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Tent Shelter, Afghanistan

In document SHELTER DESIGN CATALOGUE (sider 42-0)

3. EMERGENCY SHELTER DESIGNS

3.5 Tent Shelter, Afghanistan

No texto O mal-estar na civilização (1930/2006), Freud alerta que nossas possibilidades de felicidade são restritas pela nossa própria constituição estrutural e, portanto, o desprazer é muito mais acessível aos sujeitos humanos. Somos ameaçados pelo sofrimento a partir de três fontes:

(...) de o nosso próprio corpo, condenado à decadência e à dissolução, e que nem mesmo pode dispensar o sofrimento e a ansiedade como sinais de advertência; do mundo externo, que pode voltar-se contra nós com forças de destruição esmagadoras e impiedosas; e, finalmente, de nossos relacionamentos com outros homens. (Freud, 1930/2006, p.84-85)

Esta afirmação parece ser essencial para o conceito de ‘sociedade de risco’, elaborado e desenvolvido pelo sociólogo germânico Ulrich Beck (1986/2010), pelo menos no que diz respeito ao sofrimento advindo da fragilidade de nosso corpo e do mundo externo.

Para Beck somos, sujeitos e objetos, testemunhas oculares de um momento de ruptura no interior da modernidade, na qual a sociedade industrial clássica assume a forma de ‘sociedade (industrial) de risco’. Nesta proposta de Beck, podemos apreender que há algo que conecta nosso modo de estar no mundo a uma cultura que faz uso do ‘medo’ ou do ‘risco’ que, como exposto por Freud, está em nossa constituição enquanto sujeitos. Em nosso entendimento, é como se vivêssemos em uma sociedade na qual se tente apropriar deste afeto em busca de dirigirem (ou controlarem) os mais díspares âmbitos sociais.

O que ele denomina de ‘sociedade (industrial) de risco’ está inserido em um contexto globalizado, que implica uma atmosfera com força cultural e política, de cunho violento, que mobiliza a sociedade atual de diferentes formas. O ‘risco’, tomado como uma antecipação da catástrofe, utiliza-se de diferentes roupagens (ecológico, financeiro, militar, bioquímico, informacional, etc.), faz girar as relações de poder entre as nações e

afeta também as pessoas. Além disso, as técnicas de visualização e os meios de comunicação de massa são fundamentais para a sua existência.

O que nos parece uma forma de discursividade assustadora, na visão extremamente otimista de Beck é potencialmente transformadora. Beck crê que a sociedade de risco é também uma oportunidade social. Para ele, ao se prever a destruição e o desastre pode-se gerar uma pressão para agir sobre isso, o que indica uma concepção mais próxima a uma ideia de que os desastres (naturais ou econômicos) podem ser evitados e outros infortúnios devidamente remediados (como doenças, epidemias, pobreza,...). O risco, para Beck, pode unir os seres humanos, não só em termos de solidariedade, mas da emergência de um ‘mundo comum’, como projeto alternativo a partir da consciência de risco global: “A sociedade mundial de riscos nos obriga a reconhecer a pluralidade do mundo que a visão nacionalista podia ignorar” (Beck, 1986/2010, p.364). A partir de uma ideia de ‘identificação geral’, em decorrência de compreendermos a vulnerabilidade frente às experiências traumáticas às quais estamos expostos, Beck defende que a consciência do risco abre um espaço moral e político que pode fazer emergir uma cultura civil que minimize as diferenças entre culturas e trabalhe sempre pensando na contribuição para uma harmonia geral. Apesar de ser uma ideia bonita de união dos povos em prol de uma sociedade sem conflitos, parece-nos impraticável não só diante de todos os interesses econômicos envolvidos, como também na impossibilidade da suplência de conflitos, numa espécie de estado de satisfação universal.

O estudo realizado pelo sociólogo americano Barry Glassner (2003) apresenta contribuições menos idealizadas. Ele se dedicou a compreender a ascensão da cultura do medo nos Estados Unidos, apontando a influência fundamental dos meios de comunicação em sua disseminação, partindo do célebre acontecimento da transmissão radiofônica, em 1938, de A guerra dos mundos (1898) de Orson Wells, que resultou no profundo desespero de milhões de americanos que acreditavam que a Terra estava sendo invadida por extraterrestres. Esta passagem ilustra muito bem o que Glassner quis dizer ao afirmar que temos mais medo de fatos que acontecem cada vez menos. Em contrapartida, a cultura do medo distancia-se cada vez mais de assuntos que realmente deveriam provocar algum tipo de temor, como as questões políticas e econômicas, a venda de armas (no caso dos Estados Unidos), o preconceito, a falta de recursos para a educação e a saúde, etc.. Tal estratégia aponta para a gestão da ideologia capitalista,

pois ocupando as pessoas com causas que geram giros econômicos, que continuam a sustentar o sistema, ofuscam-se assuntos que poderiam resultar em algum tipo de efetiva transformação social. O objetivo é sempre o de tamponar o furo do sistema, mesmo que para isso se produzam centenas de dispositivos provocadores de angústia. A velha fórmula bastante conhecida utilizada pela discursividade capitalista.

Bauman (2007) também contribui para a discussão ao salientar que somos convocados a observar:

(...) ‘os sete sinais do câncer’ ou "os cinco sintomas da depressão", ou para exorcizar o espectro da pressão alta, do nível alto de colesterol, do estresse ou da obesidade. Em outras palavras, buscamos alvos

substitutos sobre os quais possamos descarregar o medo existencial

excedente que foi barrado de seus escoadouros naturais, e encontramos esses alvos paliativos ao tomarmos cuidadosas precauções contra a inalação da fumaça do cigarro de outra pessoa, a ingestão de comida gordurosa ou de "más" bactérias (ao mesmo tempo em que sorvemos os líquidos que prometem conter as "boas"), a exposição ao sol ou o sexo desprotegido. (Bauman, 2007, p.17)

E o autor igualmente afirma que a cultura do medo seja algo lucrativo, extremamente explorado na cultura global, se engendrando em ‘microatitudes’ – como carros blindados, casas em condomínios, aprendizado de artes marciais – ou em ‘macroatitudes’ – representado aqui pelos armamentos ou câmeras de segurança espalhadas por todos os lados e, acrescentamos, a espionagem americana dos governos e também dos cidadãos.

A discussão pode também ser feita a partir do medo da desordem psíquica, que agora acomete milhões de pessoas no mundo todo, provocando um ‘boom’ de portadores de síndrome do pânico, transtornos obsessivos, popularizando a fibromialgia, condenando crianças ao TDAH (Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade), etc.. Vivemos a categorização psiquiátrica de todos os ‘desvios’ que se possa apresentar e, consequentemente, a medicalização psiquiátrica de centenas de milhares. Para todo mal, a cura. Por de trás das descobertas científicas divulgadas a cada dia em jornais e

revistas – afinal, ovo aumenta ou não o colesterol? – uma indústria incomensurável de produtos prontos para ‘dar conta’ de tudo.

Podemos também deslizar a questão do medo e risco para a queda da ascensão capitalista, que tem seu marco no episódio do ataque terrorista de 11 de setembro de 2001 aos Estados Unidos. Como ressalta Žižek, em Primeiro como tragédia, depois como farsa (2009/2011), o discurso do então presidente Bush ao povo norte-americano – na ocasião de 11 de setembro de 2001 e na crise financeira de 2008 –, evocava a “ameaça ao estilo de vida norte-americano e a necessidade de tomar providências rápidas e decisivas para enfrentar o perigo” (p.15). Assim, instaura-se o risco do sistema financeiro, o medo de perder seus bens, medo do vizinho de nacionalidade árabe, de um novo ataque ao território e as medidas de proteção tomadas em nome da segurança, que acabaram eclodindo na guerra aos países islâmicos.

Como sabemos, para a psicanálise a angústia é um afeto. E é também um dos temas mais importantes, tendo Freud e Lacan se dedicado a estudá-lo em diversos momentos. Há um sem fim de publicações que se dedicam ao tema, mas não se justificaria trazermos à discussão neste momento da tese. Portanto, com objetivo de esboçarmos alguma elaboração da psicanálise sobre o que foi exposto por Beck, Glassner ou Žižek, trazemos dois trechos da entrevista de Lacan à revista italiana Panorama (1974/2004).

O entrevistador, Emilio Granzotto, interroga Lacan sobre o que leva os sujeitos à análise e ele rebate que é o medo. Ele afirma que as pessoas sentem medo quando coisas desejadas ou não lhe acontecem e o sujeito não compreende. O sofrimento neurótico vem de não compreender: “(...) na neurose histérica, o corpo fica doente de medo de estar doente, e sem estar na realidade. Na neurose obsessiva, o medo coloca coisas bizarras na cabeça, pensamentos que não podemos controlar, fobias nas quais as formas e os objetos adquirem significações diversas e que dá medo” (Lacan, 1974, s/p). No final da entrevista, Granzotto questiona “Mas o que é a angústia para a psicanálise?” e Lacan responde:

Algo que se situa fora de nosso corpo, um medo, mas de nada, que o corpo, espírito incluído, possa motivar. O medo do medo, em suma.

Muitos desses medos, muitas dessas angústias, no nível em que os percebemos têm a ver com o sexo. Freud dizia que a sexualidade, é sem remédio e sem esperança. Uma das tarefas do analista é encontrar na palavra do paciente a relação entre a angústia e o sexo, esse grande desconhecido. (...) Não existe psicanálise coletiva assim como não existe angústias ou neuroses de massa. (Lacan, 1974, s/p)

Deste modo, isto nos permite afirmar que a ‘Sociedade de Risco’ e/ou a ‘Cultura do Medo’ contribuem enquanto leituras da discursividade contemporânea, na qual por trás da tentativa de instauração de medos que visam transformar a relação dos sujeitos com as coisas e até consigo mesmo, está implícita a ideia de um coletivo homogêneo guiado pelos significantes ‘medo’ ou ‘risco’, que nada mais alcançam através de identificações imaginárias, senão a insistência na alienação das estratégias do capitalismo. Assim, neste contexto, o discurso funciona como uma via de mão-dupla no sentido que provoca ‘ações’ – seja a solidariedade, seja a busca pela cura – ao mesmo tempo em que condena o sujeito a buscar soluções na própria armadilha do capital, numa espécie de resposta ao ‘Che vuoi?’.

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