grupos em lugares familiares às mulheres convidadas. Assim, três grupos foram realizados na casa de uma de suas participantes e os outros dois, na sede de associações comunitárias. A média de participantes por grupo é de cinco pessoas, tendo variações entre o mínimo de quatro e o máximo de seis. No final de cada grupo, as participantes responderam a uma ficha de identificação, a partir da qual pudemos saber a renda familiar de cada uma, sua naturalidade, idade, profissão e o hábito de leitura de jornais (ver Apêndice C). O registro dos diálogos dos grupos focais foi feito com gravação em fita cassete.

A seguir, apresentamos de modo mais detalhado as informações sobre os grupos realizados e sobre a sua organização. A ordem apresentada é cronológica e o nome dos grupos se refere aos bairros onde foram realizados:

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Grupo Castanheira – patroas: Bairro localizado na entrada da cidade de Belém. O grupo foi realizado no Conjunto Costa e Silva, onde vivem pessoas de níveis sociais médios e baixos. Escolhemos esse Conjunto justamente por apresentar essa variação de renda, já que como apontamos no segundo capítulo há uma tendência que famílias desses níveis sociais empreguem trabalhadoras domésticas meninas. Para organização do grupo, fizemos contato com uma moradora do conjunto, que mobilizou as outras participantes para o encontro e cedeu sua casa para o encontro. O grupo foi realizado no dia 19 de julho de 2006 e contou com cinco participantes entre 30 e 55 anos. Sobre a renda familiar (considerando a soma da renda de todos os membros da casa) mensal, duas participantes responderam de 11 a 15 salários mínimos, duas entre três e quatro salários e uma respondeu entre um e dois salários;

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Grupo Bengüí – misto: O Bengüí é um dos bairros mais populosos e mais pobres de Belém. Ele apresenta um quadro social grave com altos índices de desemprego, violência e de falta de estrutura e de saneamento básico (LAMARÃO; MACIEL, 2006, p.18). Escolhemos realizar um grupo focal nele porque este bairro foi um

dos focos da atuação do Petid em Belém. Entramos em contato com a Ação Social do Governo do Estado do Pará (Asipag), que possui uma relação dos líderes comunitários de todos os bairros do município, e solicitamos as informações de um desses líderes que pudesse nos ajudar na organização do grupo focal. Fizemos, então, contato com a presidente de uma associação comunitária do Bengüí e ela colaborou cedendo espaço para a reunião e ajudando na mobilização das participantes. O grupo foi realizado no dia 28 de julho de 2006 com a participação de cinco mulheres entre 22 e 34 anos. Quatro participantes afirmaram ter renda familiar mensal menor que um salário mínimo e uma respondeu entre um e dois salários;

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Grupo Tapanã – misto: Este bairro é também um dos mais populosos e mais violentos de Belém. Chegamos a ele a partir de uma informação de que havia comunidade de mulheres vindas do Maranhão para realizarem serviços domésticos em Belém. Fizemos contatos com uma das moradoras e organizamos a realização do grupo na casa dela. O grupo focal foi realizado no dia 30 de julho de 2006 e contou com a participação de cinco mulheres, sendo todas do estado do Maranhão. As idades variam entre 22 e 52 anos. A maioria das participantes (quatro) possui renda familiar mensal entre um e dois salários mínimos e uma afirmou receber menos de um salário;

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Grupo Umarizal – patroas: O Umarizal é um dos bairros nobres de Belém. Escolhemos realizar um grupo em um condomínio deste bairro porque precisávamos ouvir as opiniões também de pessoas de um padrão econômico um pouco mais alto. Fizemos contato com uma das moradoras do condomínio, que nos ajudou no contato e na mobilização das outras mulheres. Realizamos este grupo focal no dia 07 de agosto de 2006, na casa de uma das quatro participantes. Em relação à renda familiar mensal, duas responderam de sete a 10 salários mínimos e duas responderam de 11 a 15 salários;

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Grupo Guamá – patroas: Este é o bairro mais populoso de Belém, conhecido pelo alto índice de violência. Escolhemos este bairro justamente por sua condição periférica e por apresentar a maior densidade populacional da cidade. Por meio da Ação Social do Pará, entramos em contato com uma líder comunitária do Guamá, que colaborou com a organização do grupo focal e com o convite às participantes. Deste grupo, realizado em 18 de agosto de 2006, na sede de uma associação

comunitária, participaram seis mulheres entre 20 e 63 anos. Três participantes afirmaram ter renda mensal familiar de um a dois salários mínimos; duas, de três a quatro salários; e, uma, de cinco a seis salários.

Depois dessa apresentação geral a respeito dos grupos focais realizados, torna-se necessário explicitarmos a forma como procederemos com a análise dos resultados de cada um deles. Já que estamos interessados em saber quais os entendimentos das participantes a respeito do trabalho infantil doméstico e como elas dialogam com os discursos do Petid e da mídia, a análise será construída a partir de cada uma dessas etapas em separado. Dentro de cada uma delas, vamos analisar prioritariamente diálogos (momentos interativos) entre as participantes e não falas isoladas. Nesse sentido, analisaremos dois tipos de interações, conforme apresentado por Marques e Rocha (2006a): (a) complementares: quando um participante busca complementar a fala do outro a partir uma experiência pessoal ou de um ponto de vista; e, (b) argumentativas, quando as pessoas questionam entendimentos ou pontos de vista apresentados e se vêem diante da necessidade de refletir a respeito das razões que os sustentam.

Em relação à apresentação e ao tratamento das informações obtidas nos grupos, optamos por estabelecer as seguintes disposições: o nome das participantes foi substituído por pseudônimos, escolhidos por elas próprias nas suas fichas de identificação e, ao final de cada trecho da discussão apresentado, indicaremos entre parênteses o nome/bairro do grupo, o tipo de público (patroas e mistos) e a data de sua realização.