Regressando ao conceito de onde partimos para esta análise, o de propaganda pelo facto, podemos retirar desde já algumas conclusões sobre a eficácia propagandística da operação Tancos.
O primeiro dado a reter é que o sucesso mediático da parada de 22 de Julho, espelhado nos jornais portugueses de várias tendências políticas e nas salas de cinema de Lisboa e Porto, constitui uma excelente demonstração desse tipo peculiar de propaganda que alega não o ser, pretendendo confundir-se com a realidade. Além de
179 providenciar o facto, o Ministério da Guerra envereda pela propaganda pelo facto, apostando, por um lado, em acções de sedução expressamente dirigidas à tradicional imprensa e, por outro, na encomenda de reportagens nos dois suportes tecnológicos de maior modernidade e com maior potencial para atingir um público alargado: a imagem fixa e a imagem em movimento.
Em segundo lugar, verificamos que, na política de sedução tal como na política de censura, o ministério encontra-se ainda numa fase algo voluntarista e amadorística, o que é especialmente notório no caso dos jornalistas e o comboio especial. Já o envolvimento oficial no domínio da produção fílmica virá a revelar-se mais consistente pois não só os homens que dela são incumbidos têm larga experiência no sector como um deles, o capitão Ferrão, irá, poucos meses depois, montar um serviço cinematográfico às ordens do ministro Norton de Matos, assunto a que ainda regressaremos.
Em quarto lugar, podemos concluir que a operação militar de Tancos é um
happening cujo potencial de entretenimento público e de sucesso comercial é
reconhecido por uma empresa privada como a Invicta Film, que já então se posiciona para se tornar a mais importante empresa de produção cinematográfica do país. Concomitantemente, é um dos vários suportes com que o Ministério da Guerra regista e, simultaneamente, cria o milagre de Tancos. Por outro lado, em 1916 existe ainda uma expectativa benevolente na imprensa para com esta operação militar que o incidente do comboio especial belisca mas não consegue ofuscar. Os jornais de todas as tendências rendem-se a Tancos mesmo se, no caso da imprensa oposicionista, se trata apenas de uma trégua no combate antiguerrista que seguirá dentro de momentos.
É um sucesso que tem de ser colocado em perspectiva, tendo em conta um óbice à eficácia da mensagem, especialmente importante no caso da imprensa: a altíssima percentagem de analfabetos, à volta de 75% da população portuguesa. Seria, porém, imprudente descartar o peso dos hábitos culturais e de sociabilidade republicanos. De facto, a palavra escrita dos jornais transforma-se frequentemente em palavra falada, chegando, assim, a muitos portugueses não alfabetizados mas
180 frequentadores de cafés, associações e centros republicanos, tendo assim um efeito multiplicador478. Este é, no entanto, um fenómeno sobretudo urbano, dificilmente chegando ao Portugal profundo, marcado pela ruralidade, pelo atraso económico e por redes clientelares antigas com poucas ou nenhumas simpatias pela República. O cinema, embora mais eficaz junto das camadas populares não alfabetizadas, era à época de igual modo uma realidade eminentemente urbana.
Alfabetizados ou não, a generalidade dos portugueses tinha dificuldade em compreender os motivos para ir combater numa guerra em país estrangeiro – incompreensão alimentada por uma intensa contrapropaganda que também circulava em Tancos, em folhetos clandestinos. Isto para já não falar dos oficiais que consideram os próprios exercícios de Tancos uma «cégada»479, inútil do ponto de vista da preparação militar para a guerra.
Acabado o Verão quente de Tancos, o antigo chefe da Repartição de Informações do Ministério da Guerra, já na sua nova qualidade de director do Serviço de Censura Postal, na dependência do Ministério dos Estrangeiros, retira, da análise da numerosa correspondência que, abordando a guerra, tinha sido enviada à comissão de revisão da censura postal por conter matéria incriminadora, três conclusões principais nada animadoras:
1ª) «Que a guerra não é popular.»; 2ª) «Que existe um acentuado espirito de revolta contra a idéa da nossa participação da guerra em territorio estrangeiro»; 3ª) «Que há pessoas que pensam na probabilidade de um movimento revolucionario para evitar a ida para a guerra, ou como consequencia dessa ida»480.
Esta chamada à realidade, lembrando tudo o que havia ainda por fazer para levar a bom porto a difícil e inglória missão de conquistar a opinião pública portuguesa para a causa da guerra europeia, não invalida nem que a operação Tancos tenha sido um sucesso mediático nem que os dividendos para o ministro que a liderou tenham
478Maria Alice Samara, As repúblicas da República: História, cultura política e republicanismo.
479AHM, 1ª Divisão, 35ª Secção, Cx. 1298, Cópia de of. confidencial do Director do Serviço de Censura Postal ao Director Geral do Ministério dos Negócios Estrangeiros, Lisboa, 09-10-1916.
480Ibidem. As conclusões deste relatório foram por nós apresentadas e debatidas na conferência From
the Trenches to Versailles: War and Memory (1914-1919), realizada em Lisboa em 2009, estando o texto
das actas respectivas desde então no prelo (Helena Pinto Janeiro, «Norton de Matos e o Milagre de Tancos: Entre o Mito e a Realidade»). A importância deste relatório é igualmente destacada por Filipe Ribeiro de Meneses, no livro que entretanto publicou sobre Afonso Costa, Alfragide, Portugal, Texto, 2010, pp. 59-60.
181 sido inestimáveis. Ou não fosse o mentor da operação Tancos creditado na imprensa do Verão de 1916 como o autor do milagre do renascimento do Exército «como quasi
do nada»481. É certo que o crédito é partilhado com a equipa que escolheu para o ladear nessa tarefa, nomeadamente o comandante da Divisão de Instrução, general Tamagnini e o chefe do Estado-Maior, major Roberto Batista. Seja como for, em alguns anos apenas, de improvável republicano, Norton passara a ser reconhecido pela imprensa democrática como uma «alta individualidade da República»482, com provas dadas do seu «talento», «saber» e «energia inquebrantavel». À sua «orientação profundamente republicana e patriotica», dever-se-ia «tão transcendente afirmação do nosso valor civico e militar».
De certa forma confirmando a avaliação de muitos dos seus colegas republicanos, um dos órgãos da imprensa monárquica comenta, com um indisfarçável despeito, que Norton se encontra fortemente escorado em Tancos e «Tancos é, hoje em dia, o melhor padrinho. Quem fôr seu afilhado, não morre mouro.»483. Para adversários como para correligionários, Norton é agora membro de pleno direito da galáxia republicana.
O milagre que protagoniza no Verão quente de 1916 em Tancos tendo por matéria-prima uma mole de civis vindos do Portugal profundo, maioritariamente rural, analfabeto e de duvidoso republicanismo, é que ainda tem que passar pela prova de fogo da guerra. Independentemente do gigantismo do esforço militar, por um lado, e do apreciável efeito propagandístico no curto prazo, por outro, falta ainda saber se Tancos vai conseguir esse outro milagre: que aqueles civis combatam nos campos da Flandres como cidadãos e soldados da República, de preferência apoiados, na frente interna, pela população portuguesa. Era uma fasquia que, bem ao gosto de Norton, estava colocada num patamar extraordinariamente alto. Não só a guerra rebentara com o exército português em plena mudança de paradigma, sem ter havido tempo para a ambiciosa reforma de 1911 passar do papel à prática484, como o país estava
481
Ângelo Vaz, «DE RELANCE», A Montanha, 25-07-1916, p.1.
482Ibidem. Até referência em contrário, as citações são deste mesmo artigo. 483«O governo e o regresso», A Nação, 23-07-1916, p.1.
484
O tempo que decorreu entre a reforma de 1911 e a eclosão da guerra, insuficiente para que a reforma pudesse ser levada à prática na sua totalidade, é um aspecto crucial para se entender o estado
182 totalmente dependente da Grã-Bretanha para providenciar o transporte, o armamento, a alimentação e o treino suplementar do exército português em França, dependendo igualmente da velha aliada para emprestar os avultadíssimos fundos necessários para pagar tal esforço. Era um esforço hercúleo não apenas para o exército e para as finanças do país mas, sobretudo, como reconhecerá Norton, para os portugueses:
«Hoje mais do que nunca os exércitos são a representação da Nação a que pertencem e se no tempo de paz não soubermos ou não podermos fazer o saneamento físico e moral da população, não temos o direito de nos queixarmos do estado em que se encontra o exercito mobilizado.»485
Como é de seu timbre, não serão pormenores como o estado físico e moral da população e do exército, nesse primeiro quartel do século XX, que atrapalharão a missão a que Norton se propõe, para o que considera ser o bem maior de Portugal: levar o exército português a combater na Flandres.