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1. General introduction

1.9 The effect of user participation

Um dos fatores que torna ainda mais complexa a teia discursiva sobre o trabalho doméstico é o entendimento de que ele é uma oportunidade para crianças e adolescentes pobres, de que o TID é um caminho possível para estudar e ter alguma renda. Ou ainda, de ter acesso a um mundo cultural diferente e a formas de proteção, já que, por vezes, os trabalhadores infantis domésticos vieram de núcleos familiares desagregados e violentos (LAMARÃO; MENEZES; FERREIRA, 2000).

Ayla: Eu acho até que numa situação dessa onde vem a organização internacional do trabalho interferir, eu acho até que tira a oportunidade dela, da família delas. Parece que eles estão dizendo “nós vamos agora castigar aqueles que fazem isso. Vamos puni-los. Devem ser punidos”, né?

Nara: É, é isso que a gente tá entendendo “não faça porque senão tu agora vai ser punido”.

Ayla: Mas existe um outro lado que ninguém vê, é uma oportunidade que elas têm. É uma força que elas nos dão.

Marta: (...) se houver realmente uma lei que proíba essas meninas de até 16 anos trabalharem, vai ser muito ruim.

Nara: Eu acho que vai ser uma calamidade... Elzira: Vai... Muitas delas não vão estudar, né?

Marta: Muitas delas vão perder a oportunidade de ter estudo... Agora, que tem que ter fiscalização tem.

Ayla: É, pra combater a exploração (Grupo Castanheira, patroas, 19 de julho de 2006).

As patroas acreditam que a proibição do trabalho infantil doméstico poderá levar a mais pobreza e vai dificultar o acesso aos estudos (“vai ser uma calamidade”). Mesmo assim,

como afirmam Marta e Ayla, é preciso que haja algum tipo de fiscalização para que não sejam cometidos abusos contra a criança ou a adolescente.

A pressão moral da qual nos referirmos anteriormente é sentida nesse trecho pelas participantes da discussão: “estão dizendo ‘nós vamos agora castigar aqueles que fazem isso’” (Ayla) e ainda “a gente tá entendendo ‘não faça porque senão tu agora vai ser punido’” (Nara). No entanto, isso não é suficiente para que as participantes se manifestem contra o trabalho infantil doméstico. Ou ainda, pensem em não incentivá-lo, tanto que durante a realização do grupo focal do bairro Castanheira surgiu uma situação de negociação de uma menina doméstica:

Nara: Chegou agora uma menina do interior, ela tem 14 anos, do Maranhão, e eu gosto demais dela, e eu gostaria de levar pra cá, porque ela está no interior sem estudar, os pais dela trabalham na roça, me disseram que ela está magra.. E eu gostaria de trazer ela pra cá, colocar no colégio, tudo... (...)

Marta: Tu vais trazer pra ti, é? Nara: Não, eu to pensando...

Marta: Minha nora tá doida atrás de uma pessoa pra ficar com uma menina dela... (Grupo Castanheira, patroas, 19 de julho de 2006).

Mesmo durante essa negociação é possível destacarmos o discurso do trabalho doméstico como uma oportunidade para entrar no colégio, para se alimentar melhor (“me disseram que ela está magra”).

Outro tipo de oportunidade relacionada ao TID é o acesso a bens culturais, a viagens e a novas possibilidades de vivência:

Vera: Eu acho que é uma oportunidade, até porquê tem patrão que pra onde vai, leva a empregada, tem local que nós queremos freqüentar e não temos condição, tem acompanhado com os patrões, leva, leva as menina, as menina vão se evoluindo, se interessando, por olhar aquelas pessoas que se dizem diferente e por participar de coisas melhores, nos dá influência sim, e nos dá pra quem se interessa dá um bom

futuro, eu acho muito bom.

Amanda: (...) por causa que ficar na casa dos patrões, a gente quer ir numa praia que a gente nunca foi, não tem condição de ir naquele lugar, e ai eles já leva a gente, e a gente já conhece, eu não conheço Bahia, um dia a minha patroa convidou, eu não tenho, claro eu não tenho condição pra ir na Bahia, né, ela me convidou “Amanda bora na Bahia”, ai meu Deus! Parece que já andava nas nuvens, pra ir pra Bahia, “Ah bora, bora”, me animei pra ir pra Bahia, aí depois deu um imprevisto, ai nós não fomo mais, ai eu já fiquei triste, “poxa, meu Deus, quando é que eu vou conhecer Bahia, a única oportunidade que eu tenho, de ir com a minha patroa pra Bahia, não vou, e agora quando é que eu vou conhecer”, aí eu acho que é também, eu concordo, que é um meio da gente conhecer vários lugar que a gente não conhece (Grupo Tapanã, misto, 30 de julho de 2006).

Desse modo, de acordo com as entrevistadas, o TID pode ser considerado uma das poucas alternativas para meninas pobres do interior conhecerem diferentes lugares, freqüentarem, por exemplo, praias e restaurantes que talvez não tivessem acesso sem ser junto com os patrões. Vera afirma ainda que é uma possibilidade de fazer a pessoa ir “evoluindo” e, para quem se interessa, pode representar um futuro melhor.

Com base nesse entendimento, algumas patroas chegaram a afirmar que é ignorância de alguns pais não deixarem suas filhas serem levadas para o trabalho doméstico:

Thaís: Agora ainda existem alguns pais que mesmo com uma situação muito difícil, um monte de filho, passam fome...

Elzira: Muito difícil... não dão, né? Não querem.. Acham que tem que ficar lá.. Thaís: Eles não querem dar as filhas pra vir pra cidade trabalhar, né? Existe até

ignorância. É até ignorância do pai e da mãe. Eu conheço. Já vi muitos casos no

interior...

Elzira: Por falta de confiança... É, é, ignorância. Uma vez eu pedi uma menina: “tu

não quer deixar sua filha, não?”, “filha só conosco...”.

Nara: Agora tem uma coisa, eu acho que grande parte desses pais ou de maiores, meninas, domésticas maiores ou de menores, eles ficam com cuidado sobre o que vai acontecer, se a casa que a pessoa tá indo é segura, se ela vai ficar realmente protegida. Porque mãe é mãe, pai é pai (Grupo Castanheira, patroas, 19 de julho de 2006).

A naturalidade com que a prática do TID é vista por grande parte da sociedade resulta no entendimento de que é ignorância dos pais se oporem à vinda de um filho para o trabalho doméstico na capital. Seguindo essa lógica: se o trabalho infantil doméstico oferece mais oportunidades para esses meninos e meninas do que a vida difícil no interior, impedir a ida de um filho ou uma filha é ato de irresponsabilidade, de ignorância. No entanto, uma das patroas (Nara) argumenta que os pais devem zelar pela proteção dos filhos e verificar se realmente a criança ou o adolescente vai estar ou não protegido na nova casa. Se por um lado o TID pode representar uma oportunidade de autonomia relativa para esses meninos e essas meninas, por outro pode representar o risco de ser maltratado ou de sofrer algum tipo de violência.