2 Methodology and data
2.2 Screening methodology for evaluation
2.3.1 Modified NAPRA Risk Assessment Scheme for non-native species
A consagração de Norton na hagiografia republicana como o grande obreiro do milagre de Tancos não surge apenas por via dos seus méritos intrínsecos por ter sido o cérebro da complexa operação logística de transformação do polígono de Tancos numa nova cidade portuguesa. Nem tão pouco apenas por via da sua capacidade de coordenação da complexa máquina organizativa que permitiu mobilizar, transportar e treinar militarmente várias dezenas de milhares de portugueses, vindos de todos os pontos do país, preparando-os para o combate no teatro europeu da guerra no que virá a ser o Corpo Expedicionário Português (CEP).
A essa consagração, que se inicia nos cerca de três meses de maior intensidade do treino militar em Tancos, de finais de Abril a finais de Julho e inícios de Agosto de 1916, e que fará estrada por muitos e longos anos, não é alheia a atenção que desde cedo o ministro da Guerra prestou à propaganda política417, a par de todos os outros aspectos logísticos cuja montagem teve que providenciar, ou seja, da realidade de Tancos propriamente dita418.
416Para a redacção final deste subcapítulo retomámos, parcialmente, textos nossos que foram sendo, em versões preliminares, apresentados a debate no seio da comunidade académica, ao longo do período de elaboração da tese: Helena Pinto Janeiro, «Norton de Matos e o Milagre de Tancos: Entre o Mito e a Realidade» in Maria Fernanda Rollo et alia (coord.), From the Trenches to Versailles: War and
Memory (1914-1919), Colibri, no prelo [texto de 2009]; Helena Pinto Janeiro, «Tancos: A Génese de um
Milagre» in Pedro Aires Oliveira, Maria Inácia Rezola (coord.), O Longo Curso: Estudos em Homenagem a
José Medeiros Ferreira, Lisboa, Tinta-da-china, 2010, pp. 87-106; Helena Pinto Janeiro, «The People in
Arms in the People’s Entertainment: Cinema and Political Propaganda in Portugal (1916-1917)» in E-
Journal of Portuguese History, vol. 11, nº 2, Winter 2013, pp. 50-73. O corpo de fontes trazidos à colação
nos primeiros dois textos que referenciámos foram posteriormente revisitados, sob a perspectiva das Ciências da Comunicação, por Noémia da E. P. Malva Novais, A imprensa portuguesa e a guerra 1914-
1918: os jornais intervencionistas e anti-intervencionistas: a acção da censura e da propaganda, Tese de
doutoramento em Ciências da Comunicação, FCSH da UNL, 2013, pp. 182-193 (policopiada).
417Sobre a acção de Norton de Matos no campo da propaganda, veja-se, para além dos textos referidos na nota anterior, Jorge Pais de Sousa, «Da propaganda da guerra nos governos da “União Sagrada”, à construção de uma máquina de propaganda política, em plena ditadura, ao serviço do militar e catedrático Sidónio Pais (1916-1918)» in Maria Fernanda Rollo et alia, From the Trenches to Versailles:
War and Memory (1914-1919), Colibri, no prelo (policopiado). Agradeço ao autor ter-me facultado este
texto. Num outro registo, ensaístico, Vasco Pulido Valente considera que toda a acção de Norton de Matos enquanto ministro da Guerra e, nomeadamente, a criação do Corpo Expedicionário Português, na sequência da operação Tancos, não terá passado, ela própria, de «uma pura peça de propaganda.» (A
“República Velha”(1910-1917): Ensaio, Lisboa, Gradiva, 1997, p.97).
418
Sobre o milagre de Tancos, neste seu significado mais literal, veja-se Isabel Pestana Marques, «O Show de Tancos», Das Trincheiras, Com Saudade: A Vida Quotidiana dos Militares Portugueses Durante
161 O ministério de Norton promove, ao mais alto nível, um leque de reportagens sobre Tancos muito variado, usando vários suportes ao seu dispor: a escrita, a fotografia e o cinema, recursos militares e controlando de várias maneiras os civis, nomeadamente os jornalistas e, em especial, os repórteres.
É neste aspecto em particular de Tancos que nos iremos concentrar de seguida porque nos parece particularmente revelador do talento político de Norton. No que só aparentemente é um paradoxo, o ministro fazedor não desdenha a propaganda – um conceito então em mudança acelerada.
Quanto o ministro português da Guerra finalmente avança com a operação Tancos, está em curso uma autêntica mudança de paradigma na relação entre os Estados e a propaganda que já foi caracterizada como «the world-wide 20th century
shift to massive state participation in the manipulation of public opinion»419. É uma viragem que se dá a ritmos e escalas diferentes nos vários países beligerantes420.
Em todos eles, as fronteiras entre propaganda e informação eram, então, extraordinariamente fluidas. Propaganda era frequentemente sinónimo de informar, dar a conhecer, mais do que controlar ou manipular. A necessidade de «medidas de carácter moral tendentes a preparar o espírito público para a cooperação na guerra europeia»421 é, no entanto, defendida por intelectuais portugueses, como o deputado
a Primeira Guerra Mundial, Lisboa, A Esfera dos Livros, 2008, pp. 23-32; L. Alves de Fraga, «As Manobras
de Tancos», Do intervencionismo ao sidonismo: os dois segmentos da política de guerra na 1a República,
1916-1918, pp. 280-285; Idem, «Divisão de Instrução: As Manobras de Tancos» in Aniceto Afonso, Carlos
de Matos Gomes (coord.), Portugal e a Grande Guerra: 1914-1918, Matosinhos, QuidNovi, 2010, pp. 265-269; sobre o pólo que, no Entroncamento, foi transformado para dar apoio de retaguarda ao polígono de Tancos, cf. Manuela Poitout, «As primeiras instalações militares no Entroncamento e a sua ligação com os caminhos de ferro» in O foguete, nº 15, 2005, pp. 27-31.
419Gary S. Messinger, «An Inheritance Worth Remembering: the British approach to official propaganda during the First World War» in Historical Journal of Film, Radio and Television, vol. 13, nº 2, 1993, p. 117. 420Em Portugal, o investimento estatal na propaganda de guerra é geralmente considerado como pouco relevante, embora não falte quem defenda, pelo contrário, que o investimento estatal nesse domínio não deva ser subestimado. Os fracos resultados obtidos pela propaganda de guerra, visto os governos da República não terem logrado conquistar os portugueses, à excepção de algumas elites, para a causa da guerra, são um forte argumento para os defensores daquela primeira visão, sintetizada por Filipe Ribeiro de Meneses (União sagrada e sidonismo: Portugal em guerra (1916-18), Lisboa, Edições Cosmos, 2000, pp. 81-96) e contestada por Jorge Pais de Sousa (O fascismo catedrático de Salazar, Coimbra, Imprensa da Universidade de Coimbra, 2011, pp. 94-99). Falta ainda, no entanto, uma obra de fôlego especificamente dedicada a este tema que reflicta os resultados de estudos de carácter mais sectorial surgidos por ocasião do recente centenário da República e que aprofunde o muito que falta investigar. 421Intervenção de Jaime Cortesão na Câmara dos Deputados. DCD, Sessão de 20-05-1916, p. 7.
162 democrático Jaime Cortesão, ele próprio autor de uma brochura de propaganda dedicada ao soldado, que recebeu o beneplácito e o apoio de Norton e do seu ministério422. Na visão de Cortesão, como na de muitos intelectuais que, na Grã- Bretanha ou em França, trabalharam como propagandistas ao serviço do Estado, não se trataria propriamente de manipular mas antes de «preparar o espírito» da população para «cooperar». O busílis da questão era a bondade da causa e essa defendia-se sobretudo indo combater.
O que mais interessava era o propósito de Portugal ir à guerra, ou seja, ter um exército em condições de fazer a guerra no espaço europeu — e fazê-la. Estava, deste modo, feita quase toda a propaganda — precisamente porque o facto era, alegadamente, a melhor propaganda possível. O argumento é defendido pelo chefe do governo da União Sagrada em resposta à interpelação de Cortesão, dois meses após a Alemanha ter declarado guerra a Portugal. Se as «duas propagandas» são úteis, a «propaganda pelo facto é sempre a melhor»423.
A alegação de que os factos falam por si424 é, naturalmente, ela própria uma forma de propaganda, cujas virtualidades Cortesão rapidamente reconhece. Poucos meses depois, o intelectual retoma o conceito, dando-lhe uma cara, ou melhor duas: Norton de Matos e Leote do Rego. Os dois encarnariam a propaganda pelo facto, pela força da vontade e da acção. Norton fez o exército, Leote fez a marinha. São «duas forças. Duas tremendas vontades»425. A marinha não estava capaz de ir à guerra mas com meios incipientes acaba por fazer «verdadeiros milagres de improvisação»426 na
422
Jorge Pais de Sousa, O fascismo catedrático de Salazar, p. 95.
423Almeida admite, no entanto, que as acções de carácter moral que visem a «transformação do estado de alma portuguesa relativamente à guerra» são necessárias, até porque não é propriamente Portugal que está a ferro e fogo, excepção feita às longínquas colónias portuguesas de África (DCD, Sessão de 20- 05-1916, pp. 11-12).
424Esta alegação é, igualmente, uma característica marcante da propaganda de guerra britânica. Sobre a objectividade e a subjectividade do facto moderno, cf. Mark A. Wollaeger, Modernism, media, and
propaganda: British narrative from 1900 to 1945, Princeton, Princeton University Press, 2006, pp. 22-24.
425Jaime Cortesão, Memórias da Grande Guerra (1916-1919), Porto, Ed. da “Renascença Portuguesa,” 1919, p. 25.
426
António José Telo, «A República e as Forças Armadas» in João Medina (coord.), História de Portugal:
Dos Tempos Pré-Históricos aos Nossos Dias, vol. XI, A República II: O nó górdio e as espadas, Amadora,
SAEPA, S.d., pp. 258-262; Tal não impediu que, no final da República, a marinha portuguesa se encontrasse próxima do «zero naval». João Freire, A marinha e o poder político em Portugal no século
163 defesa da costa portuguesa e na escolta de navios. O Exército não estava em condições de ir à guerra mas, com Norton e a sua operação Tancos, a verdade é que vai.
Não por acaso, Cortesão escreverá este texto no final do Verão de 1916, após o acontecimento que, em Portugal, simboliza o próprio conceito, um ano depois da tal «noite memorável», em que Norton ganhara a pasta da Guerra. O facto é a operação militar de mobilização, transporte e treino militar de dezenas de milhares de portugueses num campo de treinos militar no centro do país, o polígono militar de Tancos, reconstruído para o efeito numa cidade de “pau e lona”.
Cinco anos após a ambiciosa reforma do exército de 1911, que representava uma autêntica mudança de paradigma mas não tinha sido plenamente concretizada, era finalmente a prova de que seria possível transformar os portugueses em algo semelhante a um “povo em armas”, enquadrado embora por um corpo de militares profissionais427. Ao fim de escassos três meses de treino, o depauperado Exército português dá prova de vida e de vitalidade. O feito é logo baptizado de milagre, celebrado como uma liturgia civil republicana que recorre e se apropria do imaginário tradicional do catolicismo, e simultaneamente, como uma manifestação de modernidade da República428.
III.3.2. O Ministério da Guerra e os repórteres da palavra: censura,