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6.1 K ATEGORIER AV INNSATTE

6.1.2 Unge

A preocupação com a sistematização de experiências na América Latina ganha força na década de 80, especialmente no campo da educação popular. Segundo Maria da Luz Morgan (1995) profissionais com trabalho direto junto a grupos populares, desenvolvendo projetos de educação popular, promoção e trabalho social consideravam a necessidade de recuperar e comunicar estas experiências e suas aprendizagens. Paralelamente, questionavam as formas tradicionais de avaliação e investigação existentes, fundadas em paradigmas teóricos positivistas, que não consideravam a riqueza dos processos e a participação dos interessados.

La sistematización es una de las propuestas que surgen, junto con formas diferentes de investigación e evaluación, que enfatizan la participación de los propios interesados: el personal de los projectos y la población con quien se ejecutan las acciones (MORGAN, 1995:4).

Assim, no início dos anos 80, organizações como o CEESTEM – Centro de Estudios del Tercer Mundo no México, o CIDE - Centro de Estudios de la Educación no Chile se uniram para realizar uma sistematização de experiências de educação popular, interessadas em identificar, organizar e caracterizar os tipos de processos e relações entre profissionais e população gerados na intervenção social.

Como informa Maria da Luz Morgan (1995), essa iniciativa parte de duas compreensões iniciais sobre sistematização: a primeira proposta por Sergio Martinic (1984) com a idéia das “hipóteses de ação”, considerando que, em toda intervenção, existem hipóteses implícitas, a partir das quais se pode “reconceitualizar” a experiência. A segunda (assumida por ALFORJA, CELATS,

CEAAL, Escuela para el Desarollo, entre outros9) que concebe a sistematização

como uma forma de produção de conhecimentos, baseada na recuperação e comunicação das experiências vividas. No final dos anos 80 é fundado o “Taller Permanente de Sistematización” (Peru) que agrupa várias destas instituições, além de pessoas comprometidas com o tema.

Também de acordo com Pierre de Zutter (1994), a história da sistematização de experiências na América Latina pode assim ser resumida:

...est née d´une doublé demarche. D´abord le besoin de dépasser l´évaluation de projet dont les structures et les methods répondaient aux requêtes des financeurs plus qu´à celles du terrain. Ensuite l´aspiration à apprende de l´expérience ce qui permette de compléter et structurer les pratiques d´éducation populaire en un systéme cohérent de pensée et d´action (ZUTTER, 1994: 43)10.

É também fazendo referência a essa origem que Pierre de Zutter (1994) diferencia a sistematização de experiências latino-americana da proposta que desenvolve também em países da América Latina, em parceria com organizações como a FPH – Fondation pour le Progrès l´Homme11, denominada por ele de “capitalização de experiências” e conceituada como “a passagem da experiência ao conhecimento compartilhado”. Segundo ele a “capitalização de experiências” parte de uma outra urgência:

...recueillir et exprimer toutes sortes d´apports et de sensibilités afin de contribuer à une recomposition progressive des savoirs et des pratiques, recomposition nécessaire au vu des réponses de la realité (de la plus macro à la plus micro) aux múltiples idéologies et modèles prônés pendant les dernières décennies (ZUTTER, 1994: 44).12

9 ALFORJA – rede de centros de educação popular da América Central representada por Oscar Jara na Colômbia. CELATS – Centro Latinoamericano de Trabalho Social no Peru. CEAAL – Consejo de Educación de Adultos da América Latina, desenvolve o “Programa de Apoyo a la Sistematización”. Escuela para el Desarollo – Peru.

10 .. ... nasce a partir de uma dupla entrada. Primeiro a necessidade de ultrapassar a avaliação de projeto onde as estruturas e os métodos respondiam às demandas dos financiadores mais do que as do campo. Em seguida a aspiração de aprender da experiência aquilo que permite completar e estruturar as práticas de educação popular em um sistema coerente de pensamento e de ação. Tradução da autora.

.parte de uma dupla entrada

11 Organização suíça com sede em Paris

12 ...recolher e exprimir todo tipo de contribuições e de sensibilidades para contribuir com uma

Assim, se os anos 60 inauguram, no contexto latino-americano, esforços quanto ao estabelecimento das relações entre a pesquisa e a prática e os 70 o aumento da exigência pela avaliação (originada no mundo dos financiadores), a década de 80 busca reflexões e avaliações que possam servir a todos e a produção do conhecimento útil para a ação.

A proposta da sistematização, entendida como uma busca de compreensão e qualificação do fazer social, inseria-se, portanto, em um contexto latino-americano do final da década de 70, momento no qual, como assinalam todos, a solidariedade e luta confluíam e se integravam em diferentes tipos de práticas sociais. Era a época das lutas pela libertação da Nicarágua, das manifestações dos camponeses e mineiros na Colômbia e Bolívia, dos manifestos pela incapacidade das estruturas sociais dominantes, convivendo com a repressão nos países sob regimes ditatoriais. E também a época da emergência de práticas sociais de caráter alternativo.

Segundo Alfredo Ghiso (1998), as questões que então se colocavam no universo dos movimentos sociais diziam respeito à necessidade de re-valorizar o protagonismo do povo, qualificar os modos de fazer política e transformar os componentes autoritários existentes nas práticas pedagógicas. Entretanto, quando os regimes políticos latino-americanos começam a gerar processos mais democráticos, o fato de que o fazem imersos em contextos neoliberais e de globalização termina por acarretar o que denomina de “crises de opções éticas- políticas e de paradigmas” geradora de algumas rupturas, entre elas, a coerência entre o sentido e a ação prática. Isso explica, segundo o autor, a necessidade de valorizar a reflexão de experiências como fonte de conhecimento, tanto para desvelar os discursos calados, como para romper com o ativismo e a urgência, característicos das práticas sociais que emergiram neste momento: “desmitificando, desmontando y deconstruyendo lo que llamamos fundamentos raíces; reconecen un universo teórico plural, provisional y perfectible producto de la interacción con outros” (GHISO, 1998:3).

partir da realidade (da mais macro à mais micro) às múltiplas ideologias e modelos construídos durantes duas décadas. Tradução da autora.

No Brasil existem poucas reflexões sistematizadas a respeito do tema, embora trabalhos nesse sentido existam desde a década de 60, especialmente ligados a atividades de educação de adultos e a práticas de formação de pequenos agricultores. Segundo Claudino Varonese (1996) a partir dos anos 70 observam-se, inclusive, experiências vinculadas às iniciativas latino-americanas, como as coordenadas pelo CEALL13. Entretanto, a conjuntura política brasileira impediu a continuidade de várias delas, de duas maneiras: pela repressão às atividades de caráter crítico, imposta pela ditadura militar, e pelo fato de que, durante o processo de democratização, militantes e intelectuais foram totalmente absorvidos por demandas geradas pela necessidade de reorganizar a própria atuação social e a mobilização da sociedade.

Conforme já explicitado na introdução desse trabalho, temos observado recentemente a disseminação da idéia e da prática da sistematização no Brasil. Aparentemente, as fundações e institutos ligados ao mundo empresarial tendem a compreendê-las como um processo de construção de tecnologias, traduzidas em manuais que podem apoiar a disseminação e multiplicação das experiências. Sendo assim, constituem-se em um instrumento de rentabilização do investimento social implementado, mais próximo de um modelo de racionalidade que pretende a construção de procedimentos padronizados e que comportem um fim prático.

Resta verificar a trajetória e os rumos que a reflexão das práticas sociais vêm tomando nas ONGs brasileiras. Reflexão compreendida como interpretação, diálogo e atribuição de sentidos capazes de intervir nos contextos de seus atores, pela via da construção de conhecimentos que não se transferem, mas se negociam. Ainda, tendo em vista sua origem, será preciso perguntar os seus sentidos para as ONGs na atual conjuntura econômica e social. Sobre isso, Alfredo Guiso (1998) considera que atualmente a sistematização precisa ser pensada no “marco paradigmático das redes”:

La red se constituye en el âmbito privilegiado de recreación conceptual, de generation de interrogantes, de producción y circulación de

13 Mais recentemente: o SPEP – Serviço Permanente de Educação Popular da Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul (UNIJUI) criado em 1987 está vinculado ao CEAAL. Outro exemplo é a Coleção Direitos Humanos (Sistematização de Experiências de Educação Popular) 2, 3, 4 publicada pelo Movimento Nacional de Direitos Humanos 1990/1991 escrita por autores do CELATS e CIDE (Chile)

conocimientos sobre la práctica (...) permite el encuentro y la recuperación de las identidades, valorando la diversidad y las diferencias (...) son y serán los espacios de legitimación de lo producido en procesos de sistematización (GUISO,1998:6).

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