6.5 Description of the Code functionality
6.7.2 Debugging with Segger RTT viewer
Neste contexto, surge um e-mail convidando os educadores ambientais a se posicionarem sobre a saída da Ministra e divulgarem o fato, problematizando-o:
Lamentamos profundamente a saída da nossa ministra Marina Silva. Entendemos que o Brasil perde com isso e a corrente desenvolvimentista ganha força. O que está em jogo? Quem ganha com isso? Como reagirá o movimento ambientalista e os educadores ambientais? Para além de divulgar o fato penso que poderíamos nos posicionar. Ressaltamos a coragem e a hombridade de Marina são exemplos de força e de uma postura ética comprometida com a sustentabilidade da vida. (Fonte: http://br.groups.yahoo.com/group/6forum/message/745)
Daí surge também a idéia da REBEA manifestar-se apoiando a política exercida pela Ministra, validando suas ações e valorizando seu trabalho. Alguns enredados apoiaram esta iniciativa, sugerindo que a Secretaria Executiva da rede escreva a Carta.
A lista inicia uma discussão incipiente para organizar este apoio, mas a idéia inicial da Carta é ressignificada, ocorre um deslizamento de sentido e passa-se de um apoio
amplo e generalizado a um apoio setorial, focando especificamente a manutenção do diretor do DEA e sua equipe. Passa-se de um apoio valorizando o gesto da ex-ministra de sair de um governo que não prioriza a questão ambiental à necessidade de permanência da equipe do DEA para manter uma política funcionando. Localizo esta passagem de um sentido a outro no seguinte recorte discursivo onde o enunciador utiliza o pronome indefinido “alguns” para ao mesmo tempo colocar sua ação dentro de um coletivo e diluir a responsabilidade pelo dizer:
EI33A
Alguns colegas educadores ambientais que vivem em Brasília, dos quais me incluo, estão em diálogo constante e, como todos, preocupados com as possíveis mudanças na condução das políticas de EA que vêm sendo implementadas pelo Órgão Gestor da PNEA, em especial pelo MMA, dada a saída da Marina. (...) A idéia é acionarmos e mobilizarmos pessoas, compartilharmos idéias e tudo mais que estiver ao nosso alcance para contribuirmos para a manutenção do Marcos Sorrentino na Direção do DEA, e conseqüentemente, da manutenção das políticas de EA em curso.
Para situar este deslizamento de sentido no contexto amplo, retomo as condições de produção iniciais. A demissão da Ministra Marina Silva gerou grande repercussão em geral e, especificamente, no movimento ambiental que entendeu que após embates perdidos e desgaste geral no governo a Ministra e ambientalista reconheceu que a política de governo optou pelo desenvolvimento econômico em detrimento do ambiental. Neste cenário, o núcleo de sua equipe demite-se junto com ela.
É sugerido, por um membro do governo que dialoga com as redes, que a REBEA se posicione e publicize sua solidariedade à ex-ministra. Esta Carta tem como finalidade apoiar e ser solidária à ex-Ministra Marina Silva. O enunciado EI33 acima configura novas informações que modificam a idéia inicial: não mais uma carta de apoio à ex-ministra, mas uma carta solicitando a permanência da equipe do DEA para que as políticas de EA não sejam alteradas. Ou seja, uma outra carta acaba sendo proposta.
A fim de demonstrar o deslizamento de sentido, a partir do espaço de interlocução, utilizo paráfrases (P3 e P4):
P3 - Carta da REBEA I
Onde a rede posiciona-se em apoio a Ministra Marina Silva (não está claro se a Carta é para a Ministra ou para o novo Ministro).
P4 - Carta da REBEA II
Onde a rede solicita a permanência da direção do DEA/MMA ao Ministro Carlos Minc.
EI33 vincula a manutenção de uma política pública de Estado à permanência de uma equipe específica, “esquecendo” que estas políticas são resultado de um processo que define o campo ambiental e não iniciou na gestão do DEA (2003-2008), embora tenham sido aprofundadas e qualificadas nesta gestão, e que conta com legislação reguladora. Ou seja, é legitima e, como tal, não depende de pessoas específicas para realizar-se, mas de estruturas definidas dentro de uma visão macropolítica. Sotero (2008:101) afirma que uma política pública é formada por um plano, programas e projetos, além de ser estabelecida por uma lei. Pode-se inferir, portanto, que a EA no MMA não está vinculada a permanência ou não de determinada equipe, mas faz parte da estrutura de governo.
Sanchez complementa:
A EA pode ser pensada como instituição. (...) O seu histórico político levou-a a se tornar uma estrutura integrante inclusive da macroestrutura de governo, (...) além do seu estabelecimento formal pela Lei 9795/99 e pelo decreto 4281/02. As estruturas criadas e estabelecidas em instâncias físicas, espaços, escritórios, cargos, enfim, formam um ambiente formal, instituído, onde se reforçam e expandem costumes, interesses, etc. A EA, possivelmente, configura-se hoje, inclusive como um nicho de atuação política (SANCHEZ, 2008:86).
Seria legítimo, no entanto, uma mobilização para manter a equipe do DEA pelo fato dela ser afinada com o movimento ambiental e suas políticas refletirem o diálogo que se instaurou a partir desta gestão. A rede se mobilizar para manter essa equipe se justifica também porque a direção do DEA é fundadora da REBEA. O trabalho do DEA, como aponta Tamaio (2008) leva para a estrutura de Estado um modo de fazer gestão e políticas públicas fundado no diálogo e na crítica, buscando criar condições para que a sociedade produza processos emancipatórios. Na minha leitura, a estratégia de defender a permanência da equipe do DEA, vinculando-a a manutenção de políticas foi um equívoco. Defendê-la a partir de afinidades e afetos, explicitando a ligação existente entre membros da REBEA e DEA/MMA, traria ao cenário a dimensão subjetiva/efetiva e é esta que realmente provoca a mobilização.
O deslizamento de sentido – de carta apoiando o trabalho da Ministra Marina Silva à carta solicitando a permanência da diretoria do DEA - passa “despercebido” e não é problematizado pela REBEA. A Secretaria Executiva sugere que algum enredado faça uma
proposta de carta e que esta seja discutida em todas as redes da malha da REBEA, a partir da adesão espontânea de cada elo.
EI33A representa a posição-sujeito dominante. Justifico esta filiação porque este recorte discursivo é produzido por um membro da Facilitação Nacional, pertencente ao Estado, sua argumentação não encontra resistência entre os outros membros da FN - como veremos adiante -, sendo assimiladas sem questionamentos ou problematização pelos outros membros da FN que organizam a matriz de sentidos da REBEA.