A Intervenção Pedagógica que se delineou exigia uma fase diagnóstica mais profunda de forma a aferir as dinâmicas do contexto em que se iria intervir e da competência a trabalhar, a escrita.
Neste sentido, decidiu-se realizar em ambas as disciplinas dois diagnósticos distintos por duas simples razões: a primeira razão deve-se ao facto de ter analisado, antes do início da intervenção, os questionários que se aplicaram na disciplina de Espanhol e os resultados contrastaram, grosso modo, com a observação direta em sala de aula, uma vez que uma grande parte dos alunos afirmou gostar de escrever, que costuma planificar em papel, desenvolver e reler as produções textuais e que o fazia mesmo fora da escola. A segunda razão prende-se com o facto de se tratar da mesma turma, apenas com um número diferente de alunos, onde se pretendia verificar qual dos dois métodos seria mais viável para este tipo de investigação.
Na disciplina de Português, decidiu-se então utilizar um texto orientado para verificar se o que responderam no questionário se confirmava e se, na verdade, planificavam e reliam os textos produzidos.
Crê-se que estes procedimentos foram importantes na medida em que ajudaram na formulação de estratégias que fossem ao encontro, quer dos gostos dos alunos, quer do próprio contexto onde se iria intervir em breve.
Deste modo, durante esta fase, verificou-se que os alunos se mostravam mais reticentes na resolução de atividades de escrita, em ambas as disciplinas, sobretudo no encadeamento de ideias e estruturação do texto. Para além disso, sempre que se lhes solicitava que escrevessem alguma resposta a determinado exercício, os alunos simplesmente rejeitavam de imediato a atividade proposta. No entanto, e como se poderá confirmar pelo gráfico correspondente à análise de
dificuldades apresentadas pelos alunos (Gráfico 1), apesar de uma percentagem notável considerar que possui algumas dificuldades neste domínio, grande parte da turma assume que a sua maior dificuldade não reside nessa destreza, o que levou, uma vez mais, a considerar que, eventualmente, os alunos não teriam plena consciência dessa lacuna e que, muitas vezes, recusavam as tarefas porque não sabiam como proceder à elaboração do texto escrito.
Contudo, existem alguns alunos que gostam realmente de escrever, mas este “gostar” refere- se, exclusivamente, a assuntos que lhe dizem respeito e não propriamente a temas propostos pelos docentes em contexto escolar.
Assim, pareceu primordial a abordagem da escrita por se crer que é essencial quer na formação do aluno, quer para o seu futuro, no âmbito pessoal ou profissional. Para além disso, reconheceu-se que seria igualmente uma mais-valia para um bom aproveitamento nas outras aulas, quer sejam de língua ou não, já que lhe forneceriam as ferramentas e estratégias necessárias para planificar, escrever e rever um texto escrito.
2.1.1.1. Atividades na área do Português
Para aferir as conceções que os alunos têm sobre a escrita e com o intuito de servir de diagnose na disciplina de Português, desenhou-se uma atividade para este grupo de alunos realizarem. Neste sentido, apresentou-se-lhes uma atividade onde estes teriam de escrever livremente sobre o processo de escrita. No entanto, foram facultados alguns tópicos de reflexão para que os mesmos se pudessem orientar. Esta atividade foi realizada em sala de aula, pois tinha o intuito de o seu conteúdo ser confrontado, posteriormente, com as notas retiradas da observação direta no momento da sua realização.
Figura 2 - Atividade de diagnóstico, elaborada pela professora estagiária
Durante as produções textuais, verificou-se que os alunos escrevem diretamente as ideias na versão final, não releem os textos antes de os entregarem e não distinguem a linguagem oral da linguagem escrita, pois solicitaram muitas vezes ajuda na reestruturação das ideias. Além disso, uma grande parte dos alunos sente muitas dificuldades sobretudo no encadeamento de ideias e estruturação do texto, mesmo com a ajuda dos tópicos de reflexão. Sabemos, porém, que a planificação de um texto pode ser apenas mental. O problema é que, nestes casos, deve-se ter um domínio aprofundado, quer do conhecimento do conteúdo a tratar, quer do processo de escrita propriamente dito. De facto, muitos dos alunos utilizam a planificação como texto final e, de acordo com Pires (2005: 121), das diferentes tipologias de rascunhos que existem, a maioria dos alunos opta pelo “rascunho-texto: um plano feito em forma de texto, correspondendo, exatamente ou com ligeiras alterações, ao texto definitivo”. Por isso, partiu-se destes dados para colocar em prática esta intervenção e para realizar atividades que pudessem colmatar essas lacunas evidenciadas atualmente na maioria dos alunos.
2.1.1.1.1. Dimensões de análise dos textos diagnósticos produzidos pelos alunos
A análise de conteúdo dos textos diagnósticos produzidos pelos alunos, na disciplina de Português, será realizada de acordo com as seguintes dimensões de análise: i) a pontuação; ii) as repetições; iii) a marcação de parágrafos; iv) a estruturação do texto e v) a estruturação sintática.
Relativamente à dimensão da pontuação, todos os alunos, sem exceção, sentem grandes dificuldades na colocação da vírgula, sendo que cinco deles empregaram-na sistematicamente na separação entre o sujeito e o predicado. Outra lacuna que se verificou na maioria dos textos, em relação ao uso da vírgula, foi a sua utilização excessiva em detrimento do ponto final, originando parágrafos e/ou frases muito extensos, com cerca de doze a quinze linhas. Apesar de sentirem dificuldades ao nível da pontuação, não se verificaram problemas graves em relação a erros de ortografia, verificando-se apenas algumas lacunas em termos da acentuação de determinadas palavras.
A repetição é uma das dimensões mais visíveis neste grupo de alunos. Doze dos textos analisados são muito repetitivos de início ao fim, quer a nível de vocabulário, quer a nível de ideias e não se verifica uma distinção clara das três partes constituintes de um texto, introdução, desenvolvimento e conclusão, constatando-se de imediato uma falha ao nível da planificação e organização de ideias. Uma vez que esta atividade estava relacionada com a escrita, verificou-se em sete textos uma repetição abusiva do tema em causa uma vez que a palavra “escrever” apareceu em três textos mais de dezassete vezes, praticamente seguidas, assim como a expressão “para mim”. Visto que se trata de uma reflexão pessoal, os alunos utilizaram-na excessivamente em vez de, por exemplo, recorrer ao uso de conetores discursivos diversificados. As expressões “para mim escrever”; “acho que” e “na minha opinião” foram usadas nos textos de nove alunos de forma muito repetida ao longo das três partes constituintes do texto.
No que diz respeito à marcação de parágrafos, verificou-se que, quinze alunos escrevem um texto seguido, sem fazer a marcação de parágrafos, apresentando um texto com deficiência de estrutura. Sete discentes marcaram parágrafos, mas com incorreções de alguma gravidade e apenas três alunos marcaram corretamente os parágrafos, ainda que com falhas esporádicas.
Em relação à estruturação textual, verificou-se que, mais de metade da turma sente grandes dificuldades nesta dimensão. Mesmo tendo por base alguns tópicos de reflexão, que serviam de orientações, a grande maioria dos alunos sentiu imensas dificuldades em começar a redigir o texto e
principalmente em organizar as ideias. Além disso, dez textos foram redigidos com deficiências de estrutura, evidenciando um domínio insuficiente dos mecanismos de coesão textual.
No que diz respeito à dimensão da estruturação sintática, grande parte dos textos, sobretudo aqueles onde apareciam frases excessivamente longas, apresentaram níveis bastante preocupantes em relação a esta dimensão.
Os conetores discursivos foram escassamente utilizados pela grande maioria dos alunos e os poucos que foram empregues tendem a ser constantemente repetitivos ao longo de todo o texto, evidenciando, desde logo, um domínio insuficiente dos mecanismos de coesão textual. Uma das estratégias utilizadas por alguns alunos nesta atividade foi tentar responder aos tópicos colocados no enunciado, facilitando assim o processo de organização de ideias. De facto, cinco alunos tiveram a capacidade de redigir um texto minimamente coeso, ainda que não tenham utilizado uma variedade de conetores, e limitando-se a “responder” ao que o enunciado lhes preguntava. Porém, os restantes alunos sentiram imensas dificuldades em o fazer pela incapacidade de colocar as suas ideias por escrito. Algo que surpreendeu na análise destes textos, em relação a esta dimensão, foi o facto de somente quatro alunos terem utilizado conetores discursivos conclusivos, dois utilizaram o conetor “em suma” e os outros dois empregaram os conetor “finalmente”.
Uma das questões que se colocou no enunciado desta atividade foi “que estratégias usas para redigir um texto?” A grande maioria dos alunos afirmou utilizar uma variedade de estratégias que passavam pela planificação e organização de ideias antes de começar a redigir um texto e que o estruturavam em três partes lógicas. No entanto, durante a leitura dos mesmos surge o confronto entre o que é dito pelos discentes com o que de facto acontece. E daqui se conclui que grande parte dos alunos se limitou a responder às questões colocadas, não se apercebendo que, na realidade, não estavam a cumprir o que escreviam, demonstrando, assim, limitações na dimensão do processo de escrita.
Apresenta-se, de seguida, a título de exemplo, um dos textos realizados por um dos alunos nesta primeira atividade e que vem ao encontro do que foi dito anteriormente, tratando-se, assim, de um texto muito repetitivo a nível de vocabulário, com falta de parágrafos, com escasso recurso aos conetores discursivos ou articuladores do discurso, demonstrando falhas ao nível da planificação e domínio da escrita.
Figura 3 - Primeiro texto produzido por um aluno - avaliação diagnóstica
2.1.1.2. Atividades na área do Espanhol
Na disciplina de Espanhol, elaborou-se, em colaboração com o núcleo de estágio, um questionário (Anexo 2) para conhecer melhor a turma e aferir as suas perceções, preferências, gostos, hábitos e determinar as estratégias de intervenção. Esse questionário compreende quatro partes distintas que satisfazem os objetivos do Projeto de Intervenção de cada um dos estagiários, permitindo obter uma visão mais ampla do perfil de funcionalidade do grupo meta nas diferentes competências. Não obstante, a turma em questão não era partilhada pelos vários estagiários, sendo que o questionário aqui visado é diferente, apenas, na terceira parte, pois só inclui as questões respeitante a este Projeto de Intervenção, a escrita.
2.1.1.2.1. Tratamento Estatístico dos Questionários Aplicados à Turma 11ºK
A análise que a seguir se faz dos gráficos obtidos a partir dos dados recolhidos nos questionários aplicados aos alunos, na disciplina de Espanhol, pretende ser interpretativa. Tendo em conta que já tinha havido contacto com a turma, composta por dezasseis alunos, e também a oportunidade de conhecer a forma de estar dos discentes.
As questões aplicadas nos questionários constam dos respetivos gráficos e a análise das respostas dadas é efetuada imediatamente antes dos mesmos. O propósito da aplicação do questionário foi inquirir acerca da perceção dos alunos em termos de competência escrita nas aulas de Espanhol, e das principais dificuldades para trabalhar em grupo e/ou em pares.
Das perguntas efetuadas, destacam-se apenas aquelas que estão diretamente relacionadas com o projeto, já que se poderão espelhar nas questões de investigação que pautam a ação ao longo da intervenção.
O questionário foi aplicado à turma em dezembro, após algumas observações de aulas do primeiro período e depois de, no núcleo de estágio, terem sido delineadas fronteiras que balizassem um questionário que servisse a todos.
Em seguida, apresentar-se-ão alguns dos dados recolhidos aquando do tratamento estatístico do questionário em questão, bem como a sua relevância para a elaboração e implementação do Projeto de Intervenção Pedagógica.
Assim, da análise do Gráfico 1 e relativamente às áreas de aprendizagem de uma língua em que os alunos sentem mais dificuldades, nomeiam a gramática e o vocabulário, seguido da oralidade e da expressão escrita. Às que reconhecem ter menos dificuldade são a compreensão oral e audiovisual e a compreensão escrita. Neste caso, podemos concluir que, apesar de não reconhecerem dificuldades na escrita esta é, de facto, uma das destrezas que menos gostam de trabalhar. Tal acontece, muito possivelmente, devido ao facto de não dominarem as diferentes etapas a seguir na realização de um texto escrito, o que acaba por dificultar a tarefa e, consequentemente, originar um desencanto face às tarefas solicitadas.
Gráfico 1 - Em qual das áreas de aprendizagem de uma língua sentes mais dificuldades
No que diz respeito ao tipo de atividades que os alunos gostam de realizar nas aulas de Espanhol, podemos aferir que preferem realizar jogos, comunicar com os colegas, aprender léxico novo, seguidas da realização de atividades relacionadas com a experiência e atualidade e atividades de compreensão auditiva. À semelhança do que já foi observado anteriormente, os alunos manifestam pouca tendência para a leitura e a gramática, aspetos que serão trabalhados de forma motivadora, para que possam passar a ser uma mais-valia em vez de um handicap.
Gráfico 2 - Nas aulas de Espanhol gostas de…
Relativamente a esta questão, a grande maioria dos alunos considera ser capaz de, nas aulas de Espanhol, escrever um acontecimento ou viagem, redigir textos coesos e simples e escrever textos articulados de forma simples. Em suma, verifica-se que a maioria dos alunos revelam ter autonomia para fazer atividades de diversa índole, manifestando, por isso, capacidades para acompanhar
Gráfico 3 - Neste momento, na aula de Espanhol sou capaz de…
Com esta questão pretendia-se averiguar os gostos dos alunos pela escrita, uma vez que o projeto final está diretamente ligado com esta competência. Deste modo, através da análise do gráfico, verifica-se que a maioria dos alunos gosta muito de escrever e que só apenas um aluno não gosta nada de o fazer. Daqui se pode igualmente inferir que, apesar de afirmarem gostar muito de escrever, na realidade, esta é uma das destrezas que menos gostam de trabalhar em sala de aula.
Gráfico 4 - Escrever é uma atividade que gostas de fazer
Nesta questão pretendia-se saber quais as razões que contribuíram para a posição do aluno face à escrita. A maioria dos alunos respondeu que a escola, a família e a sua maneira de ser tiveram um grande contributo. Assim se conclui que esse gosto se foi adquirindo de diversas formas com influências de vária índole também.
Gráfico 5 - Na tua opinião, quais as razões que contribuíram para a tua posição face à escrita no ponto anterior?
O objetivo desta questão prende-se, em primeiro lugar, com o facto de se saber se os alunos costumam escrever e, em segundo, que tipo de texto preferem. Considera-se esta informação muito útil para ajustar as tipologias textuais que se levam à aula e, por outro lado, para lhes dar a conhecer outras tipologias que não pareçam tão motivadoras e interessantes. Assim, desta análise constata-se que os alunos escrevem textos de tipologia variada como se pode ver da análise pormenorizada ao gráfico.
Gráfico 6 - Que tipologia textual costumas escrever?
O objetivo desta questão era averiguar quais as estratégias que os alunos utilizam na hora de redigir um texto.
O que se verifica é que a maioria dos alunos afirma pensar nas ideias antes de redigir um texto, que lê atentamente o texto antes de o escrever definitivamente e que o reformula antes de o redigir em definitiva. Cinco destes alunos afirmam escrever à parte os tópicos para não se esquecer das ideias e o mesmo número de alunos diz nunca o fazer. Em suma, pode verificar-se que, segundo os dados registados no gráfico, os alunos usam estratégias diversificadas para a sua redação.
Gráfico 7 - Que estratégias usas para redigir um texto? Assinala a opção mais correta
Esta questão tinha como principal objetivo entender quais as estratégias utilizadas pelos alunos quando não sabem, por exemplo, como se escreve uma palavra, como se conjuga um verbo ou como se aplica um conetor.
Daqui se pode inferir que o recurso à ajuda do professor para a resolução de problemas, continua a ser uma constante neste grupo de alunos, seguido do pedido de ajuda aos colegas.
Com esta questão pretendia-se saber se os alunos têm o hábito de escrever em vários contextos e não apenas em sala de aula. Da análise do gráfico, verificamos que uma grande parte dos alunos escreve muito enquanto estuda, quando envia um sms a um amigo/a, nas redes sociais, e quando são obrigados a fazer TPCs.
Assim, quanto aos seus hábitos de escrita, saliente-se que os discentes têm por hábito escrever com as novas tecnologias, ou então quando têm uma obrigação relacionada com os estudos.
Gráfico 9 - Tens o hábito de escrever…
A pertinência desta questão para este trabalho prende-se com o facto de se tentar averiguar as influências familiares dos alunos. Parte-se do pressuposto de que se existirem hábitos de escrita no âmbito familiar esta poderá ser uma boa influência para os alunos.
Desta análise pode-se concluir que a grande maioria dos familiares não têm por hábito escrever nos seus tempos livres.
Com esta questão pretendia-se apurar as principais dificuldades que os alunos possuem na escrita, para posteriormente poder trabalhar este problema em sala de aula.
Do que se pode verificar a maioria dos alunos afirma não possuir qualquer dificuldade nesta competência, para além de não a considerarem nada aborrecida, o que mais uma vez não vem ao encontro da observação direta de aulas.
Gráfico 11 - Quais são as tuas principais dificuldades na escrita?
A pertinência desta questão prende-se com o facto de se tentar compreender qual a importância que os alunos atribuem à escrita numa era que tanto se fala em crise desta competência. Não obstante, da análise deste questionário verificamos que grande parte dos alunos considera que escrever possibilita a vida em sociedade, que não podemos viver perfeitamente sem saber escrever, que escrever bem é um cartão-de-visita e que escrever é muito importante pois são avaliados pela escrita em todas as disciplinas.