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3.3 Category 3. Species native to Norway
Os repórteres de imagem tiveram um papel não negligenciável na promoção de Tancos. No Verão de 1916, o ministro da Guerra é presença habitual na revista portuguesa de grande divulgação, a Ilustração Portugueza, sendo fotografado pela objectiva de vários repórteres, com destaque para Joshua Benoliel, enviado especial da revista a Tancos. Norton figura em muitas delas com chefe que tudo controla, em
459«Assim, ouvindo os applausos à obra de Tancos, e applausos que nos veem de fontes insuspeitas, nós fazemos côro, com todos os patriotas, não querendo saber quem é o agente de tal benemerencia.». «Espirito militar», A Nação, 23-07-1916, p.1
460S.a., «Tancos», O Dia, 22-07-1916, p.1.
461S.a., «FALTA UM KITCHENER!», O Dia, 08-06-1916, p.1.
462O que não significa que tenham parado por completo a campanha de contrapropaganda a propósito da beligerância da União Sagrada. Não só não deixaram escapar, como vimos, a oportunidade de tirar partido do caso do comboio especial, como fazem lobby pela situação dos capelães militares, para além de ridicularizarem a ordem ministerial de mobilização dos médicos, trazendo à colação casos pontuais como a do licenciado em medicina que nunca a exerceu e que é obrigado pelo «império rígido e inquebrantavel da vontade sem contraste e sem correctivo do sr. Norton de Matos» a ir para Tancos ser médico malgré lui «pondo porventura em risco a vida e a saude de muitos homens» (José Barbosa, «Medico á força», A Lucta, 11-07-1916, p.1).
174 todos os cantos de Tancos e arredores, tal como no país que se (ele) prepara para a guerra463. O ministro não se limita, porém, a autorizar e a tirar dividendos políticos do trabalho de Benoliel e de outros repórteres fotográficos da imprensa portuguesa. Na verdade, toma ele próprio a iniciativa, encarregando um fotógrafo civil (Arnaldo Garcês) de fazer uma reportagem oficial de Tancos464.
As imagens em movimento são o outro suporte de propaganda moderno no qual o Ministério da Guerra vai apostar. O investimento na propaganda pelo cinema, por ocasião da operação Tancos, tem, essencialmente, dois objectivos. Antes de mais, visa mostrar o povo em armas ao povo que frequenta esse espectáculo ainda à procura de um estatuto social465. Na verdade, o cinema nos anos 10 é um entretenimento barato, em salas geralmente construídas para outros efeitos. Era um espectáculo popular, ideal para levar a um público alargado os treinos de Tancos e, em especial, a parada militar de Montalvo.
Com ela, o povo «tem já teatro, o que é indispensável para a multidão. O povo
só aprende olhando.»466 No entanto, mais do que um espectáculo teatral, a operação
Tancos é montada pelo ministério de Norton como uma autêntica produção cinematográfica. O povo em armas é a personagem colectiva encarnada pelos 20 000
463Ilustração Portugueza, 1916, passim. Como lembra António Ventura, a publicação vale sobretudo pelo impacto das fotografias que inclui, bem como pelo seu público alargado, como indicam as grandes tiragens que alcançou. Foi a revista que, em Portugal, faz as vezes de revista de guerra, muito mais do que a revista oficial de propaganda criada por iniciativa do governo português, Portugal na Guerra (António Ventura, «A guerra e a imprensa portuguesa» in Aniceto Afonso, Carlos de Matos Gomes (coord.), Portugal e a Grande Guerra : 1914-1918, Matosinhos, QuidNovi, 2010, pp. 497-503). Esta última, de menor periodicidade (mensal, contra a periodicidade semanal da Ilustração Portuguesa) – que, mesmo assim, nem sempre foi cumprida –, apenas sai em 1917, durante escassos meses, visando mais o público estrangeiro do que o português (a revista tinha a sua sede em Paris e era em parte bilíngue).
464Pedro Soares Branco, Exército Português: Memória Ilustrada: The Portuguese Army: An Illustrated
Memory, S.l., Quimera, 2005; António Pedro Vicente (coord.), Arnaldo Garcez: Um Repórter fotográfico na Primeira Grande Guerra, Lisboa, Centro Português de Fotografia, 2000; Joaquim Vieira, «Um século
de fotografia marcial» in Manuel Themudo Barata, Nuno Severiano Teixeira (coord.), Nova História
Militar de Portugal. Vol. 5, Rio de Mouro, Circulo de leitores, 2004, pp. 415-439.
465Sobre o conceito de povo em armas (de que a parada de Montalvo foi a manifestação mais espectacular) já atrás nos referimos. Sobre o conceito de «povo» no cinema, na sua dupla acepção (no ecrã, como personagem, e na sala, como público), cf. Tiago Baptista, «Cinema, povo e público» in José Neves (coord.), Como se faz um povo: ensaios em história contemporânea de Portugal, Lisboa, Tinta-da- China, 2010, pp. 455-467.
175 portugueses que desfilam para mostrar a Portugal e ao mundo que a República Portuguesa está em condições de combater na Flandres.
A parada é registada em duas produções cinematográficas, uma da iniciativa do Ministério da Guerra e outra de uma empresa particular com sede no Porto, a Invicta Film.
A fita da Invicta Film, em duas partes, intitula-se “A Mobilisação Portugueza em Tancos”. A sua estreia a 3 de Agosto no Salão Teatro Passos Manuel, do Porto, é publicitada na imprensa como um «acontecimento cinematografico de mais sensacional e palpitante actualidade». O evento é um sucesso, a ele assistindo centenas de espectadores, com sala esgotada467.
A outra fita de Tancos é anunciada para breve, em duas outras salas de cinema da capital portuense, o Salão da Trindade e o High-Life (Batalha). O filme “Grande parada militar em Montalvo”, também apresentado como “Exercícios militares em Tancos”, é fruto de uma
«incumbencia especial do Ministerio da Guerra, sendo dirigido e fiscalisado por um distincto official do Exercito (…)A sua divulgação foi autorizada pelo respectivo Ministro, como meio de propaganda dos progressos militares realisados pelos nossos exércitos.»468
O carimbo do Ministério é apresentado como garantia suplementar de autenticidade. De facto, o anúncio d’O Primeiro de Janeiro reclama que é a «única [fita] que não contem inutilidades», num claro remoque ao documentário concorrente da Invicta Film. O filme fora uma encomenda especial feita pelo ministro ao capitão reformado Carlos Nogueira Ferrão469 (1871-1938), sendo rodado por um operador do Laboratório de Fitas Cinematográficas Portuguesas, Ernesto de Albuquerque (1883- 1940)470. Será exibido na maior sala de espectáculos da capital, o Coliseu dos Recreios,
467«A divisão militar em Tancos Um «film» sensacional», O Primeiro de Janeiro, 04-08-1916, p. 2. 468«Grande parada (…)»,O Primeiro de Janeiro, 11-08-1916, p. 2.
469«Um dia histórico em Tancos. A parada da Divisão de Instrução», República, 23-07-1916, p. 1. Sobre Ferrão, veja-se Arquivo Histórico-Militar (AHU), Cx 2396, e M. Félix Ribeiro, Invicta Film, uma
organização modular, Lisboa, Sec. Estado da Informação e Turismo, 1973, p. 82.
470
Ferrão, recentemente reformado do Exército, era um entusiasta não apenas da imagem fixa mas também da imagem em movimento, fazendo parte, desde 1912, dos corpos gerentes de uma empresa de distribuição cinematográfica (a Companhia Cinematográfica de Portugal), e chegando a ser proprietário de um animatógrafo de Lisboa. A escolha de Albuquerque, por seu turno, era, à partida, garantia de sucesso, tendo em atenção o eco que obteve a primeira fita que realizou em 1909, sobre o
176 a 10 de Agosto de 1916. Aparece sob a designação de «Exercícios de infantaria, cavalaria e artilharia pela Divisão Militar de Tancos», sendo considerado, por um vespertino de Lisboa, «um film nacional e sensacional» que levou o «extraordinário esforço do nosso exercito» ao público do Coliseu que «enchendo literalmente a vasta plateia, manifestou por vezes o seu agrado e o seu patriotismo com prolongadas e vibrantes palmas»471.
Apesar de não se conhecer, na globalidade, o circuito de exibição e audiência de ambos os filmes, constatamos que estiveram em cartaz, com enorme sucesso, em grandes salas de cinema das duas principais cidades do país, pelo menos.
Das filmagens de Tancos sobreviveram menos de dois minutos de película animatográfica que foram integrados no Journal Actualité da Pathé e nas Hearst Pathé
News472 no ano seguinte, quando as tropas portugueses efectivamente se juntaram ao exército britânico em França473. Ao serem exibidas em França, nos EUA e, verosimilmente, também na Grã-Bretanha474, contribuirão para a propaganda do esforço de guerra português no exterior. Na versão do jornal de actualidades exibida
cacau de São Tomé, por incumbência da Sociedade de Geografia de Lisboa. Estava então ao rubro a polémica internacional à volta do cacau escravo. A celeuma, mais do que o exotismo colonial do tema, terá garantido ao filme de Albuquerque uma ampla divulgação, tendo sido, reclama a Cine-Revista, «exibido nos principaes "écrans" do mundo!» (F. Gomes de Sousa, «Ernesto d’Albuquerque», Cine-
Revista, Ano IV — N.o 44, 15-11-1920, pp.1-2). Norton, que, como vimos, devia, em parte, a sua entrada na cena política republicana às posições antiesclavagistas que assumiu na imprensa em 1910, precisamente a propósito do cacau de São Tomé, teria seguramente conhecido e apreciado esse anterior sucesso de Albuquerque.
471«As manobras em Tancos: O “film” do Colyseu» A Capital, 11-08-1916, p. 2. 472
GAUMONT PATHÉ ARCHIVES (GPA), Journal Actualité Pathé / Hearst Pathé News / 1917 117/ 16384, Contingent portugais, 1917, accessed 12 May 2013, at http://www.gaumontpathearchives.com.
473Não temos como confirmar se foi à fita da Invicta ou à fita do Ministério que a Pathé foi buscar as imagens de Tancos. As duas vias são verosímeis. Por um lado, a Invicta Film tinha um contrato com a
Pathé e a Gaumont para fornecimento de imagens de actualidades portuguesas para França (M. Felix
Ribeiro, Filmes, figuras e factos da história do cinema português, 1896-1949, Lisboa, Cinemateca Portuguesa, 1983, p. 71). Não seria, portanto, de estranhar que as imagens do filme da Invicta tivessem sido integradas nos jornais de actualidades produzidos em França. Por outro lado, sabemos que, em finais de 1916, o ministro da Legação de Portugal em Paris, João Chagas, diligencia junto de Norton para que o filme de Tancos seja exibido em França, capitalizando, assim, para efeitos de propaganda, o interesse dos meios de comunicação franceses pelo iminente desembarque das tropas portuguesas em França (ANM, Carta de João Chagas a Norton de Matos, Paris, 18-12-1916, mns, ass).
474Uma vez que os jornais de actualidades franceses dominavam o mercado britânico. Nicholas Reeves, «Official Film Propaganda in Britain durign the First World War» in The power of film propaganda: myth
177 nos EUA, por acordo com a Pathé, sublinha-se: «The young Republic is supplying its
quota of men to the Allied Armies and thousands of recruits prepare for duty» 475.
Em Portugal, além da propaganda ao esforço militar em salas de cinema para o público em geral, a fita das manobras de Tancos produzida por iniciativa de Norton é exibida por este em sessões exclusivas a altas personalidades estrangeiras. É o que acontece com o major-general Barnardiston (1858-1919), chefe da missão militar franco-britânica que, a partir de 30 de Agosto, estará em Portugal para negociar as condições em que se irá concretizar a participação de Portugal no esforço de guerra na frente ocidental. Pouco depois, é convidado a assistir, na companhia do ministro da Guerra, a uma sessão privada de cinema com filmes do campo de Tancos que considera «very good»476. Dois dias depois, o major-general britânico fará, num relatório oficial para o War Office um balanço globalmente positivo das reuniões até então havidas e das visitas feitas pela missão que chefia:
«Both I and my French colleagues have been impressed by the energy and system with which the Portuguese Military Authorities are working at the strengthening and development of their military resources. Great attention is being paid to training, and to the adequate equipment of the Expeditionary Force, and the accumulation of supplies in ammunition (as far as production admits) and equipment.
It is not possible to give a very decided opinion on the qualities of the Portuguese Army after such a short acquaintance. I can only give my impression, gathered from the opportunities already mentioned. They are, on the whole, distinctly favorable, and I see no reason why the Portuguese Expeditionary Force should not, after further training, be of considerable use. (..) it would be unwise not to take advantage of much assistance as they are ready to give. They will certainly be able to supply one reinforced division and perhaps two, with a third Division in reserve in Portugal (…)»477
São palavras particularmente significativas, atendendo a que são escritas escassas duas semanas após Barnardiston ter chegado a Lisboa com instruções precisas do War Office para convencer as autoridades portuguesas a restringir a sua participação na guerra à frente africana, enviando para a frente europeia apenas trabalhadores e material de guerra e, nunca, em caso algum, tropas. Que, ao fim de
475Intertítulos na versão exibida nos EUA. GPA, Journal Actualité Pathé / Hearst Pathé News / 1917 117/ 16384, Contingent portugais, 1917, at http://www.gaumontpathearchives.com, acedido a 12-05-2013. 476KING’S COLLEGE LONDON - LIDDELL HART CENTER FOR MILITARY ARCHIVES (KCL – LHCMA),
Barnardinston Papers, Barnardiston: 3/3, [Diary] 1916 , mns.
477
NA-UK, WO/106/546, General remarques. Cópia de of. de N.W. Barnardiston para o chefe do Estado- Maior Imperial, Lisboa, 15-09-1916.
178 tão poucos dias, o oficial britânico tenha modificado significativamente a sua posição, não terá apenas a ver com o facto de não querer ser ultrapassado pelos franceses, que não escondem o seu interesse em acolher as tropas portuguesas no seio do próprio exército. Os contactos entretanto havidos com as forças portuguesas — não apenas nas reuniões oficiais e visitas a vários estabelecimentos militares mas também por esta via do documentário cinematográfico das manobras de Tancos — terão seguramente pesado na acentuada melhoria da imagem da valia do exército português com que Barnardiston inicialmente chegara a Lisboa.
Vimos, assim, que a encomenda, por parte do Ministério da Guerra, de um documentário cinematográfico das manobras militares de Tancos foi parte integrante da operação de propaganda montada pelo ministro da Guerra português Norton de Matos para demonstrar que o Exército português estava pronto para combater em França. O filme oficial de Tancos foi usado simultaneamente para fortalecer a sua posição nas negociações com os aliados para determinar o modo e a escala em que Portugal iria participar no teatro da Flandres. A exibição privada nesta frente da diplomacia militar foi paralela à exibição pública no circuito comercial cinematográfico português. O facto de, concomitantemente, a mais importante empresa cinematográfica comercial do país, com sede no Porto, ter rodado um outro filme de Tancos, e nomeadamente da parada de 22 de Julho, e ambos terem sido um sucesso de bilheteira, revela a apetência do público português por ver guerra no ecrã, mesmo se, como foi o caso, ainda não se tinha passado da guerra a fingir em campos de treino militar para a guerra a sério nas trincheiras.