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L Shape Shelter, Iraq

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5. DURABLE SHELTER SOLUTIONS

5.2 L Shape Shelter, Iraq

Eu, reduzida a uma palavra? Mas que palavra me representa? De uma coisa sei: eu não sou meu nome. O meu nome pertence aos que me chamam. (Clarice Lispector em Um sopro de vida, 1991)

Antes de tudo, iniciamos esta segunda etapa marcando a concepção de sujeito para a psicanálise, que difere veementemente do que estava posto, uma vez que esta noção emerge teoricamente a partir de Lacan. Em Freud não há referência direta à noção de sujeito, embora Lacan a tenha formulado apoiando-se especialmente nas elaborações clínicas freudianas. No progresso dos estudos lacanianos, vemos que a concepção de sujeito também avança, entretanto não se pretende traçar um histórico de tal concepção no decorrer dos seminários, mas apresentarmos um contorno que contemple o surgimento da ideia e modificações relevantes para o entendimento.

O retorno ao conceito de sujeito é importante na medida em que ideias – como as citadas anteriormente, sobretudo a de ‘novas formas de subjetivação’; os sujeitos pós- modernos, narcisistas, hipermodernos... – se disseminam no discurso contemporâneo. No entanto, é importante questionar se estes autores estariam limitados em seu pensamento por se centrarem na noção de realidade (que Freud subverte) e de eu (indivíduo).

Legitimar estas concepções precipitadas, nos lembra Pacheco Filho, “poria em xeque as formulações teóricas e conceituais desenvolvidas para a compreensão do sujeito de períodos históricos precedentes, ou, no mínimo, exigiria uma utilização radicalmente distinta dos conceitos e proposições anteriormente empregados”, o que

não nos é interessante, tampouco sustentável. Uma vez que, como nos esforçamos em sustentar, não se trata de um rompimento, pois não estamos diante de uma modificação estrutural do sujeito. A transformação em nossa conjectura se dá na ordem da discursividade, e por esta mesma razão, é possível que vejamos as alterações refletidas nos laços sociais.

A compreensão sobre sujeito que existia antes da formulação da qual nos ocupamos não consente a apreensão do sujeito pensado do modo como concebemos. O que marca esta principal distinção é que na concepção anterior, de origem filosófica, o sujeito é identificado como o sujeito da consciência, representado principalmente pelo cogito cartesiano “Penso, logo sou”. Esta elaboração está atrelada muito mais a razão, isto é, àquele que tem consciência de seus atos, consciência de si. O sujeito sobre o qual toma a psicanálise é pensado a partir de outro viés, qual seja: o da ideia de inconsciente. Este ponto marca em definitivo a ruptura na concepção de sujeito da psicanálise em relação às outras teorias, especialmente com a psicologia, mesmo com aquelas que não se apoiam em uma concepção de sujeito, como no caso do Behaviorismo:

Nosso ego, nosso bem pensante ego cartesiano, diz penso, logo sou. Eu me defino pelo que estou falando, pelo que estou pensando, pela minha imagem corporal, mas isso não me diz quem sou. Esse eu do pensamento consciente e do corpo não se confunde com o sujeito do desejo inconsciente. (Quinet, 2000/2003, p.28)

Lacan propõe no texto Subversão do sujeito e dialética do desejo no inconsciente freudiano (1960/1998) um sujeito para-além da consciência, a partir do reconhecimento da estrutura da linguagem no inconsciente: “O inconsciente, a partir de Freud, é uma cadeia de significantes que em algum lugar (numa outra cena, escreve ele) se repete e insiste, para interferir nos cortes que lhe oferece o discurso efetivo e na cogitação a que ele dá forma” (Lacan, 1960/1998, p.813).

Neste sentido, o sujeito se situa em uma relação com o saber e o saber não comporta qualquer conhecimento. É por isso que no entendimento de Lacan, a grande descoberta de Freud é que a verdade (e, portanto, o sujeito) aparece no equívoco.

Freud nos mostra no percurso de sua obra, notadamente na ‘trilogia do significante’: A interpretação dos sonhos (1900), Psicopatologia da vida cotidiana (1901) e Os chistes e sua relação com o inconsciente (1905), a estrutura de linguagem do inconsciente, enfatizando os relatos de seus casos clínicos. É também através de sua escuta, tendo como técnica a associação livre, que Freud nos indica que lapsos, atos falhos, chistes e sonhos são manifestações do inconsciente. São nestes acontecimentos que temos pistas do sujeito desejante:

Nossos atos falhados são atos que são bem sucedidos, nossas palavras que tropeçam são palavras que confessam. Eles, elas, revelam uma verdade detrás. No interior do que se chamam associações livres, imagens do sonho, sintomas, manifesta-se uma palavra que traz a verdade. Se a descoberta de Freud tem um sentido é este – a verdade pega o erro pelo cangote, na equivocação. (Lacan, 1953-1954/1986, p.302).

Depois, já tendo proposto a subversão do algoritmo do linguista Ferdinand Saussure (em 1957) 13, Lacan reafirma sua proposta ao dizer que: “Se a linguística nos promove o significante, ao ver nele o determinante do significado, a análise revela a verdade dessa relação, ao fazer dos furos do sentido os determinantes de seu discurso” (Lacan, 1960/1998, p.815).

Como destaca Antonio Quinet em A descoberta do inconsciente (2000/2003), em Freud encontramos que o inconsciente é determinado e tem leis próprias. Deste modo, a proposta lacaniana é de que o inconsciente seja pensado como um conjunto de

13 A teoria de Ferdinand Saussure é a base utilizada por Lacan para elaborar sobre o significante. Na tese de Saussure qualquer signo linguístico é constituído por uma imagem acústica (som) e o conceito, isto é, o significado daquilo que sobre o qual o som diz. A imagem acústica sem o seu significado (conceito), é o que Saussure entende como significante. Portanto, temos na linguística que: o significado (s) se sobrepõe ao significante (S): s/S. Lacan (1957/1998) acredita que sustentar essa ideia – de que o significante atende à função de representar o significado – é um equivoco, pois as coisas não podem fazer mais que demonstrar que nenhuma significação pode se sustentar a não ser pela remissão a outra significação. Não existe uma significação em si, fechada e recíproca, pois “[...] não há língua existente à qual se coloque a questão de sua insuficiência para abranger o campo do significado, posto que atender a todas as necessidades é um efeito de sua existência como língua” (Lacan, 1957/1998, p. 501). Lacan propõe que se inverta este algoritmo, sugerindo que o significante (S) se sobreponha ao significado (s): S/s, demonstrando sua primazia e sua necessária articulação a outros significantes. È na combinatória entre significantes que temos a cadeia significante.

cadeias significantes que se articulam entre si formando anéis dentro de um colar, que se articulam com outros anéis de outros colares, etc. O significante não pertence exclusivamente a uma cadeia, ele está articulado a outra, o que garante a sua propriedade de equivocidade. Isto é, a equivocidade do significante é a característica que sustenta que uma mesma palavra possa ter diferentes significados.

Para Lacan, é neste jogo de linguagem, no qual um significante mestre (S1) irá buscar representação em outro significante (S2), formando a cadeia significante, que o sujeito surge. É também neste jogo de linguagem – inerente e submetido à sua irrefragável imersão na cultura – que é colocado diante do laço social desde antes de seu nascimento. Não se pode questionar a ideia de que um bebê seja carregado de desejos e expectativas do outro que o embalam antes mesmo de ter atravessado a barreira corpórea que o separa do ventre da mãe e do mundo. É neste sentido ainda que se pode pensar em sua inscrição no laço social, uma vez que sua condição é de alienado a um desejo que não lhe é próprio, mas do Outro.

Torna-se fundamental destacar que na trama simbólica – a dos significantes, do inconsciente – o sujeito se referencia diretamente a instância do Outro (A, o grande outro, de Autre, em francês). O Outro é o discurso do inconsciente, é um lugar, que pode também ser compreendido como a alteridade do eu consciente (Quinet, 2012): “A é o lugar onde se coloca para o sujeito a questão de sua existência, de seu sexo, de sua história” (ibid., p.21).

Sidi Askofarè (2009) indica que ao formular o conceito de sujeito, especialmente se distanciando da psicologia do eu, Lacan estaria contestando a não historicidade do sujeito, abrindo uma perspectiva para a articulação entre estrutura e história. E este trabalho justamente se alicerça nesta ideia, uma vez que sujeito e cultura estabelecem uma relação indissociável.

A relação entre estrutura e história é também o que evidencia o laço social que traz consigo a marca da impossibilidade da relação sexual, constitutiva da cultura e também do sujeito. A linguagem viabiliza que se contorne o objeto impossível (o objeto a para sempre perdido), nunca alcançado, já que é desde sempre inacessível – ele não está lá, embora produza efeito. Em definitivo, é a falta estrutural (e real) do sujeito, que inaugura a sua entrada na cultura, que o condena ao laço social, pois é pela linguagem que terá a função de tentar contornar este furo, através de suas tramas simbólicas, que se

dá a tentativa incessante de representar algo que é da ordem do impossível de representação, “que não cessa de não se inscrever” (Lacan, 1974-1975).

E a relação dos sujeitos com os outros? Pois, o ‘pequeno outro’ (a – de autre, em francês) também está na composição do sujeito, especialmente em sua estrutura imaginária, a qual contempla o eu. Neste cenário, eu e outro se confundem, e em sua relação com o mundo, este outro – desde sempre intruso – tem dois possíveis lugares: o de igual e de rival. O outro é aquele com o qual o eu se identifica enquanto semelhante, em uma relação que é especular. Lacan demonstra isso quando formula o ‘complexo do intruso’, em Os complexos familiares na formação do indivíduo (1938/1997), e depois em elaborações mais técnicas como o estádio do espelho e também o esquema L.

No ‘complexo de intrusão’, fica evidente a rivalidade que surge, por exemplo, no nascimento do irmão mais novo, quando o primogênito irá se interrogar sobre o lugar que o pequeno ‘intruso’ virá a ocupar no desejo do Outro, a mãe. Ao mesmo tempo, a hostilidade convive com a identificação imaginária ao outro, marcando a principal proeminência da relação do sujeito com seus semelhantes, mencionada por Freud (1927/2006): a angústia.

No estádio do espelho, Lacan formaliza o modo como se dá a separação do Innenwelt do Umwelt, mundo interno e mundo externo. Este seria o momento no qual o bebê percebe pela primeira vez a sua imagem refletida no espelho na forma de uma unificação de seu corpo, através da imagem de si e do outro. A partir deste momento de júbilo, o mundo interno será apropriado através de identificações com o mundo exterior, e a oferta será feita por aquele que ocupa o lugar do Outro, no qual o sujeito busca a sua representação – significante (S1) que o representa para outro significante (S2).

Este é um ‘acontecimento’ que indica as funções que serão desempenhadas. O eu emerge neste tempo e será, suis generis, narcísico. Será também o ‘eu ideal’, sua imagem refletida, a base das identificações que irão compor a sua cadeia. O ‘eu ideal’ é uma imagem mental do eu que acarreta sua condição de alienado. A imagem que reflete vem acompanhada do discurso do Outro que qualifica o sujeito - bonito, bom, ruim, genial, feio –, e é internalizado. A trama irá tecer uma série de imagens ideais que irão preencher o eu desde então.

Chegamos a dois pontos importantes: primeiramente, a evidente distinção entre sujeito do inconsciente e o eu, no tocante de suas próprias fórmulas de consistência; e, posteriormente, à questão especular – colocação que ampara nossa discussão proposta. Embora Lacan tenha avançado em sua teoria, o que temos já nos permite dizer que este é um ponto que merece destaque, pois é aqui que vemos o início da apresentação do especular como condicional para o sujeito, especialmente para a instância do eu. A questão da imagem emerge enquanto fundadora do eu e é dela que partirá a série de identificações, que sustentará sua relação com o mundo, assim como a imagem que tem de si, a que gostaria de ter, seu eu impotente e alienado diante do Outro. É uma teoria inicial, de origem imaginária e simbólica, mas que não será abandonada, mesmo quando ele se dedica ao campo do gozo (real). Como sabido, os três registros não são possíveis sozinhos, eles encontram-se enodados.

Vemos que a série de Lacan que enfatiza a questão da imagem é também destaque em Observação sobre o relatório de Daniel Lagache (1960/1998), especialmente quando utiliza o exemplo do buquê invertido de Bouasse14 para dizer da relação do eu com o outro:

Figura 8 - Esquema do buquê invertido

14 Lacan também se refere ao experimento do buquê invertido no Seminário 1: Os escritos técnicos de

Este experimento é evocado para que se evidencie novamente o modo como o eu se constrói, a partir de imagens que não são ‘reais’, mas lhe dão a impressão de realidade. No ensaio, uma caixa oca é colocada em frente a um espelho plano, representado por A, sendo dentro da caixa colocado um vaso vazio e sobre a caixa um buquê. O espelho irá possibilitar a ilusão de uma imagem virtual, na qual se vê o buquê dentro do vaso. A posição do olho no experimento é fundamental e ele se localiza no interior do espelho; similar à posição do sujeito no simbólico, para que se possa constituir um corpo.

Analogicamente, o esquema do buquê invertido representa o eu que constrói sua imagem a partir daquela que vê refletida no espelho, ou seja, imagem que lhe dá a impressão de realidade, mas que se trata de simulacro, de ‘como se’. Isto dá margem para entendermos o que Lacan diz com: “o homem passa pela experiência de que se vê, se reflete e se concebe como outro que não ele mesmo – dimensão essencial do humano, que estrutura toda a sua vida de fantasia” (Lacan, 1953-1954/1986, p.96) ou “(...) é preciso pensarmos o sujeito como o sujeito em que isso pode falar, sem que nada saiba a respeito (e do qual até convém dizer que nada sabe a seu respeito enquanto fala” (ibid., 1960/1998, p.681). E esta não seria a mesma estratégia utilizada nas redes sociais de representação eu para si e para aqueles que te veem?

No Seminário 10: A angústia (1962-1963), quando Lacan está elaborando o conceito de objeto a, ele volta a este esquema e ressalta a importância da imagem especular na relação imaginária, assim como localiza o a neste esquema, indicando-o enquanto um resto que não pode ser especularizado, por efeito da castração. Voltaremos a esse ponto em outra ocasião. Já no Seminário 11: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise (1964) Lacan diz que é no espaço do Outro (A) que o sujeito se vê e é também a partir desse ponto que ele se olha, assim como é de onde ele fala, pois “é no lugar do Outro (A) que ele começa a constituir essa mentira verídica pela qual tem começo aquilo que participa do desejo no nível do inconsciente” (1964/1985, p.137).

Para Žižek, a imagem especular tem propriedade de congelar o movimento, sendo que a partir desse ‘olhar imaginarizado’ os objetos são vistos de forma petrificada, o que entendemos como cheios de sentido, de simulações de realidade que não correspondem a um ‘real’ do objeto.

O eu faz exatamente este movimento, na medida em que através da fantasia inconsciente constrói para si uma tela que o protege do encontro com o real ou, como coloca Coutinho Jorge (2004): “A fantasia é uma espécie de matriz psíquica que funciona mediatizando o encontro do sujeito com o real. Ela é uma matriz simbólico- imaginária que permite ao sujeito fazer face ao real do gozo” (s/p.). Embora, como destacamos anteriormente, o sujeito inconsciente – desconhecido, indeterminado – sempre impetra uma forma de se fazer presente, numa tentativa de significação, embora não possa ser inscrito. Pois, esse sujeito é vazio, como nos lembra Soler (1997), na medida em que perdeu seu ‘ser’. E é justamente em sua relação com o Outro, que o sujeito tenta responder a questão de seu ser. Desenvolveremos isso adiante.

Temos o esquema L, no Seminário 2: O eu na teoria de Freud e na técnica da psicanálise (1954-1955/1985), que contempla a construção imaginária do eu e também a simbólica, evidenciando a relação inconsciente entre o Outro (A) e o Sujeito (S) , assim como destacando que a mensagem do Outro é de alcance ao sujeito somente de modo fragmentado, como se vê representado pelos pontilhados. Isto é: há uma marca da falta nesta relação entre S e A, indicando que o discurso de A é sempre atravessado pela face imaginária, numa tentativa de camuflar a falta, aquela que se refere ao impossível da relação sexual:

Figura 9 - Esquema L

(...) mas ele é também saber, dito de outro modo, o que dessa estrutura se desenrola, se articula no discurso, no discurso do Outro. Esse Outro, do qual o inconsciente é o discurso, não se reduz aos pais; é o Outro do discurso universal que determina o inconsciente como transindividual. Ora, o Outro, entendido nesse sentido, ou seja, o simbólico, se ele é invariável em sua estrutura – aquela da linguagem –, é também submetido às mudanças, às mutações, às rupturas, às subversões (Askofarè, 2009, p.169).

Assim, a cultura do medo, a sobredose de medicamentos consumidas, os avanços da tecnologia, entre tantos outros aspectos contemporâneos que citamos anteriormente, em nosso entendimento, se sustentariam a partir de seus efeitos sobre o sujeito que está atrelado ao Outro, igualmente em sua condição de estrutura.

A partir do seminário dedicado à angústia (Seminário 10) e mais claramente no Seminário 11: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise (1964), há uma transformação no ensino de Lacan, no que tange a concepção de sujeito. Esse giro se dá a partir de sua elaboração sobre o que denominou de objeto a, juntamente à elaboração de seus conceitos sobre alienação e separação, que indicam que Lacan está levando a ideia do inconsciente estruturado como linguagem a um passo adiante. E é exatamente a separação que sinaliza esse além.

Para elaborar a estrutura lógica das operações de alienação e separação, Lacan se refere às operações de união (U) e intersecção (∩) da teoria dos conjuntos. Como sabemos, a união agrega dois conjuntos distintos, enquanto a intersecção destaca aquilo que conjuntos distintos apresentam em comum. Entretanto, ao representar a separação por meio da intersecção, Lacan ‘muda’ a operação, colocando em destaque não aquilo que os dois ‘conjuntos’ tem em comum, mas aquilo que falta em ambos, aquilo que não pertence a nenhum, como veremos.

Na alienação temos dois conjuntos: um referente ao Outro (S1-S2) e outro que se refere ao ‘ser’ (que é vazio) – mas que, como sabemos, é transformado em sujeito pelo Outro, que será representado pelo S barrado, indicando sua castração simbólica, efeito de sua entrada na linguagem. Logo, temos:

S S1 S2

Sujeito Outro

E que Lacan representa:

Figura 10 - A alienação

O conjunto do sujeito é vazio, na medida em que o sujeito só se dá a partir de seu encontro com o Outro, na medida em que ele empresta do Outro um significante (S1) para poder se representar para outro significante (S2). Isso indica também, que o campo do ser só será instaurado quando o vazio passa a ser nomeado, quando é simbolizado e, assim, destacado do real, no sentido de criar barreiras que o delimitam. É aí também que algo fica de fora, uma vez que o ser não pode ser totalmente tomado de sentido pelo Outro (como vemos ilustrado na figura acima), pois sempre há algo que se perde. Aqui, temos um duelo entre o ser e o sentido, já que ao ‘escolher’ o ser, se perde o sentido, enquanto que a escolha do sentido implica a perda do ser e, consequentemente, o desaparecimento do sujeito, a afânise: “A alienação (...) condena o sujeito a só aparecer

nessa divisão que venho, me parece, de articular suficientemente ao dizer que se ele aparece de um lado como sentido, produzido pelo significante, do outro ele aparece como afânise” (Lacan, 1964/1985, p.199). É nesse sentido que temos o que Lacan denomina de ‘escolha forçada’, já que independente do que escolher não se terá nem um, nem outro.

Evidencia-se na operação de alienação que o sujeito antes de advir como significante que se representa para outro significante não é absolutamente nada. Ele precisa, necessariamente, apelar ao Outro enquanto segundo significante, para se inserir no sistema simbólico, na linguagem, como coloca Lacan: “(...) o sujeito aparece primeiro no Outro, no que o primeiro significante, o significante unário, surge no campo do Outro, e no que ele representa o sujeito, para um outro significante, o qual outro significante tem por efeito a afânise do sujeito” (Lacan, 1964/1985,p.207).

Soler (1997) destaca que o sujeito da alienação é o que está posto no nível inferior do grafo do desejo (figura 4), onde ele tem que decidir entre a identificação fixada e o sentido, sendo o destino desse sujeito do significante a petrificação (pelo significante) ou a indeterminação, no interior do deslizamento do sentido:

Para Soler, temos aqui o ‘impasse do sujeito do significante’, “resultado dos dez anos de retorno de Lacan a Freud – dez anos em que Lacan construiu o sujeito da fala e da linguagem, terminando com um sujeito alienado, isto é, um sujeito que perdeu seu ser e está dividido” (1997, p.62).

Assim, a operação de alienação se apresenta enquanto ‘novidade’ somente no sentido lógico, enquanto estrutura lógica do sujeito do significante e se delineia enquanto destino, o qual nenhum sujeito falante pode evitar. Portanto, é a operação de separação que surge como um aparato teórico que realmente assinala o avanço

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