4. TRANSITIONAL SHELTER SOLUTIONS
4.3 Twin elevated shelters, Myanmar
As elaborações de Manuel Castells e Pierre Lévy sobre a sociedade partem de um denominador comum: a internet. Ambos a concebem enquanto um dispositivo que possui efeitos reais na estrutura econômica e social, possibilitando que suas análises sejam feitas partindo de uma concepção de cultura na qual o mundo encontra-se interligado por redes. Mais do que pensar a internet enquanto uma característica de nosso tempo, Lévy e Castells a tomam enquanto um catalisador cultural.
O sociólogo espanhol Manuel Castells (1999/2008) consagrou ‘a sociedade em rede’ em seu livro homônimo, entendendo rede enquanto: “um conjunto de nós interconectados” (p.566), que são capazes de se expandir sem limite, integrando novos nós em redes que compartilham do mesmo código de comunicação (por exemplo, os mesmos valores):
A sociedade em rede, em suas várias expressões institucionais, por enquanto é uma sociedade capitalista. Ademais, pela primeira vez na história, o modo capitalista de produção dá forma às relações sociais em todo o planeta. Mas esse tipo de capitalismo é profundamente diferente de seus predecessores históricos. Tem duas características distintas fundamentais: é global e está estruturado (...) em uma rede de fluxos financeiros. (Castells, 1999/2008, p. 567)
Em uma análise bastante abrangente sobre as transformações socioeconômicas em seus mais distintos aspectos, Castells destaca que a tecnologia deve ser levada a sério e a utiliza como ponto de partida de sua investigação. No entanto, ele faz duas ressalvas que são interessantes: a primeira delas é que não confia que novas formas sociais emergem como consequência da transformação tecnológica e que, portanto, a tecnologia não determina a sociedade; a segunda é que a sociedade igualmente não dita o caminho das transformações tecnológicas, uma vez que uma série de outros fatores – como iniciativas empreendedoras criativas – intervém no progresso de descobertas científicas, tecnológicas e também em sua aplicabilidade social: “Na verdade, o dilema do determinismo tecnológico é, provavelmente, um problema infundado, dado que a tecnologia é a sociedade, e a sociedade não pode ser entendida ou representada sem suas ferramentas tecnológicas” (Castells, 1999/2008, p.43). Entretanto:
(...) embora não determine a evolução histórica e a transformação social, a tecnologia (ou sua falta) incorpora a capacidade de transformação das sociedades, bem como os usos que as sociedades, sempre em um processo conflituoso, decidem dar ao seu potencial tecnológico. (ibid., p.44-5)
Podemos entender que Castells tenciona tecnologia e sociedade em uma relação dual que, em analogia, permite assentar que corrobora com a perspectiva psicanalítica de que
sujeito e social não podem ser pensados de forma independente – ou, como veremos no capítulo seguinte.
Posteriormente, em A Galáxia da Internet (2001/2003), Castells entende que a ‘cultura da internet’ estrutura-se em quatro camadas, hierarquicamente dispostas, que contribuem para uma ‘ideologia de liberdade’ disseminada na internet, constituindo: cultura tecnomeritocrática, cultura hacker, cultura comunitária virtual e cultura empresarial. Sendo que se articulam do seguinte modo:
(...) a cultura tecnomeritocrática especifica-se como uma cultura hacker ao incorporar normas e costumes a redes de cooperação voltadas para projetos tecnológicos. A cultura comunitária virtual acrescenta uma dimensão social ao compartilhamento tecnológico, fazendo da Internet um meio de interação social e de integração simbólica. A cultura empresarial trabalha, ao lado da cultura hacker e da cultura comunitária, para difundir práticas da Internet em todos os domínios da sociedade como meio de ganhar dinheiro. Sem a cultura tecnomeritocrática, os hackers não passariam de uma comunidade contracultural específica de geeks e nerds. Sem a cultura hacker, as redes comunitárias na Internet não se distinguiriam de muitas outras comunidades alternativas. Assim como, sem a cultura hacker e os valores comunitários, a cultura empresarial não pode ser caracterizada com especifica à Internet. (Castells, 2001/2003, p.34-5)
A cultura tecnomeritocrática – uma vez que a internet foi produzida em círculos acadêmicos – está enraizada na discursividade acadêmica e científica, o que no nosso entender, neste contexto, se associa ao discurso universitário. Uma de suas crenças, tais quais os iluministas e a modernidade, é a de que o desenvolvimento tecnológico e científico é decisivo no progresso da humanidade. Os hackers formam uma comunidade dentro desta cultura que se utiliza da conexão dos computadores para desenvolvimento de programas e software, tendo como significante a liberdade. “Liberdade para criar, liberdade para apropriar todo conhecimento disponível e liberdade para redistribuir esse conhecimento sob qualquer forma ou por qualquer canal (...)” (Castells, 2001/1003,
p.42), embora na maioria das vezes os hackers estejam sendo utilizados por empresas para a sustentação e desenvolvimento da internet e também do sistema... O que, neste caso, não nos deixa margem para pensarmos em liberdade. Entretanto, vale mencionar a organização transnacional WikiLeaks, representada aqui pelo ciberativista Julian Assange.
A WikiLeaks, a partir do trabalho de hackers, desde 2006 é responsável pela divulgação em rede de centenas de milhares de documentos confidenciais, sejam diplomáticos ou militares – na intenção de deixar às claras o que não se encontra tão transparente, fazendo frente, especialmente, às grandes organizações, como governos e bancos. No mês de novembro do ano de 2010 o WikiLeaks divulgou, em conjunto com cinco importantes jornais do mundo (El País, Le Monde, Der Spiegel, The Guardian e New York Times), documentos secretos que se relacionavam com a invasão americana ao Iraque e ao Afeganistão. Desde então, viu-se uma verdadeira perseguição política à Assange. O mesmo aconteceu com o técnico de informática americano Edward Snowden, funcionário da Agência de Segurança Nacional (NSA) americana, que revelou ao The Guardian (2013) informações confidenciais sobre os programas de vigilância das comunicações implantados pelos Estados Unidos e que, ironicamente, é procurado por espionagem.
Em relação ao WikiLeaks, dias após a divulgação dos documentos, ‘coincidentemente’, a Interpol colocou Julian Assange na lista de procurados, por ter sido acusado na Suécia de crimes sexuais – entre eles a ausência de preservativo – que teriam ocorrido em agosto do mesmo ano. Assange se apresentou à polícia de Londres, negou as acusações e foi liberado. Como ressalta Wladimir Safatle (2012), neste caso houve uma inversão: o problema de cunho político passa para uma questão moral. Contudo, por questões diplomáticas, se vier a ser extraditado para a Suécia, ele pode ser extraditado para os Estados Unidos e por lá responderá a crimes de espionagem, fraude, entre outros. No Reino Unido, Assange conseguiu asilo político na embaixada do Equador, sendo o local constantemente ameaçado de invasão pelo governo britânico. Já Snowden ainda busca asilo político, mas os países que poderiam acolhê-lo são a todo tempo intimidados pelo governo americano. Em julho de 2013, por exemplo, um voo no qual estava o presidente boliviano Evo Morales teve acesso negado aos espaços aéreos de Portugal e Itália, pois havia a suspeita de que Snowden estaria a bordo.
Esta passagem serve como imagem tanto para se pensar no problema transparência política, quanto para questionarmos a questão da ‘liberdade’ na internet ou entendermos a dinâmica de sustentação dessa cultura. Como Castells sugere, as culturas que apoiam a ‘cultura da internet’ se inter-relacionam e também a sociedade em rede se configura enquanto capitalista. Portanto, questionar os pilares que a amparam, isto é, fazê-la em detrimento de algo que não consta no sistema e que, portanto, denuncia seu furo (aos moldes da histeria), se torna um enorme problema. Neste sentido, poderíamos apreender um viés político na Internet, para-além da alienação que também se solidifica e da prévia condenação dos mais apressados. Voltaremos a este ponto em outro momento.
Castells indica que as comunidades virtuais se originaram de modo semelhante aos movimentos de contracultura e dos modos de vida alternativos que emergiram a partir da década de 1960, supondo uma ideia de cultura comunitária unificada. Na medida em que foram se expandindo, as comunidades virtuais também se distanciaram de sua conexão original com a contracultura.
Atualmente, as comunidades virtuais configuram-se enquanto uma das maiores ‘utilidades’ da internet, especialmente a partir da ampliação de redes sociais, como Facebook (com aproximadamente um bilhão de usuários no mundo todo) e o Twitter.
As redes sociais são apreendidas enquanto um meio no qual as pessoas se relacionam umas com as outras. Logo, aparecem enquanto um instrumental que incide sobre os laços sociais. Castells, assim como Pierre Lévy (1996, 1994, 1999) e Sherry Turkle (1999, 2003, 2007, 2008), se ocupam em entender de que forma essa composição social afeta a vida e a relação das pessoas. Muitos outros autores, de diferentes áreas, também se dedicam a estudar o mesmo tema, inclusive autores da psicanálise, como veremos no próximo capítulo.
Se no período de nosso mestrado (2007-2009) as pesquisas pareciam caminhar em direção a estabelecer congruências e dissidências entre o mundo online e offline, especialmente a partir de estudos das redes sociais, entendemos que houve certo avanço. A discussão que acompanhamos hoje nos permite descrever duas transparentes variações: em primeiro lugar, notamos precisamente que a preocupação não é mais a de estabelecer uma dicotomia entre online e offline, colocando a internet enquanto um ‘mundo possível’. Agora, ela é tomada como algo concreto, que efetivamente incide na
vida social ou econômica. O segundo ponto – e esse nos é bastante caro – percebemos que em psicanálise igualmente tem produzido sobre o tema, validando nosso esforço contínuo que se ocupa em apreender que ali existe algo alocado sobre o sujeito.
Diante disso, interrogamos se na atualidade a internet funciona mais como um dispositivo que expõe o que é próprio do sujeito ou podemos concebê-la enquanto algo que estabelece uma ‘nova ordem’? Para Castells, esta questão pode ser respondida por uma via de mão dupla: “nem utopia nem distopia, a Internet é a expressão de nós mesmos através de um código de comunicação específico, que devemos compreender se quisermos mudar nossa realidade” (2001/2003, p.11).
A concepção do filósofo Pierre Lévy é similar a de Castells ao se deter sobre as comunidades virtuais. Ambos escrevem suas obras no momento de franca ampliação da internet, quando essa passa a ser acessível aos usuários em suas próprias casas, através de computadores pessoais. Este contexto suscita em Castells e Lévy, a necessidade de entenderem e explicarem a ‘novidade’ a quem pudesse interessar. O receio e debate em torno de uma inovação em comunicação é uma reação esperada frente ao novo. Antes da internet, a maioria dos estudos estava às voltas, progressivamente, com a influência da fotografia, do rádio ou da televisão na vida social: “Muitas vezes, enquanto discutimos sobre os possíveis usos de uma dada tecnologia, algumas formas de usar já se impuseram. Antes de nossa conscientização, a dinâmica coletiva escavou seus atratores” (Lévy, 1999, p.26).
Lévy (1999) se utiliza do termo ‘ciberespaço’ cunhado por William Gibson, em 1984, para falar de desse universo de redes digitais, onde se estabelecem novas fronteiras econômicas e culturais. O ciberespaço (ou rede) é entendido como um espaço de comunicação aberto que se dá a partir dos computadores conectados em rede, especificando a infraestrutura material e também todo o fluxo de pessoas que se comunicam e participam. Já para definir as técnicas materiais e intelectuais, Lévy inventa o termo ‘Cibercultura’, indicando as práticas, os valores, os pensamentos que se desenvolvem neste espaço.
A possibilidade de a sociedade encontrar-se no ciberespaço, juntamente com o otimismo e encantamento de Lévy (1994/2007) diante de tantas aberturas (um novo território que converge comunicação, pensamento e trabalho), viabilizam para que o autor formule um projeto que denomina de ‘inteligência coletiva’. Assim ele a define:
“é uma inteligência distribuída por toda parte, incessantemente valorizada, coordenada em tempo real, que resulta em uma mobilização efetiva das competências” (1994/2007, p.28). O ciberespaço é o dispositivo ideal para que esses coletivos inteligentes se desenvolvam, conectando saberes e provocando transformações. O WikiLeaks ou o Wikipedia, assim como várias outras comunidades virtuais, podem ser tomados como exemplos. As trocas de ideias, artigos, imagens, as conferências eletrônicas, entre tantos outros, também são meios de se coletivizar o saber. Para Lévy, esta seria a melhor maneira de se utilizar o ciberespaço.
Tendo este ideal como precedente, Lévy afirma no documentário As formas de saber (Sesctv, 2012), que a internet é a ‘revolução’. Ao retomar a origem das redes sociais – que foram também remetidas por Castells enquanto um processo que se deu semelhante à contracultura – o autor afirma que em sua constituição podemos pensá-la enquanto revolucionária. No inicio dos anos 1970, a internet era utilizada exclusivamente por pesquisadores científicos e, portanto, era inacessível à população. Contudo, vários grupos ativistas, sobretudo na Califórnia, acreditaram que seria possível fazer este tipo de ‘informação’ (mesmo que ainda fosse extremamente precária em relação ao que temos hoje), chegar ao público em geral, enquanto um instrumento de informação. Assim, o computador pessoal (PC) apareceu. O que, no seu entendimento, permite afirmar que a internet é um movimento social que emergiu da própria sociedade, oriunda de jovens que viviam em grandes metrópoles, interessados na revolução técnica e em novas formas de comunicação interativas e comunitárias.
Autorizamo-nos, a partir das considerações de Lévy e Castells, e também em conjunto com o que pesquisamos até aqui, apontarmos: enquanto Lévy afirma que a internet é um dispositivo revolucionário desde sua ‘criação’, Castells elabora que isso foi se diluindo na proporção de sua expansão; enquanto os pós-modernos assinalam para a ausência de um sujeito crítico, observamos uma ebulição de movimentos sociais – seja na rua, seja no ciberespaço; em tempos de cultura narcisista, nunca se esteve tão conectado aos outros; na falta de referências, um sem fim de universidades, de guerra e de fiéis...