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Interessado em atender seus objetivos e pressionado para atender aos objetivos da corporação, o homem se afasta de si mesmo e se imanta da identidade corporativa. Ele cria com ela uma simbiose tornando-se quase tão mecânico quanto as técnicas e as máquinas

Titãs se apossaram do governo do mundo. O governo durou pouco por causa da crueldade de Cronos que devorava seus filhos ao nascer. Mas ele foi destronado por seu filho Zeus que iniciou a Titanomaquia – luta contra os Titãs (BRANDÃO, 1991: 455).

58A afirmação também faz parte da palestra “As Formas do Titanismo na Cultura e na Comunicação” anteriormente citada.

59 A estrutura assimétrica, de acordo com BYSTRINA (1995: 10), apresenta um pólo positivo e um pólo negativo entre os quais os

homens vivem procurando uma solução. Foram criados padrões de solução paralelos aos códigos da cultura que envolvem: 1 - a identificação dos pólos: acima e abaixo; 2 – o encadeamento de oposições binárias em oposições pluriarticuladas através da composição de tríades a partir de duas oposições binárias: céu/terra da oposição terra/inferno, nasce a chamada árvore da vida. Dentro das oposições,

com as quais convive. Para tornar isso menos doloroso ele encontra um viés comunicativo - a dissimulação - que anula o sofrimento. Sobre isso Lucien Sfez diz que “onde a política tradicional da comunicação fracassa, a própria comunicação estabelece algo em comum”, afirmação que ele esclarece valendo-se de uma citação de Baudrillard:

“... todos nós somos prisioneiros da espiral comunicativa e não podemos escapar a ela. Se nos entregamos a ela nada podemos fazer nem dizer. Todos os nossos atos e enunciados são prisioneiros da armadilha que a denunciam. ... Agir ou escrever é reforçar a armadilha como os movimentos desordenados dos que se afundam em areia movediça. Assim nas relações humanas reina soberana a representação, ou o delírio. “...eu creio exprimir o mundo de máquina que me representa, mas é ele que se exprime em meu lugar”. Eu tenho a ilusão de ser e ver - Metáforas, pois o sujeito só existe através do objeto técnico que lhe atribui seus limites. Frankenstein é o duplo do dr. Frankenstein, o outro de si com atributos do sujeito humano, a quem empresta sentimento e afeto” (SFEZ, 1994: 13- 75).

Esse comportamento dissimulado, esse outro de si que o homem deixa manifestar, é uma adaptação da sua natureza ambígua, um paradoxo que encerra o processo comunicativo. Ele passa a representar o que aí se manifesta como realidade. Nesse universo simbólico ele pratica a dissimulação para evitar a punição, evitar a crítica e/ou promover a aceitação. Essa construção ele faz em estado alterado de consciência porque cria uma outra realidade simbólica para colocar no lugar do que quer representar. Isso pode ocorrer de forma tanto consciente quanto inconsciente, de forma real ou possível. Essa dissimulação, embora pareça perfeita, custa ao homem um esforço psíquico, um sofrimento que o denuncia. Quando dissimula o homem manifesta atitudes antagônicas porque na realidade está negando construções culturais já estabelecidas.

Na perspectiva da antropologia histórica, BAITELLO Jr60 lembra que “o corpo do homem é um corpo de memória de temporalidade que se apropria do espaço na empresa e se vincula ao tempo, apropriando também da sua identidade, história e cultura. Ignorado como corpo cultural pelas normas às quais se submete, ele responde de modo alienado, ou seja, ele corresponde. No momento em que corresponde esse corpo experimenta o

o céu recebe sinal positivo em relação à terra, que recebe o sinal negativo; mas a terra, em relação ao inferno passa a receber o sinal positivo diante do sinal negativo do inferno. E aqui também nasce a ambivalência.

60Perspectiva proposta por Norval BailelloJr.no primeiro semestre 2003, durante o curso Sistemas Visuais e Espaciais, no Programa de

conflito61, age com a intenção de distorcer os conceitos culturais que até então nele reinaram. Enlouquece, delira e se transforma em uma representação que deixa de ser de si mesmo. Assim essa ruptura simbólica manifesta uma linguagem esquizofrênica. Quando esse corpo permite que as normas corporativas interfiram em suas histórias e apaguem parte de seus arquivos, com o seu consentimento ele promove uma ruptura no seu mundo simbólico e tudo isso para ser reconhecido62. De posse dos novos códigos gerados pelas metas e objetivos empresariais, ele cria para si outros significados e extrapola-os, ou seja, reescreve-os à sua maneira. E apropriar-se do espaço e vincular-se ao tempo construindo identidades não é o que a empresa tenta fazer de modo normativo? Ou seja, não é aqui que ela consegue o seu intento? Em Sfez encontra-se uma citação que ilustra esse processo:

“...o receptor ao ler o texto o refaz, e a sua maneira a sua leitura é na verdade uma reescritura. ... essa sutileza da realidade ficcional é uma hibridização carregada de características de dupla criação; a fabricação, o meio de comunicação e o receptor tecem os vínculos com imagens mentais, o pensamento, e sua liberdade criativa. Assim ele recompõe o texto com o seu olhar, adequando-o ao seu mundo, dentro da sua possibilidade” (SFEZ 1994: 98).

A reescritura dos significados corporativos é o mecanismo que os funcionários submetidos criam para sobreviverem em um mundo pré-concebido sem a sua experiência de vida, portanto, construído sem a sua presença. Quando um funcionário entra nessa realidade simbólica pré-concebida que não é a sua própria, o que se apresenta como condição de sobrevivência é uma espécie de morte. Como na cultura não há morte, ela é a saída para a morte, ela cria a capacidade do homem fazer parte dessa cultura organizacional através da sobrevivência psíquica que para BYSTRINA (1995:14) é cultural.