Quadro 13 - Categoria 7: Frustração no trabalho policial: “Sensação de enxugar gelo” Definição: Policiais militares têm sensação de impotência no trabalho, no sentido de que se percebem como incapazes de resolver os problemas que surgem no decorrer da profissão, sejam de segurança pública, sejam problemas propriamente sociais.
Entrevistado Verbalizações representativas
E3 “No começo sempre tem aquela empolgação, mas aí ao longo da carreira você vai começando a se encaixar no que é certo e no que é errado(...) a gente procura sempre no começo da carreira, além de ter mais força, fazer o melhor possível pra que não tenha erros, mas aí quando você vai ficando mais experiente aí você vai começando a cortar os caminhos, você vai começando a ver a bandidagem... a gente tem que sobressair sobre eles,
E4 O gestor ele filtra essas coisas pra poder também, poxa eu não posso prejudicar a comunidade em detrimento só de uma parcela de dois ou três, mas se for o interesse coletivo ai a gente tava junto
E5 “Esperamos que a comunidade reconheça o trabalho do dia a dia da Polícia Militar. Quando prendemos uma pessoa não depende de nós que aquela pessoa fique presa. Isso ocorre quando a gente prende um menor, por exemplo, e logo em seguida ele já está na sua. Esperamos que reconheçam que muitas vezes um ato de violência contra um criminoso é um momento de necessidade. Não é uma agressão, não é que estamos batendo.”
E9 “As nossas leis são muito frágeis, então, quando um policial é chamado, quando o Estado é chamado para intervir, parece que nós somos um mecanismo forte. E a sociedade espera que você faça exatamente aquilo que tem que ser feito: ou prender ou resolver o problema. E às vezes nós não conseguimos resolver o problema não é porque nós não queiramos. É porque as leis são frágeis, o sistema não funciona. E aí, a sociedade fica desapontada porque ela cria uma expectativa não é alcançada nas suas expectativas, e aí vem a frustração.”
E13 “Nós vivemos numa sociedade carente. Nós vivemos numa sociedade onde as pessoas precisam do Estado ativo, presente. Eu sou favorável a um Estado minúsculo. Eu acho que o Estado tem que se meter com saúde, segurança e educação. Mas, se meter muito bem nessas três áreas, que são os pilares para qualquer sociedade civilizada. E a segurança, ela tem que ser onipresente, ela tem que ser atemporal, ela tem que ser permeável, ela tem que estar em todos os espaços.”
E12 “E era frustrante, às vezes, quando acontecia alguma coisa que a gente não conseguia resolver, principalmente quando a gente se deparava com... por falta de recursos materiais, às vezes... uma viatura precária. Quando a gente chegava, que não conseguia aquele êxito, ficava frustrado.”
“Sempre procurei ser bastante operacional, às vezes até muito sem preparo, depois que a gente vai vendo... que a gente vai amadurecendo, a gente vai vendo isso, sem os recursos necessários, equipamentos... depois que eu saí da área operacional percebi que eu não tinha a percepção dos riscos que eu corria no exercício da profissão na atividade fim.”
E13 “Faltou um pai na Polícia, alguém que me abraçasse (...) Então, era meio que tentativa e
erro. E, essa tentativa e erro cansa a gente, dá muito trabalho, você se sente enxugando gelo, a verdade é essa. Você se sente enxugando gelo. A gente se sente desprestigiado, e
muito.”
Fonte: Elaborado pelo pesquisador
A categoria 4 remete à comparação do “Mito de Sísifo” feita por Moreira e Nogueira (1999), em que o trabalho policial militar se assemelha ao trabalho do personagem mitológico Sísifo de carregar uma pedra morro acima e, tão prontamente atinge o cume, volta ao ponto inicial, em um esforço cíclico e infinito. As percepções dos entrevistados demonstram uma visão pessimista, na qual o trabalho policial é um esforço aparentemente incipiente, dentro de uma realidade em que julgam praticamente impossível de se atingir um nível satisfatório de atendimento das demandas, o que os fazem se sentirem frustrados por isso:
E12 - “Na rua, se enfrenta de tudo. Ultimamente minha visão de mundo tem sido pessimista, quando eu entrei na Polícia, ainda tinha uma figura de respeito para com o ‘polícia’. No meu ponto de vista, está uma inversão total dos valores, não existe mais princípio nas pessoas, não existe mais respeito, não existe mais... uma ética, uma moral. E aí, diante dessa situação, o policial, cada dia mais, ele está sendo refém, e desmotivado a exercer sua profissão.”
E13 – “O policial quer um equipamento descente, ele quer que reconheça o trabalho dele, que ele se sinta reconhecido pelo menos por ser um herói, ser diferenciado. Na Polícia não é assim (...)o que está trabalhando não é lembrado. Esse é um infeliz, entendeu? Aí, esse que fica obeso, porque não tem tempo de fazer a educação física, esse fica com problemas psicológicos, psiquiátricos, como eu tive, tive inclusive, que tomar medicação. (Grifos meus)
3.2.2.3.1 Subcategoria 7.1. Ressentimentos pela generalização Percebeu-se, nas falas dos entrevistados, que policiais militares têm preocupação com a questão do julgamento social feito à profissão. Essa situação guarda conexão direta com a ineficácia do processo de sublimação em decorrência da paralisia da conversão do sofrimento em prazer e que, segundo Dejours (1992a), leva ao acúmulo e à descompensação psicossomática. Exemplos de ressentimentos podem ser notados nos trechos a seguir:
E2 - “Ninguém se lembra do policial, você só lembra quando tem problemas. A sociedade não conhece o real valor que o policial tem. Nós somos seres humanos, queremos ser respeitados pelo que fazemos. Um ‘boa tarde’, um ‘bom dia’, ninguém fala.”
E9 - “É difícil a incompreensão da sociedade. Ela faz de casos específicos, regra geral, e isso aí maltrata demais porque, nós temos excelentes profissionais, excelentes policiais e qualquer um que comete um deslize todo mundo vai para a vala comum, e aí a nossa imagem fica manchada. Naquela hora você não é ninguém porque a sociedade exige demais que você tenha uma conduta ilibada, que você tem
que ter presunção de probidade, mas, quando um desliza todo mundo cai. E isso aí é terrível. Ofende muito.” Eu acho que a satisfação de você ser bem recepcionado pela sociedade é tudo de bom.”
E10 – “Dependendo de uma atitude de um policial ou outro, ficam denegrindo a imagem de outros policiais, né? Então, quando um... policial erra, não falam: ‘O policial errou’, não, falam assim: ‘A PM errou.’ Então, para aquela pessoa que visualizou uma situação desagradável, todos os policiais militares que, por um acaso, ela possa procurar para resolver uma situação da mesma forma, ela já vai ficar um pouco constrangida, porque ela viu um policial fazendo uma coisa errada, né? Então, para... (Rapaz, como é o) que eu quero dizer aqui? Uma generalização, né? É o fato de às vezes os bons policiais pagarem pelos que erraram? E quando um policial comete um erro todos os outros 20 mil homens são rotulados.”
E11 – “Bom, não diria que a população, ficasse agradecendo, mas, pelo menos, tivesse uma manifestação de separar, de fazer uma separação de quando um policial ruim, comete um crime. Não, fazer uma... uma comparação genérica de todos os policiais. Se a população soubesse fazer essa separação, para mim, já seria uma coisa importante. Por quê? Quando um policial erra, a mídia... a mídia representa a sociedade, né? na verdade, já chega: ‘Olha, a Polícia errou.’ Ela não diferencia aquele mau policial dos demais. Assim como acontece com as outras profissões. Quando o médico erra, eles não... criminalizam toda a classe dos médicos. Eles separam. Médico tal, né? Quando é um policial militar, não. Eles juntam tudo. Isso, para mim, é uma coisa ruim. Não gosto. Porque, gente ruim tem em todo lugar.”
E12 – “Passa na mídia só a reação do policial, mas não passa o antes. Embora o policial possa ter reagido de forma não correta... ele também é um ser humano que às vezes está mais em risco no exercício da profissão de sofrer a violência do que o cidadão comum. A mídia coloca a partir da reação dele, mas não mostra o que aconteceu com ele antes, né? E ali ele chega no banco dos réus de uma forma muito desvantajosa para ele.” “Já senti na pele a discriminação. À época, a gente utilizava era o ônibus público e, por várias vezes, ocorreram coisas negativas com policial militar e a gente estar fardado dentro do ônibus, as pessoas até saíam de perto da gente, né?” (Grifos meus)