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In document Bacheloroppgave ved Markedshøyskolen (sider 51-56)

A pesquisa participante ou pesquisa-ação é um método que propõe a unidade entre sujeito e objeto, sustenta que a realidade deve ser estudada sem distanciar-se dela. Foi utilizado em diversas áreas das ciências sociais como educação, saúde, comunicação e saúde do trabalho (MARTINEZ ALCÁNTARA, 2007) como ferramenta para que setores populares e 'oprimidos' se apropriassem de sua realidade com o intuito de transformá-la: 'conhecer para transformar' é seu princípio básico. Esta proposta rompe também com a separação entre pensar e agir, como explica Naiditchf, ela é

[…] contextual e realizada ao mesmo tempo em que alguma forma de ação ou intervenção resulta da pesquisa. Os resultados dessa ação servem como dados adicionais da pesquisa e são estudados ao longo do processo. […] uma série de ciclos de ações que envolvem diferentes fases de planejamento, ação, observação dos efeitos e reflexão acerca das observações e resultados obtidos. (NAIDITCHF, 2010)

Suzana Martinez Alcántara realiza um estudo sobre diversas experiências de pesquisa-ação no continente e argumenta que essa metodologia implica uma opção epistemológica que concebe o conhecimento como espaço de enfrentamento e luta de classes, pois questiona os fundamentos da própria ciência ao incorporar os coletivos e movimentos sociais como elementos centrais na elaboração de um novo conhecimento, rompendo a suposta objetividade e distanciamento que acompanham a pesquisa científica (2007). Segundo a autora, é uma metodologia que resgata o conceito de práxis, ao definir o estudo da realidade como um processo cíclico que envolve agir, refletir, planejar e agir continuamente; que articula a pesquisa, a participação e a educação.

O debate acerca de seus fundamentos teóricos e das experiências que a aplicaram na América Latina se baseia da concepção de que nenhum conhecimento é neutro, pois a ciência, como “produto cultural do intelecto humano que responde a necessidades coletivas concretas” (FALS BORDA, 1988, p.43), não tem como, concomitantemente, satisfazer necessidades e servir a interesses antagônicos. Rosiska Oliveira e Miguel Oliveira destacam que durante as décadas de 1970 e 1980 foram realizadas no continente latino-americano diversas pesquisas no âmbito das ciências sociais, por parte de agências governamentais e até corporações multinacionais “cujo objetivo é conhecer as condições de vida, pautas de comportamento, motivações e aspirações de grupos sociais ditos marginalizados ou então considerados, pelos donos do poder, como propensos a comportamentos rebeldes e contestatórios” (1988, p.18). Assim, as ciências sociais são usadas como instrumento do

capital contra o trabalho, com base em um conceito de ciência que não tem como objeto resolver os problemas da população pesquisada, mas inversamente, enxerga essa população como um problema a ser resolvido (op. cit., p. 18-9).

Não é por casualidade que este mesmo período, a década de 1970, constituiu o auge de sua aplicação na América Latina, com os trabalhos de Paulo Freire e Orlando Fals Borda, e na Itália, com o Modelo Operário Italiano. A reestruturação produtiva nos anos 1960 e 1970, ao mesmo tempo em que intensifica o trabalho, altera a base técnica sobre a qual se trabalha, transformando o ambiente de trabalho e fazendo com que grande parte do conhecimento acumulado pelos trabalhadores produtivos perdesse sua relevância empírica, e, sem o exercício de teorização, que o trabalho se enfraquecesse perante o capital. Neste contexto, a pesquisa-ação representa uma ferramenta valiosa, pois pretende evidenciar e legitimar a ciência popular como maneira de questionar os conhecimentos impostos que a negam e são utilizados como ferramenta de opressão, ao mesmo tempo em que revela a ciência formal como conhecimento historicamente acumulado que deve ser apreendido e posto ao serviço dos seres humanos em geral, apesar de estar a serviço de certos grupos e classes sociais. Orlando Fals Borda definiu a ciência popular como “[...] uma fonte de sabedoria e tradição que, em sua aparente simplicidade, nos oferece as pistas e mesmo as respostas para a crise social atual.” (1988, p.43); é “o conhecimento empírico, ou fundado no senso comum, que tem sido uma característica ancestral, cultural e ideológica dos que se acham na base da sociedade” (op. cit., p.45). O papel do técnico e cientista no processo de pesquisa junto aos trabalhadores e setores oprimidos é resgatar esses conhecimentos, através de um processo de objetivação da subjetividade operária, junto a uma proposta de transformação da sociedade construída pelos próprios sujeitos, pois “indivíduos e grupos oprimidos desenvolvem estratégias de sobrevivência, de defesa, de luta e de fuga, ainda que […] não acreditem em sua própria capacidade de mudá-la.” (OLIVEIRA e OLIVEIRA, 1988, p.32).

Dentro desta concepção, o Modelo Operário se constituiu como poderosa ferramenta para o estudo do ambiente de trabalho nas mãos dos trabalhadores na América Latina contra as concepções da Medicina Ocupacional ou Medicina do Trabalho. Como explicam Asa Cristina Laurell e Mariano Noriega, da Associação Latino-Americana de Medicina Social (ALAMES), sua implementação permitiu “forçar a atualização e aplicação do conhecimento existente às situações concretas e acabar com um uso enganoso, parcial e atrasado do conhecimento profissional neste campo” (1989, p.93).

Colômbia e inclusive no Brasil nas décadas de 1970-80 e encontrou um forte aliado na ALAMES, fundada em 1984 em Ouro Preto, Brasil, como resultado da “confluência do pensamento crítico em saúde e as lutas dos povos latino-americanos em defesa de sua saúde” (ALAMES, 2012). Reúne pesquisadores, professores e profissionais de saúde em diversos países do continente e, dentro de suas redes temáticas, inclui núcleos para o estudo da relação saúde-trabalho, políticas públicas em saúde e a rede sobre força de trabalho; alguns de seus membros – como a médica sueca radicada no México e coordenadora geral da associação, Asa Cristina Laurell – dedicaram diversos estudos ao Modelo Operário e sua aplicação na região, mesmo antes da ALAMES se constituir em associação.

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