Quadro 12 - Categoria 6. Medos, riscos e morte: “Basta você colocar o uniforme e sair na rua que é possível que você não volte”
Definição: Os sujeitos não conseguem se desconectar da condição de policiais. Sujeitados aos riscos inerentes às horas de trabalho, mesmo sem uniformes, em horários de folga, mantém-se alertas e apreensivos com as circunstâncias que podem lhes acarretar a si ou aos seus familiares riscos.
Entrevistado Verbalizações representativas
E1 “Sentia aquela coisa que diz assim: ‘Basta você colocar o uniforme e sair na rua que é possível que você não volte’. Todos nós ao colocarmos o uniforme e entrarmos na viatura pensamos nisso. Quando eu saia nas operações, houve um tempo até que a gente entrava em cada local... É uma atividade de risco, seja na atividade operacional ou na volta pra casa, o fato de estar fardado, você pode se envolver numa ocorrência, você não deixa de ser policial, você é policial 24 horas. Poxa! Meu Deus! Deus que proteja! É esse sentimento, principalmente, quando se é mãe.”
E2 “Estamos muito mais vulneráveis a qualquer tipo de ação do que no passado. Hoje o policial está sendo atacado dentro de casa, no chegar do trabalho, hoje muitos policiais não saem de casa mais fardados, muitos moram em lugares onde ninguém pode saber a profissão dele.”
E3 Fui gostando da profissão, fui vivendo... vivendo o dia a dia... o perigo que antes não tinha tanto igual é hoje, antigamente o pessoal respeitava muito a Polícia, hoje já não respeita mais”.
“E aquele desprazer de ver vários amigos que trabalharam comigo que a gente via ali, ia numa missão quando chegava saiam as viaturas tudo junto e quando a gente ia no local lá encontrava o companheiro morto ali, aí a situação é difícil viu, você ver um companheiro de farda [morto] não é muito fácil, não”
E4 “No meu serviço, um colega da turma de soldado veio a óbito, numa outra ocasião um oficial da minha mesma turma, dois aliás, um que levou um tiro em São Sebastião e outro aqui na área do RPBPM [fictício] levou um tiro, isso daí me deixou perplexo
sabe? Mas mesmo assim eu botei a cabeça no lugar e falar: ‘Poxa é isso que eu tenho que tentar superar, essas coisas, tentar pensar em Deus’.”
E5 “Já perdi vários colegas. No quartel 45º BPM [fictício] perdi um colega com acidente de arma de fogo, ele veio a óbito; e outro levou um tiro no 44º BPM [fictício], numa operação. E o mais recente, numa instrução de armamento, eu estava de serviço, foi dentro do quartel, ao sacar a pistola, o colega acertou o que estava à sua frente.” E7 “Colegas são todos aqueles de farda. Se você tem um colega lá do BOPE e um cara
puxa uma arma lá... (pode ser o) próprio companheiro, igual nós já vimos aí, um companheiro puxou a arma, fez um disparo, acertou o companheiro do outro lado do vidro lá. Isso aí aconteceu, né? E você sente tanto pelo companheiro que morreu, quanto o companheiro que efetuou o disparo, é um sofrimento duplo.
“Numa ocorrência de vulto que eu peguei, na Fiantropi [fictício], conseguimos salvar o refém. Era roubo de um caminhão, dois elementos com o refém e passaram o rádio para a gente ficar em QAP [atentos] a esse veículo. E, esse veículo, nós encontramos ele ali
próximo à fábrica Fox [fictício]. Começou a perseguição. Esses caras que estavam
dentro do veículo efetuaram vários disparos na nossa viatura, e nós também efetuamos disparos e conseguimos capturar um dos elementos e salvar o motorista que estava como refém”.
E8 “Na realidade, quando nós vamos para a rua, a gente vai assim: ‘Como vai ser? Vou voltar para casa? Como que vai ser isso? Será que meu serviço hoje vai correr tudo bem?’. A gente sai com um ponto de interrogação, a gente nunca sai "Vai dar tudo
certo," né? A gente até ora, até pede ao senhor que ele vai na nossa frente, né?
E11 “Houve uma época aqui na corporação que, em um período de dois a três anos, vinte PMs morreram, de diversas formas, acidentados, assassinados. A cada dia chegava uma notícia: ‘Morreu um policial’. Então, você ficava se perguntando: ‘Será que amanhã serei eu? Será que amanhã eu voltarei para casa vivo?’. Esses acontecimentos, claro, mexem com o policial porque é o risco que você corre. Foi um colega seu, podia ter sido você, né? Não é fácil! Você acaba se policiando mais, evitando certos locais. Fica desconfiado. Você redobra esses cuidados. Certas coisas você já não faz mais, toma mais cuidado.”
“Já fui ferido por um caco de garrafa, que foi jogada numa ocorrência, né? Um meliante estava matando uma... tentando cortar, furar uma mulher e agi e fui ferido, nessa situação.
E12 “Antigamente, a gente às vezes não dizia muito na sociedade que a gente era policial militar, porque o policial era muito mal remunerado. Hoje, a gente não diz porque você está se expondo à riscos, né?”
“A gente não mede muito os riscos, principalmente o risco de sofrer danos pessoais e até mesmo por colocar em risco a liberdade, também. Porque, a sociedade está aí hoje... as pessoas cometem crime, eles não são muito penalizados, mas os policiais, nós, geralmente, a legislação prevê uma quantidade de pena, para nós geralmente tem algo mais.”
“Nós, como policiais, estamos mais passivos de... letalidade, tanto de sofrer quanto de praticar.”
“Tinha um bar lá Taquere [ficítico] que o moço bebia, o proprietário do bar, e constantemente agredia a esposa. E nesse dia foi mandado uma viatura, era até uma viatura de trânsito. O moço viu, baixou a porta e o policial, à época, o soldado Parreiras, ‘antigão de polícia’, já tinha mais de vinte anos de serviço, quando chegou na porta, que pôs a mão, tentou levantar a porta, o proprietário do bar deu dois tiros e atingiu ele no coração, ele veio a óbito aquele dia. Era uma pessoa muito próxima. Uma outra vez, eu estava no patrulhamento no Guará, quando no colégio, tinha um pessoal do Batalhão Escolar e a gente passava sempre dando suporte. Conversamos com o policial, né? Chegamos lá, fizemos uma abordagem num pessoal que estava próximo, demos apoio ali para o policial. Quando saímos dali, a gente não estava nem na outra quadra ainda, irradiaram para a gente voltar lá com urgência. Chegamos lá, esse policial tinha levado três tiros e estava lá tombado. Isso influencia na vida do indivíduo, essa impotência de ver o companheiro perder a vida assim. É isso que eu falo que às vezes: o serviço na Polícia Militar contribuiu para que eu fizesse uso de bebida, né? A gente não tinha um apoio psicológico e se tivesse também, eu não procuraria naquela época.”
E13 “Já socorri muita gente, já levei pessoas para o hospital, sabendo que elas não iam sair do hospital, mas você dá aquele ânimo. Mesmo sabendo que aquela é uma batalha perdida, mas você faz uma de assistente social.”
Fonte: Elaborado pelo pesquisador
Entre policiais militares do Rio de Janeiro, a mortalidade decorrente do trabalho chega a ser setes vezes maior do que a taxa da população geral, motivo pelo qual se deve falar não em percepção de risco, mas em vitimização concreta (MINAYO; SOUZA; CONSTANTINO, 2007). Essa vitimização concreta se estende a todos policiais militares brasileiros, como
restou constatado nos resultados da Pesquisa de vitimização de risco entre profissionais do sistema de Segurança Pública (FÓRUM BRASILEIRO DE SEGURANÇA PÚBLICA, 2015b). Essas observações ajudam a compreender o porquê de o risco real e o risco imaginário da perda da vida serem fontes indissociáveis de sofrimento patológico enfrentado por policiais militares, como no caso dos pilotos de combate da Força Aérea Francesa mencionados por Dejours (1992a, p. 81). Esses, sujeitados a constantes exigências psicofisiológicas e convivendo frequentemente com o risco de morte, se mantêm em estado de concentração contínua, enfrentando ansiedade e medo, protegendo seu “modo de funcionamento”. Um relato exemplificativo disso pode ser encontrado de forma geral nas verbalizações representativas da Categoria 6, podendo ser constatado, também, nas seleções abaixo:
E5 - “A gente pensa nos colegas e pensa que poderia ser qualquer um de nós. Há até pouco tempo, toda vez que eu saia para o serviço eu fazia uma oração, a vida cristã me tranquilizava um pouco. Deus realmente está à frente, porque o que a Polícia passa em geral...é muito complicado, só livramento mesmo.”
E13- “Você sai do trabalho, além de você passar tensão na rua, indo passear... você continua sendo um policial, você está sempre atento, tenso, com adrenalina. Isso aí, o corpo, ele cobra a longo prazo o preço para isso.” “Você não deixa de abastecer seu carro, que você não esteja pensando em chegar um cara armado. E, você está armado também, você fica de costas para o seu carro, numa posição defensiva, já bolando uma estratégia: ‘Se ele vier por aqui, eu vou fazer isso; se ele vier por ali, eu vou fazer aquilo.’” (Grifos meus)
Os apontamentos dos entrevistados, tal qual apontado por Minayo, Souza e Constantino (2007), confirmam que as situações de risco, de fato vividas e aquelas percebidas penetram, não apenas o ambiente de trabalho, mas, também, o mundo psíquico e social dos policiais, forçam-nos a se manterem alertas e mobilizados, mesmo fora dos horários de trabalho, o que lhes atribui pressões extras. O trabalho, afirmam Ferreira, Macêdo e Martins (2015, p. 35), “não acaba quando a pessoa sai do local de trabalho, ele coloniza toda a subjetividade”, o que pode ser verificado pela fala:
E3 - “Eu lidei com a vida e com a morte muito tempo... Falo com a minha esposa todo dia da morte e da vida, e ela fala: ‘Poxa, você fala da morte com a vida!?’ Aí eu falo: ‘Amor, eu já vi tanta gente morta, tanta gente suicida, que tirou a própria vida...’
Despersonalizados no trabalho, de acordo com Dejours (1992a, p. 46), os sujeitos continuam despersonalizados fora dele, formando um “continuum dificilmente dissociável”. Esse continuum, entretanto, no caso dos policiais militares, não está relacionado com o esforço produtivo, como proposto pelo autor, mas com a autopreservação e a sobrevivência.
Muitas das mortes de policiais brasileiros fora do horário de serviço acontecem em decorrência da função policial, cometidas por criminosos que, deliberadamente, caçam, atacam e executam agentes de segurança, principalmente, policiais militares (SOUZA; MINAYO, 2005).
3.2.2.3 Categoria 7: Frustração no trabalho policial:“Sensação de enxugar