Como se mencionou em diferentes momentos anteriores, os trabalhadores venezuelanos têm encontrado diferentes maneiras de se organizar para a luta contra o capital e para a gestão participativa, em maior ou menor grau, de sua empresa. As principais estruturas organizativas no processo Bolivariano são os sindicatos, as cooperativas e os conselhos de trabalhadores. Manteve-se o legado dos sindicatos, que na Venezuela foram altamente combativos em vários momentos históricos e, correspondentemente, reprimidos; como o sindicato SUTISS da então multinacional SIDOR cujo ideólogo era Alfredo Maneiro, fundador do partido Causa R e prestigioso líder guerrilheiro da região oriental do país. Porém, no final do século XX, a maioria dos sindicatos já haviam se identificado com os interesses da patronal, apoiando ou participando ativamente das diferentes ofensivas do capital contra os trabalhadores durante o processo bolivariano; a única central sindical de nível nacional no início do século XXI, a Central de Trabalhadores de Venezuela (CTV), participou ativamente do Golpe de Estado e do paro patronal em 2002.
Em 2005, realizou-se o Congresso Constitutivo da União Nacional de Trabalhadores (UNETE) criada como espaço para organização da classe operária venezuelana que se identificava com o processo Bolivariano. A UNETE saiu de seu congresso com uma direção nacional que, ao fim, nunca foi legitimada por votação, já que o congresso foi interrompido por disputas políticas que chegaram ao ponto de agressão física. Mesmo assim, os trabalhadores começaram a identificá-la como referência, ainda que o movimento sindical
estivesse bastante desmoralizado, conhecido pela corrupção e a atitude hipócrita de seus líderes, cuja prática de vender os interesses dos trabalhadores por benefício próprio era a regra e não a exceção. Em novembro de 2009, levou-se a cabo o Congresso pela refundação da UNETE, produto de pré-congressos regionais em diferentes regiões do país. A UNETE está se desenvolvendo como uma importante ferramenta de luta para a classe trabalhadora. Atualmente há muitos líderes sindicais, mais jovens e sem tantos vícios, que assumem uma posição mais combativa e reivindicam uma central única para avançar na luta para além das reivindicações econômicas.
Na maioria dos casos, ao chegar a uma empresa expropriada ou temporariamente ocupada, o governo procura os sindicatos como representação dos trabalhadores para discutir a situação porque, de fato, até recentemente era a única forma legal de organização dos trabalhadores em uma empresa privada. As cooperativas foram promovidas como alternativa de organização trabalhista principalmente porque permitem a propriedade coletiva direta do meio de produção por parte dos trabalhadores, o desenvolvimento de relações trabalhistas diferentes – de participação, horizontalidade, colaboração – e, segundo a Lei de Cooperativas, exige que o excedente seja também utilizado para o desenvolvimento humano de seus membros (ex.: através de investimentos na educação) e para o desenvolvimento comunitário (ex.: através de um fundo para o investimento social). Não podem ser uma opção para aqueles trabalhadores de empresas particulares e, portanto, não servem como ferramenta de luta, mas como estrutura de gestão uma vez que a empresa já está tomada – desempenham papel oposto ao sindicato.
Os conselhos de trabalhadores são uma proposta incipiente, ainda que muitos trabalhadores em toda Venezuela os tenham escolhido como forma organizativa. A Lei Especial de Conselho de Trabalhadores ainda está em discussão, portanto não há um marco legal específico para respaldar os conselhos na luta pelas reivindicações clássicas, como contrato coletivo, nem oferecer suporte jurídico em caso de greve. Porém, A Lei do Poder Popular e a Lei Orgânica dos Trabalhadores e Trabalhadoras (LOTT) reconhece os conselhos como órgão legítimo e representativo dos trabalhadores. Ainda que a informalidade legal seja uma fraqueza, é ao mesmo tempo fortaleza, porque permite uma organização autônoma e mais horizontal; muitos trabalhadores utilizam o projeto de lei como referência, que inclui comissões por área de trabalho, decisões tomadas por Assembleia, cargos revogáveis e rotativos e esta figura jurídica é mais versátil, podendo desempenhar um papel na luta contra o patrão, no caso de empresas privadas, ou participar da gestão da empresa, no caso de empresas públicas. Aparte de conselhos em fábricas específicas, na Venezuela há duas
experiências de conselhos que organizam trabalhadores de diferentes unidades produtivas, como é o caso do Conselho de Conselhos de Trabalhadores da Rede Mercal, rede estatal de distribuição de alimentos a preço subsidiado, composto por 97 conselhos de trabalhadores a nível nacional; e que organizam trabalhadores de diferentes empresas, como é o caso do Conselho de Delegados e Delegadas de Prevenção do estado Miranda, nos Valles del Tuy, zona industrial e cidade dormitório para muitos trabalhadores de Caracas. A estrutura de Conselhos de Trabalhadores se apoia em grande parte na estrutura proposta para os Conselhos Comunais, pelas diretrizes traçadas na Lei do Poder Popular, na Lei das Comunas e outros instrumentos jurídicos que orientam os órgãos de democracia participativa.
Importante destacar que, como demonstra o conselho de delegados de prevenção, uma quarta figura surge como potencial agente para uma nova forma organizativa dos trabalhadores: os Delegados e Delegadas de Prevenção (DDP). Resultado da reforma de 2005 na Lei Orgânica de Prevenção, Condições e Meio ambiente de Trabalho -LOPCYMAT (VENEZUELA, 2005, passim), todas as unidades produtivas do país, por menores que sejam, devem ter ao menos um DDP eleito pelos trabalhadores e, de acordo ao tamanho da empresa, um número proporcional. Os DDPs são trabalhadores eleitos por seus colegas de trabalho, que podem ser por estes revogados caso não cumpram com suas obrigações; recebem formação enquanto exercem sua função produtiva; não têm privilégios sindicais acima de outros trabalhadores que lhes permita receber pagamento sem trabalhar; têm a obrigação de fazer um mapa da produção com os principais riscos de saúde que ela apresenta; têm a potestade de paralisar a produção caso haja risco de saúde e negligência por parte do patrão; e são mais difíceis e caros de despedir que um líder sindical. Estas características lhes dão maior estabilidade trabalhista e poder dentro da fábrica, enquanto diminui a possibilidade de corromper-se, já que a única remuneração por seu trabalho como delegado são as diárias de transporte e alimentação para os cursos de formação. Suas reivindicações põem o enfoque da contradição capital-trabalho sobre a relação saúde-trabalho.
Como se pode observar no estudo apresentado acima, há diversas medidas e políticas levadas a cabo pelo governo Bolivariano para fomentar a participação direta dos trabalhadores na gestão da produção e na gestão política do país. No entanto, a existência de leis e de instituições novas não significa sua imediata implementação, pois na base da sociedade o poder popular ainda luta para constituir-se contra forças e interesses que lhe são contrários. Com a proposta de substituir o poder constituído na gestão local, os conselhos comunais que pretendem se constituir como base do poder popular direto enfrentam as prefeituras, secretarias, superintendências e outros órgãos públicos cuja atuação deveria
eventualmente subordinar-se aos conselhos, mas resistem, apoiados fortemente no âmbito regional e nacional por empresas privadas. O mesmo aconteceu com a disputa pela aprovação da Lei de Conselhos de Trabalhadores, que encontrou resistência por parte da patronal, de setores de intelectuais opostos ao processo, do setor empresarial e também de parte dos sindicatos que supostamente apoiam o processo Bolivariano, pois com os conselhos, os sindicatos perdem sua exclusividade como representante dos trabalhadores perante a patronal e as instituições públicas. Essa é a dialética inerente à construção de um novo país, como em qualquer processo de transformação social, onde é possível observar claramente a luta de classes como seu motor.