Tal como foi referido na descrição das atividades realizadas no âmbito deste projeto, após a análise dos resultados de avaliação diagnóstica, criou-se um conjunto de atividades com o intuito de eliminar as dificuldades inicialmente diagnosticadas e consciencializar os alunos para a complexidade e importância da expressão escrita.
Assim, num primeiro momento, será realizada a análise dos textos produzidos pelos alunos sem qualquer tipo de orientação específica. Neste sentido, e sendo o objetivo desta atividade distinto do da atividade diagnóstica, pretendia-se verificar, agora sem tópicos de orientação, se os alunos cumpriam com o que diziam, ou seja, se tinham bastante atenção ao que iriam escrever, se faziam alguma planificação prévia (aliás, no enunciado foi-lhes pedido que entregassem também a planificação inicial), se reliam e corrigiam as suas produções antes de as entregarem.
E, num segundo momento, será apresentada a análise dos textos produzidos pelos alunos já com várias orientações, quer sobre o processo de escrita, quer sobre o uso de diferentes conetores e mesmo sobre o facto de a grande maioria dos discentes ignorar a marcação de parágrafos.
Neste sentido, nos pontos seguintes, proceder-se-á à análise dos textos produzidos pelos alunos de acordo com algumas dimensões de análise, nomeadamente: i) a pontuação; ii) as repetições; iii) a marcação de parágrafos; iv) a estruturação do texto e v) a estruturação sintática.
2.3.1.1. Primeira atividade - sem orientação
A questão da pontuação continua a ser um problema bastante visível neste grupo de alunos. De facto, o erro na colocação da vírgula para separar o sujeito e o predicado continua a ser constante na maioria dos alunos. De modo semelhante ao texto diagnóstico, verifica-se, nesta atividade, a utilização de parágrafos e/ou frases demasiados extensos, dado que quinze alunos escreveram um texto seguido, sem a utilização de parágrafos, apresentando um texto com deficiência de estrutura. Sete discentes marcaram os parágrafos, mas com incorreções de alguma gravidade e apenas três alunos marcaram corretamente os parágrafos, ainda que com falhas esporádicas.
Os alunos não têm por hábito recorrer ao uso de distintos e variados conetores discursivos. De facto, recorrem apenas ao mais comuns, a saber, os aditivos “e”, “ainda” e “também” e o adversativo “mas”. Neste sentido, os textos aparecem obrigatoriamente muito repetitivos e com a palavra do tema em questão a servir de conetor, evidenciando, desde logo, um domínio insuficiente dos mecanismos de coesão textual, de tal forma que, nesta dimensão, também se continuam a verificar excessivas repetições de palavras e de expressões.
Relativamente à estruturação textual, verificou-se que, mais de metade da turma sente grandes dificuldades nesta dimensão, uma vez que grande parte dos alunos sentiu dificuldades em recorrer ao uso da memória e até mesmo na estruturação de um texto argumentativo. A grande maioria dos alunos sentiu imensas dificuldades em começar a redigir o texto e principalmente em organizar as ideias, em alguns casos por falta delas. Além disso, quinze textos foram redigidos com deficiências de estrutura, evidenciando um domínio insuficiente dos mecanismos de coesão textual. Este número aumentou em relação à primeira atividade, mas crê-se que seja pelo facto de o tema necessitar de um conhecimento prévio sobre o mesmo, pois na primeira atividade (diagnóstica) tratava-se de um texto de opinião sobre um tema mais simples, a escrita. Mais ainda, a atividade continha alguns tópicos orientadores e a maioria dos alunos limitou-se a responder aos mesmos e, neste caso, os alunos dependiam apenas deles e do conhecimento que tinham sobre o tema.
Quanto à dimensão da estruturação sintática, grande parte dos textos, sobretudo aqueles onde apareciam frases excessivamente longas, continuaram a apresentar níveis bastantes preocupantes em relação a esta dimensão.
Apresenta-se, de seguida, a título de exemplo, um dos textos realizados por um dos alunos nesta segunda atividade e que vem ao encontro do que foi dito anteriormente, tratando-se, assim, de um texto muito repetitivo, quer a nível de ideias, quer a nível de vocabulário, com falta de parágrafos, com escasso recurso aos conetores discursivos, demonstrando falhas ao nível da planificação e do
domínio da escrita. Além disso, o aluno em causa não foi capaz de fazer um paralelismo com a obra propriamente dita, limitando-se a redigir algo genérico sobre o tema sem grande capacidade de argumentação.
Após a análise destes textos, concluiu-se que era imperativo trabalhar, nas aulas seguintes, sobre estas dimensões, de forma a tentar colmatar o máximo possível estas dificuldades.
2.3.1.2. Segunda atividade - com orientação
Após a análise dos textos produzidos pelos alunos, numa fase onde já haviam tido várias orientações, concluiu-se que, em relação à dimensão da pontuação, apesar de não se verificar o problema inicial da colocação de vírgula para separar o sujeito do predicado, o facto é que ainda permanecem ligeiros problemas neste sentido, uma vez que os alunos ainda sentem alguma relutância quanto à sua correta colocação. No entanto, o progresso ao nível desta dimensão é evidente, dado que quase todos os alunos, à exceção de dois, colocaram a vírgula a separar o conetor discursivo e colocaram entre vírgulas as orações subordinadas adjetivas explicativas. Além disso,
passaram a escrever frases mais curtas evitando a sua má utilização, sobretudo quando usada para separar os elementos principais de uma oração.
Uma das maiores evoluções confirmadas prende-se com a utilização de parágrafos. De facto, é notório o desenvolvimento ao nível desta dimensão na maioria dos alunos, verificando-se apenas algumas falhas esporádicas. Não obstante, dois alunos continuam com dificuldades neste sentido, ora porque iniciam o texto com marcação de parágrafo e a meio deixam de o fazer, ora porque iniciam sem marcação de parágrafo, mas posteriormente começam a fazê-lo.
Uma vez que se trabalhou o texto expositivo-argumentativo, de forma unânime, os alunos apresentaram um parágrafo conciso e coerente para expor o tema e desenvolver a sua tese.
Figura 7 - Excerto do terceiro texto produzido por um aluno - avaliação final
Ao nível do uso dos conetores discursivos, também se atestaram evoluções. Nesta fase, os alunos já haviam tido várias orientações, quer sobre o processo de escrita propriamente dito, quer sobre a importância do uso dos conetores discursivos e até mesmo sobre o próprio texto argumentativo. Assim, nesta fase de produção do texto argumentativo, os discentes recorreram ao uso de conetores discursivos, sendo os mais utilizados os aditivos “e”, “além disso”, “e ainda”; e “igualmente”; os contrastivos “”mas”, “porém”, “contudo”, “no entanto” e “todavia”; os concessivos “embora”, “apesar de”, “não obstante” e os conclusivos “concluindo”, “para concluir”, “em conclusão”, “em suma” e “assim”, como forma de estabelecer uma coesão textual entre parágrafos. Contudo, quatro alunos ainda manifestam algumas dificuldades na variação dos conetores, limitando- se ao uso dos conetores mais usuais, a saber, os aditivos “e”, “ainda” e “também” e o adversativo “mas”.
Ao nível da repetição, também se verificaram níveis de progressão bastante satisfatórios, através do uso de recursos lexicais e discursivos necessários para retomar a informação sem repetir o que foi dito anteriormente. No entanto, esta lacuna não foi totalmente eliminada, uma vez que, ainda que em menor grau, dois alunos continuam a repetir-se ao longo de todo o texto.
No que diz respeito à estruturação textual, também se verificou um grande desenvolvimento. Efetivamente, a maioria dos alunos conseguiu respeitar a planificação previamente elaborada, o que lhes permitiu organizarem muito melhor os textos. No entanto, o maior problema de alguns alunos prende-se com a falta de um conhecimento maior sobre os temas. Como se trata, também, de um tema menos livre, em relação à atividade diagnóstico, alguns alunos sentiram dificuldades em recorrer ao uso da memória, por isso, não se evidenciou um grande paralelismo com a obra em estudo. Crê- se que este seja um dos maiores problemas dos alunos, dado que o conhecimento que tinham sobre a obra deve-se exclusivamente ao que foi lecionado em sala de aula, evidenciando-se assim um claro desconhecimento, devido à falta da leitura integral, sendo esta uma razão suficiente para os limitar em termos de geração de conteúdo.
Relativamente à dimensão da estruturação sintática, verificam-se níveis bastante melhores, devido essencialmente ao facto de os alunos escrevem frases e parágrafos mais curtos, além de que passaram a utilizar um maior número de conetores discursivos.
Apresenta-se, de seguida, a título de exemplo, um dos textos realizados por um dos alunos nesta segunda atividade e que vem ao encontro do que foi dito anteriormente, verificando-se uma grande melhoria a nível textual. Em comparação com os dois modelos anteriormente apresentados, pode-se atestar que se trata de um texto muito mais coeso e coerente, sem repetição de ideias, onde é visível a marcação de parágrafos e o recurso a marcadores discursivos, demonstrando uma evolução evidente ao nível da planificação e domínio da escrita.
Figura 8 - Terceiro texto produzido por um aluno - avaliação final