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Em A Vida do Espírito, Arendt parte da descoberta de Adolf Portmann113, a respeito do impulso para auto-exposição que os seres vivos possuem, para afirmar que esse fenômeno também está presente na espécie humana, ou seja, que a auto-exposição é algo comum aos homens, animais e plantas. Desse modo, assim como tudo aquilo que pode ser visto, tocado, ouvido é feito para tal,

112 ARENDT, H. Lições sobre a Filosofia Política de Kant, pg. 20.

113 Adolf Portmann (1897-1982), nascido em Basel, na Suíça, estudou zoologia na Universidade de Basel

e trabalhou depois em Genebra, Munique, Paris e Berlim, dedicando-se a laboratórios de biologia marinha em ilhas francesas. Suas principais áreas de pesquisa abrangiam biologia marinha e morfologia comparativa de vertebrados. Seu trabalho era freqüentemente interdisciplinar, já que continha também aspectos filosóficos e sociológicos da vida dos animais e dos seres humanos.

também o homem possui esse mesmo impulso para mostrar-se, para aparecer no mundo. Arendt exemplifica esse fenômeno referindo-se à fala, que é própria para ser ouvida tanto quanto as palavras, compreendidas, justamente para aqueles que também falam, assim como somente aquele que possui o sentido da visão é capaz de ver e de ser visto114.

Este aparecer para ser visto pode ser inclusive um critério para se distinguir aquilo que é vivo do que não é, como Arendt nos mostra:

“estar vivo significa ser possuído por um impulso de auto-exposição que responde à própria qualidade de aparecer de cada um”115.

Embora o impulso para auto-exposição não dependa da vontade do homem para acontecer, este depende de condições para se mostrar. É que os vivos aparecem no mundo tais como os atores chegam em um palco montado para uma peça que eles irão encenar, e encenam para alguém assisti-los. Portanto, para o homem, onde nascer é o mesmo que aparecer, este aparecer só tem sentido se for para alguém. Significa dizer que nada do que existe se dá no singular, pois só existe porque aparece para alguém. Precisa aparecer para alguém para que seja conferida a legitimação, confirmação de sua existência. O homem sozinho não tem condições de oferecer essa certeza para si mesmo, a não ser quando rompe com o senso de realidade, senso comum. Sendo assim, a auto-exposição, esse aparecer espontâneo de que toda criatura humana é dotada, tem vários modos de se expressar, revelando um quem específico que cada um é. E mesmo quando alguém escolhe se esconder, é também este um modo da auto-exposição, ou seja, se auto-expõe ao modo da ocultação, o que equivale dizer que não há como esse impulso não estar presente naquele que está vivo.

Arendt compara a dificuldade que os órgãos internos têm para mostrarem-se (só o fazem através de sintomas), com a que as emoções apresentam para fazerem parte do mundo das aparências, pois os sentimentos

114 ARENDT, H. A Vida do Espírito, pg. 26.

carecem de visibilidade116. Quanto ao pensamento, a invisibilidade é maior

ainda, devido à não existência de sensações corpóreas que sejam correspondentes às atividades espirituais, como confirma Arendt: “o que fica manifesto quando falamos de experiências psíquicas nunca é a própria experiência, mas o que pensamos dela quando sobre ela refletimos”.117 A auto-

exposição, então, irá se referir aos sinais físicos, que são dotados de visibilidade. É pelo impulso da auto-exposição que as criaturas vivas mostram as características que possuem. Mas o homem não é restrito a essa única via de revelação de si mesmo. Para Arendt, além deste impulso, os homens têm a capacidade de agir e falar, o que faz com que tenham a liberdade de poder escolher como querem aparecer no mundo; a este aparecer, que implica em escolher de modo ativo e consciente o que será mostrado, Arendt denomina de auto-apresentação. Como exemplo, Arendt se refere à raiva118, cuja demonstração já implica numa decisão de como ela deve aparecer, ou seja, diferentemente da auto-exposição, na auto-apresentação, o homem pode decidir como quer ser visto.

Este modo de revelação só pode se dar nos seres humanos à medida que necessita que haja algum grau de autoconsciência que só a reflexão, pertencente às atividades do pensamento, pode oferecer. Naqueles que têm essa faculdade comprometida, tais como os doentes mentais, paralíticos cerebrais, a apresentação restringe-se aos limites corporais, como afirma a autora:

“uma criatura privada de espírito não pode viver nada semelhante a uma experiência de identidade pessoal, ela fica completamente à mercê de seu processo vital interno, de seus humores e emoções, cuja mudança contínua não é de modo algum diferente das contínuas transformações dos órgãos corporais”119

115

ARENDT, H. A Vida do Espírito, pg. 18.

116 ARENDT, H. A Vida do Espírito, pg. 26. 117 ARENDT, H. A Vida do Espírito, pg. 26. 118 ARENDT, H. A Vida do Espírito, pg. 28. 119 ARENDT, H. A Vida do Espírito, pg. 27.

Retomando sobre o modo como o homem quer aparecer, Arendt acrescenta uma importante ênfase, a de que “até certo ponto podemos escolher como aparecer para os outros”120 (grifo da autora). O “até certo ponto” parece

indicar um limite desta deliberação. É que a escolha do que será mostrado é composta de vários fatores, os quais na maioria das vezes não são possíveis de serem determinados. Arendt cita alguns exemplos de fatores que compõem uma escolha121, como a cultura que impele o homem a fazer escolhas para agradar aos outros e assim ganhar maior aceitação de seus pares, ou a escolha pode ser devida ao desejo de agradar a si mesmo e por último, a escolha pode se dar pela vontade de persuadir os outros a sentir prazer com aquilo que considera ser prazer para si mesmo. Significa dizer que escolher não é algo pensado previamente antes de uma apresentação propriamente dita. O homem está sempre se auto-apresentando, cambiando aparências, e na maior parte das vezes sem se dar conta de qual imagem apresenta para os outros. O homem pode, retrospectivamente, refletir sobre as imagens que mostra, cabendo a si modificá-las ou mantê-las, mas seria impossível passar o tempo todo decidindo racionalmente qual imagem utilizar para apresentar-se a si mesmo e aos outros. Mas de um modo geral, independentemente do que leva o homem a escolher um determinado modo de aparecer no mundo, o sucesso ou fracasso dessa aparência, ou seja, o quanto o homem pode sustentar essa aparência, será diretamente proporcional à presença da consistência e duração dessa determinada imagem escolhida. Esses dois critérios guardam íntima relação com a verdade, pois tanto a hipocrisia quanto o fingimento não conseguem manter presentes esses critérios, como nos mostra Arendt:

“a única forma de diferenciar fingimento e simulação da realidade e verdade, é a incapacidade que os primeiros desses elementos têm para perdurar, guardando consistência”122

O homem está sempre realizando uma escolha de conduta dentre as várias que aparecem para tomar como sendo sua. Como já foi visto, essas

120 ARENDT, H. A Vida do Espírito, pg. 28. 121 ARENDT, H. A Vida do Espírito, pg. 29. 122 ARENDT, H. A Vida do Espírito, pg. 30.

possibilidades de escolhas advêm da cultura, de si mesmo, do ambiente, enfim, não se originam de uma decisão meramente racional; mas, o fato é de que desse conjunto de atos, provenientes dessas escolhas sucessivas que surge o que comumente se denomina de caráter ou personalidade, que Arendt define como sendo:

“o conglomerado de um número de qualidades identificáveis, reunidas em um identificável todo compreensível e confiável, e que estão, por assim dizer, impressas em um substrato imutável de talentos e defeitos peculiares à nossa estrutura psíquica e corporal”123

Esse conjunto de características escolhidas conserva uma certa permanência, não no sentido de estrutura ou essência, mas através da confirmação constante que o homem faz das mesmas escolhas que compõem sua aparência. E é esta que configura seu papel no mundo. Arendt adverte quanto ao mau entendimento dessa concepção, que seria tomar o homem como um ser que cria a si mesmo, como se essas escolhas se dessem a partir de si. Isso seria equiparar a auto-apresentação à auto-exposição, que sem dúvida não podem representar a mesma coisa. Seria condicionar a experiência humana às mesmas condições que os seres da natureza apresentam. Além disso, essa concepção retira do homem a liberdade que lhe é própria, e que só pode se dar numa existência que está sempre em jogo no mundo, portanto jamais determinada.

Se o homem não é o autor de sua história pessoal, nem decide racionalmente como se auto-apresentar para si e para os outros, parece paradoxal a afirmação filosófica de que o homem é um ser dotado de liberdade. Para esclarecermos então essa aparente contradição, o próximo item irá tratar da faculdade da vontade, devido ao entendimento comum de que ser livre é realizar o que se tem vontade, e à importância de sua participação na construção das histórias pessoais.

III.5 – A FACULDADE DA VONTADE NA CONSTRUÇÃO DA HISTÓRIA