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1967757 além de afinidade com a História nova - a reinterpretação da historica do Brasil que estava em andamento pelo ISEB758.

Sérgio Ferro defende que “A nova pintura arma-se de todos os instrumentos disponíveis” a fim de “dizer o novo” da maneira que o momento histórico pós-64 necessita, ou seja, “com a crueza necessária”759. Segundo Sérgio Ferro, os problemas que a pintura nova examina são: o “do

subdesenvolvimento, imperialismo, o choque direita-esquerda, o (bom) comportamento burguês, seus padrões de alienação, a “má-fé”, a hipocrisia social, a angústia generalizada, etc”760 . Ele defende ainda que a unidade do “novo movimento da pintura brasileira”, que possa ser encontrada “na sua posição agressiva diante da situação abafante, no seu não conformismo, na sua colocação da realidade como problema em seus vários aspectos, na sua tentativa ampla e violenta de desmistificação”761.

Para o arquiteto a “pintura nova” seria um retorno à figuração com intuito de ampliar a comunicação entre artistas e público, com linguagem agressiva e proximidade formal à Pop art norte americana, em suas palavras:

“ Reaproveitava a pop art como uma linguagem nova, nossa. A diferença é que a pop art americana era uma pintura a-crítica: via constatava e retratava a realidade urbana deles. No nosso caso, queríamos transformar a pintura numa arma. Era um período de censura, de pouca possibilidade de comunicação. [...]Não era uma pintura de tese, mas de raiva, participação,

hostilidade à violência. E uma arma de revolução.” 762

Neste texto, Sérgio Ferro antecipa o tom agressivo que adotará nos textos críticos de arquitetura: Arquitetura Nova e A casa popular. No entanto, o primeiro texto que denota a viragem de pensamento do Grupo, em relação à arquitetura, foi escrito por Rodrigo Lefèvre como veremos a seguir.

755 Os filmes inaugurais do Cinema Novo foram: Vidas Secas de Nelson Pereira dos Santos, Os fusis de Ruy Guerra e Deus e diabo na terra do Sol de Glauber Rocha; outro importante filme a considerar é Bahia de todos os Santos de José H.Trigueirinho Netto, de 1960.

756 O Manifesto “Música Nova”, 1963, assinado por Damiano Cozzella, maestro Rogério e Regis Duprat, Sandino Hohagen, maestro Júlio Megdáglia, Gilberto Mendes, Willy Correia de Oliveira, e Alexandre Pascoal.

757 Dos artistas Hélio Oiticica, Maurício Nogueira Lima e Waldemar Cordeiro.

758 O ISEB se mobilizou para escrever uma nova interpretação da História do Brasil, trabalho que foi parcialmente destruído pelo Regime Militar. Cf. Revista

Civilização Brasileira, n°4 e n°8 de 1965 e Revista Visão, n°5, vol. 44, 11 março de 1974.

759 FERRO, Sérgio. Vale tudo. Arte em Revista, Editora Kairós, São Paulo, ano I, n°2 , maio/ago, p.26-27, 1979.( grifo nosso). 760 Ibidem, (grifo nosso).

761 Ibidem, ibidem.

762 Sérgio Ferro em entrevista a Marcelo Ridenti. Cf. RIDENTI, Marcelo. Em busca do povo brasileiro: artistas da revolução, do CPC à era da tv. Rio de Janeiro: Editora Record, 2000, p. 192.

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Arquitetura: uma crise em desenvolvimento ou uma falsa crise, 1965-1966

Perguntas de um trabalhador que lê Quem construiu a Tebas de sete portas? Nos livros estão nomes de reis. Arrastaram eles os blocos e pedra? E a Babilônia várias vezes destruída – Quem a reconstruiu tantas vezes? Em que casas Da Lima dourada moravam os construtores? Para onde foram os pedreiros, na noite em que a Muralha da China ficou pronta? Bertolt Brecht 763 Depois do cancelamento de seu projeto para a Cidade Satélite de Cotia, da realização de projetos de escolas em coautoria764 e da publicação de seus trabalhos na Revista Acrópole, o Grupo Arquitetura Nova firma posição crítica ao status quo arquitetônico alinhado ao “projeto nacional- desenvolvimentista”.

Em “Uma crise em desenvolvimento”765, Rodrigo Lefèvre, discorre sobre a estrutura social estratificada, hierarquia social e divisão social do trabalho e valores reificados766 da sociedade, como argumenta:

“[...] o capitalismo aparece dinamizando-a ao permitir uma certa e relativa mobilidade na escala social com base na disputa da posse dos bens de produção, estabelecendo um novo sistema de valores ao condicionar uma nova estratificação à divisão social do trabalho. Em ambas as estruturas “os valores (mercadoria, preço, dinheiro etc) aparecem de forma reificada,

ocultando a essência de relações entre homens (Lukács, G. p.19-20)” 767

Rodrigo Lefèvre cita “Introdução aos escritos estéticos de Marx e Engels”, do filósofo e crítico

de literatura Gyorgy Lukács768, considerado um dos autores marxistas mais influentes do século XX e

um dos fundadores do marxismo ocidental, no seguinte trecho:

“[...] Torna-se necessário um trabalho mental de tipo completamente particular para que o homem do capitalismo penetre nesta fetichizaçãoe descubra no interior das categorias

763 BRECHT, Bertolt. Poemas 1913-1956. São Paulo: Ed. 34, 2000, p. 166.

764 Rodrigo Lefèvre, Flávio Império e Sérgio Ferro realizam oito projetos de escolas nos anos de 1966 e 1967, a saber: Ginásio Estadual e Escola Normas, Brotas, 1966; Centro Recreativo de crianças, São Paulo, 1966; Estadual de Vila Ercília, São José do Rio Preto, 1966, Ginásio Estadual Jorge Cury, Piracicaba, 1967; Ginásio; Instituto de Educação Sud Menucci, Piracicaba, 1967. Grupo Escolar Vila Progresso. Cf. KOURY, Ana Paula: Grupo arquitetura Nova: Flávio

Império, Rodrigo Lefèvre e Sérgio Ferro. São Paulo: Romano Guerra Editora: EDUSP:FAPESP, 2003.

765 LEFÈVRE, Rodrigo Brotero. Uma crise em desenvolvimento. Revista Acrópole, n° 333, out. , p. 22-23, 1966.

766 György Lukács (1885-1971) é considerado um dos autores marxistas mais influente do século XX, especialmente pelo livro “História e consciência de classe”, de 1923 o qual influenciou a geração de filósofos - como Theodor Adorno, Walter Benjamim, Herbert Marcuse da Escola de Frankfurt. Seu livro discute a questão da “ideologia do proletariado” como determinante para o destino da “revolução” onde ele desempenharia papel principal uma “missão universal”, ou seja, compreensão de sua situação de classe. Outro livro igualmente importante de Lukács é “Estética”, de 1963 sem tradução para o português. O filósofo húngaro estudou profundamente o conceito marxista de alienação, depois desenvolveu seu próprio conceito a ‘reificação’. Na reificação tudo de coisifica, até os seres humanos. Cf. FREDERICO, Celso. Lukács: um clássico do século XX. São Paulo:Editora Moderna, 1997.

767 LEFÈVRE, op. cit. 768 FREDERICO, op. cit.

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reificadas (mercadoria, dinheiro, preço etc) que determinam a vida cotidiana dos homens a

verdadeira essência delas, de relações sociais, de relações entre homens.” 769

Rodrigo Lefèvre defende que a democratização deve aparecer na “participação popular na produção de arquitetura, no seu consumo enquanto atendimento de necessidades materiais e na sua absorção enquanto expressão” 770. Para ele, a arquitetura estaria num contexto diferente da época da

construção de Brasília, quando foi possível a “experimentação em todos os níveis” 771; neste novo

contexto de crise até a proposta sem importância “passa-se a dedicar uma atenção anormal,

patológica, pretendendo no máximo estabelecer um ‘documentário da linguagem arquitetônica’ quando

não só se situar no plano do ‘modismo” 772. Para ele, este “modismo” - que fora motivado por Brasília seria um “projeto de modernização insustentável”773.

Rodrigo Lefèvre assumiu posição de “narrador” da história da arquitetura, um participante ativo de seu tempo, conforme perspectiva de G.Lukács774, que definiu que o contraste entre “o participar e o

observar não é casual, pois deriva da posição de princípio assumidapelo escritor (aqui arquiteto),em face da vida, em face dos grandes problemas da sociedade” 775, ou seja, um pensamento que se “reflete

na práxis”.776

Rodrigo Lefèvre ratifica sua preocupação com os problemas sociais, citando o sociólogo K. Mannheim777, quando defende a necessidade de “experiências de laboratório para as obras de

arquitetura” a fim de atender a “urgência crescente de habitações para camadas cada vez mais amplas da população”. Ele conclui afirmando que os arquitetos deveriam se posicionar ou “serão

769 LUKÁCS, Gyorgy. Ensaios sôbre litaratura. Tradução Leandro Konder, Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 1965, p. 20. 770 LEFÈVRE, op. cit.

771 Ibidem. 772 Ibidem. 773 Ibidem.

774 Lukács analisa posturas dos escritores, de um lado Balzac, Stendhal, Dickens, Tolstoi que representam a “sociedade burguesa que está se consolidando através de graves crises”, onde eles “viveram esse processo de fomação em suas crises, participaram ativamente dele” portanto narradores, ao passo que de outro lado Flaubert e Zola que iniciaram suas carreiras numa “sociedade burguesa já cristalizada” estariam formando uma classe de escritores profissionais, no sentido da divisão capitalista do trabalho e se tornaram “observadores críticos da sociedade burguesa” e suas opiniões subjetivas denotam que eles são “filhos da época em que viveram e, por isso, a concepção que eles tinham do mundo sofre constantemente o influxo das ideias do tempo”. LUKÁCS, Gyorgy. Narrar ou

Descrever? In. LUKÁCS, Gyorgy. Ensaios sôbre litaratura. Tradução Leandro Konder, Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 1965, p. 57.

775 LUKÁCS, Gyorgy. Ensaios sôbre litaratura. Tradução Leandro Konder, Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 1965, p. 58. 776 Ibidem, p. 58 (grifo nosso)

777Karl Mannheim (1893-1947) sociólogo judeu nascido na Hungria participou de grupo de estudos de G. Lukács, do sociólogo Alfred Weber. Seu principal trabalho é “Ideologia e Utopia: uma introdução asociologia e conhecimento”, publicado em 1929. Segundo Tom Burden o livro é uma análise sistemática da utopia, onde o autor faz uma “distinção entre o pensamento ideológico, que descreve uma versão idealizada da realidade corrente, e o pensamento utópico, que

almeja uma nova espécie de sociedade”. Cf. OUTHWAITE.W.; BOTTOMORE, T. 1º.ed. Dicionário do pensamento social do século XX.Rio de Janeiro: Jorge

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progressivamente excluídos da vida pública passando a realizar obras individuais e independentes de um contexto arquitetônico amplo” 778 .

A análise do texto de Rodrigo Lefèvre revela sua aproximação com o marxismo ocidental de análise crítica da sociedade779, que difere da orientação materialista do PCB, que era filiado. O pensamento marxista ocidental se difundiu através de vários autores como: G. Lukács, J.P.Sartre, H.

Lefèbvre, que influenciaram a I.S., especialmente em “A sociedade do espetáculo”, de 1967, de Guy

Debord 780; dos membros da Escola de Frankfurt de T. Adorno, M. Horkheimer, W. Benjamim e H. Marcuse, este último a principal influência da New Left781 como vimos. Autores que foram publicados no Brasil pela Editora e a Revista Civilização Brasileira782.

O professor M. Buzzar analisa “Uma crise em desenvolvimento” de Lefèvre, como

representativo do debate arquitetônico, especialmente depois de 1964, quando “as diferenças de visões se aprofundam estabelecendo de forma clara não somente interpretações distintas quanto ao

desenvolvimento, mas também concepções arquitetônicas que tendiam a se distanciarem”783, em suas

palavras:

“[...] a arquitetura deveria responder em termos culturais (forma) e em termos técnico-produtivos (processo evolutivo) a condição nacional e se possível unificando as duas questões na mesma poética, o que (auto) situava a arquitetura brasileira numa posição

privilegiada, e delicada no projeto nacional-desenvolvimentista.” 784

Rodrigo Lefèvre estaria debatendo com J.Artigas e respondendo ao texto “Uma Falsa Crise”785, que fora publicado na revista Acrópole dedicada aos trabalhos do Grupo Arquitetura Nova. J.Artigas tinha posição moderada e coerente às diretrizes do PCB786 em relação ao momento político. Para J. Artigas, a arquitetura não estaria passando por uma crise e sim pela “superação da fase funcionalista podendo limpar o seu ideário de um certo número de falsos conceitos”787 . J.Artigas em seu texto

778 LEFÈVRE, Rodrigo Brotero. Uma crise em desenvolvimento. Revista Acrópole, n° 333, out. , p. 22-23, 1966.

779 No Brasil, o pensamento marxista ocidental foi difundido pela Revista Civilização Brasileira, a partir da tradução de textos inéditos dos principais autores marxistas ocidentais, estes lidos por todos os intelectuais, artistas e também arquitetos engajados no processo político.

780DEBORD, Guy. A sociedade do espetáculo. Rio de Janeiro: trad. Estela S.Abreu, Contraponto, 1997.

781 ROSZAK, Theodore. A contracultura: Reflexões sobre a sociedade tecnocrática e a oposição juvenil. Rio de Janeiro: Editora Vozes, 1972.

782 A Revista Civilização Brasileira (1965-1968) teve grande repercussão e distribuição, seus números chegaram a sair com 40 mil exemplares, em formato de livro com em média 200 páginas. Considerada um “marco histórico na produção intelectual de esquerda brasileira” e uma das publicações “mais ‘cultas’ de maior difusão na história desse tipo de imprensa periódica”. Foi responsável de difusão do pensamento de vários autores marxistas ocidentais. Cf. CZAJKA, Rodrigo. Redesenhando ideologias: cultura e política em tempos de golpe. História: questões e debates, Pós-História, UFPR, Curitiba, n°40, p. 37-38, 2004. Cf. MOTA, Carlos Guilherme. Ideologia da cultura brasileira. São Paulo: Ática, p. 219.

783 BUZZAR, Miguel Antonio. Rodrigo Brotero Lefèvre e a ideia de vanguarda.Tese Doutorado, FAUUSP, São Paulo, 2001, p. 11. 784 Ibidem.

785 ARTIGAS, Vilanova. Uma falsa crise. Revista Acrópole, São Paulo, n° 319, p. 21-22, jul. 1965.

786 A postura do PCB a partir da “Declaração de março”, propunha que a revolução seria antiimperialista, antifeudal nacional e democrática. O caminho para este objetivo seria uma “frente única de forças sociais”- proletariado, camponeses, pequena burguesia, e burguesia. Cf. Declaração Sobre a Política do PCB Voz

Operária, 22 de março de 1958.

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