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No capítulo IV, que inicia com um tópico intitulado A impressão da nostalgia, Melman retoma a tese que orienta todo o livro: a emergência dessa nova economia psíquica, e a ideia de que ela se instala sem ideologia organizadora, de que se organiza à revelia dos sujeitos. É estranho pensar que toda uma forma organizadora das relações sociais se dê à revelia de quem participa dela, pois se ela chegou a se instalar, certamente houve um solo fértil para isso. Em consonância com o que Melman afirma, pensamos que a nova economia

psíquica se instala sem o nosso conhecimento, talvez de forma sutil ou automática, sem que nos demos conta. No entanto, há algo que fazemos ou algo que acontece que permite essa mudança de economia.

Segundo Lebrun, ela se instala sem o nosso conhecimento porque não há uma ideologia organizadora, como costumava acontecer numa cultura mais ligada à religião, que tem seus princípios, leis e regras bem definidos. Para Melman, a cultura ligada à religião obriga os sujeitos ao recalque dos desejos e, portanto, à neurose, enquanto estamos nos dirigindo a outra em que se propagandeia o direito à expressão livre de todos os desejos e à plena satisfação deles.

Então Lebrun questiona se estaríamos condenados ou a voltar atrás – que seria improvável, mesmo que se o quisesse – ou ao quadro inquietante que Melman descreve. Percebemos que este trecho do livro contém não somente a tese que organiza o pensamento de Melman – e que ele vem expondo e discutindo ao longo das entrevistas – mas também a parte que mais nos interessa nesta pesquisa: a relação que o autor percebe entre essa nova economia psíquica e a perversão.

Ao responder esta questão de Lebrun, Melman fala sobre uma possível sensação que os leitores – e também o próprio Lebrun – podem ter até este momento do livro: a de que haveria certa nostalgia do antigo regime, e que esta nova economia estaria seguindo em direção a um quadro cada vez mais preocupante. Melman responde dizendo que lamenta que sua fala tenha podido dar o sentimento de que ele tinha alguma nostalgia do antigo regime, “[...] uma espécie de lamentação da boa velha neurose de papai, da neurose articulada em torno do amor do pai. De jeito nenhum desejo que se volte, para escapar do mal-estar atual da civilização, àquele que Freud descrevia” (MELMAN, 2008a, p. 108).

Mas, para ele, o problema seria que a maneira pela qual se gera o mal-estar hoje em dia conduz a cumprir o fantasma do neurótico, isto é, a imaginar que a perversão seria a cura da neurose. Ele complementa lembrando que a perversão, apesar das seduções que pode exercer, não é, se nos referirmos ao ponto de vista psicanalítico, uma solução mais sustentável que as outras.

Retomando a questão de o sujeito contemporâneo desejar viver várias existências, muitas possibilidades, várias modalidades de funcionamento, Lebrun comenta: “Lacan, no final do colóquio sobre a psicose da criança, se perguntou se não se devia falar de ‘criança generalizada’ para qualificar aquilo a que, cada vez mais, se assemelham nossas condutas”

(LEBRUN In: MELMAN, 2008a, p. 144). Então ele questiona se o que Melman vem descrevendo não se refere também à criança, a quem, no imaginário, todas as vias são permitidas. Melman concorda que vivemos numa infância generalizada, já que a nova economia psíquica, com a relação com o objeto que ela institui, faz mais de nós bebês, criaturas dependentes, inteiramente tributárias da satisfação, como em estado de adição diante desta.

Lebrun, cujas entrevistas com Charles Melman culminaram no livro O Homem Sem Gravidade, escreveu um livro 5 anos mais tarde intitulado A Perversão Comum – viver juntos sem outro. Neste livro, Lebrun retoma algumas discussões realizadas junto com Melman nas entrevistas, porém detendo-se mais na questão da perversão na contemporaneidade. Lebrun avança também em relação a outras questões contemporâneas que se apresentam e pensa-as através da psicanálise.

Em A perversão comum, Lebrun (2008) fala sobre uma mutação do laço social, e utiliza o termo neo-sujeito para caracterizar o sujeito nessa nova economia psíquica. Ele aborda também essa questão sobre estarmos vivendo numa espécie de infância generalizada. Para ele, há uma deslegitimação de quem é normalmente encarregado de fazer a criança crescer, e isso deixa o sujeito de hoje totalmente abandonado a si mesmo, com a possibilidade de – talvez até um convite a – não ter de crescer. É como se o sujeito não estivesse mais obrigado à reorganização de suas pulsões.

Por não estar mais obrigado a renúncias por seus primeiros outros, ele está naturalmente convidado a manter seu funcionamento auto-erótico [...] É com os efeitos de um duplo desmentido [...] que estamos às voltas aqui. Pois são tanto os pais – confortados pelo discurso social atual – quanto a criança que

sabem bem que sempre há uma perda a ser inscrita mas que mesmo assim

fazem como se não fosse nada” (LEBRUN, 2008, pp. 233-234).

Voltando a O homem sem gravidade, Lebrun inicia uma discussão interessante acerca dessa relação com o infantil do sujeito. Ele diz que, como analista, pensa-se sempre que é importante, para que uma intervenção seja útil na clínica, alcançar a neurose infantil do sujeito. Para ele, poder-se-ia pensar que, hoje, seria preciso tentar alcançar a perversão infantil do sujeito, o que Freud chamava a perversão polimorfa, isto é, o que persiste dessa criança generalizada. Ele evoca alguns pacientes nos quais nada parece ter sido construído, como se se permanecesse aquém de uma estruturação do sujeito.

Ele então se pergunta se os chamados estados-limites não poderiam ser revistos nesse sentido, já que se constata nesses sujeitos uma espécie de ausência de estruturação. Melman (2008a) concorda, complementando que sempre reencontraremos na infância um duplo dispositivo possível: neurose infantil e perversão infantil. E diz que nos nossos dias veremos essa última vertente frequentemente tomar a dianteira, justamente com a consequência da multiplicação dos borderlines, dos estados-limites.