2.3 Wireless Network Synchronization
2.3.3 Flooding Time Synchronization Protocol (FTSP)
Essa lógica permite a construção de uma globalização política alternativa, a partir das lutas que ocorrem na periferia e semiperiferia do mundo. Os protagonistas dessa outra globalização, que contesta e apresenta alternativas ao modelo hegemônico são os movimentos sociais e seus aliados. Entendo como “aliados” dos movimentos sociais, por exemplo, segmentos dos professores universitários, intelectuais, políticos e militantes que mesmo não pertencendo a grupos sociais excluídos e sem legitimidade, os defendem e se identificam com suas lutas, dando evidência e problematizando – e com isso reconhecendo - suas questões em seus trabalhos e pesquisa e na mídia. Os aliados participam do movimento social, mas dele não se beneficiam diretamente, ou seja, não fazem parte do grupo social que, caso sua demanda seja atendida, receberá o benefício ou direito. Entendo que a REBEA foi estruturada e é composta basicamente por aliados do movimento social e embora tenha como membros sujeitos oriundos dos movimentos sociais – ambientalistas, contraculturais, pacifistas e políticos – tem também membros que pertencem ao Estado e ao mercado. Assim, mesmo não a considerando um “movimento social”, reconheço que ela participa do processo de construção de alternativas.
Sobre essa articulação entre movimentos sociais e seus aliados, Gohn (1997:236) vai dizer que na América Latina não é possível entender a problemática dos movimentos sociais se não incluirmos a categoria de intelectuais no cenário. São pessoas de grupos sociais dos demandatários e têm se constituído em interlocutores dos movimentos junto a agências governamentais e à mídia em geral.
Na concepção desenvolvida por Melucci (apud LERRER 2008:23), movimento social é toda e qualquer “ação coletiva cuja orientação comporta solidariedade, manifesta um conflito e implica a ruptura dos limites de compatibilidade do sistema ao qual a ação se refere” (MELUCCI, 2001: 35 apud LERRER, 2008:23, grifo meu). Neste processo, este autor dá particular ênfase à construção da identidade coletiva que, para ele, não é um dado ou uma essência e sim “produto de trocas, negociações, decisões, conflito entre os atores” (idem, p. 23), ou seja, é uma identidade interativa e compartilhada, resultante do que “vários indivíduos produzem acerca das orientações da ação e o campo de oportunidades e de vínculos que esta ação se coloca” (ibid, p. 24). É através deste processo que se criam novos códigos culturais e novas alternativas simbólicas que definem a identidade coletiva que não são produto somente de decisões pautadas na “racionalidade instrumental”, ou seja, na obtenção de demandas concretas, pois incorporam fortes ingredientes emocionais.
Segundo Melucci, o papel dos movimentos sociais é “provocar a visibilidade do poder, obrigando-o a tomar forma” e, deste modo, eles “explicitam conflitos e
necessidades de mudança, operam como motores de transformação e como reveladores dos pontos mortos, das contradições, dos silêncios que os aparatos dominantes tendem a ocultar” (MELUCCI, 2001: 123 apud LERRER, 2008:24, grifo meu). Esta definição indica que o conceito “movimento social”, mais do que dar conta de um determinado fenômeno empírico, com características claramente definidas, serve como “lente” para nomear determinados fenômenos associados a lutas sociais, cuja classificação nesta categoria pode facilitar a compreensão de aspectos fundamentais de uma determinada sociedade, mais particularmente, onde se dão seus conflitos sociais mais intensos (LERRER, 2008:24).
Gohn (1997) analisa o contexto brasileiro e suas especificidades e propõe a seguinte noção de movimento social:
Movimentos sociais são ações sociopolíticas construídas por atores sociais coletivos pertencentes a diferentes classes e camadas sociais, articuladas em certos cenários da conjuntura socioeconômica e política do país, criando um campo político de força social na sociedade civil. As ações se estruturam a partir de repertórios criados sobre temas e problemas em conflitos, litígios e disputas vivenciadas pelo grupo na sociedade. As ações desenvolvem um processo social e político-cultural que cria uma identidade coletiva para o movimento, a partir de interesses em comum. Essa identidade é amalgamada pela força do princípio da solidariedade e construída a partir da base referencial de valores culturais e políticos compartilhados pelo grupo, em espaços coletivos não-institucionalizados. Os movimentos geram uma série de inovações na esfera pública (estatal e não-estatal) e privada; participam direta ou indiretamente da luta política do país, e contribuem para o desenvolvimento e a transformação da sociedade civil e política. (...) Os movimentos participam da mudança social histórica e o caráter das transformações geradas poderá tanto ser progressista como conservador ou reacionário, dependendo das forças sociopolíticas a que estão articulados, em suas densas redes; e dos projetos políticos que constroem com suas ações. Eles têm como base de suporte entidades e organizações da sociedade civil e política, com agendas de atuação construídas ao redor de demandas socioeconômicas ou político-culturais que abrangem as problemáticas conflituosas da sociedade onde atuam (GOHN, 1997:251-2).
Os movimentos sociais criam uma agenda política e se estabelecem com a proposta de subverter os sentidos hegemônicos e possibilitar que grupos socialmente discriminados se organizem a partir das questões identitárias e resistam a processos de homogeneização, formando redes sociais. Por sua vez, seus aliados, formando alianças com outros segmentos sociais organizam as suas redes, com pontos de confluência e alteridade, com a disposição de eles também interferir na agenda política tanto dos movimentos sociais quanto do Estado e mercado. É esse o sentido que vejo na REBEA: a REBEA enquanto aliada do movimento social ambiental.
Não deve-se, assim, compreender o virtual apenas como espaço desencaixado sob o controle e domínio das elites, mas também como local de quebra de hierarquias e criação de linhas de fuga que possibilitam novas territorializações. Pode-se identificar na expansão da produção e colaboração em comunidades virtuais, listas de discussão, ações
ciberativistas, blogs elementos que criam novas significações na rede, liberando a emissão e possibilitando o controle tanto dos fluxos quanto dos próprios espaços físicos. (LEMOS 2006 apud PILLAR, 2006). Estes territórios-redes, a partir do qual a contestação dos poderes pode acontecer, criam novas significações e novas formas de controles. Com a justaposição ou próprio entrecruzamento do virtual com o real, do ciberespaço com a dimensão física das redes sociais, a tecnologia pode ser usada como ferramenta de territorialização tanto nos lugares quanto nos fluxos. Deste modo, o virtual torna-se espaço para a fomentação do local, e, interconectado com os espaços urbanos em des-re- territorializações, colocam as redes sociais como palco da experiência e da transformação.
As redes sociais se apropriaram das novas tecnologias e subvertem seus princípios para produzir outros discursos, impondo novos sentidos que não os hegemônicos, questionando os sentidos estabilizados e naturalizados, utilizando os mesmos recursos materiais do estado neoliberal e as mesmas estratégias do mercado, agora, para um retorno ao essencial ou os valores que estes movimentos entendem importante incluir em um novo paradigma.
Este movimento de resistência do sujeito se realiza nas brechas do sistema, e torna possível que uma outra globalização, contra-hegemônica, se instale e produza seus sentidos, ressignificando práticas, reafirmando a singularidade dos sujeitos, a valorização do território e da identidade local, do multiculturalismo e da diversidade, organizando mercados alternativos e solidários.
Para Makiuchi (2005), a distinção fundamental entre estas duas estruturas organizadas em rede – hegemônica e contra-hegemônica - é a noção de poder e a gestão interna. Nas redes neoliberais o poder é concentrado em algumas conexões, tendo uma arquitetura vertical, piramidal, enquanto as redes sociais solidárias ou contra-hegemônicas são caracterizadas pela dissolução de poder a partir de processos de auto-gestão e multilideranças, num processo de gestão horizontal.
A REBEA é uma rede que surgiu neste contexto de globalização contra-hegemônica onde segmentos sociais se organizam para a criação de alternativas que se contrapõem ao neoliberalismo e ao domínio do mundo pelo capital e o mercado com a proposta de criação de um cenário que aponte possibilidades de outros pactos sociais e de mudança de paradigma a partir do eixo da sustentabilidade socioambiental e do multiculturalismo.
Este cenário aponta para a construção de conhecimentos emergentes, que visam criar condições para que processos emancipatórios e contra-hegemônicos possam se concretizar. Essa produção de conhecimento, no entanto, não se dá sem contradições ou disputas. Ao contrário, este conhecimento socialmente elaborado está sujeito a ser
apropriado por diferentes grupos à revelia de quem o produziu e ressignificado a partir do que Morin (2002:118) denomina a ecologia dos atos que insere a incerteza como estruturante, pois a produção do conhecimento está imersa em um “complexo de inter- retroações” que deriva, desvia e, por vezes, inverte seu sentido.