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Lebrun insiste no questionamento que vem realizando ao longo de todo o livro: o que o analista pode fazer diante dessas questões que se apresentam com o surgimento da nova economia psíquica? Para Melman, o analista só pode fazer alguma coisa quando alguém se dirige a ele no registro da transferência, isto é, se chega a obter de seu paciente a instauração de uma demanda que seja consistente e que se dirija ao analista.

Um tópico importante no livro, principalmente para os profissionais da área “psi”, é intitulado A psiquiatria diante da nova economia psíquica, que segue as já citadas teorizações tanto acerca da hiperatividade infantil – e a maneira que é comumente tratada atualmente – quanto ao papel dos profissionais psis. Acerca desta questão, Lebrun admite concordar que o analista é impotente em certas situações. No entanto, ele questiona em relação ao psiquiatra, sobre o que ele poderia fazer diante de uma tal organização psíquica.

Melman (2008a) é enfático ao responder: “Você bem sabe, como eu, o que o psiquiatra faz!17 Ele distribui phármakon, moléculas-medicamentos que também são poções” (p. 100). Este termo phármakon é retomado por Melman nesse momento, já tendo sido citado em outro ponto do texto no qual se refere a este conceito citando Jacques Derrida, e seu texto A farmácia de Platão, considerado por Melman como “um artigo muito bonito” (2008a, p. 59). No texto citado, Derrida aborda minuciosamente a ambiguidade e o caráter indecidível do termo phármakon, que tanto pode significar remédio, quanto veneno. Ou seja, tanto pode curar, quanto matar; ajudar e prejudicar; melhorar e piorar.

      

17 Importante destacar que tanto Melman quanto Lebrun são psiquiatras. No entanto, os dois parecem ser mais

Essa escolha do termo é bastante pertinente para pensarmos nos remédios administrados para tratar certas condições, doenças e transtornos (como a citada hiperatividade).

[...] suspeita do phármakon em geral, mesmo quando se trata de drogas utilizadas com fins exclusivamente terapêuticos, mesmo se elas são manejadas com boas intenções, e mesmo se elas são eficazes como tais. Não há remédio inofensivo. O phármakon não pode jamais ser simplesmente benéfico. [...] a essência ou a virtude benéfica de um phármakon não o impede de ser doloroso (DERRIDA, 2005, p. 46).

Para Melman, é importante se questionar se o psiquiatra tem o saber necessário para pesar no debate, pois este arrisca se ver colocado a serviço da desumanização, no nível dos dispositivos químicos. Assim, um simples vendedor, em seu lugar, poderia bastar. Para ele, estaríamos efetivamente tomando esse caminho. Ele dá o exemplo do luto, que é um estado normal, e que hoje muitos psiquiatras tendem a tratá-lo como doença, pois o confundem com estado depressivo.

Os médicos, e em particular os psiquiatras, infelizmente se tornaram os servidores do poder. [...] antes de estarem a serviço do doente, estão hoje a serviço do imperativo social. O qual [...] diz que o paciente não tem nem o tempo, nem o direito, nem a possibilidade de fazer um luto: é preciso que ele esteja no seu posto de trabalho. E, se não está, é porque está doente, então lhe damos drogas. Drogas que o impedem de fazer seu luto, que o mumificam (MELMAN, 2008a, pp. 101-102).

Sobre as possibilidades de atuação do analista, para além da clínica com pacientes que o procuram, Melman frisa que este é convocado a falar, a se posicionar em colóquios, congressos, intervenções, inclusive públicas, sobre diversas questões sociais, como a genética, a família, os problemas de filiação, de paternidade, etc. O problema, para ele, é que a fala do analista muitas vezes é desviada de sua finalidade, quer dizer, é colocada a serviço das intenções dominantes, dos discursos dominantes. Frequentemente se convoca um analista somente para confirmar ou autorizar algo que já está pronto, que já se quer que seja legitimado. “A missa era dita, você só estava lá para servir de caução ou de animador!” (Ibid, p. 104).

Outro tema recorrente na tese de Melman sobre a nova economia psíquica é a de que, hoje, todos os gozos são legitimados, conforme já abordamos. Nesse sentido, Lebrun questiona acerca da multiplicação dos recursos à justiça, ou seja, o apelo mais frequente do social ao direito. Melman concorda com ele nesse ponto, afirmando que o apelo do meio social ao direito é cada vez mais significativo. Uma explicação para isso, segundo Melman (2008a), é que, considerando a foraclusão do terceiro, as relações hoje em dia só podem ser duais, e essa dualidade vai contratualizar os conflitos, isto é, conduzir a que sejam regularmente vividos como falta, atribuível a um ou a outro. Assim, ao serem confrontadas com a busca desse terceiro que falta, as pessoas dirigem-se para o campo da justiça, à qual se reconhece o mérito de tratar cada sujeito do direito como igual.

Podemos pensar que a ética da psicanálise e a ética do direito possuem elementos bem diferentes. Enquanto o direito trabalha com um sujeito possuidor de direitos, a psicanálise trabalha fundamentalmente com um sujeito possuidor de desejos, e guiado por estes. A ética do direito tende a igualar todos, pois todos devem ser iguais perante a lei, enquanto na ética da psicanálise o sujeito do desejo é único, cada um deseja de uma forma diferente e deseja algo peculiar.

Lebrun pergunta se o próprio direito poderia estar contaminado por essa nova economia psíquica. Parece-nos uma pergunta desnecessária, de certa forma, pois remete a algo que aparece implícita e explicitamente ao longo de toda a discussão entre os dois autores, isto é, a constatação de que essa nova economia funciona por conta própria, ou seja, estaríamos todos, inevitavelmente, contaminados, tomados por ela. Melman (2008a) responde afirmativamente: “Mas ele está! Está, já que o direito atual estipula que qualquer reivindicação é legítima e deve ser satisfeita, senão há injustiça e dolo” (p. 106).