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3. En human vending?
Os processos de comunicação familiar50, segundo EIBESFELDT (1973:179), representam o primeiro espaço em que se criam vínculos e se contribui para mantê-los. A maneira de faze-lo difere de acordo com a cultura, pois nas diferentes formas de família, de acordo com o autor, existem surpreendentes semelhanças de caráter formal que só se pode explicar com a hipótese de que são adaptações filogenéticas comuns.
O núcleo familiar51 consolida o sistema dos vínculos iniciais constitutivos do homem, estabelece os primeiros elementos de limites sociais, demarca o espaço para as primeiras formas de sociabilidade, agregação, reunião, união de pessoas e inter- relacionamento. “No núcleo familiar encontramos vínculos simbólicos que remontam as raízes ontogênicas e filogênicas do homem, fundamentais na formação da identidade do indivíduo” (EIBESFELDT, 1973:179).
Os vínculos constitutivos estruturados na família são posteriormente resignificados através da comunicação normativa. A respeito deste tema encontramos a seguinte contribuição de Lucien Sfez:
“... A comunicação normativa faz comunicar e põe em comum aquilo que não pode permanecer privado. Consiste em concretizar o vínculo político de nascimento, e mediante esse direito criou a separação e produziu a alteridade que permite a identificação. Assim, a família se funda politicamente, e o pai não passa de uma ficção que reenvia aquilo que funda o sistema. Da mesma forma que o político civiliza o objeto mítico mediante o poder de representar todas as ficções
50 No desenvolvimento deste trabalho consideramos os vários tipos de vínculos lembrando que H. Harlow os classifica como: vínculo
maternal, filial, etário, heterossexual e paternal.
51 É importante ressaltar aqui que os vínculos familiares referem-se à função família e não aos aspectos biológico ou sexual. Isso para
esclarecer que o conceito jurídico de família mudou na maior parte do mundo, mas, principalmente no Brasil onde existe muita jurisprudência em torno do tema. Através do viés jurídico encontramos a seguinte explicação: “As relações homoafetivas ou uniões
fáticas, relacionamentos de pessoas do mesmo sexo, passaram a ser reconhecidas como união estável quando em 10 de janeiro de 2003
entrou em vigor o Artigo1.727-A, que apresenta a seguinte redação: ‘As disposições contidas nos artigos anteriores (1723-1727) que regulamentam a união estável aplicam-se, no que couber, às uniões fáticas’. A essas uniões são dados os mesmos direitos da família tradicional e também assim o é com relação às funções e aos papéis”. Fonte: Instituto Brasileiro de Direito de Família - IBDFAM. Disponível em <http:// www.advocaciaconsultoria.com.br>.Acesso em 30 ago. 2005.
sucessivas de transmissão. A ciência de hoje, enquanto significante absoluto, se encarrega da garantia de fronteiras entre nós e as coisas. A razão funciona aqui, seguindo o impulso do legalismo. O saber total é um mito, e existe para ocultar, ...diz-se que, no princípio ele era o pai e a pátria” (SFEZ, 1994: 121).
Da mesma forma que na família o pai representa o papel de autoridade, as normas corporativas também resignificam e assumem o papel de autoridade. Para aprofundarmos o sentido dos sistemas de vínculos retomamos as pesquisas de H. Harlow52 e sua classificação dos cinco sistemas de vínculos: o maternal, o filial, o etário, o heterossexual, e o paternal definidos da seguinte forma:
• O vínculo maternal ocorre desde os primeiros momentos de vida da criança, oferece a matéria prima comunicacional que cria a relação de proximidade. No início acreditou-se que fosse o alimento que o constituísse, mas hoje se sabe que ele é acompanhado pelo afeto, pela dedicação, pela melodia da voz, pelo abraço ou seja, a soma de todos os sentidos em um conjunto que se complementa.
• O vínculo filial, que está diretamente ligado ao maternal, é fundamental para que os outros vínculos se consolidem.
• O vínculo etário ou sistema fraternal não fica restrito apenas a um papel familiar, mas ao companheirismo que considera os outros. Nele a comunicação horizontal é mediada pelos símbolos ou códigos sem os quais não pode funcionar. Nesse momento é que surgem os primeiros conflitos da comunicação e cada grupo descobre a sua forma de democratizá-los. O vínculo etário é o que rege a relação de trabalho nas corporações. Esse é o vínculo que sustenta as relações de trabalho. • O quarto vínculo, o heterossexual, também chamado de parceria sexual ou conjugal, é o vínculo do novo núcleo social. Na opinião de EIBESFELDT, apenas o homem adquire relação de importância especial e vincula através do impulso sexual (1973: 176). O próprio EIBESFELDT trata mais detalhadamente esse tema (1970). • O quinto vínculo, o paternal, se contrasta com o vínculo maternal pelo distanciamento e abstração da distância, tem um sentido cultural. Em algumas
52 Harry Harlow, biólogo norte-americano, realizou experimentos que permitiram a classificação dos cinco tipos de vínculos. Ele fez
experiências com filhotes de macaco em simulacros de mães de arame com mamadeira e mães de veludo e sem mamadeira. Os filhotes mamavam rapidamente nos simulacros de arame e pulavam para o simulacro de pelúcia onde passavam todo o restante do tempo em que não tinham fome, tocando-a, denunciando dessa forma a necessidade de afeto.
situações familiares, como as festivas e de lazer, os pais se aproximam mais amistosamente dos filhos. No entanto, nas situações de ensino aprendizagem ou nas relações de trabalho (como é o caso das empresas familiares em que os filhos têm os pais como patrões) esse vínculo é marcado por rígida autoridade. Ainda relacionado à forma de poder paternal, encontramos famílias nas quais as relações de poder e autoridade do vínculo paternal são mais rígidas.
Sobre a estrutura dos vínculos é importante ressaltar que eles se constroem através das funções dos núcleos sociais, sendo a família o primeiro deles. Essa estrutura independe das formas em que essas famílias se constroem seja hetero ou homo afetivas uma vez que nelas as funções são implicitamente definidas. A sua construção permanece se estruturando e acompanhando as adaptações como todas as adaptações às quais os homens se adaptaram ao longo da evolução da espécie. As sucessivas mudanças ocorridas na contemporaneidade e suas adaptações vêm-se processando paralela e gradativamente em todos os sentidos e não apenas na estrutura dos vínculos. Esses vínculos foram objeto de observação do etólogo EIBESFELDT (1973: 178) em tribos e pequenas comunidades.
As primeiras organizações foram as familiares, comuns nos campos e feudos. Nestes os filhos eram os trabalhadores e desenvolviam as ferramentas necessárias para a execução das próprias tarefas. Nelas se consolidava a relação fraternal e a solução de problemas entre os irmãos, bem como a relação paternal com o pai patrão. Como pode ser observado, é na família que nascem e se consolidam os símbolos com capacidade de representação, sem os quais não existiria possibilidade de significação na vida social.
Também SFEZ (1994:13) estudando o ambiente familiar diz que: “a infância é o lugar em que a criança põe em prática e à prova toda a tentativa de comunicar explorando verbal e visualmente as condutas e os comportamentos oferecidos pelos seus pares”. A comunicação adquirida nesse meio cultural, portanto, é especifica e o estilo de ser e de viver, o caráter, é distinto de todos os outros ambientes culturais. O que é aprendido nesta fase denunciará para sempre a pessoa no mundo.
Os comportamentos aprendidos a partir das experiências vividas neste núcleo são responsáveis pelas atitudes éticas, estilos de relacionamentos interpessoais e ações pragmáticas de adaptabilidade e atuação na vida, na sociedade e também no trabalho. A função família prepara o homem para representar um papel social que é a imagem de si mesma. Ela forma-o, ou não, como sujeito, para enfrentar todas as formas de conflitos. A subjetividade vivida no espaço familiar se repete e re-adapta em todos os espaços humanos.
Dessa forma, o homem transita algumas vezes na comunicação vertical e, em outras, na horizontal. Os dois tipos de comunicação estão presentes e se plasmam em todas as instâncias sociais.