A Associação Latino-americana de Medicina Social (ALAMES) questiona profundamente a validade do Modelo Médico e, até hoje, promove um debate acerca dos paradigmas que definem e acompanham o desenvolvimento e a prática da medicina em geral, e principalmente da medicina do trabalho. De certa maneira, suas concepções de pesquisa e práxis coincidem com a da pesquisa participante, cuja aplicação “[...] determina um compromisso que subordina o próprio projeto científico de pesquisa ao projeto político dos grupos populares cuja situação de classe, cultura ou história se quer conhecer porque se quer agir” (BRANDÃO, 1988, p.12), pois argumentam que o estudo do processo de trabalho é essencial para a compreensão da saúde pública em geral e para sua transformação, em uma região do mundo na qual as ciências médicas não conseguem dar respostas aos problemas e necessidades da população trabalhadora.
Como parte de um balanço geral de diversos estudos realizados sobre a relação saúde-trabalho no continente, Laurell e Noriega apontam que em grande parte os estudos latino-americanos se restringiam à análise de experiências ou riscos específicos, mas se diferenciavam dos países do capitalismo avançado que apresentavam uma abordagem hegemonizada pelos paradigmas da medicina ocupacional. Os estudos aqui partiam de uma concepção que situa o trabalho como “cenário primário de exploração e confrontação de classe”. Tais estudos evidenciavam, de uma perspectiva de formação e transformação, que “[…] a simples demonstração da presença de um outro risco não é suficiente pra conseguir sua eliminação, mas que é, todavia, preciso situá-lo no contexto político e econômico”, ou seja, que a saúde dos trabalhadores é um objeto de estudo próprio das ciências sociais (LAURELL e NORIEGA, 1989, p.49). Os autores vinculam essa perspectiva que relaciona a
saúde à produção a um contexto mais amplo de questionamento da organização capitalista do trabalho e do sistema capitalista como um todo, principalmente na América Latina:
[...] durante aqueles anos [final da década de 60 e início dos 70], não só ocorria a desmistificação da inevitabilidade de uma determinada maneira de organizar a produção social, mas também uma reflexão crítica sobre as práticas sociais dominantes, como a médica. Assim sendo, surge então a crise da medicina como crise de um paradigma científico e de uma prática. Esta crise se mostrava com particular força na América Latina, pois de um lado permaneciam como causas importantes da mortalidade as doenças consideradas como resolvidas pela ciência médica, ao mesmo tempo que as novas se apresentavam com uma frequência cada dia maior. Por outro lado, apesar do crescimento dos serviços de saúde, eles não pareciam resolver os problemas relevantes de saúde da população. (LAURELL e NORIEGA, 1989, p.23).
A insuficiência teórica e prática que a as ciências médicas tradicionais apresentavam perante a realidade continental foram a base de seu questionamento e as pesquisas comprometidas com um projeto de transformação e dedicadas a resolver essas lacunas lograram atualizar a medicina ocupacional latino-americana em relação aos países desenvolvidos e, principalmente, despertar o potencial de gerar um conhecimento novo, descobrindo problemas empíricos e categorias teóricas que vão além de um levantamento daqueles riscos e doenças tradicionais que a medicina ocupacional já havia identificado e engessado como parte deste campo de conhecimento.
Neste sentido, a opção pelo Modelo Operário no estudo da relação saúde-trabalho especificamente abriu “a possibilidade de abordar a questão da saúde do operário de tal modo que se consegue simultaneamente utilizar a experiência operária, socializar o conhecimento e mobilizar os diretamente interessados na ação transformadora” (LAURELL e NORIEGA, 1989, p.47), o que permite um conhecimento mais preciso de diversas experiências particulares em cada local de trabalho, mas também guarda o potencial de fazer generalizações sobre a relação o saúde-trabalho através da socialização destas diversas experiências. Ao mesmo tempo, da perspectiva dos trabalhadores, é reestabelecida a unidade entre conhecer e transformar, pois “[...] a única razão do impulso para o estudo de um problema é a busca de sua solução” (LAURELL e NORIEGA, 1989, p.87).
O processo de pesquisa promove, portanto, a elaboração de um novo conhecimento, que não surge espontaneamente, mas através da sistematização da subjetividade operária contida na experiência do grupo homogêneo, como coletividade que compartilha uma realidade concreta. Ao colocar a subjetividade-experiência operária como instrumento preferencial, abre-se espaço para riscos e danos que a ciência formal não pode medir, especialmente no quarto grupo de riscos. Uma contribuição do MO destacada por
Laurell e Noriega é o princípio de referir todas as medições ao grupo homogêneo e não ao indivíduo; mesmo partindo do posto de trabalho individual, “a informação coletada serve para construir um perfil de dano à saúde do grupo ou, alternativamente, para precisar a frequência de uma determinada patologia nele” (LAURELL e NORIEGA, 1989, p.91), vinculando sempre risco e dano, o que também permite estabelecer novas relações entre ambos. Ao recuperar e socializar as experiências específicas do grupo, as diversas vivências vão construindo este novo conhecimento que é validado consensualmente, sobre a base do que os próprios trabalhadores identificaram como elementos determinantes de sua realidade, dotados, por sua vez, do conhecimento formal do qual se apropriaram no processo. Outra contribuição do MO para o desenvolvimento da ciência é a flexibilidade a ele inerente em relação à escolha de instrumentos e métodos de medição, que no processo são submetidos à necessidade específica de cada experiência, integrando diversas técnicas e criando novas técnicas de pesquisa (op. cit., p.92).
Da perspectiva das lutas sociais pela saúde no trabalho, o MO impulsiona a tomada de consciência dos trabalhadores ao articular vários elementos: “a compreensão de que a doença e os acidentes não são acontecimentos aleatórios individuais, mas sim uma condição da coletividade; a democratização do quefazer sindical e, com ela, a possibilidade real de lutar e conseguir mudanças” (op. cit., p.46). Porém, depender de uma organização democrática como garante do processo aparece como uma forte limitação do Modelo Operário; uma organização que garanta a participação direta, com experiência acumulada para respeitar a dinâmica da luta empreendida e que torne visível a problemática da saúde. Laurell e Noriega apontam esta, entre diversas limitações ao modelo, de uma perspectiva crítica, buscando colaborar com sua implementação; na próxima seção revisaremos outras limitações por eles identificadas.
4.4.1 Limitações do MO para elaboração de novo conhecimento
Segundo os autores, uma limitação que dificulta a continuidade do modelo é que nem sempre são incluídos conhecimentos jurídicos sobre a legislação do trabalho e outros códigos vigentes que constituem, na maioria dos casos, a primeira barreira imposta pela patronal. Neste âmbito, a delegação se faz patente, principalmente quando o conhecimento sobre o contexto econômico, político e social ainda é incipiente. O discurso legalista pode se converter em uma barreira insuperável devido a mistificação deste conhecimento formal, elementos do qual os autores consideram importante incorporar ao modelo.
Por outro lado, destacam que a ênfase sobre a necessidade dos operários dominarem os modelos técnicos formais revela uma “visão instrumentalista da ciência” (LAURELL e NORIEGA, 1989, p.87), o que impede que da pesquisa surjam conhecimentos diferentes da ciência formal, pois a experiência é ordenada de acordo à mesma. Neste sentido, consideram a estrutura dos quatro grupos de risco como uma camisa de força que conduz a observação para os riscos identificados, impedindo a identificação de riscos ou danos que não foram classificados pela ciência médica.
Subjacente a estas limitações, o que se pode destacar como principal limitação apontada pelos autores é a falta de teorização sobre o processo e o conhecimento acumulados, o que leva o sujeito-trabalhador a considerar a realidade específica da fábrica como representação da realidade como um todo, ou seja, se estabelece uma equivalência entre o conhecimento particular de cada experiência e o geral, considerando este simplesmente a “soma de situações particulares” (op. cit., p.88). Na perspectiva do desenvolvimento da ciência, ao estudar a experiência do Modelo Operário Italiano, apontam que esta falta de momentos para teorização implica uma identidade direta entre teoria e prática, deixando de lado “o nexo fundamental da dialética” (CINI apud LAURELL e NORIEGA, 1989, p.92). Sem estes momentos, não é possível extrair dos estudos específicos aquilo que têm de geral, diluindo o novo conhecimento em potencial “em múltiplos aspectos particulares de situações que, a rigor, o conhecimento científico formal poderia predizer” (LAURELL e NORIEGA, 1989, p.94).
Espaços de teorização são essenciais não apenas para o avanço da ciência e de novos conhecimentos, mas para a viabilidade do próprio processo de defesa da saúde e da continuidade do Modelo Operário como ferramenta desta luta, pois, de maneira contraditória, a forte ênfase na experiência e subjetividade operária “leva a fortalecer a opção ambientalista”, que visa apenas identificar os riscos particulares de cada experiência sem concebê-los como processos coletivos mais amplos; situação que constitui “um passo prévio para voltar a delegar a saúde do operário aos técnicos, e relegá-la a um lugar secundário dentre as prioridades sindicais” (idem). Outro problema decorrente da ausência de teorização, que contribuiu com o enfraquecimento e abandono do MOI, é que a restrição aos conhecimentos particulares torna o grupo de trabalhadores refém da realidade particular na qual tais conhecimentos são válidos e “quando muda drasticamente a realidade fabril, o conhecimento particular – por mais rico que seja – se torna essencialmente inútil, pois o seu objetivo desaparece”; risco que se tornou especialmente visível com “a reestruturação tecnológica e reorganização do trabalho” (idem). Finalmente, sem a possibilidade de
teorização, a pesquisa, mesmo sendo compartilhada por muitos trabalhadores dentro de uma unidade produtiva, “não passa a ser memória definitiva da classe, recuperável nos momentos em que as mudanças na correlação de forças permitam avançar nas posições operárias.” (op. cit., p.95). Em entrevista à Revista Sindical em 2007, Oddone comenta que o material reunido através deste instrumento estava “tudo por ser elaborado” aguardando no Centro Ricerche e Documentazione rischi e danni da lavoro (ODDONE, 2007, p.6) para talvez contribuir com lutas atuais pela melhoria do ambiente de trabalho.