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3 – A LOUCURA CORPO(R)ATIVA E A SUA RELAÇÃO COM OS MITOS

A loucura só existe em cada homem porque é o homem que a constitui no apego que ele demonstra por si mesmo e através das ilusões com que se alimenta.(FOUCAULT, 1978:24).

Na corpo(r)ação o homem se perde na tentativa de atender a si e ao outro. E nesse processo, muito do que compunha o seu padrão de valores permanece, mas o que mantém a sua unidade depois das adaptações e modificações nem sempre é a sanidade.

Esta ausência de sanidade é compreensível considerando-se que na organização os homens são prisioneiros da espiral comunicativa – armadilha que, segundo BAUDRILLARD (2002), os prende como em areia movediça porque não há escapatória aos desditos da comunicação normativa. O panopticon em que se constituiu o espaço corporativo expõe os corpos comprimidos pela espiral de Ananke67 e Cronos, condenados à eterna visibilidade de Ciclope. Dessa maneira, desorientados com as angústias e necessidades da vida, muitos se alienam e deliram, confundindo o sonho com a realidade. Ungidos pelo mel da loucura aludida por ERASMO (1509:18), os soldados da corporação buscam o reino dos deuses, o Olimpo, para arrefecerem a tortura impiedosa do trabalho despersonalizante que os envolveu, impingidos por Ananke. Ananke é uma deusa mitológica que Hilman apresenta a seguir:

O tempo e a necessidade, espiral inseparável que envolve todo o universo, resultante do casamento da deusa Ananke e Cronos, a grande serpente que estabelece limites a todas as possibilidades humanas. [...] Ananke, também chamada Adrasteia, foi ama de leite de Zeus. E como ama submete o outro a dependência e servidão opressiva. [...] está relacionada também com Eros a divindade do amor, e com ele Ananke forma um par, em que Eros é o beijo e Ananke o nó ou laço que amarra as relações no momento em que elas se estabelecem” (HILLMAN, 1997:17).

Na corpo(r)ação os homens são ameaçados por Cronos e pela sua foice do tempo,68 do destino e da morte e aí se debatem desesperados. Desorientados, e jogados na panóptica estratégia arquitetônica ficam permanentemente condenados à visibilidade, expostos ao olho de Ciclope, que jamais dorme. Desta forma, impotentes, eles refletem a corporação e

67 A deusa Ananque desde Homero significa Anánke: “coação, violência”, aproximada com as palavras célticas “necessidade, destino”.

Na gramática grega tomar nos braços, apertar, daí coação e apertura. A Ilíada traduz a idéia de coação e necessidade. Entre os pré- socráticos ela governa todas as coisas de um modo providencial, penetra no campo da necessidade mecânica das coisas. Em Platão é a necessidade física na matéria de submeter-se à finalidade – o princípio e a causa do movimento e do repouso (BRANDÃO, 1991:286).

na condição de (in)corporados utilizam-se de uma estratégia da representação de papéis. Como de acordo com KAMPER (2003) “quanto mais visibilidade menos propriocepção” os homens gradativamente vão perdendo seus corpos para a corpo(r)ação sem saber como reagir. Sem o sentido do próprio corpo nada lhes resta senão inscreverem os seus corpos em outra externalização corpórea, ou seja, eles tanto incorporam quanto são devorados. Dessa maneira, não é por acaso que a corpo(r)ação tem esse sentido implícito; incorporar aqueles que nela adentram.

Ao adentrarem no corpo do outro a corporação constroe o corpo(r)ativo e isso implica na destruição do corpo de história cultural carregado de mitos, crenças, ideologias, jogos, utopias e religião vinculados ao imaginário. Marcados por diretrizes organizacionais que lhes são impostas e pelas cicatrizes da corpo(r)ação, se transformam em corpo(r)ativos e contam uma outra história, ou seja, narrativizam o tempo de ambos in/corporados. Essas marcas surgem como conseqüência da adaptação entre o mundo simbólico do homem à norma corpo(r)ativa à qual ele se submete. Assim, a corpo(r)ação possui fácil acesso aos corpos transformados em imagens de si mesma marcando os seus destinos. Sobre as marcas que transformam GEBAUER, diz que nesse caso:

[...] A imagem do corpo é transformada em uma imagem de um outro corpo, do corpo de um outro. Ele generaliza a imagem do corpo de forma tal que esta imagem compreende o seu próprio corpo e o outro corpo. E, a imagem desse corpo comum é o primeiro e mais importante objeto da linguagem, um tipo de mimese fundamental (GEBAUER, 2004:174).

Dessa forma, esse corpo comum aos dois denuncia o duplo poder que a corpo(r)ação possui; a hegemonia sobre aqueles que se sujeitam, e essa sutil opressão que conta com a cumplicidade dos oprimidos69. Eternamente reversível, ela faz com que toda loucura tenha sua razão que a julga e controla, e toda razão a sua loucura na qual encontra a sua verdade irrisória. Assim, “Cada uma é a medida da outra e nesse movimento de referência recíproca, elas se recusam, mas uma fundamenta a outra (FOUCAULT, 1978:30)”.

68 Malena S. Contrera, na obra Mídia e Pânico, alerta que matamos o tempo acelerando nossas vidas, mas em contrapartida o tempo

também nos mata (2002:52).

Essa loucura é o início de um percurso, o começo de uma viagem programada pelo próprio viajante segundo Kamper. Isso porque do ponto de vista da cultura, a loucura está relacionada aos textos culturais construídos pelo próprio homem, autor da norma corporativa ou cúmplice dela. O substrato secreto que nela se manifesta é de um tempo não vivido. Assim, por detrás da história da dupla razão-loucura que nela se oculta, aparece a efetividade de uma imaginação próxima à ventura e de conseqüências poderosas e irreversíveis. Com relação a esse processo KAMPER (2003) tem a seguinte definição:

[...] A loucura é a sombra da norma; e contém, mesmo que de um modo dificilmente acessível, a verdade, seja, tanto desta norma, quanto do senso. [...] E com respeito às pretensões sociais sobre o individuo humano, hoje existem somente dois tipos de loucura: a unidade “racional” e a divisão “irracional”, uma identidade defendida com pânico, e uma esquizofrenia ligada à angústia e ao terror (KAMPER, 2003).

Em relação a essa esquizofrenia ligada à angustia e ao terror, CYRULNIK diz que “quando os homens tomam as metáforas pelas coisas diante de um símbolo não partilhado eles ficam loucos”. Segundo o autor, essa loucura apresenta-se de várias formas:

Os esquizofrênicos são difíceis de serem seguidos, e não fabricam movimentos sociais, ao contrário, se isolam. Os paranóicos são inteligentes e muitos marcam presença na história, nas seitas e entre os formadores de opinião. E, os psicóticos têm dificuldades para simbolizar e não sabem brincar, ou param na representação percebida e tomam a imagem pela coisa, não ativam a função da representação. Considerando aqui a imagem uma maneira de dizer, quando bem semantizada. Mas, sua forma perceptível nos encanta e nos atrai, às vezes em direção a uma idolatria moderna CYRULNIK (1997:280).

Essa idolatria dos homens pelas empresas os leva ao prazer quando da realização de suas necessidades reais e possíveis (CASSIRER, 1994:125), mas também ao sofrimento na impossibilidade dessa realização. Esse sofrimento pode ser observado nas representações dos papéis corporativos. Ele denuncia os conflitos entre os valores pessoais e os da organização através de medos e ansiedades. Esses são originados pelo pensar, que eventualmente se coloca na contramão da unidade organizacional, o que nem sempre é bem aceito. Consciente ou inconscientemente, sabendo disso, eles se calam para ganhar a aceitação, e assim coagidos pelas normas, se submetem impedidos de buscar formas de transformar o trabalho em um mediador para a sua saúde mental. A saúde mental afetada, desencadeia um sofrimento tácito e inevitável que repercute no teatro do trabalho, pois tem

raízes na história singular dos homens. Esse movimento complexo pode ser observado através da forma dessincronizada dos homens nas representações dos seus papéis.

Nessas representações os seus corpos denunciam uma falta de conexão com as atitudes e decisões. Ela é provocada pelas pressões impostas pelo departamento ideológico (PINTO, 2005:445) que fornece o suporte para as estratégias e ações coercitivas. Assim a comunicação normativa se transforma em fábricas de algemas - as normas - que limitam a liberdade humana no espaço corporativo. Dessa forma, o mundo da realização do desejo humano – a empresa - torna essa realização sofrível, porque procura por um objeto de satisfação que no mundo da mitologia é a necessidade - Ananke. Nesse mundo organizacional que realiza a sua necessidade real e possível (CASSIRER, 1994:125), o homem disponibiliza o seu saber, poder, fazer, ou seja, a sua técnica. De acordo com BARBERO (2000) nesse espaço, o homem deixa de ser feliz quando se acentuam as exigências de qualidade e produtividade por meio de uma estratégia, que a seu ver é perversa. Isso porque ela tem outras coisas por trás e, a cada dia despersonaliza o fazer do homem por meio de uma homogeneidade que se impõe às organizações pela globalização. Esse padrão do todo igual, como as máquinas, representa o fim da condição de vida criativa do homem no trabalho, o que acarreta uma situação que caminha para a alienação.

Essa ausência de satisfação no trabalho apontada por Barbero, gera uma dissonância; dela surge um conflito de valores que interfere nas representações sociais e profissionais. A princípio não é possível ao próprio funcionário ter a visão, distinguir esse fenômeno. Ele acontece porque a percepção sobre a insatisfação é vivenciada a partir de um componente do campo representacional, construído por ele mesmo na segunda realidade de BYSTRINA (1995). Essa construção se dá pela ação da comunicação organizacional carregada de ruídos, que gera deformações em função da sua forma inadequada de autoritarismo e seus enigmas. Tais fatores levam o funcionário a se desmotivar e isso interfere na sua produtividade. A baixa produtividade impede a realização das suas necessidades reais e possíveis e a frustração promove uma alienação acompanhada de um estado apático, indiferente ou delirante. Assim na representação dos papéis os homens se tornam autômatos, fato que gera muitas perdas para os homens e também para as empresas.