Para compreender a lógica dinâmica da mundialização do capitalismo contemporâneo, faz-se necessário desvendar a força retórica e conceitual contida nos termos “globalização” e “mundialização do capital”, de forma a caracterizar as dimensões que essas terminologias incorporam enquanto instrumentos ideológicos.
Primeiramente, é necessário situar que o termo globalização era desconhecido antes da metade da década de 1970 (HARVEY, 2004). Contudo, observa-se que nos dias atuais, há uma vasta literatura sobre esse termo e com diferentes acepções conceituais, dependendo da área do conhecimento que a estuda. Harvey (2004: 27) ressalta que a globalização é entendida por muitos teóricos como um dos termos “[...] mais hegemônicos para compreender a economia política do capitalismo internacional”.
Entretanto, embora o autor supracitado ressalte o papel da economia política do capitalismo internacional como principal disseminadora do conceito de globalização, a partir da ideia do global ou da hegemonia, esse uso não se restringe ao mundo dos negócios. Ela pode ser encontrada em temáticas relacionadas à política, cultura, identidade nacional e outros.
Chesnais (1996), por sua vez, entende que o principal problema com a terminologia da “globalização” é a sua falta de nitidez conceitual. Segundo o autor, percebe- se que o termo globalização supostamente indica uma internacionalização econômica livre, não submetida a intervenções institucionais ou nacionais, e que utiliza a raiz de conotação geográfica globo, entendendo esta como uma esfera com habitantes indiferenciados, espalhados por sua superfície. Além do mais, carrega um forte conteúdo ideológico em defesa das vantagens da integração sob a lógica das benesses das finanças de mercado, a qual, por meio da liberalização, pode adotar, por conta própria, condutas globais.
Harvey (2004:28) também desmistifica a conotação do termo globalização primeiramente associado à impressão de uma “nova era” com um “toque de inevitabilidade tecnológica”. Afirma que o conceito traz, na verdade, um “mundo novo do neoliberalismo globalizante”, segundo a incorporação do processo do “imperialismo” e do “neocolonialismo” de maneira acrítica e diferente da ideia de um mundo sem fronteiras a partir do ícone da imagem do globo terrestre e de suas propriedades geométricas:
Há contudo outro ângulo da questão que pode ter uma relevância igualmente profunda. A imagem de satélite da NASA chamada ‘Earth Rise’ [Ascensão da Terra] mostrava a Terra como um globo em livre flutuação no espaço.
Essa imagem assumiu rapidamente o status de ícone de um novo tipo de consciência. Não obstante, as propriedades geométricas do globo diferem das de um mapa bidimensional. Não têm fronteiras naturais exceto as dadas por terras e oceanos, cortinas de nuvens e padrões de vegetação, desertos e regiões bem irrigadas. Não têm elas um centro específico. Talvez não seja um acaso que a consciência da artificialidade de todas essas fronteiras e centros, que desde então dominou o pensamento acerca do mundo, se tornasse muito mais aguçada. Ficou bem mais fácil, com esse ícone do globo pendurado ao fundo, escrever sobre um ‘mundo sem fronteiras’ [grifos do autor] (como o fez tão persuasivamente MYIOSHI, 1997) e assumir uma abordagem radicalmente descentrada da cultura (com as densas tradições culturais da China, da Índia, da America do Sul e da África parecendo tão proeminentes e tão dominantes em termos geográficos em segmentos do globo quanto as do Ocidente). As viagens ao redor do mundo, já estão bem mais fáceis, passaram de súbito a não ter ponto natural de interrupção, e a continuidade das relações espaciais se tornou de repente, tanto na prática como na retórica, um fato fundamental da vida. E pode muito bem ser que o foco do corpo como centro de todas as coisas seja ele mesmo uma resposta a essa descentralização de tudo o mais, promovida pela imagem do globo (em vez da do mapa bidimensional) como o locus da atividade e do pensamento humano. (HARVEY, 2004:28)
Diante do motivos expostos, se faz aqui a opção pelo termo mundialização do capital em detrimento de “globalização”, acompanhando, especialmente, o raciocínio de Chesnais (1996)30. Tenta-se desconstruir a apologia ao termo global, da ideia de globalização, a partir da identificação deste processo como sendo benéfico e necessário à apresentação de um mundo que nasce como sem fronteiras - “borderless”31 -, ao qual todas as economias devem se adaptar, pois as grandes empresas estariam “sem nacionalidade”32. Nesta ótica, a liberalização e a desregulamentação da economia são entendidos como processos naturais e necessários.
O apelo ao global mascara, na verdade, uma arbitragem intransponível e ditada por um restrito grupo de atores internacionalizados e gestionários das carteiras de ativos do capitalismo mundial, cujo papel é decidir quem serão os beneficiados pela integração ou exclusão dos mercados globalizados.
Por este motivo, o que alguns denominam de globalização, Chesnais (1996; 1998) aponta como “processo de mundialização da economia, de regime de acumulação mundial predominantemente financeiro, ou melhor, uma configuração do capitalismo mundial e dos mecanismos que comandam seu desempenho e sua regulação” (1996:13).
30
François Chesnais (1996, 1998) tem sido uma referência imprescindível a questão dos aspectos ideológicos do temo globalização.
31
“Borderless” é o título do livro de 1990 de Ohmae.
32
“Sem nacionalidade”, em inglês, stateless é a expressão empregada pela influente revista Business Week (1990).
Em outras palavras, o referido autor explica que esses termos (global, globalização) não são neutros. Assumir sua pretensa neutralidade seria impingir à evolução econômica recente um papel natural na superação da velha compartimentação nacional em prol de uma atuação mais livre dos indivíduos no mercado. Contudo, o globo terrestre continua um mundo de nações desiguais e no qual os países desenvolvidos (ex. a tríade EUA, União Europeia e o Japão), o G833, e o FMI34 se julgam árbitros e no direito de valorar positivamente ou negativamente as nações subalternas, além de punir os países que desobedecem às suas recomendações.
Assim, concordamos com Chesnais (1996) que a mundialização (mondialisation) - termo de origem francesa -, embora tenha encontrado dificuldades de se impor até mesmo no discurso econômico e político francês, ainda é o que melhor explica o fenômeno em questão, haja vista sua capacidade de diminuir (pelo menos um pouco) a falta de nitidez conceitual dos termos “global” e “globalização”.
Para Chesnais, “a palavra ‘mundial’ permite introduzir, com muito mais força do que o termo ‘global’, a ideia de que, se a economia se mundializou, seria importante construir depressa instituições políticas mundiais capazes de dominar o seu movimento” (1996: 24). Contudo, observa-se que a construção de instituições políticas mundiais capazes de dominar o movimento do capital é o que os grandes grupos industriais ou os operadores financeiros internacionais não querem em hipótese alguma, pois julgam ter recuperado uma liberdade de mercado que existiu até o início do século XX ou mais precisamente até a crise de 1929. Por isso, há a rejeição a políticas mundiais coercitivas. Contudo, como veio lembrar a mais recente crise do capital ou uma vista d’olhos à história financeira do século XX, basta pouca coisa para que um lugar aparentemente estável e seguro financeiramente deixe de sê-lo em questão de dias. E de certa forma, demande um árbitro para atuar na órbita da mundialização financeira.
Assim, para um melhor entendimento das conotações atribuídas à mundialização do capital, não basta entender a complexidade do caráter ideológico que há por trás do aparente discurso semântico. É necessário indagar o que há realmente de novo no modo de
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G8 é um grupo internacional que reúne os oito países mais industrializados e desenvolvidos economicamente do mundo: Estados Unidos, Japão, Alemanha, Reino Unido, França, Itália e o Canadá (antigo G7), mais a Rússia - esta última não participando de todas as reuniões do grupo. Durante as reuniões, os dirigentes máximos de cada Estado membro discutem questões de alcance internacional.
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O Fundo Monetário Internacional (FMI) é uma organização internacional que se coloca a pretensão de assegurar o bom funcionamento do sistema financeiro mundial, pelo monitoramento das taxas de câmbio e da balança de pagamentos, por meio de assistência técnica e financeira. Sua sede é em Washington, DC, Estados Unidos da América.
produção capitalista, que é caracterizado como novidade na sua atual fase de desenvolvimento: a financeirização do capital.
1.2 Aspectos importantes da mundialização do capital: as imposições do capital