3 Assessment results
3.2 Category 2. Temperate and continental species
3.2.2 Category 2 taxa subjected to a full risk assessment
A imagem do ministro como homem do terreno, sem grande tempo nem paciência para jogos políticos, não deixa de ser uma imagem eminentemente cultivada. Nas suas visitas à Divisão de Instrução em Tancos, Norton tem geralmente o cuidado de se fazer acompanhar por repórteres da escrita e da imagem que testemunham a diligência com que o ministro toma pessoalmente nota das insuficiências encontradas para rapidamente serem eliminadas. A eficácia com que faz
427A um exército profissional, de privilegiados, pretendia a República que se sucedesse um exército miliciano, em que cada cidadão é um soldado, seguindo o modelo suíço da nação em armas. A nova organização geral do exército acabou, no entanto, por ficar a meio caminho entre os dois modelos. Decreto com força de lei de 25-05-1911, DG, nº 122, 26-05-1911.
428
Sobre a religião cívica republicana cf. Fernando Catroga, Entre Deuses e Césares : Secularizacão,
164 e manda fazer, para que seja mesmo feito é enfatizada na entrevista que dá ao Diário
de Notícias no final de Junho:
«-Um dos defeitos grandes que eu procuro remediar, e que é vulgar no nosso país, consiste no processo do papelório.
Para a resolução de qualquer assunto gastam-se resmas de papel e perde-se um tempo precioso. É preciso acabar de vez com isso. A mania da nota tem de acabar, substituindo esta por ordem que se cumpra imediatamente.
O chefe de determinada unidade precisa urgentemente de qualquer coisa, e manda fazer uma nota reclamando o que precisa. E, feita a nota, não pensa mais nisso. Passam-se dias, lembra-se de novo da falta sobre que reclamou e... manda fazer segunda nota, voltando a não pensar mais no caso, até que dali a dias faz outra e assim sucessivamente.
Chega-se um dia em que o ministro ou um a outra autoridade aparece e, notando a falta a que as tais notas se referiam, pergunta naturalmente, e com espanto, por que é que tal obra não está feita, dispondo-se até a castigar a incúria de quem superintende no serviço, mas não o pode fazer, porque invariavelmente a resposta é esta:
— Já fiz tantas notas a tal respeito.
E, diz-nos o sr. Norton de Matos, como a nota ou notas foram feitas, julga a sua responsabilidade ilibada. Consegui acabar com este sistema em África e aqui procuro também eliminá-lo, substituindo-o por ordens rápidas, para serem imediatamente cumpridas.»429
A redução ao máximo do processo do papelório implica um acompanhamento preciso de quem tem autoridade para tomar decisões. Norton fá-lo-á amiúde, pernoitando numa tenda de campanha no acampamento, sempre acompanhado do seu bloco de notas, velando para que tudo se faça.
Assim se explicará, como mais adiante se verá, que de certas decisões ministeriais, de que restam outros vestígios indubitáveis, não sobeje rastro legislativo ou, sobrando, tenha a marca pessoal do ministro que tudo quer fazer e pretende não ter tempo, muito menos paciência, para perder com tudo o que não seja estritamente necessário. O essencial é fazer obra, construir, com toda a polissemia associada a este verbo. Não admira que, em Tancos, se sinta «como peixe na água»430. Nem por isso deixa de fazer questão de partilhar esse à-vontade com os jornalistas.
429«Em Tancos Uma visita ao acampamento da divisão de instrução», Diário de Notícias, 23/6/16, p.1. 430
Como, décadas mais tarde, dirá, numa parte das suas memórias que permanecerá inédita até 2005 Norton de Matos, Memórias e Trabalhos da Minha Vida, vol. 3, ed. 2005, p. 245.
165 Os primeiros enviados dos jornais O Século e A Capital ao acampamento militar de Tancos431 não manifestam incómodo quer pelo acompanhamento dos seus movimentos no perímetro militar quer pela própria censura. Vêem o primeiro como uma deferência, atendendo às pequenas amabilidades de que são alvo, como a disponibilização de automóvel, por especial determinação do ministro da Guerra, os jantares na barraca do comandante juntamente com comitivas oficiais de alto nível de visita ao campo ou as pequenas confidências deixadas cair pelos seus guias. Até a censura militar é, nesta fase, vista como natural. O capitão Abreu de Campos, por cujo crivo passavam os textos que saíam do polígono de Tancos para a imprensa, exercê-la- ia «com criterio e delicadeza», na avaliação do repórter de O Século432. O elogio ao censor e, em geral, a benevolência face à censura («naturalmente tão necessária») não é apenas explicável por se tratar de um jornal simpatizante dos democráticos, numa época em que as fronteiras entre jornalismo e propaganda são extraordinariamente fluidas. Na verdade, a compreensão da imprensa face ao cerceamento da liberdade de expressão, mesmo se justificada por um argumento patriótico, é, na verdade, conjuntural. Tancos beneficia ainda de um certo estado de graça perante a imprensa portuguesa.
O que, sendo fruto de uma estratégia de sedução por parte do ministro da Guerra, está longe de o deixar sossegado com o deficiente funcionamento da censura. Esta última, à excepção das reportagens enviadas de instalações militares, está por enquanto fora do alcance do seu ministério, para além de estar longe de ter critérios afinados. Quem não vai em reportagem ao local e escreve nas redacções os jornais está sujeito ao escrutínio das comissões de censura prévia433, então a cargo do Ministério do Interior. O controlo escapa, assim, ao crivo militar, para exasperação de Norton que, em Junho, solicita expressamente ao seu colega do Interior,
431Parte das crónicas que aí escreveram foram reunidas em livro: cf. Adelino Mendes e Oldemiro César,
A cooperação de Portugal na Guerra Europeia: O Milagre de Tancos, Prefácio de Leote do Rego, Lisboa,
Empresa Lusitana Editora, S.d.
432Na apreciação de Oldemiro César, repórter de O Século (In Idem, p. 32). 433
A censura «preventiva» foi instituída pela Lei nº 495 de 28-03-1916 (DG, I Série, Nº 59), «enquanto durar o estado de guerra», abrangendo «os periódicos e outros impressos e os escritos ou desenhos de qualquer modo publicados» (artº1º). As comissões eram nomeadas pelo governo, nas capitais de distrito, ou pelos governadores civis, no caso dos concelhos (cf. artº 3º). Em todo o caso, dependem do Ministério do Interior.
166 «que nenhuma noticia ou artigo que diga respeito a essa Divisão [de Instrução] e á instrução que se está realisando no campo de Tancos, se publique sem que o original respectivo seja visado nesta Secretaria da Guerra ou no Quartel General da Divisão de Instrução.»434.
No final de Agosto, a situação não melhorou pois a imprensa, queixa-se o ministro da Guerra,
«continua a dar publicidade a noticias militares que pela sua natureza são altamente inconvenientes e prejudiciais para os interesses da República nas actuais circunstâncias»,
rogando novamente ao seu colega do Interior que
«se digne dar as mais urgentes e terminantes ordens a todos os membros da respectiva censura para que, não sendo mandadas publicar pelas estações oficiais, directa ou indirectamente digam respeito a quaisquer resoluções tomadas pelas unidades mobilisadas ou a mobilizar, sua organização e fim a que se destinam, e, bem assim, das noticias que interessam á organização e funcionamento dos diversos serviços do exercito em campanha.»435.
O ministro da Guerra alerta ainda para a necessidade de não deixar que as divergências de critérios entre censores sejam aproveitadas pelos jornais, que frequentemente apresentam pela segunda vez a um censor menos escrupuloso uma notícia anteriormente censurada por outro. Demorará ainda alguns meses até as comissões de censura passarem a estar sob a alçada do seu ministério, o que só acontecerá a 10 de Novembro436.
Se, por enquanto, o controlo da censura em grande parte lhe escapa, Norton continua a investir na sedução, organizando a parada de 22 de Julho de uma forma particularmente ambiciosa. Na verdade, será a maior operação de relações públicas e propaganda jamais organizada pelo Exército em Portugal. Os jornalistas de Lisboa recebem um convite, assinado pelo próprio ministro, para viajarem no comboio especial que levará uma extensa comitiva de personalidades nacionais e estrangeiras até à estação de Tancos e, de lá, ao local da parada, os campos de Montalvo.
434AHM, 1ª Divisão, 35ª Secção, Cx. 1298, Of. confidencial nº 828 do ministro da Guerra ao ministro do Interior, 15-06-1916.
435AHM, 1ª Divisão, 35ª Secção, Cx. 1298, Of. confidencial nº 1051 do ministro da Guerra ao ministro do Interior, 28-08-1916.
436
O argumento para essa transferência de tutela reside no facto de entretanto ter saído a lei no 815, de 6 Outubro, que restringe a acção da censura preventiva às notícias contrárias à defesa nacional, económica e militar, às operações de guerra ou à propaganda contra a guerra. Assim, «deixa de se justificar que o respectivo serviço se mantenha na sua organização inteiramente alheio ao Ministério da Guerra». Decreto no 3.534, de 10-11-1917, DG, I Série, No 195.
167 A organização do comboio está a cargo do ajudante-de-campo de Norton, o capitão Florentino Martins, e acaba por revelar algum amadorismo, dando lugar a um incidente que quase neutraliza o sucesso mediático da operação. Originará, inclusive, um protesto formal da Associação de Classe dos Trabalhadores da Imprensa de Lisboa. A reclamação é entregue em mão por representantes da classe ao próprio chefe do Governo que lhes concede uma audiência de protesto e desaforo pelo incidente.
Os jornalistas queixam-se a António José de Almeida de vários vexames. Antes de mais, são relegados para a carruagem da cauda do comboio. Nessa carruagem mista, de 1ª e 2ª classe, não têm qualquer espécie de comunicação com as carruagens onde viajam o Presidente da República, os membros do Governo, o corpo diplomático e tutti quanti. Deste modo viram-se impedidos de fazer parte importante do seu trabalho de bastidores de reportagem para já não falar do vexame de terem de viajar em companhia dos correios de ministros e moços de pastelaria e de lhes ser servida comida de três dias em caixas de papelão. Chegados à parada, tiveram de ficar de pé, num dia de sol inclemente, sem que alguém se tivesse lembrado de reservar-lhes lugar no palanque VIP. Finalmente, regressados à capital, viram os seus colegas serem impedidos de aceder à gare do Rossio para fazerem a cobertura do regresso do chefe de Estado e das restantes individualidades437.
Os órgãos da imprensa oposicionista, que não tiveram direito a convite para viajar no comboio, não perdem a oportunidade de assinar o protesto por baixo. Consideram tratar-se de um vexame inadmissível para a classe, mesmo quando, como faz o diário socialista A Vanguarda, não perdem a ocasião de frisar, cruamente, que quem se comporta como lacaio do poder, sujeita-se a ser tratado como tal438.
Seja como for, a classe tinha plena consciência, e lembra-o ao chefe do Governo, que a imprensa «é o mais poderoso veiculo de comunicação [do Governo]
437
Cf., entre outros, o relato do jornal Opinião, reproduzido por um diário monárquico: «UMA DISTINCÇÃO...Como é tratada a Imprensa em Portugal», A Nação, 25-07-1916, p.1.
438«Os representantes da imprensa não passam, para estes senhores, de míseros lacaios. Nós, felizmente, não recebemos essa desconsideração, porque nem sequer fomos convidados.» («O passeio official a Tancos. Como é tratada a imprensa em Portugal», A Vanguarda, 25-07-1916, p.1).
168 com o país»439, aproveitando a ocasião para pedir que os passes da imprensa passem a ser emitidos apenas a jornalistas credenciados e cesse a sua atribuição a pessoas que nem jornalistas são.
António José de Almeida responde que não tinha tido qualquer intuito de ofender a imprensa e atribui os incidentes «à precipitação com que a excursão fora organizada», acrescentando saber que «o snr. ministro da guerra se encontrava bastante contrariado com o que se déra»440. Significativamente, será o ajudante do ministro, o tenente Florentino Martins, a vir a público assumir a responsabilidade única e exclusiva pela organização da excursão a Tancos441, permitindo assim uma demarcação airosa para Norton de Matos dos percalços organizativos da jornada.
Entre os enviados especiais da imprensa portuguesa à parada, todos de órgãos republicanos, ligados ou simpatizantes dos democráticos ou dos evolucionistas, no poder442, encontra-se Hermano Neves. O repórter do diário republicano da noite, A
Capital, opta por não viajar no comboio do Ministério da Guerra. Claramente para se
destacar, pela modernidade, dos seus colegas, desloca-se no side car de uma Harley-
Davidson conduzida por uma glória do ciclismo nacional, Manuel Ferreira. O jornal não
deixa de assinalar como é «maravilhosa de concepção mechanica, rapida, resistente» e por isso «apreciada pelos campiões da velocidade»443, a motocicleta em que viaja o seu repórter. E Hermano Neves não perde a ocasião de se vangloriar como rolou vertiginosamente no seu moderníssimo meio de transporte nos poucos troços de estrada em que o mac dam lhe proporcionou minutos de desvanecimento, a uma velocidade estonteante que o fez esquecer os quilómetros de estrada francamente intransitáveis que deixara para trás, entre nuvens de poeira. Que melhor metáfora para a parada militar que o esperava, impressionante de organização, rigor, velocidade
439«O caso dos jornalistas. Uma representação ao snr. presidente do ministério», República, 29-07-1916, p.1.
440Ibidem.
441Cf. «Revista do dia (...) Ainda o comboio especial e a imprensa», A Vanguarda, 28-07-1916, p. 1. 442Da análise de uma dezena de títulos da imprensa diária portuguesa destacamos aqui as peças jornalísticas publicadas a propósito da parada de Montalvo, nomeadamente as reportagens dos enviados especiais Hermano Neves, d’ A Capital: Diário Republicano da Noite; Freitas Júnior, d’ A
Montanha: Diario do Partido Republicano Português; José do Valle, do jornal O Mundo; Nobre Martins d’ O Século; e dois repórteres anónimos, respectivamente do Diário de Notícias e do diário evolucionista República.
169 combinada com uma precisão matemática e modernidade que parecia capaz de fazer eclipsar anos de atraso e marasmo do exército pátrio?
O repórter atravessara o país de estradas esburacadas na sua máquina plena de modernidade tal como Norton e a sua equipa arrancaram, pelo menos aparentemente, homens atrasados vindos do Portugal profundo, transmutando-os em soldados e cidadãos da República. Os «alinhamentos geométricos» da «multidão armada», matematicamente disposta em parada444 na campina imensa, atraem uma multidão de povo de dez léguas em redor, extasiada, tal como o repórter:
«Ah! não duvida. É bem um exercito aquilo que os meus olhos estão vendo. É bem o preambulo de uma epopeia o historico momento que acabo de viver tambem. Tenho ali, sob a minha vista extasiada, um quadro soberbo que nenhuma photographia pode reproduzir, que nenhum chronista pode sufficientemente descrever. (...) Estão ali vinte mil homens, pregados áquelle chão, formando um bloco formidavel como a base de um monumento eterno.»
Hermano Neves confessa terem-lhe vindo as lágrimas aos olhos de «pura commoção». A impressão que lhe ficou consegue ainda, no momento em que escreve, fazê-lo «estremecer de espanto». E remata: «O que em Tancos se tem realisado n’estes ultimos meses é verdadeiramente coisa prodigiosa.»445. Em editorial do dia seguinte, o jornal faz-se eco do que afirma ser o júbilo do país perante o espectáculo de renascimento do Exército português em Tancos, reforçando a tecla do prodígio que quase se afigura um milagre, prenúncio do que, à imagem de Tancos, se poderá fazer em Portugal446.
Idêntico fervor patriótico demonstra o enviado especial de O Século, Nobre Martins:
«As lagrimas borbulham-me dos olhos e eu sinto que não saberei descrever o que vou vêr. Estou diante de uma vasta planície, batida em cheio pelo sol, agora mais brilhante do que nunca. Meu adorado Portugal, como eu te bemdigo n’este
444A precisão matemática da parada é igualmente sublinhada pelo repórter do Diário de Notícias que realça a «assombrosa precisão» das manobras, «vendo-se as distancias rigorosamente marcadas e os alinhamentos como que traçados à regua». «A parada militar de ontem em Montalvo. Um espectaculo grandioso (...)», Diário de Notícias, 23-07-1916, p.1.
445Hermano Neves, «A PARADA DE TANCOS.Um dia memoravel para o nosso exercito», A Capital, 23-07- 1916, p.1
170 momento! O dia de hoje será, talvez, o prenuncio das mais brilhantes paginas da tua Historia. Como tu és ainda grande e que instante enorme o d’esta hora!»447.
É com expressões superlativas como esta que o repórter, emocionado, descreve as suas impressões do desfile militar, aproveitando para invectivar o que considera serem os maus portugueses que ousam denegrir a honra do país. Com os seus olhos, também ele, tal como o colega de A Capital, testemunha o «milagre» de «tão espantosa manifestação militar» que a todos arrebatou, convidados estrangeiros incluídos.
«O que está feito e eu vi (...) é, na verdade, bom e grande, espantosamente milagroso (...) Ao cabo de tres mezes, o milagre frutificara»448.
O diário evolucionista A República segue idêntica linha, ou não tivesse tido por fundador António José de Almeida, precisamente o chefe do Governo que concretizou Tancos e cuja fotografia aparece, juntamente com a do presidente Bernardino Machado e o ministro Norton de Matos, no artigo de página inteira dedicado ao dia histórico vivido em Tancos449. Apresentado como uma «efeméride notavel da obra patriótica da República» e como «o renascimento militar de Portugal.». Não admira, por isso, que, como nos diz o enviado especial do matutino democrático de Lisboa, O
Mundo, o Exército da República tenha sido «alvo de uma verdadeira apoteose»450.
No Porto, outro diário dos democráticos, A Montanha, vai mais longe, recorrendo à Bíblia para reforçar o feito da religião cívica republicana em Tancos. Aqui, seria até possível ver Lázaro a sair do túmulo, indubitavelmente ressuscitado por um ministro, qual Cristo, capaz de mover montanhas e dominar as águas dos oceanos:
«Portugal ressurge. (...) O lázaro ergueu-se e caminhou (...) voltou a ser um homem. Rosaram-se-lhe as faces, reaquiriu o vigor e a indomavel energia de outrora e aquela sua antiga fé ardente com que era capaz de remover montanhas e dominar os oceanos revoltosos, tornou a florir-lhe luminosamente no coração!»451.
447Nobre Martins, «A GRANDE JORNADA PATRIOTICA. A REVISTA MILITAR EM MONTALVO», O Século, 23-07-1916, p.1.
448
Nobre Martins, «REPOUSO NECESSARIO. NOTAS DE UM “REPORTER”», O Século, 28-07-1916, p.1 449
«UM DIA HISTÓRICO EM TANCOS. A PARADA DA DIVISÃO DE INSTRUÇÃO», República, 23-07-1916, p.1.
450José do Valle, «UM EXERCITO QUE NASCE», O Mundo, 23-07-1916, p.1. 451
«A alma da Patria em Tancos», A Montanha, 25-07-1916, p.1. Até referência em contrário, as citações que se seguem são deste artigo.
171 Ao prodígio de um exército renascido das cinzas, por via da fé de alguns, seguir- se-ão «prodigios de heroismo» dos soldados no campo de batalha. E para que não restem dúvidas de que se trata de uma questão de fé:
«Tancos é a ressurreição. (...) Já era tempo. (...) a Republica conseguiu, na escasseia meia duzia de anos da sua existencia, operar verdadeiros milagres.».
De todos eles, o maior, seria, na sua opinião, a transformação por que passou o Exército e a Marinha, «numa mutação prodigiosa de magica».
Não menos relevante do que ter a imprensa afecta ou simpatizante da União Sagrada a louvar entusiasticamente o sucesso de Tancos será o facto de a imprensa afecta às várias oposições ter sido momentaneamente neutralizada nos seus propósitos antiguerristas face àquele sucesso bélico.
Não tendo sido convidados a viajar no comboio especial, os jornais oposicionistas optaram por não enviar repórteres a Montalvo. Afinal, sobretudo no caso dos títulos monárquicos, tratava-se de testemunhar um sucesso da República num campo que lhes era caro. São «silencios eloquentes» comenta Rui Moreno do portuense A Montanha: «Pois fiquem-se sós, ruminando os seus odios (...) ante o espectaculo soberbo desta ressurreição nacional, deste bemdito explodir de energias, seivas, entusiasmos!»452.
Apesar de não podermos descartar o papel da censura na neutralização das eventuais críticas dos jornais oposicionistas453, não deixa de ser muito significativo que tomem a iniciativa de publicar elogios à operação de Tancos. Na verdade, a generalidade dos jornais da oposição acaba por reconhecer o valor da obra de Tancos, embora manifeste dúvidas ou discordância quanto ao modo como se concretizará a participação das tropas portuguesas em França. Nas palavras do jornal unionista A
Lucta: «Estamos, afinal, todos de acordo em principio. No que podem surgir
divergencias é no modus faciendi»454. O jornal não pode deixar de se regozijar com o elogio feito a Tancos por jornais estrangeiros tendo de concordar que
452Rui Moreno, «MUTISMO...PATRIOTICO», A Montanha, 28-07-1916, p.1
453São muito mais frequentes os espaços em branco nas colunas destes jornais – prova evidente dos trechos proibidos pela censura - do que no conjunto de títulos que atrás analisámos.
172 «Para começar a sua obra de reformador e reorganisador do nosso exército, o sr.