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1. General introduction

1.8 Different methods of user participation

O cartaz da segunda fase da campanha de publicidade do Petid trazia a mensagem: “Com trabalho infantil doméstico, não dá pra ser criança. Criança precisa do carinho da família e de tempo para brincar e estudar. E não do trabalho infantil doméstico”. As discussões geradas nos grupos focais a partir da apresentação desse cartaz reforçaram nossa idéia de que existe um consenso relativamente superficial na sociedade segundo o qual criança deve brincar e estudar e não trabalhar. De forma geral, todas as participantes concordaram com o texto do cartaz, apesar de usarem a mão-de-obra de meninas para os serviços domésticos. Esse consenso superficial é desestabilizado quando as participantes especificam os trabalhos que essas crianças e adolescentes desenvolviam nas suas casas.

Eva: Eu acho que tá certo é isso mesmo.

Virgínia: se você traz uma criança para explorá-la, se você que colocá-la como trabalho de adulto para fazer na tua casa, então você não traga, porque você tá

reforçando a marginalidade, a prostituição.

Eva: A menina que está mostrando no cartaz ela é uma garotinha, deve ter uns 10 anos.

Dina: Talvez da mesma faixa etária das crianças por conta das condições de subnutrição.

Eva: Na minha casa eu só peguei criança para brincar com a minha filha, pra ser babá. Mas a babá na minha casa não lava roupa, não lava louça, não varria, nada. Me ajudava assim, brincava com a menina, sabe, tinha um turno que estudava e arruma os brinquedos porque a criança era menor que ela. Tipo assim, a minha filha tinha uns 2 anos e a babá uns 11, 12. Aí arrumava o quarto, os brinquedos. “Fulana, pega lá aquela roupinha, sabe aquela que ta lá no armário? Pega lá pra gente dar banho e vestir ela”. Ai a gente ia, ela dava banho, me ajudava. Eu nunca peguei criança pra

fazer trabalho pesado.

Dina: Eu também não.

Eva: A criança que foi lá pra casa era pra eu botar no jeito... Virgínia: Brincar com as crianças...

(...)

Virgínia: Como eu já tive essas duas meninas nessa faixa de 12, 13 anos... Era pra brincar, pra me acompanhar, é... Ta entendendo?

Dina: Eu tive várias. Eu tive cinco filhos, aí tu já viste. Eu usei muito [o trabalho de meninas], mas era assim, pra brincar, sem lavar roupa, sem nada. (Grupo Umarizal, patroas, 07 de agosto de 2006).

Nesse caso, ser babá não é considerada uma atividade que exige esforço e responsabilidade (“eu nunca peguei criança para pra fazer trabalho pesado”). Assim, as patroas não se reconhecem como alvo do cartaz, na medida em que elas “não exploram” as crianças e adolescentes, apenas usam esse tipo de mão-de-obra para ajudar a “brincar” com os filhos. No entanto, são as meninas domésticas que precisam arrumar o quarto, os brinquedos, dar banho. Uma das participantes, a Eva, afirma também que as meninas que iam para a casa dela é para serem “colocadas no jeito”. Isso quer dizer, “endireitadas”, preparadas de acordo com o gosto e o costume daquela família. Mesmo assim, ela concorda com o cartaz “eu acho que está certíssimo”.

Portanto, mesmo estando de acordo com a idéia de que criança deve brincar e estudar, quando se especifica sobre qual criança estamos falando (babás, domésticas) esse entendimento se desloca para a diferença entre usar esse tipo de mão-de-obra e explorar. Como Virgínia aponta, a exploração do trabalho doméstico pode reforçar a criminalidade e inserir essas meninas no mundo da prostituição.

A tensão entre o trabalho e a exploração também foi discutida no grupo do Guamá, durante a apresentação do segundo cartaz:

Paula: No caso da Helena [menina que trabalha na casa de Paula] porque trabalha muito, muito mesmo, eu disse pra ela, eu disse pra mãe dela se a gente ver que não tem condição ficar com ela, por exemplo, todo mundo trabalha né, e aí eu não vou ter que tá corre pra tá num hospital pra ela, hoje eu posso, amanhã, depois, eu que eu não vou poder e aí é a hora que eu vou mandar ela pra casa.

Lurdes: Foi como eu falei a nossa sociedade ela é muito injusta (...) prega muito uma coisa que não vive né, a gente ver esses ongs pregando que tira o serviço como é o trabalho doméstico das crianças e tal tudo mais e tudo mais só que o nosso governo infelizmente ele não proporciona nada disso e infelizmente certos barões colocam as crianças em situações como essa daí aí. (...)

Luana: Porque na verdade (...) ele não trouxe a criança com pensamento de ajudar porque se ele traz com o pensamento de solidariedade, de solidarizar com a criança ele vai logo procurar, se ele tem dinheiro e condição, assistência medica, uma boa escola que a criança precisa, aí ele tá coisa e tudo, de querer ajudar, mas é ao contrário. (...)

Lurdes: Pois é, mas se esse casal pegasse essa criança colocasse mesmo que não fosse na mesma escola, mas que fosse numa escola pública, já digamos que aí a escola fosse particular [dos filhos], mas fosse numa escola pública, olha tá aqui o teu material se arrume vá pra escola junto com os meninos segue o caminho deles, você segue o seu, eu tenho certeza que no futuro mais próximo essa criança veria essa família com outros olhos e ela teria um futuro melhor né?! (Grupo Guamá, patroas, 18 de agosto de 2006).

Na fala dessas participantes, percebemos uma distinção que é colocada entre a patroa rica e a patroa pobre. Segundo Lurdes, por exemplo, “infelizmente certos barões colocam as crianças em situações como essa” (do cartaz). Luana faz também a diferença entre quem traz a criança do interior com a intenção de ajudar e quem traz com a intenção de explorar. O trabalho infantil doméstico é, então, aceito desde que a menina tenha oportunidade de estudar e que os patrões tenham intenção de ajudá-la.

No grupo do bairro Castanheira, o cartaz fomentou uma discussão a respeito da realidade do tratamento da menina doméstica nas casas de família. As mulheres do grupo consideraram o cartaz bastante agressivo:

Nara: Eu acho que não condiz com a realidade não, entendeu? Tem alguns casos isolados, mas tá um quadro aterrorizante, que a pessoa olha e diz qualquer família

que pegar uma menor de idade vai fazer igual como essa menina tá aqui, como essa

família faz com essa criança. Eu não concordo, entendeu, com isso. Moderadora: E tu? O que achas?

Marta: Tá excluindo, né? Elzira: É, tá excluindo...

Marta: Na verdade, não é muito assim, não. Que tem diversos casos, por isso que eu digo: tinha que ser mais explícito e especificar a que ele se refere esse trabalho doméstico porque trabalho doméstico é muita coisa. Trabalho doméstico pode ser mandar um menino capinar, queimar carvão ou mandar, simplesmente, menino varrer uma casa, limpar teu sapato...

Elzira: Ir na padaria comprar um pão...

Marta: Ir na padaria comprar um pão. Quer dizer, ele tá muito chocante (...) (Grupo Castanheira, patroas, 19 de julho de 2006).

As patroas não se sentiram confortáveis na situação de exploradora, como o cartaz apresenta. Segundo a argumentação delas, a menina que não senta à mesa com os patrões e que não vai à escola não é a realidade em todas as casas de família. Nem todo mundo que tem meninas como domésticas faz isso. Novamente, uma participante traz à discussão a necessidade de especificar o que é o trabalho doméstico no material de publicidade do Petid. Como pano de fundo dessa reivindicação está o entendimento de que o serviço doméstico pode ser uma tarefa mais leve em relação às demais. Por essa razão, elas solicitam mais explicação sobre o que pode e o que não pode.

De acordo com o segundo cartaz, o trabalho doméstico é incompatível com a infância. No grupo focal do Tapanã, com mulheres que já foram meninas domésticas e uma mãe de uma jovem que é doméstica desde os 13 anos, a discussão abordou o tema da responsabilidade:

Vera: Dá pra ser criança se a criança tiver um tempo disponível, porque da criança

que vai se aprendendo ser um bom adulto, um bom doméstico, um bom funcionário,

um bom doutor, assim no caso, tem o tempo de fazer a sua tarefa, tem o tempo do seu lazer, se for assim eu acredito que dá.

Letícia: Eu também concordo com a mesma coisa que a Rose falou, acredito que dá pra ser criança.

Amanda: Eu também concordo, ser criança é ter a sua liberdade.

Joana: Porque de criança que vai tendo responsabilidade, se desde já não vai tendo uma disciplina, quando crescer não vai ter mais, não é assim, ai vai olhando como as

pessoas gosta, né, como a pessoa quer, (...), criança tem que ter responsabilidade

(Grupo Tapanã, misto, 30 de julho de 2006).

Joana, mãe da menina que desde os 13 anos trabalha em Belém como doméstica, concorda porque acredita que é importante começar desde cedo para aprender o gosto dos patrões e realizar o serviço como eles gostam. Além disso, segundo ela, o trabalho é uma maneira de ter disciplina (“criança tem que ter responsabilidade”).

O discurso do trabalho como forma de adquirir responsabilidade desde cedo é reforçado pela discussão dessas mulheres. A fala de Vera é bem clara nesse sentido: “da criança que vai se aprendendo ser um bom adulto”. Amanda, que diz concordar com esse entendimento, afirma que ser criança é ter liberdade. A princípio esse posicionamento pode parecer contrário à fala de Vera. No entanto, ao longo da discussão no grupo focal foi possível perceber que o trabalho doméstico para essas mulheres tem um sentido forte de liberdade. É a forma que encontraram de sair da situação de miséria do interior do Maranhão, de ganhar algum dinheiro para construir e sustentar suas famílias. Quando ela diz que ser criança é ter a sua liberdade, podemos entender que é preciso haver momentos para a brincadeira e o estudo, mas também que é necessário haver um meio de garantir o direito das crianças de poderem ter uma vida digna. O caminho mais próximo que ela encontra é o trabalho doméstico.