Quando falece um familiar ou amigo, há a sensação profunda de perda, desânimo e a resistência em aceitá-la e ao processo de substituição das conexões afetivas com aquele que deixa de viver. Via de regra, “luto é a reação à perda de uma pessoa amada ou de uma abstração que ocupa seu lugar, como pátria, liberdade, um ideal [...]” (FREUD, 1915, p. 128). A sua função é a de limitar os efeitos da perda, “explicar para cada mente o inexplicável. Semantizar o não-sentido. Logicizar o absurdo: o drama da finitude humana” (RODRIGUES, 1985, p. 89). Porém, a morte, e os sentidos que aciona, são individuais.
Trata-se de um estado de sofrimento, que ocasiona a alteração da conduta normal do indivíduo e a inibição do Eu, que tende a se retrair, perder temporariamente o interesse pelo mundo exterior (que não lembra o convalescido) e a capacidade de eleger novos objetos de amor, até que se possa desenvolver uma nova atitude perante a vida após a perda. Não é uma patologia, mas um processo necessário à restauração da vida pós-trauma da perda, cuja superação deve ocorrer, passando-se algum tempo.
É um processo lento e doloroso e a “ênfase é dada à luta incessante a ser empreendida pelo homem a fim de reconquistar a vida” (MANNONI, 1995, p. 92). Neste sentido, a dificuldade da renúncia se dá por ser um objeto em que se vê perdida parte de si mesmo. Incorre na gestão do trauma, na aceitação da ausência, na conservação da existência simbólica, conversão da morte em vida, ainda que em pensamento, na transcendência dos feitos, das relações e sentimentos construídos socialmente em vida. Para Freud (1915), são os casos em que há o desequilíbrio na relação que o homem contemporâneo, a exemplo do primitivo, tem com a morte. A morte aceita é a do outro, do desconhecido; porém, quando um ente próximo falece, o homem dá-se conta da sua própria finitude.
Como afirma Mannoni (1995, p. 123), “[...] nossa vida permanece ligada à morte daqueles que nos deixam e por essa morte pode-se fazer vida. Entretanto, é irredutível o corte entre a nova vida e a antiga: o renascimento tem lugar sobre o fundo de uma ausência eterna do ausente”. Por isso, não é tanto o doente que se deve preparar para a morte, mas o seu círculo, para que, ali onde há sofrimento, possa se fazer vida.
O processo de conformação pode acontecer “a partir das últimas palavras do moribundo palavras a que o enlutado se agarra. Elas se tornam referências que regem a partir daí sua própria vida” (idem, p. 115), quando há a chance de pronunciá-las, por saber que a morte se aproxima. Não é o caso da morte trágica. Para o enlutado, acompanhar um dos seus até o fim da vida auxilia no trabalho de luto.
Quando a morte é inesperada, este processo tende a ser mais lento, sobretudo quando os filhos que partem antes dos pais. “A perda de um filho é uma provação que um adulto não se recupera jamais. Ele se vê amputado de uma parte de si mesmo projetada na sua descendência” (MANNONI, 1995, p. 94). Assim, a morte do filho, pode estancar o próprio desejo de viver do pai e da mãe, manifestando, na forma de patologia, a melancolia (FREUD, 1915).
A gestão do trauma é um processo que passa pelos ritos fúnebres, as cerimônias de passagem, de despedida do corpo daquele que morreu. Inclui o velório, o enterro no túmulo em cemitério, a cremação, os atos religiosos. O surgimento dos cemitérios data do século XIV, bem como as cruzes, de madeira ou de pedra, que sinalizavam a localização das sepulturas, horizontais e rasas, que abrigavam os corpos sob a superfície. Inicialmente, coletiva e, pouco a pouco, a cruz se tornou individual e o elemento essencial de um novo protótipo de túmulo criado nos séculos XVII e XVIII (ARIÈS, 2003).
A partir de então, o túmulo se torna o signo da presença após a morte, individualizado e propriedade da família, o local de encontro com o que restou daquele que morreu. A visitação ao cemitério se torna um hábito entre cristãos e descrentes. Na França e na Itália, cita Ariès (2003), no decorrer dos séculos XIX e XX, a ida à igreja passou a ser acompanhada da visita ao cemitério, onde se adotou o costume de colocar flores no túmulo.
O surgimento dos cemitérios denota uma nova representação da sociedade, pois “pensa-se que a sociedade é composta ao mesmo tempo de mortos e vivos, e que os mortos são tão significativos e necessários quanto os vivos” (ARIÉS, 2003, p. 76), e o cemitério retoma um lugar na cidade, “ao mesmo tempo físico e moral, que havia perdido no início da Idade Média, mas que havia ocupado durante a Antigüidade” (p. 77). Torna-se, assim, um elemento essencial da memória dos antepassados, do ponto de vista afetivo para os familiares, e histórico como meio de acesso ao passado.
No cemitério, é permitido falar da morte e de lamentar a partida dos que se foram. Nas salas mortuárias e no enterro dos corpos, realiza-se parte do trabalho do luto. Com a conversão da morte no inominável, “as manifestações aparentes de luto são condenadas e desaparecem” (ARIÈS, 2003, p. 87), foge-se dos enlutados, os enterros são escamoteados e, o
choro, reservado e solitário. Como explica o autor, a mudança em relação à morte não denota a indiferença em relação ao morto, mas a potencialização do trauma através da resignação.
Em acontecimentos trágicos, a morte coletiva faz com que os cerimoniais de despedida se tornem públicos, com toda a iconografia mortuária. Caixões, flores, cruzes, túmulos, fotos e lembranças das vítimas, cultos religiosos, lágrimas, gritos de desespero, corpos perfilados, sepultamento coletivo, tudo isso foi publicizado, sobretudo, na mídia e no jornalismo.