5.2 Project
5.2.4 Understanding of Bluetooth, Bluetooth Low Energy and Blue-
encontrar no interior de um mesmo enunciado a voz do outro, vozes diferentes, ou ainda, vozes em confronto” (INDURSKY, 2000:76). A teoria polifônica de Ducrot quer mostrar como num mesmo enunciado isolado é “possível detectar mais de uma voz, assinalando, em sua enunciação, a superposição de diversas vozes, contestando o pressuposto da unicidade do sujeito falante” (DUCROT, 1987:161-172).
A Semântica Argumentativa considera que em um texto pode-se perceber a fragmentação do sujeito em duas posições - locutor L e enunciador E - e que essas diferentes posições enunciativas veiculam pontos de vista divergentes. O locutor L seria uma produção discursiva responsável pelo dizer. É aquele que fala, que conta, que é tido como fonte do discurso. É aquele a que refere o pronome eu e as marcas da primeira pessoa. O enunciador E (DUCROT, 1987:193 e 202) se distingue tanto do locutor (ser do discurso) quanto do sujeito falante (ser empírico). É a figura da enunciação que veicula diferentes pontos de vista de onde os acontecimentos são apresentados. Ele se apresenta como E1, E2, E3, etc., conforme os diferentes pontos de vista que apresenta. Em um enunciado polifônico o locutor organiza essas diferentes vozes ou ponto de vista, relacionando-as com E1 ou E2 e ao mesmo tempo posiciona-se, identificando com um ponto de vista e recusando o dizer do outro.
A AD trabalha a polifonia nos termos de um enunciado dividido. Courtine (1982:254-62 apud INDURSKY, 1997:39) mostra que existe um “espaço de parafrasagem discursiva, no qual é possível que tanto valores semelhantes quanto valores antagônicos sejam associados ao mesmo enunciado discursivo”. O enunciado discursivo evidencia a contradição que é constitutiva e condição do dizer. P1 e P2 apontam sentidos antagônicos, característicos de FD inscritas em diferentes ideologias, cada uma responsabilizando-se por um dizer e uma direção de sentido – redes solidárias e redes neoliberais. No discurso da REBEA o locutor aparentemente não toma posição por um dos enunciadores, orientando o discurso nessa direção, ao contrário, identifica-se e responsabiliza-se simultaneamente por E1 e E2 porque “o locutor trabalha discursivamente a textualização, produzindo um efeito de homogeneidade, naturalizando um dizer que não é absolutamente natural” (cf. LABREA, 2000:16-27).
Nessa perspectiva, entendo que não posicionar-se é uma estratégia discursiva para manter o controle dos sentidos. Todo sujeito é ideológico, todo sujeito tem, portanto, uma posição (e não outra). A enunciação se dá em um contexto de disputa pelos sentidos (e direção da rede) e é por isso que a EF naturaliza sentidos ideologicamente antagônicos.
O espaço de formulação da REBEA organiza essas diferentes vozes para conduzi-las na direção que pretende e esta direção é onde os seus interesses e os interesses de seus aliados são preservados. Assim, o discurso da REBEA no EF não é um mero instrumento de
informação ou de saber institucional e sim um importante construtor de memória que colabora na produção de uma determinada forma de pensar, perceber, sentir e agir no mundo.
Existe um trabalho da interpretação que se fixa, buscando o fechamento e a estabilidade dos sentidos, apagando a contradição. Essa diferença entre o dizer e o fazer é justificada e explicada a partir do entendimento de que a proposta de organização horizontal que as redes preconizam é um “desafio porque existe uma dificuldade em estabelecer uma rotina de trabalho colaborativo, virtual, que tenha condições de garantir o fluxo de informações, a gestão compartilhada e a decisão coletiva” (REBEA, 2005).
Este conceito de rede é possível porque muito não se diz, apontando que as características da Rede Brasileira são o silêncio e o não-dito. Esse se distingue entre:
a. o silêncio fundador, aquele que existe nas palavras, que significa o não-dito que relaciona língua e ideologia e
b. a política do silêncio que subdividi-se em silêncio constitutivo que indica que para dizer é necessário não-dizer (uma palavra apagas as outras) e o silêncio local, que refere à censura – aquilo que é proibido dizer em certa conjuntura (ORLANDI, 1997:23-4).
A censura para Orlandi (idem:12-3) contempla qualquer processo de silenciamento – que não é silêncio mas “pôr em silêncio” - que limite o sujeito no percurso de sentido. Considera-se que estar em silêncio é um modo de também produzir sentidos.
Assim, quando dizemos que há silêncio nas palavras, estamos dizendo que: elas são atravessadas por silêncio; elas produzem silêncio; o silêncio fala por elas; elas silenciam. As palavras são cheias de sentidos a não se dizer e, além disso, colocamos no silêncio muitas delas (ORLANDI, 1991:14).
Ao considerar a relação com o silêncio e o não-dito como características fundamentais da REBEA, assumo que ela é uma rede monológica, onde há abundância de informação e poucas trocas dialógicas. O discurso da REBEA – em sua posição-sujeito dominante – caracteriza-se por uma língua “de espuma” vazia, prática, de uso imediato, em que os sentidos não ecoam. Ela trabalha o poder de silenciar (ORLANDI, 1997).
É uma língua onde os sentidos batem forte mas não se expandem, em que não há ressonância, não há desdobramentos. Os sentidos se calam. Eles são absorvidos e não produzem repercussão. Se de um lado não se comprometem com nenhuma “realidade”, de outro, impedem que vários sentidos se coloquem para esta mesma “realidade” (ORLANDI, 1997:102).
A REBEA optou por “comunidades diferenciadas”, apagando e silenciando sobre as implicações político-ideológicas de tal opção, e a Facilitação Nacional é encarregada das demandas operacionais da rede, embora reconheça que este processo gera verticalização e
exclusão nos processos decisórios. E assim essa estrutura “esquizofrênica” se naturaliza e passa a constituir o modo de fazer e ser rede da REBEA e a gestão centralizada passa a ser vista como uma vantagem:
Apesar das vantagens desta solução (Secretaria Executiva e Facilitação Nacional), há uma tendência viciosa de que a secretaria com o tempo passe a constituir um centro forte na malha da Rede, criando fluxos verticalizados que acabam por perturbar o processo de horizontalização. Esta verticalização deriva de uma cultura de subordinação que só pode ser transformada a partir de experiências de autonomia, co-responsabilidade e produção coletiva (REBEA: 2005:4-5, grifo meu).
A questão que a REBEA não responde é: como vivenciar experiências de autonomia, co-responsabilidade e produção coletiva se é vedada a todos os membros o acesso à instância deliberativa? Como criar vários focos de iniciativas e multilideranças se a rede acontece somente para a Facilitação Nacional e a lista aberta é mera lista de informação ou convivência? Como avançar e superar essa dicotomia entre lista aberta e lista fechada?