2. GLOBAL SHELTER DESIGNS
2.1 UNHCR family tent
Algo me ‘intrigou’ em Michel: o que o mantinha distante de sua terra natal, por quinze anos? Que distância era essa, entre ele e seu país natal? O que havia lhe machucado e, ao mesmo tempo, forjado? Que lugar era este – sua França - onde ele preferia (ou conseguia), ultimamente, ‘somente estar em férias’?
De maneira interessante, Michel não faz menção alguma ao termo ‘estrangeiro’: ser estranho/estrangeiro. Parece contar-nos, ao invés – o inverso da moeda -, o quanto era
familiar: o quanto havia mergulhado e conhecido, a cultura brasileira. Tentava dizer, talvez, que era um estrangeiro, nem tão estrangeiro assim?
Mas, contando-me uma longa história de conhecimentos, com tantas experiências culturais, curiosamente, eu me sinto estranha – como capturada num enredo lógico demais, estruturado, descritivo -, enquanto ele se mostra ‘familiar’. Como os dois lados de uma moeda.
Se fosse uma sessão de análise, poderíamos pensar em movimentos de transferência/contratransferência. Poderíamos de fato pensar em movimentos de sedução/rejeição, entre o par analítico. Ao tornar-se ‘demasiadamente interessante’, eu me afasto. Intuindo que algo parecia estar sendo abafado: os afetos, as vivências afetivas de sua história. Ao tentar mostrar-se interessante, Michel torna-se ‘desinteressante’: demasiadamente organizado. A ponto de, apesar de saber da riqueza de seus quinze anos de experiência no Brasil, eu resistir, em algum nível inconsciente, à segunda entrevista.
Mas, quando “esqueço” o gravador – quero vê-lo, de outra forma. Ou, numa
forma de relação diferente. Em minha hipótese, na primeira entrevista, Michel falava para o
gravador. Como numa entrevista para um documentário, sobre estrangeiros no Brasil... Coisas bonitas de serem escutadas: sua vasta e rica experiência cultural, aqui adquirida.
Ao longo de seu caminho, no entanto, Michel fala de muros. O ‘Muro de Berlim’, e, em minha hipótese, haveria outros em alguma medida (como há em todos): o muro que mantinha dentro dele, entre ele, e a França; o muro que mantinha comigo, naquele momento; e, o muro dele, com aspectos dele próprio.
Michel parece ter vivido dois grandes processos de ‘migração’: primeiro, a chegada ao Brasil (a Belo Horizonte), e a segunda, a São Paulo – já em outro momento de sua vida, e que coincide com uma separação: “não foi fácil”, diz ele.
E há também a história de sua família, marcada pela migração: a dos avós italianos, após a primeira Guerra. No que alude a uma ‘fala psicanalítica’, Michel fala em ‘prisão fetal’: o que lhe significa isso? Fez-me pensar em seu mundo inicial, original (da origem), ‘envolta’ por um mundo externo já existente, antes dele: sua família, com sua história, com sua origem. Em outras palavras, um muro que ele não poderia quebrar. A liberdade de escolhas que tanto deseja – a de ‘cidadão do mundo, sem fronteiras’, e que, em realidade, não teve: Michel é homossexual (assim como qualquer escolha sexual não teria
sido uma ‘escolha livre’), e é de família estrangeira, imigrada para a França (assim como todos temos origens demarcadas). (Sempre vale lembrar, esta é minha hipótese, meu sonhar
meu personagem Michel). Enfim, sua liberdade, tinha fronteiras.
Talvez fosse esta a parte que não aparecia (tanto), por trás da pessoa culta, politizada, viajada, intelectualizada: uma porção sem escolhas, forjada, e, de certa forma, machucada. Torna-se ‘cidadão do mundo’ (à sua maneira), como se assim pudesse distanciar- se das raízes não-escolhidas, aprisionadoras.
Ao relembrar a célebre frase cantada por Edith Piaf, “Je ne regrette rien”, Michel parece se referir a uma ‘dupla negação’: não me arrependo de nada. Numa análise teríamos melhores condições de saber disto: não, e nada.
Michel dá-se conta de seu longo percurso de batalhas, e recorre ao mito para o exemplo do ‘retorno’. Enfrentou mares e tempestades, e retornou. Nus aos olhos dos outros, mas ‘repleto de coisas por dentro’.
Tive a impressão de que esta entrevista com Michel, mais que com os outros sujeitos, teve uma ‘função terapêutica’. Michel parece ter realizado um ‘trabalho interno’, mental, após nosso encontro. Prova disto, é a perda de sua voz, seu silêncio. Novamente, em minha hipótese, talvez tenha sido necessário Michel se calar, após nosso primeiro encontro, para a realização de um trabalho mental, mais profundo.
Para então, parir sua decisão: retornar à França. À origem, “à fonte’... ao país...
às relações familiares... e, a mim mesmo”, diz.
Tivemos um terceiro encontro – como havíamos falado - alguns dias antes de sua partida. Neste, Michel me mostrou um livrinho que havia ganhado de alguém: “1001 coisas brasileiras”. Uma longa lista de nomes das particularidades brasileiras, desde o doce ‘Romeu e Julieta’, até o partido político intitulado ‘Tucano’. Michel marcou com tinta amarela os nomes que a ele, pessoalmente, tocavam de alguma maneira: as que havia conhecido, as que gostava...
Leu para mim algumas delas. Michel parecia particularmente contente com o presente. Pareceu-me uma forma, para ele, de ‘não se esquecer’, do que, agora, deixava para trás.
Falou dos outros presentes que havia ganhado das pessoas que conhecia. Entre eles, uma vela, com o perfume de sua mãe: Angel, disse ele. Um perfume que ele adorava.
Disse que deixava muita coisa aqui no Brasil. Entre elas, quadros – mas levava um, que era a foto dele bebê, junto de seus pais. Falou de presentes que ele dava de volta às
pessoas que lhe haviam presenteado: com a possibilidade de que elas o dessem de volta, novamente a ele, um dia - algo que às vezes fazia, explicou-me.
Mencionou ainda o carinho de suas amigas, o carinho das despedidas. Dos alunos. Dos amigos, das pessoas de seu quotidiano. A funcionária do supermercado que frequentava, e que havia se despedido dele, com tanto carinho.
Michel organizou tudo para sua partida.