5.5 Konklusjon
1.0.13 Kliniske implikasjoner
O conceito de Representações Sociais é de vital importância para o desenvolvimento desse trabalho, uma vez que, para compreendermos o consumo de produtos midiáticos é
necessário defini-los. Para isso, primeiramente vamos discorrer sobre as Representações Sociais e, na sequência, sobre os produtos midiáticos enquanto portadores dessas Representações.
O debate acerca das Representações Sociais merece atenção, pois elas servem como uma das referências para a atuação social dos sujeitos, posto que estruturam e dão forma à consciência coletiva. O conceito de “Representação Social” é uma herança do sociólogo Émile Durkheim que, a partir do termo “Representações Coletivas”, fez referência aos significados, às imagens e aos sentidos comuns em uma sociedade (FRANÇA, 2004, p. 14). As Representações Coletivas, de acordo com essa perspectiva, têm um papel de integração e estabilidade, pois fomentam uma compreensão coletiva dos fenômenos em uma sociedade.
Para defini-las, Durkheim discorre sobre categorias de pensamento, elaboradas por um grupo social, para explicar a sua realidade. Enquanto categoria de pensamento, as representações não são necessariamente conscientes do ponto de vista individual, porque carregam traços da estrutura social. Algumas representações, dependendo do ponto de vista, destacam-se e exercem maior coerção na atuação das pessoas, como aquelas formuladas pela religião, pela moral, ou por categorias de espaço, tempo e personalidade (MINAYO, 1994, p. 90).
Como o próprio autor revela:
As Representações Coletivas traduzem a maneira como o grupo se pensa nas suas relações com os objetos que o afetam. Para compreender como a sociedade se representa a si própria e ao mundo que a rodeia, precisamos considerar a natureza da sociedade e não a dos indivíduos. Os símbolos com que ela se pensa mudam de acordo com a sua natureza (...). Se ela aceita ou condena certos modos de conduta, é porque entram em choque ou não com alguns dos seus sentimentos fundamentais, sentimentos estes que pertencem à sua constituição (DURKHEIM apud MINAYO, 1994, p. 90-91).
Reconhecemos, nas contribuições de Durkheim, um poder excessivo de coerção da sociedade sobre os sujeitos, pois o pluralismo da realidade social é desconsiderado. Concepções positivistas como essas foram contestadas, inicialmente, pela Psicologia, cujos pressupostos invalidaram os modelos behavioristas, que não contemplavam a existência dos fenômenos mentais. No âmbito das Ciências Sociais, mudanças no entendimento de ideologia conduziram à reabilitação do conceito de representações (JODELET, 1993, p. 6).
Mais tarde, resgatadas pelo psicólogo Serge Moscovici (2000), as teorizações referentes às representações passaram a ser acompanhadas do termo “Sociais”, em detrimento de “Coletivas”. O intuito foi pontuar as complexidades individuais, coletivas, psicológicas e
sociais das sociedades modernas, com ênfase tanto na criação coletiva das ideias como nas diferenças existentes na esfera de uma mesma sociedade.
Sob esse viés, as representações são sociais porque os sujeitos não são “isolados no vazio social”, mas, ao contrário, compartilham o mundo com outros, nos quais se apoiam para compreender as dimensões do cotidiano. A reformulação do conceito mantém uma relação com os sistemas de pensamento mais amplos, como os ideológicos ou culturais, mas é complementada com variáveis relativas à condição social e às experiências pessoais dos sujeitos.
Representação Social é um conceito abordado na Sociologia, na Psicologia e na Semiótica, sendo que o tratamento analítico e o enfoque de cada área são distintos, o que indica a sua complexidade conceitual e teórica, conforme aponta França (2004, p. 15). Isso ocorre porque as representações fazem parte de processos diversos, como a difusão e a assimilação de conhecimentos, o desenvolvimento individual e coletivo, estão presentes na constituição de identidades pessoais e sociais, na expressão dos grupos e nas transformações sociais (JODELET, 1993, p. 5).
As representações são consideradas um fenômeno com elementos diversos, que podem ser estudados isoladamente: “elementos informativos, cognitivos, ideológicos, normativos, crenças, valores, atitudes, opiniões, imagens etc. [...] Esses elementos são sempre organizados como uma espécie de saber que diz alguma coisa sobre o estado da realidade” (ibidem, p. 4) e, por conta disso, são considerados representações. Na Psicologia Social, a partir do estudo das Representações Sociais, busca-se compreender a atividade representacional dos sujeitos que, ao mesmo tempo, expressam a subjetividade do campo social (FRANÇA, 2004, p. 14). Em nosso trabalho, a abordagem das Representações Sociais se aproxima dessa perspectiva.
Representação, portanto, é compreendida por nós como algo que está no lugar daquilo que é representado, seja ela mental, pictórica, teatral ou política, por exemplo. São estímulos que, necessariamente construídos no âmbito social, atuam como um substituto de um sinal ou de um som, tornando presente o que está ausente.
Pode ser considerada como representante mental do objeto representado, o qual é reconstituído de forma simbólica, sempre carregando as marcas dos sujeitos que a construíram (JODELET, 1993, p. 1-5). Moscovici (2000, p. 32) entende que os seres sociais têm acesso à realidade através das representações que recebem sobre ela. Assim, a percepção que os sujeitos possuem do mundo é equivalente a um substituto dele, pois o mundo natural, o mundo original, não está acessível.
Isso ocorre porque as pessoas nascem em uma determinada sociedade que desenvolve uma forma de classificar e julgar seres e objetos, assim como carrega crenças, tradições e conceitos que coordenam as impressões sensoriais daqueles que fazem parte do contexto social. Os sujeitos, os objetos ou mesmo qualquer coisa mensurável são contemplados através de imagens que as pessoas aprendem a interpretar, a partir de hábitos que foram ensinados, de predisposições genéticas, de recordações preservadas, bem como de categorias culturais. As representações “nos guiam na maneira de nomear e definir em conjunto os diferentes aspectos de nossa realidade cotidiana, na maneira de interpretá-los” (JODELET, 1993, p. 1).
As Representações Sociais, na concepção de Moscovici (2000, p. 37), possuem duas funções principais. A primeira consiste em definir a forma como uma mensagem deve ser interpretada, possibilitando que um grupo de pessoas entre em acordo sobre o que representa o quê. A sua finalidade fundamental é possibilitar a comunicação, tornando-a não problemática. Como exemplo, reconhecemos que, a partir do contato com certas representações, as pessoas aprendem que a terra é redonda, associam o comunismo à cor vermelha, a inflação à desvalorização do dinheiro.
As representações constroem convenções que predeterminam a realidade compartilhada. Somente com as convenções a vida social pode existir, uma vez que geram consenso entre os membros de uma sociedade. Em sentido de completude conceitual, França (2004, p. 16) pontua que “só vivemos em uma sociedade quando compartilhamos quadros de sentido, compreensões e ideias que organizam e dão coerência à vida social”. Ademais, a autora ressalta que a observação dos usos das representações, nas diferentes sociedades, pode traduzir as distinções existentes entre elas, pois as leituras sobre o mundo variam de acordo com as vivências.
Para ilustrar, França (ibidem, p. 17) cita como exemplo as leituras acerca da violência, pois é provável que a maneira como um mineiro ou um gaúcho percebe a violência no Rio de Janeiro seja diferente da forma como os cariocas a percebem. É provável que mineiros, gaúchos e cariocas tenham experiências distintas de vida nessa cidade (às vezes, só a conhecem através da mídia). A representação a respeito da violência no Rio de Janeiro que é distribuída e promovida nacionalmente, não necessariamente se equivale a representações construídas por aqueles que experienciam a cidade cotidianamente. Por isso, a maneira como recebem e interpretam as representações sobre a violência não será semelhante.
Partindo desses exemplos, percebemos que “a visão de mundo dos diferentes grupos expressa as contradições e conflitos presentes nas condições em que foram engendradas” (MINAYO, 1994, p. 109). Quanto às diversas leituras possíveis, França (2004, p. 17) ainda faz
referência às épocas em que vivem os sujeitos, visto que em uma mesma sociedade, as leituras vigentes podem ser diferentes das formas de ler realizadas há 200 anos. Desse modo, é possível atribuir um caráter móvel, polimorfo e plural às representações.
A segunda função das Representações Sociais, citada por Moscovici (2000, p. 37) é a prescrição, isto é, elas antecipam às pessoas uma estrutura, uma tradição, que orienta as formas de pensar. Para exemplificar, o autor afirma que, desde a primeira infância, as crianças já encontram respostas prontas “nos gestos de sua mãe ou de seu médico, nas histórias em quadrinho cômicas que ela lerá, nos textos escolares, nas conversações com os colegas de aula, [...] sem falar nos jornais que ela lerá, dos discursos políticos que ela vai ter que ouvir”.
Mas, ao mesmo tempo em que são uma extensão do que já passou, as representações possuem uma estrutura dinâmica, advinda de mudanças através das quais se adaptam à vida cotidiana. “As Representações são intimamente ligadas a seus contextos históricos e sociais por um movimento de reflexividade – elas são produzidas no bojo dos processos sociais, espelhando diferenças e movimentos da sociedade” (FRANÇA, 2004, p. 19). Nesse sentido, apesar de haver representações que são “dominantes”, não se deve perder de vista que cada grupo social pode construir representações particulares, de acordo com a suas posições no conjunto da sociedade (MINAYO, 1994, p. 110).
Acerca da adaptabilidade das Representações Sociais, Moscovici (2000, p. 48) sustenta que essa foi acelerada pelos meios de comunicação, pois “aumentaram a necessidade de um elo entre, de uma parte, nossas ciências e crenças gerais puramente abstratas e, de outra parte, nossas atividades concretas como indivíduos sociais”. Em outras palavras, os meios de comunicação multiplicaram a velocidade das transformações sociais, atribuindo aos sistemas unificadores (baseados nas representações) a necessidade de acompanhar o ritmo das mudanças, já que sem eles não pode haver coletividade.
Conforme pontua Jodelet (1994, p. 1), “a observação das representações sociais é, de fato, facilitada em muitas ocasiões. Elas circulam nos discursos, são carregadas pelas palavras, veiculadas nas mensagens e imagens mediáticas”. Nesse trabalho, as representações midiáticas são assumidas enquanto Representação Social. O estudo das representações midiáticas tem extrema importância por que
os discursos e os sistemas de representação constroem lugares a partir dos quais os indivíduos podem se posicionar e a partir dos quais podem falar. Por exemplo, a narrativa das telenovelas e a semiótica da publicidade ajudam a construir certas identidades de gênero. Em momentos particulares, as promoções de marketing podem construir novas identidades como, por exemplo, o “novo homem” das décadas de 1980 e de 1990, identidades das
quais podemos nos apropriar e que podemos reconstruir para nosso uso (WOODWARD apud FREIRE FILHO, 2005, p. 21).
Com essa passagem, entendemos como as narrativas midiáticas, veiculadas através do rádio, da televisão, do cinema, do jornal, da revista e de outros produtos culturais fornecem materiais portadores de representações, que servem como modelos capazes de auxiliar os sujeitos a definir o “que significa ser homem ou mulher, bem-sucedido ou fracassado, poderoso ou impotente”, bem como a formular concepções acerca “de classe, de etnia e raça, de nacionalidade, de sexualidade, de ‘nós’ e ‘eles’”, do que é “bom ou mau, positivo ou negativo, moral ou imoral” (KELLNER, 2001, p. 9).
Esses modelos podem ser exemplificados através das celebridades, uma vez que carregam valores, são construídas e veiculadas rotineiramente nos produtos midiáticos. Ao serem difundidas pelos meios de comunicação, as celebridades podem servir como um roteiro que guia as atuações. Através da informação e do entretenimento, ensina o sujeito a se comportar, a pensar e a sentir. Essa é a perspectiva de Kellner (ibidem, p. 10), para quem a mídia, seus produtos e suas celebridades atuam como pedagogas culturais. As celebridades são produtos midiáticos em si, criadas com o objetivo de que os valores representados por elas sejam correspondentes a pensamentos e perspectivas de seu público, a seus modelos de existência, a suas classificações sociais, a seus desejos e impasses.
Entretanto, ao mesmo tempo em que as representações propagadas pelos meios de comunicação merecem atenção porque oferecem posições de sujeito, nossa inserção nos Estudos Culturais faz sugerir que, além do estudo do produto, as investigações podem mobilizar problemáticas em torno do impacto e dos usos sociais das representações midiáticas, como é o caso dessa dissertação. A nossa perspectiva é de que, entre a pluralidade de discursos circulantes no âmbito social, o proferido pela mídia é somente mais um, de modo que pode ser reconstruído no discurso da audiência. Compreendemos que o público consumidor de produtos midiáticos pode resistir, à medida que não interprete as representações veiculadas pelos meios da forma como os emissores esperam, mas de acordo com seu contexto social.
Ressaltamos, desse modo, a possibilidade de “hiato” entre o texto codificado e a decodificação por parte do público, que pode utilizar a cultura como um recurso para criar significados próprios sobre as mensagens proferidas pelos meios de comunicação (ibidem, p. 11-12). O poder de resistência da audiência das produções midiáticas é reforçada em estudos empíricos que demonstram como as leituras são relativas às relações culturais e sociais dos sujeitos, as quais dificultam a previsão das consequências das representações midiáticas no
contexto da recepção, permeado por questões de classe, raça, sexo, religião, etnia, preferências sexuais, etc. (FREIRE FILHO, 2005, p. 27).
Assim, o estudo dos materiais midiáticos e dos sentidos que são encontrados neles auxilia na compreensão de fatos de uma cultura e são um acesso ao “imaginário que governa a vida social do nosso tempo”, conforme nos indica Rocha (2006, p. 42). Ao mesmo tempo, investigar as leituras da audiência e “entender o porquê da popularidade de certas produções pode elucidar o meio social em que elas nascem e circulam, podendo, portanto, levar-nos a perceber o que está acontecendo nas sociedades nas culturas contemporâneas” (KELLNER, 2001, p. 14).
Concluímos essa seção do trabalho reiterando que, apesar do nosso enfoque não recair sobre a análise das representações midiáticas, é necessário conceituá-las como forma de reconhecer a importância que possuem no âmbito social, bem como para identificar a partir de qual produto a nossa pesquisa se desenvolve. Nas próximas linhas, concluiremos o capítulo discorrendo mais atentamente sobre as celebridades, para especificar melhor em quais dos produtos midiáticos consumidos no Mundo T-Girl buscam os sentidos de integração e distinção.