• No results found

Melman retoma o tema da citação de Tocqueville, posta na epígrafe, que se refere aos “perigos a que a igualdade expõe a independência humana” (Grifo nosso). Ele diz que “estamos nos dias de hoje tomados por uma grande aspiração a esse nobre ideal: a igualdade, que já Tocqueville denunciava. Ora, como todos os clínicos sabem, a igualdade numa relação, seja ela de amizade, sexual, profissional, nunca pode ser operatória” (MELMAN, 2008a, p. 43). Para falar dessa igualdade, Melman menciona uma “denúncia de todas as assimetrias em proveito de uma espécie de igualitarismo que, evidentemente, é a imagem mesma da morte, quer dizer, da entropia enfim realizada, da imobilidade” (Ibid, p. 35, grifos nossos).

É seguindo essa lógica da defesa de uma igualdade generalizada, uma recusa das assimetrias, que Melman fala sobre o que considera uma das grandes características da nova economia psíquica: a ideia de que todos os gozos são legítimos. Percebemos que muitas vezes se confundem a igualdade de direitos com uma igualdade no sentido de semelhança, de que não haja variação, ou diversidade. É como se diferenciar fosse necessariamente discriminar, no sentido de rejeitar. Tratar diferentes como iguais é também uma forma de violência, assim como um traço que pertence ao campo da perversão. Na perversão nega-se a diferença dos

sexos e recusa-se a falta, a castração na mulher, o “defeito”, que para o perverso precisa ser constantemente tamponado. Esse é um mecanismo que percebemos nessa característica contemporânea apontada por Melman, sobre a denúncia das assimetrias.

Essa denúncia de assimetrias remete-nos a uma dessubjetivação da cultura, tema abordado no livro/filme Clube da Luta. A história foi escrita por Chuck Palahniuk, que lançou o livro em 1996, tendo este sido adaptado para o cinema em 1999, com David Fincher como diretor e Jim Uhls como roteirista. Clube da Luta conta a historia de um homem que, após consultar um médico com a queixa de que está sofrendo muito com uma insônia constante, decide seguir a recomendação de visitar um grupo de apoio para homens com câncer de testículo para que ele veja, assim, o que é sofrimento. Após o primeiro contato com o grupo, ele consegue dormir bem e, diante disso, acaba ficando “viciado” em grupos de apoio diversos. Posteriormente, numa viagem de avião, ele conhece Tyler Durden, fabricante e vendedor de sabonetes que o intriga desde o início. Após um encontro num bar, os dois iniciam – voluntariamente – uma luta corporal que, posteriormente, toma a forma de Clubes da Luta.

Dentre as muitas leituras possíveis que podemos fazer sobre a obra Clube da Luta, uma delas é sobre a crítica em relação à cultura de consumo e as implicações subjetivas que advém dela. Tyler Durden é o personagem que denuncia esse esvaziamento subjetivo, frisando que a nossa maneira de consumir acaba nos igualando, transformando-nos em nada mais do que consumidores. Essa denúncia de todas as assimetrias que Melman sublinha, encontra semelhança com algumas frases marcantes tanto do filme quanto do livro Clube da Luta. Para Tyler Durden, somos sujeitos universalizados, em série. No filme, Tyler fala para seus “discípulos” sobre a generalização da modernidade, denunciando-a para eles: “Você não é um floco de neve bonito e único. Você é a mesma matéria orgânica decadente que todo o resto, e somos todos partes do mesmo composto”, e, no livro, ele fala da dessubjetivação que verificamos hoje: “Nossa cultura nos transformou todos na mesma coisa. Ninguém é mais verdadeiramente branco ou negro ou rico. Nós todos queremos as mesmas coisas. Individualmente, nós não somos nada” (PALAHNIUK, 1996, p.126).

Na entrevista à ISTOÉ, a entrevistadora pergunta a Melman se isso pode ser um dos resultados da globalização. Ele responde: “Sim. Fui há alguns dias ao Chile, no deserto de São Pedro de Atacama. Lá há um oásis com três a quatro mil pessoas, a maioria de jovens originados do povo inca, que habitava a região. Pelo que se interessam esses jovens de origem indígena, no fundo do deserto? Pelos mesmos objetos de consumo oferecidos em Xangai, no

Rio de Janeiro e em Paris. O que vale sua cultura de origem em relação a esse culto de objetos? Nada”.

Trabalhamos com uma metodologia de pesquisa segundo a qual tomamos os sentidos dos textos como sendo produzidos no próprio ato da leitura, ou seja, não há algo “pronto” a ser desvendado. Assim, os sentidos são construídos no movimento, na ação dialógica que orienta a nossa leitura. Percebemos que, em determinado momento do Homem sem gravidade, Melman responde a uma pergunta de Lebrun partindo de uma posição que está de acordo, de forma análoga, com a perspectiva de leitura com a qual estamos trabalhando. Lebrun questiona Melman sobre o que a psicanálise poderia fazer em relação às mudanças decorrentes do progresso a que eles se referem.

Melman responde que a psicanálise não pode fazer nada, ao menos não diretamente. “Além disso, a psicanálise até mesmo contribuiu para esse estado de fato, por sua difusão no meio social. Houve uma interpretação da psicanálise freudiana que conduziu a essa situação, lhe serviu de ideologia” (MELMAN, 2008a, p. 37). Interessante Melman introduzir esta questão, pois sabemos que muitos aspectos que são “descobertos” e “explicados” pelas ciências – pela psicologia e pela psicanálise, no nosso caso – são discursos que são também produzidos por estas. São patologias produzidas, problemas (e soluções) produzidos. Assim como a nossa relação com os textos, não tomamos a psicologia e a psicanálise como ciências que irão desvendar ou explicar algo que “já está aí” no mundo, algo concreto, que existe, que está dado ou posto.

Mais adiante no livro, Melman detalha melhor o que seria a contribuição da psicanálise – ou pelo menos de uma interpretação da psicanálise – para o “estado de fato”, ou o estado atual das coisas. Ele diz que se refere à “difusão do ideal de Freud, isto é, que o ‘mal- estar na civilização’ está ligado ao caráter excessivo das restrições morais tal como ela as impõe” (Ibid, p. 37). Sabemos que, para Freud, o mal-estar na cultura estava ligado à repressão excessiva que ela exercia sobre as pulsões sexuais. Assim, seguindo uma lógica dedutiva, poder-se-ia pensar que a suspensão do recalque e a expressão dos desejos (aspectos que verificamos hoje) poderiam ter curado esse mal-estar. No entanto, no que poderia parecer simples, Melman aponta aí um problema: “A partir do momento em que a moral sexual é atenuada, cada um pode estar bem melhor em seu mundo. O que, ao mesmo tempo, o torna sem interesse!” (MELMAN, 2008a, p. 37).

Melman fala então de uma inversão em relação ao que era o elemento mais fundante da realidade: a falta. Costumava ser a falta, a decepção, que davam um assento ao sentimento de realidade. Ele diz que a decepção, hoje, é o dolo, e assim:

[...] o que se tornou virtual foi a realidade, a partir do momento em que é insatisfatória. O que fundava a realidade, sua marca, é que ela era insatisfatória e, então, sempre representativa da falta que a fundava como realidade. Essa falta é, doravante, relegada a puro acidente, a uma insuficiência momentânea, circunstancial, e é a imagem perfeita, outrora ideal, que se tornou realidade (Ibid, p. 37).

De acordo com a ideia de Melman, a falta (a decepção) que fundava a realidade pode, hoje, ser tamponada com o virtual. Vivemos um momento de hiper-realidade, como por exemplo, os citados cinemas 6D, essas novas tecnologias que parecem ser mais reais do que a própria realidade e que, no entanto, são virtuais. Nesse sentido, podemos pensar na indústria farmacêutica que, além de produzir medicamentos para curar, tratar – ou seja, para lidar com uma falta, um defeito, uma decepção em relação a nossa saúde – produz hoje medicamentos também para pessoas saudáveis. Ou melhor, pessoas que seriam consideradas saudáveis tempos atrás.

Cada vez mais temos medicamentos para acentuar, melhorar as performances, como, por exemplo, aumentar a concentração, a disposição, etc. Ou seja, não há problema exatamente, mas pensa-se que sempre tem como esticar um pouco o limite, ficar melhor, ficar hiper-real. No inglês usa-se para isso a expressão “to give a boost”, que significa “dar um empurrão”, levantar, estimular, “bombear”.

Provavelmente com este termo (boost) em mente, e relacionando-o com os avanços tecnológicos contemporâneos, Chuck Palahniuk escreveu um livro de ficção científica intitulado Rant: an oral biography of Buster Casey (2007, sem tradução para o português), no qual inventou o termo boosted peaks, que não possui um equivalente em português, mas poderia ser traduzido em algo como “picos de estímulo”, um “ponto máximo de estimulação, impulso”, “pico impulsionado”. O personagem do livro descreve boosted peaks como a forma de entretenimento adotada no futuro, tornando livros e filmes obsoletos. No futuro, são implantados nos seres humanos um interruptor na parte de trás do pescoço, que lhes permite gravar as suas experiências, com todos os cinco sentidos incluídos (uma espécie de

“transcrição neural”), e depois vendê-las para lojas onde podem, posteriormente, ser alugadas e experienciadas por outras pessoas.

Esses boosted peaks são registros do arquivo de transcrição neural que alguém coletou enquanto saltava com um paraquedas, vencia campeonatos, passeava de carroça, passava o Natal com a família, vivenciava acidentes de carro, conhecia pessoas, etc. Tudo gravado, registrado, e passível de ser experienciado por outras pessoas. Em vez de assistir a um filme, a pessoa vive um filme. Há também outras formas de manipular as transcrições neurais, tais como ingerir ácido enquanto experimenta uma delas, e então regravá-la através da própria experiência (PALAHNIUK, 2007). É como uma experiência por cima da outra, e por cima da próxima, etc. Ou seja, são experiências sem limites, e polimorfas.

Se vemos esse tipo de ideia na ficção, podemos esperar que num futuro próximo talvez tenhamos acesso a tipos de experiência e de instrumentos que nem imaginamos (hoje) serem possíveis além da ficção. Trata-se de tornar a realidade mais interessante que a própria realidade, a prevalência do virtual, mas que é sentido como real. No livro de Palahniuk, o protagonista fala: “Não é a toa que o mundo real não chega nem aos pés de uma experiência boosted” (PALAHNIUK, 2007, p.117).

Conforme expusemos anteriormente, para Melman, hoje a questão é exibir. Ele diz que o que se chama de gosto pela proximidade vai tão longe que é preciso exibir as tripas, e o interior das tripas, e até o interior do interior. Não haveria mais limite algum à exigência de transparência. Nesse sentido, ao mesmo tempo em que temos televisões com tecnologia de alta definição (HD) – que mostram com detalhes o rosto dos atores – em outro ponto do espectro, temos a tecnologia cada vez mais desenvolvida dos photoshops, que “dão um boost” na aparência, tornando rostos tão distantes da realidade, porém com cada vez mais cara de real. As cirurgias plásticas – ou seja, algo produzido, artificial – ganham também cada vez mais cara de natural. É inclusive um elogio quando alguém faz uma cirurgia plástica e as pessoas comentam “ficou ótima, muito natural”.